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4 de jul. de 2011
Baby Jane
Nos tempos dourados do cinema, valia muito mais talento do que a capacidade de gerar factóides ou emprestar seu nome à máquina de celebridades. Havia mais glamour, classe e menos interesse em auto-promoção, creio eu.
Claro, os estúdios ganhavam rios de grana com seus medalhões e liberdade de escolha era coisa quase proibida ou reservada aos poucos que haviam atingido o status de lendas vivas e podiam então peitar os senhores de Hollywood. Hoje, as estrelas podem ter mais liberdade e escolher fazer filmes que os estúdios, de certo, torcem o nariz mas o preço pago é o da 'celebrização', culto da personalidade e marketing pessoal deixando as estrelas mais no campo do quanto aparecem nas mídias do que em referência a seu talento efetivo.
Penso que dois exemplares desses monstros sagrados são Joan Crawford e Bette Davis, telentosíssimas, despirocadas, insanas, divas e deusas. Em 'O que teria acontecido a Baby Jane?' ('Whatever happened to Baby Jane', 1962, Robert Aldrich), essas duas lendas do cinema finalmente estão juntas em cena.
Sinopse: Baby Jane Hudson (BD) é uma criança prodígio, canta, dança e é a paixão da mídia. Os pais são todos atenção à 'galinha dos ovos de ouro' enquanto a irmã, Blanche (JC) é deixada de lado, ciumenta e invejosa de Jane que tem todos os caprichos, por mais estapafúrdios que sejam, atendidos pelos pais e quem lhe cerca tonando-a uma criança mimada e intempestiva.
O tempo dá um salto e agora Blanche é uma atriz consagrada, respeitada e rumo ao Oscar equanto a irmã caiu no esquecimento e ostracismo, enveredando pelo alcoolismo, numa clara inversão de papéis. Uma noite, após uma festa, uma das irmãs joga o carro em cima da outra num claro rompante de inveja pura, não fica claro qual delas está ao volante.
O restante do filme é a luta entre Blanche (numa cadeira de rodas) e Jane (velha, amarga, bêbada e ainda ressentida do sucesso que lhe foi 'roubado') presas na mesma casa, trocando acusações veladas e num jogo de culpa sinistro, pérfido e altamente psicológico.
Jane acredita que com sua irmã 'fora', ela pode voltar ao estrelato mesmo que, já de idade avançada, ainda se vista como a criança prodígio que todos, um dia, queriam. Sua culpa por ter aleijado a irmã torna-se raiva por estar agora presa a ela que depende da irmã para tudo. Assim, Jane não poupa esforços para martirizar e torturar a irmã que julga ser culpada por tudo que lhe aconteceu.
Não vou contar o final pois seria estragar o prazer de assistir ao filme mas, se você preza grandes atuações, roteiro bem amarrado e escrito, uma direção impecável, assista o quanto antes, é um dos melhores filmes já feitos sem duvida algum. Deixe de lado o preconceito com filmes antigos e alugue ou baixe agora!
Curiosidades:
- O filho da vizinha é interpretado pelo filho de Bette Davis
- As duas não se davam e o clima no set era péssimo, reza a lenda que as cenas em que as duas contracenavam, demoravam dias para serem filmadas pois as duas insistiam em por defeitos ou sabotar a cena para foder com a outra
- Joan Crawford colocou pesos nos bolsos para que Davis, nas cenas em que era preciso carrega-la ou arrasta-la, sofresse ainda mais o que rendeu a Davis uma dor permanente nas costas
- Davis, em uma das cenas, chutou mesmo Joan na cabeça e esta levou alguns pontos
- Crawford propositadamente trocava as falas para confundir Davis
- Davis sempre se atrasava para o set, Joan era extremamente pontual, para deixar a rival ensandecida de raiva
- Joan ficou puta por não ter sido indicada ao Oscar pelo filme quando Davis o foi. Ficou tão puta que ligou para todas as atrizes indicadas oferecendo-se para receber o prêmio caso uma delas não pudesse comparecer à cerimônia. No dia, Anne Bancroft ganhou e não pode ir, Joan passou por Davis, para receber em nome da 'colega' e disse 'Sai da frente!'
