Mostrando postagens com marcador vida. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador vida. Mostrar todas as postagens

21 de jul. de 2020

a vida como um instantâneo

Este sou eu e eu lembro de quase tudo.

Se a vida fosse uma URL, ao digitar na barra, onde ela nos levaria? Somos apenas álbuns de fotos tiradas em filme e o tempo vai, aos poucos, comendo as cores pelas beiradas deixando tudo em escalas de cinza até que, finalmente um dia, haverá a ausência total de cor.

Nossas mentes são seletivas e talvez isso seja bom pois o acúmulo dos anos traria a insanidade devido ao tanto de lembranças, mesmo as mais ínfimas. que carregariamos dentro de nós. Mesmo assim, um aroma, um gosto, um lugar, uma frase, coisas assim meio sem sentido são plenamente capazes de nos remeter a tempos passados e, por vezes, trazer aos olhos lágrimas mostrando que esse acúmulo é histórico e só não é histérico porque, inconscientemente, armazenamos tudo que nos chega pelos cinco sentidos (e fora deles) guardando, como disse, selecionando, apenas o que realmente deve ser guardado para acesso imediato quando preciso.

Olhe para trás e tente imaginar quantos caminhos não foram trilhados, quantas escolhas foram feitas e quantas não foram, como poderia ser cada momento que foi/não foi realizado, provado. Talvez o resultado final acabe sendo sempre o mesmo ainda que outras realidades resultantes de outros passos dados pudessem trazer outros cenários.

Ver minha vida como resultado da de outros; as nossas vidas não são, na verdade, nossas, eram de nossos pais até o momento em que viemos ao mundo e então, numa simbiose nefasta, tiramos deles que sorriem enquanto o fazemos, a vida que será nossa e talvez esse caminho não seja assim tão árduo quanto o fazemos se pensarmos que depois disso, de extrairmos de nossos pais a vida, muitos de nós terão as suas removidas em cirurgia pelos filhos que virão ou pelos amigos, família escolhida, escoltada por nós pela vida afora, esse amálgama de nós mesmos que vai se moldando enquanto os anos vão gastando nossas tintas.

Temos essa ideia falsa de identidade mas, no fundo, vejo a mim como réplica melhorada, na medida do possível, de meus pais, mimetismo singular, vejo/faço. Esse óleo invisível liga a nós e a eles e aos que cruzam nosso caminho, não há mesmo um eu e se houver talvez seja apenas nos ossos e quando a terra lambe os beiços depois de nos devorar de volta. Isso não é ruim, esse não ser, acho que é bom enquanto sabemos usar essa bagagem toda que vamos guardando vida afora e, no final, o que conta mesmo não são as marcas materiais que deixamos mas as pessoas que tivemos em nossas vidas e as vidas que tivemos parte tanto para o bem como para o mal, há que se acertar o preço da parte má quando cobrado ainda que a contragosto.

Como o sonho dentro do sonho dentro do sonho, acordamos dia a dia tentando achar a saída mas ela apenas dá em outro sonho e esquecemos de que o sonho em si é bom e que nos move adiante, para aquele lugar, lá, onde tudo deve ser melhor, acordar e fechar os olhos para isso, preferir não ir adiante e escolher o mais fácil e simples do que o mais trabalhoso e árduo mas que trará a recompensa final que costumamos chamar felicidade.

Não sei, há fotos antigas onde vejo meus pais sorrindo, em poses imortais de um momento que me foge o significado e que talvez não guarde significado algum. Há ainda fotos com amigos e pessoas que nem mesmo aqui estão mais e num ímpeto desespero tento relembrar do que sentia naquele momento, às vezes sei, muitas vezes não me lembro e penso se as fotos antigas, de antes de mim ou de quando eu não conseguia guardar lembranças, não são invenções, manipulações de um passado que não é meu mas de meus pais mas, isso pode não ser verdade uma vez que, como disse, eu mesmo não me recordo das fotos que eu mesmo tirei ou em que estava então, como saber o que é mesmo minha memória ou de outros?

Gostaria que a vida fosse uma seqüência de fotos sem fim e que, ao final, pudéssemos rever cada uma delas para saborear novamente momentos que foram tão ternos que pareceram ter durado décadas e outros tão efêmeros que podemos duvidar de sua existência. O tempo vai passar e assim como meu velho pai está hoje vivendo de lembranças embaralhadas, plantadas em cada ruga de seu rosto senil, eu mesmo irei embaralhar as minhas e talvez às dele sem saber, ao final, de quem são afinal.

Não me assusta envelhecer, até me atrai, me adoça a boca e o passar dos dias deixa um gosto de tudo ter tido sentido, propósito, razão. Quero envelhecer podendo ver as minhas fotos com carinho, ainda que não saiba se fui eu ou outros que as tiraram, só me assusta e muito perder a referência de quem são as pessoas nas fotos, esquecer ou não mais lembrar e há uma diferença grande entre as duas coisas.

