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9 de mai. de 2022

o bobo

 


Triste ver como, enquanto nação, caímos num esquecimento, párias mundiais ao lado de tantos outros regimes de extrema direita vistos com maus olhos pela comunidade internacional devido aos seguidos desmandos e barbaridades sem fim.

A reputação nossa de nação mediadora e de peso no cenário internacional mesmo não pertencendo ao seleto clube dos podres de ricos foi ralo abaixo sob a batuta de pátria, família e deus e vai levar um tempo para voltarmos a recuperar isso mesmo que tenhamos outro sentado lá no planalto.

O estrago feito em quatro anos foi terrível e imenso, instaurada a ditadura fálica o país vive sob a égide do estupro social, da família de bem e do atira primeiro e pergunta depois. No Brazil atual o que importa não é igualdade mas mérito, não é você que pobre, é você que não se esforça, não é você que é bixa, é você que precisa ser bixa mas dentro de casa, não é você que fuma crack, é você que é vagabundo, deus ajuda quem cedo madruga e quem sai pra bater em travesti e matar viado.

O isolamento não é apenas mundial mas territorial, estamos isolados de todos, incapazes de quebrar a barreira de mentiras e narrativa disforme que impregnou a todos e concluir que não é matando a bixa que o pai de família vai por comida na mesa, não é matando o ladrão que o cidadão de bem vai ter mais segurança, não é armando a pessoa que ela vai aprender a se defender, não é cortando o acesso que as pessoas vão parar de acessar.

O véu conservador desceu pesado e não serão todos que serão capazes de tirá-lo em Outubro porque ele adere na pele feito cola, tem gente que vai preferir morrer do que ter algum tipo de justiça social novamente, tem gente que vai preferir matar do que ter um presidente que promova um pouco mais de igualdade, tem gente que vai acreditar piamente nas mentiras porque elas foram ditas por tanto tempo que agora são verdades.

Tem gente que prefere assim...

17 de nov. de 2021

heróis por um ou mais dias...

 


A jornada do herói já rendeu as melhores histórias escritas, orais e visuais já contadas.

É uma fórmula simples contada desde que aprendemos a arte de contar histórias para registrar nossas vidas e também emprestar a elas algum tipo de magia e graça, remodelada e revisitada desde sempre para ajustar os tempos onde se insere mas que, no fundo, consite dos passos básicos do monomito que dialogam com todos independente de cultura, sociedade, idioma ou distância, inconsciente coletivo e genético, com pequenas variações a mesma história pode contada nos grandes centros como nos mais afastados locais onde o homem pode chegar.

Estamos perdidos numa espécie de monomito pessoal desde que nos inserimos no mundo digital cheio de telas e cliques e likes e fotos com filtro, deturpamos a jornada do herói quando passamos a contar tal epopeia com vídeos de menos de um minuto e fotos com filtros, construímos uma realidade adaptada porque a jornada no mundo real já não atende, em seus doze passos, nossos sonhos, criamos uma jornada do herói digital onde os passos são encurtados e acelerados para chegarmos ao final apoteótico e revelador de forma instantânea.

Sim, este post dialoga com o de ontem.

Vejamos como alteramos um mito clássico para um mito midiático moderno:

Mundo Comum - O mundo normal do herói antes de sua jornada ou seja, nosso mundo antes de entrarmos de cabeça, tronco e membros no mundo digital.

O Chamado da Aventura - O herói recebe um um desafio ou aventura e pode recusar ou demorar a aceitar o desafio ou aventura, geralmente porque tem medo ou seja, entramos no on-line e achamos que não irá nos consumir e que saberemos lidar com ele com coerência e responsabilidade e maturidade e sabedoria afinal, somos senhores de nós mesmos, certo?

Encontro com o mentor ou Ajuda Sobrenatural - O herói encontra um mentor que o faz aceitar o chamado e o informa e treina para sua aventura, pode ser qualquer influencer ou youtuber ou produtor de conteúdo que, saindo do nada torna-se referência para uma enxurrada de outros tantos.