- Há um 'remake' de 1991 com Vanessa e Lynn Redgrave mas não sei se é bom, assim, vá assistir ao original!
24 de mar. de 2011
oh, martha!
Foi minha mãe que me levou para o mundo do cinema, era apaixonada pelos filmes e pelos grades astros e estrelas da época de ouro de Hollywood ainda que, quando começou a me levar às salas de cinema, esse período já houvesse há muito findado.
Porém, nessa mesma época, a Sessão da Tarde era um baú de tesouros não a pasmaceira que é hoje e clássicos como 'Quo Vadis', 'Scaramouche', 'Moby Dick' entre outros eram constantes e, juntamente com tantos outros formaram meu gosto pelos grandes clássicos (filmes e atores/atrizes) aliado, claro, ao fato de eu ser gay, oras!
O preimeiro filme com Liz que assisti foi, se não me engano, 'Assim caminha a humanidade', sua beleza era única e, penso eu, acabou ofuscando junto com sua vida atribulada, seu talento que era sim, imenso. Acho que sua performance mais marcante foi neste filme aqui:
Um drama pesado, carregado e com interpretações foda de Taylor (ganhou um Oscar por sua atuação) e Burton. Reza a lenda que o clima tenso entre George e Martha nem precisou de ensaio pois os dois usaram sua relação complicadíssima (tiveram várias idas e vindas mas Taylor confessou, quando Burton morreu, que ele foi seu único e grande amor) como base para as rusgas de casal do filme.
Poucos filmes, em minha opinião, fizeram um tratado tão profundo sobre relacionamentos falidos, frustrações, mágoas, raiva, medo e ainda assim, amor no meio de tudo isso. Um dos melhores filmes que já assisti.
Agora ela se foi e, infelizmente, não há outra que possa preencher essa vaga. Não quero ser o chato saudosista mas, porque me parece que nessa época as coisas tinham mais graça e glamour?
8 de fev. de 2011
rosebud
nota: ando bem ocupado com meus contos, preparando tudo para enviar as editoras por isso ando sumido mas, sempre que possível, darei as caras como hoje.
'Cidadão Kane' (1941) é considerado por muitos (eu incluso) um dos melhores filmes já feitos. Quem está na minha faixa etária de certo já assitiu e se não o fez deve fazê-lo e depois voltar aqui e ler o resto. Os mais novos que ainda não viram devem fazer o mesmo pois é imprescindível vê-lo se você gosta mesmo de filmes.
'Cidadão Kane' (1941) é considerado por muitos (eu incluso) um dos melhores filmes já feitos. Quem está na minha faixa etária de certo já assitiu e se não o fez deve fazê-lo e depois voltar aqui e ler o resto. Os mais novos que ainda não viram devem fazer o mesmo pois é imprescindível vê-lo se você gosta mesmo de filmes.
Porque ver? Várias razões, algumas delas:
1. Orson Welles, em glória no rádio e na Broadway em Nova Iorque foi cortejado por Hollywood em 1939 logo após sua locução para o clássico de H.G.Wells 'A Guerra dos Mundos' que causou um pânico generalizado na população a qual realmente acreditou que marcianos invadiam a Terra.
Incrivelmente para a época em que os grandes estúdios eram amos e senhores de tudo e todos na industria do cinema, Welles conseguiu um contrato para dois filmes com total liberdade e controle criativos inclusa a opção do 'final cut' (versão do diretor e não a que o estúdio entende como comercialmente correta).
2. O roteiro é inspirado na vida de William Randolph Hearst, barão da mídia impressa americana do início do século XX e também possui pitadas autobiográficas de Welles ainda que este nunca tenha admitido o fato.
O filme narra vida de Charles Foster Kane (Orson Welles), magnata dos jornais americanos, através de depoimentos de pessoas próximas a ele dados a um jornalista que busca o significado de 'Rosebud', as últimas palavras proferidas por Kane em seu leito de morte. Através desses depoimentos, surge a figura de um homem complexo, sedento de poder, egocêntrico e megalomaníaco mas, ao mesmo tempo, frágil, carente e em busca de uma felicidade há muito perdida e que julga ser possível reconquistar através do dinheiro, influência e manipulação de pessoas sejam elas amigos ou amores (quem ou o quê é 'Rosebud'? Assista e tire suas conclusões).