Quero estar ali, com minhas rugas e o meu amado ao meu lado e ainda ser capaz de olhar para ele e para mim e para nossos álbuns e ser capaz de ligar uma coisa a outra pois mais do que morrer, que não me é assustador pois todo livro tem de ter um final, me apavora ter o amor ao meu lado e ser incapaz de reconhecer que ele esteve lá por anos, pela vida toda, sempre e temer a morte não por ela em si mas por ter passado uma vida sozinho.

3 de fev. de 2020

Realidades adaptadas

Não gosto de shows de realidade, de qualquer tipo ou espécie, não condeno quem os assiste mas, pessoalmente, acho que vocês poderiam utilizar seu tempo de forma mais produtiva. Enfim, o texto abaixo são minhas opiniões, você pode ou não concordar com elas.

Você provavelmente acompanha ou já acompanhou algum ou alguns deles e há para todos os gostos, tamanhos e manias, desde formatos mais tradicionais como o famoso BBB passando por RuPaul, Master Chef, The Voice, aqueles em que não há qualquer competição mas apenas se acompanha o dia dia de alguma celebridade e outros tantos que vão pululando feito uma cepa nova de vírus que eclode no mundo.

Há quem diga que tais shows são apenas entretenimento sem compromisso, aquele momento desligue de tudo e veja uma futilidade, coisas assim mas, creio que o buraco seja um pouco mais embaixo.

Essa endemia dos shows de realidade se alimenta do que há de pior no ser humano, sua miséria em seu aspecto mais fútil e pavoroso. Vendem uma ideia de que só é possível ser alguém competindo com o outro que passa a ser seu inimigo, que a única via para ser alguém na vida e no mundo é conquistar os famosos quinze minutos de fama e, com a falácia de entreter, trazem a tona comportamentos tão horrendos que deveríamos nos questionar se realmente são pessoas que lá estão ou atores.

Há que refletir um pouco nisso, o ser humano é fétido por natureza, todos temos comportamentos bons e não tão bons, normal, a medida em que adotamos mais um do que o outro é o que nos torna mais ou menos decentes. Podemos então considerar que os participantes de um show de realidade apenas dão vazão a comportamentos que já eram inerentes a si antes do programa e que a dinâmica do show apenas os reforçou ou realçou. Por outro lado, também podemos pensar que algumas dessas pessoas no intuito de competir e vencer deixam seu lado mais abominável assumir o controle apenas no decorrer daquela situação já que fora dela, seriam seres humanos absolutamente normais - dentro do que se pode chamar de normalidade.

De qualquer forma, o trabalho com a miséria humana e com a lei do cão que esses programas reforçam é nocivo tanto emocional quanto socialmente. Passamos a condenar ou aplaudir comportamentos que no dia a dia dificilmente notaríamos salvo protegidos pelo muro das redes sociais, nelas todos condenam tudo e todos aplaudem de pé mas, na vida real, tudo acontece ante olhos cegos e ouvidos mocos já que na vida como ela é não dá pra dar like e curtir ou fazer textão.

Justificamos assistir a esses shows como simples entretenimento como disse acima, como se não fossem parte de nosso cotidiano mas eles são um reflexo nosso enquanto pessoas e sociedade, a competição desenfreada, frases de auto-ajuda e motivacionais, meritocracia, superação, ser o melhor sempre, lutar, persistir, resistir e outras coisas mais. Não que alguns desses temas não sejam aplicáveis ou até mesmo necessárias para a vida real mas, a embalagem usada para vender tais conceitos é bastante questionável pois num veículo de massas, acaba tornando aquilo como verdade universal e sem a qual quem assiste entende não poder viver sem.

Então, quando vejo as pessoas condenando o comportamento de competidores de um BBB, fico pensando se essas mesmas pessoas também condenam tais comportamentos em seu cotidiano ou só  fazem nas redes sociais e para transmitir uma imagem de engajamento e ativismo, não adianta condenar no Twitter e fazer vista grossa na rua, em casa ou com os amigos.

Os shows de realidade estão banalizando o comportamento humano transformando-os em produtos que você pode ou não adquirir pelo PPV, que você pode condenar sem medo num comentário, que você eliminar com um voto, simples e fácil mas, esses comportamentos seguem existindo na vida real independente de você ter votado para eliminar aquele participante machista, racista, homofóbico ou qualquer outra coisa.

Emprestamos a esses programas a realidade que não queremos ver ou entender porque na TV eles são produzidos não vividos, não somos nós que temos de lidar com eles mas seus participantes. Nós podemos do conforto de nossas salas apenas apontar o dedo e reclamar, condenar ou aplaudir, aquela não é uma realidade de verdade, é uma realidade adaptada e preferimos fazer de conta que a TV não está segurando um espelho horrendo ante nosso rosto.

Se você está realmente querendo viver um show de realidade, sugiro começar a viver sua própria vida e encarar todos os demônios reais e imaginários que nela estão, sem votação, sem produção, sem PPV, sem nada e garanto que você terá mais realidade do que jamais sonhou em ter.

lembranças aleatórias não relacionadas com a infância

Lembrança #10 Lembro de uma festa ou rave ou balada que eu ajudei um amigo a organizar num tipo de sítio eu acho. Estava separado do meu nam...