Cruzamento do Primeiro Portal - O herói abandona o mundo comum para entrar no mundo especial ou mágico, sua vida digital começa a decolar e você tem seguidores e interage com eles e todos curtem o que você posta e compartilham e repassam e visualizam e viraliza.

Provações, aliados e inimigos - O herói enfrenta testes, encontra aliados e enfrenta inimigos, de forma que aprende as regras do mundo especial ou seja, aquela postagem infeliz ou vídeo desnecessário ou comentário fora de contexto ou memória digital de um passado que você não conseguiu apagar porque a internet não esquece jamais.

Aproximação - O herói tem êxito (ou não) durante as provações, pode haver redenção, cancelamento, banimento, expulsão ou até coisa pior.

Provação difícil ou traumática - A maior crise da aventura, de vida ou morte, aquela postagem, comentário, vídeo ou filmagem que expõe seu lado menos correto, aquele celular que gravou sua conversa, aquela piada condenável, aquele apoio indevido, aquela onda de linchamento e cancelamento virtual e real.

Recompensa - O herói enfrentou a morte, se sobrepõe ao seu medo e agora ganha uma recompensa, faz um mea culpa, grava vídeo de desculpas, faz ação de caridade, apoia uma ong, dá entrevista a canais para reparação, reconhece que está aprendendo e em desconstrução.

O Caminho de Volta - O herói deve voltar para o mundo comum ou seja enfrentar que o mundo virtual pega pesado com o mundo real.

Ressurreição do Herói - Outro teste no qual o herói enfrenta a morte, e deve usar tudo que foi aprendido, tudo bem, recaídas acontecem mas dependendo do caso não tem como voltar um tweet ou foto.

Regresso com o Elixir - O herói volta para casa com o elixir e o usa para ajudar todos no mundo comum, a redenção rara em código binário, voltam os likes e apoio, defensores entendem que você errou e que a internet é assim mesmo, todos se escondem atrás de um discurso de ódio mas muitos ainda não querem ver você nem pintado de Google.

A internet fez de todos nós mitos, heróis por um ou mais dias....

15 de fev. de 2021

a rebelião das moscas


 Já acompanhei BBB mas depois cansei, não por algum tipo de sentimento de superioridade ou suposta aura intelectual, simplesmente porque formato do programa não me dizia mais nada ou tinha qualquer atrativo assim como todos os shows de realidade de forma geral, não me atraem não importa qual viés possuam, acho enfadonho e novamente, não sob um viés intelectualóide mas simplesmente por achar chato demais.

Igualmente, entendo perfeitamente que muitas vezes a gente só quer sentar e ver qualquer besteira que nos remova da realidade por um período de tempo afinal, ninguém fica lendo Foucault ou debatendo Nietzsche vinte e quatro horas por dia e há opções das mais variadas para esse tipo de 'higiene mental'.

Mas (sempre tem um mas aqui), eu tenho sérias reservas com toda essa comoção ao redor do bbb2.1, explico.

Não acompanho o show como disse e li algumas matérias sobre toda essa celeuma que se passa por lá e não dei um pio sequer porque não quis me pronunciar, não quis saber de verdade, não me interessei pelo assunto, achei pouco relevante a discussão e achei perda de tempo e explico mais abaixo.

É um programa de televisão e se você acha realmente que ele não é manipulado para ter audiência e ganhar dinheiro então você é uma pessoa tão inocente que chega a dar dó. Todos ali estão ganhando dinheiro e estão ali pelo dinheiro e pela fama então, achar que as supostas regras do jogo não são manipuladas e distorcidas para aumentar os ganhos é acreditar no papai noel e afins, não existe almoço grátis.

Tudo que se passa ali é elaborado para causar uma reação do lado de fora, é uma novela ensaiada só que transmitida ao vivo e, como em toda boa trama, é preciso que haja o mocinho e o vilão senão qual a graça? Então, uma vez definido quem fará cada papel, basta seguir o roteiro e fazer com que as pessoas amem um e odeiem outro para manter o jogo em pé e a audiência fixa e pouco importa se o vilão será odiado aqui fora porque depois, quando sair, fará um mea culpa e voltará a ser um bom moço depois de fazer alguma ação humanitária, participar de alguns programas e gravar uns vídeos no seu canal e o mocinho, vai sair melhor claro mas ele nem tão mocinho é porque sabia do roteiro e jogou igual então nesse rolo todo, só existe um enganado, quem está de fora assistindo.