O filme narra vida de Charles Foster Kane (Orson Welles), magnata dos jornais americanos, através de depoimentos de pessoas próximas a ele dados a um jornalista que busca o significado de 'Rosebud', as últimas palavras proferidas por Kane em seu leito de morte. Através desses depoimentos, surge a figura de um homem complexo, sedento de poder, egocêntrico e megalomaníaco mas, ao mesmo tempo, frágil, carente e em busca de uma felicidade há muito perdida e que julga ser possível reconquistar através do dinheiro, influência e manipulação de pessoas sejam elas amigos ou amores (quem ou o quê é 'Rosebud'? Assista e tire suas conclusões).
Reza a lenda que Hearst teve acesso ao roteiro através do sobrinho de sua amante vendo sua vida exposta começou uma campanha através de seus jornais contra Welles e o filme inclusive boicotando a indústria caso o filme visse a luz do dia.
Ainda que seu poder não fosse mais, à época da realização do filme, tão extenso, ainda era considerável em Hollywood e 'Cidadão Kane' chegou realmente a beira da destruição e sua data de lançamento era postergada indefinidamente vide o medo que Hearst infligia nos cartolas do cinema.
Porém, em uma exibição fechada em NY, um Welles inflamado convenceu os executivos a lançar o filme além de uma leve ameaça de processá-los por cercear a liberdade de expressão tão laureada pela carta magna do país. Assim 'Cidadão Kane' foi lançado finalmente em 06/05/1941 em NY e em 08/05/1941 em Los Angeles.
Infelizmente, a polêmica do filme trabalhou contra Welles e muitos cinemas se recusaram a exibir o filme. 'Cidadão Kane' foi recolhido após algumas semana de exibição mal se pagando porém, a crítica louvou o filme e ele recebeu nove indicações ao Oscar levando apenas a de roteiro num claro reflexo de que Hearst ainda dava as cartas.
Depois de 'Kane', Welles não conseguiu mais emplacar nenhum filme do mesmo nível ainda que tenha produzido muito entre filmes bons e realmente ruins. Nos seus anos finais (1970-85) ele fazia pontas por dinheiro, comerciais e dirigia qualquer coisa desde que fosse pago mas seu temperamento difícil era sempre obstáculo para qualquer trabalho que fizesse.
Morreu em 1985 de ataque cardíaco e deixando uma série de projetos inacabados.
3. 'Cidadão Kane' inovou várias áreas do cinema. Rompeu a narrativa linear contando em flashback a estória toda e não do ponto de vista de um mas de vários narradores. Usou truques de cena para representar a passagen de tempo sem que isso afetasse o entendimento da trama, usou novas técnicas de filmagem com ângulos pouco usados e efeitos especiais pioneiros para a época.
Há quem diga que o filme estava, no mínimo, quarenta anos a frente de seu tempo e diretores renomados da atulidade (Martin Scorsese, Ridley Scott, Francis Ford Coppola, Brian De Palma) o tem como um de seus filmes favoritos e influência/inspiração.
19 de jan. de 2011
blade runner
O filme é de 1982 e tem a direção de Ridley Scott.
Na época, Scott acabara de dirigir 'Alien' (1979 e eu vi no cinema, tá?) e saíra frustrado da tentativa de adaptação de 'Duna' (que depois seria levado às telas 1981 por David Lynch). Como ainda estava (depois de ver 'Star Wars') enamorado de filmes com efeitos especiais em grande escala, aceitou dirigir a adaptação do livro de Philip K. Dick 'Do androids dream of electric sheep?' que é a origem do filme, obviamente.
Philip K. Dick por sua vez, já negara outros pedidos de Hollywood para adaptar seus livros inclusive este que fora roteirizado anteriormente mas em versões que desgostaram PKD nutrindo ainda mais seu desalento para com a indústria do cinema. Segundo PKD, até mesmo Scorsese teve interesse em filmá-lo mas, por razões desconhecidas, nunca avançou com o projeto.
Quando Scott assumiu o comando, o orçamento para o filme aumentou e o roteiro for reescrito e desta vez, PKD aprovou, pouco antes de morrer, o novo roteiro assim como os testes dos efeitos especiais que lhe foram enviados em video sendo que confessou a Scott que ele havia capturado a essência de seu universo e como ele o havia imaginado.
A seleção de elenco foi árdua e nomes pesados como Jack Nicholon e Paul Newman eram cotados para o papel principal mas Harrison Ford levou o papel devido à sua participação em 'Star Wars' e recomendação de Spielberg que acabara de fazer com ele 'Caçadores da Arca Perdida'.
Reza a lenda que, meses antes da estréia, o estúdio não estava satisfeito com a versão do filme e que a versão que foi usada no fim é renegada por Scott pois foi montada pelo estúdio (contra sua vontade) temeroso de que o tom mais autoral não agradasse as platéias. Somente em 2007 Scott, no 25º aniversário do filme, soltou a versão final do diretor acompanhada pelas outras seis versões do filme incluindo a da estréia com a narração em 'off' e final idílico rejeitados pelo diretor. Segundo Scott, esse é a versão definitiva do filme.
Blade Runner já é considerado um clássico moderno e um cult movie. Sua ambientação futurista-retrô, seu tom de filme noir além das questões sobre manipulação genética, criação, religião, meio ambiente, futuro apocalíptico, garantem ao filme um status de obra-prima ainda que seja bem diferente do romance que lhe deu origem em um dos poucos casos onde o filme é muito melhor que o livro, em minha opinião.
Um filme é bom quando você o assiste vezes seguidas, ano após ano e ele continua sendo atual e lhe dando novas possibilidade de interpretação ou nova luz sobre assuntos vigentes. Blade Runner faz isso sempre.
Na trama, a terra está um caco e quem pode, muda-se para as colônias distantes. Nesses lugares, para o trabalho duro ou perigoso, existem andróides (Nexus 6) que são a exata semelhança de humanos adultos. Criados pela 'Tyrell Corp', é praticamente impossível distinguí-los dos humanos, os andróides são chamados de 'replicantes'.
Na Terra, os 'replicantes' são proibidos e quando quatro deles voltam para a casa, Deckard, um policial 'aposentado' é forçado a caçá-los. Os replicantes por sua vez voltam para tentar descobrir, junto ao criador (o homem, mais especificamente o dono da 'Tyrell Corp'), porque este os fez com data de validade pois os replicantes duram apenas quatro anos, um mecanismo de segurança implantado nos 'replicantes' fins de evitar que desenvolvam emoções e se rebelem.
Durante a caçada, Deckard descobre Rachel (Sean Young diva!) um novo tipo de replicante e chega mesmo a ter dúvidas se ele mesmo não é um deles. Os replicantes, numa evidente alegoria criador/criatura, demandam de seu criador mais tempo e porque foram feitos assim revoltando-se quando o criador não pode fazer nada a não ser aconselhar que vivam bem i tempo que tem.
Não vou contar o fina pois é uma das cenas mais belas da história do cinema. O filme toca questões como o que faz de um ser humano, um ser humano? O que é vida? E vida inteligente, o que é? Além de questões como morte e qual o propósito de tudo isso se no final tudo se perderá como lágrimas na chuva.
Assista hoje, agora, sempre.
nota 1: esse filme merece ser visto ORIGINAL e, se possível, numa dessas tvs HD e Bluray.
nota 2: a trilha sonora foi composta por Vangelis e é um primor! Só o tema romântico você já deve ter ouvido uma centena de vezes nos motéis ou nesses programas de rádio da alta madrugada e com locutores de voz aveludada (se é que isso ainda existe).
Esqueça isso por um momento e deleite-se na música que é simplesmente divina:
nota 1: esse filme merece ser visto ORIGINAL e, se possível, numa dessas tvs HD e Bluray.
nota 2: a trilha sonora foi composta por Vangelis e é um primor! Só o tema romântico você já deve ter ouvido uma centena de vezes nos motéis ou nesses programas de rádio da alta madrugada e com locutores de voz aveludada (se é que isso ainda existe).
Esqueça isso por um momento e deleite-se na música que é simplesmente divina:
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