Entender que o show é um microcosmo da sociedade de hoje é válido mas, é ao mesmo tempo uma redução ridícula de uma problemática complexa e profunda que não deveria ser discutida num show desses mas nas escolas, universidades, jornais, revistas, lares, mesas de bar e afins. Agora, todos estão opinando e tomando partido e militando mas, quando acabar o show e o dinheiro passar de mãos, tudo voltará a ser como era e todos esse papo de assédio, tortura mental e psicológica, racismo, machismo e afins voltará ao patamar de discussão de antes porque acabou o bbb e então vamos passar para a próxima coisa que entra no lugar. É triste que precisemos de um programa desses feito por uma emissora que não está nem aí para promover debates concretos sobre temas delicados, apenas jogam a gasolina e riscam o fósforo e a gente fica queimando feliz aqui de boas.

É um jogo de poder tudo isso e nele, quem sai perdendo somos nós porque não dispomos das mesmas armas que a onipotente produtora do show e então, estamos todos discutindo os assuntos que o bbb trouxe quando na verdade eles sempre estiveram aí mas a gente só passou a acalorar o debate depois que foi para o horário nobre. Tudo ali não promove o debate mas a divisão e a diáspora, não há um intuito real de discutir questões mas de formar partidos e causar uma comoção que nubla o julgamento e obscurece os sentidos, acirra os ânimos e mantém a todos reféns de uma luta sem sentido.

Não adianta condenar comportamento de a ou b e eleger c ou d como vítimas quando aqui fora não conseguimos fazer a mesma coisa, é mais fácil apontar o dedo para a tela porque lá é um fake, a gente sabe que é mas faz de conta que não e não quero dizer com isso que a postura ou atitude de um ou de outro do show não devam ser condenadas mas apenas que são comportamentos roteirizados para causar o máximo impacto e reação alheia e causar exatamente o tipo de reação que até mesmo este texto aqui é reflexo.

Há um problema muito sério quando passamos a discutir nossos problemas enquanto sociedade com base num show de realidade tomando ele como reflexo de nós mesmos como social mesmo que tal afirmação possa ser válida. Parece que somos incapazes de fazer isso aqui fora e precisamos de alter egos televisivos para isso pois fica mais fácil assumir uma posição quando não precisamos fazer isso de forma pessoal mas usando um bbb como proxy. O que mais me preocupa é que toda essa comoção com esses assuntos delicados vai passar quando acabar o bbb e vamos voltar a discutir esses assuntos de forma esporádica e reduzida porque passou a paixão, não tem mais proxy nem um reflexo nacional que represente tanto o melhor quanto o pior de nós, quando somos confrontados com a nossa realidade, preferimos fazer de conta que ela não existe até o próximo bbb.

22 de jan. de 2021

casulo

 


Cansado, salivei até envolver-me em um casulo. Fetal, recriei tudo do zero, cada célula, órgão, tecido, textura, sentimento, atitude, gesto e palavra.

Quando borboletei, tudo estava do mesmo jeito, igual, na mesma. Entristeci.

Faltava algo, acho que deve se chamar amor ou alguma coisa do gênero.

Cortei as asas de aquarela e resolvi ficar lagarta mesmo.

21 de jan. de 2021

perguntas impossíveis de responder

 




'Você me ama?' me pegou desprevenido, desceu goela abaixo feito cubo de gelo que se engole sem querer, os dedos frios arranhando a garganta deixando minha face num esgar tragicômico. Tentei esboçar resposta mas saiu apenas um ar abestalhado tipo esses de programa humorístico ruim.

'Você me ama?' saiu de novo atropelando minha ideias. O coração emudecera, então veio correndo bem lá do fundo do cérebro uma lista de possíveis respostas, mas todas, ao chegarem por canais tortuosos à boca, emaranhavam-se numa glossolalia.

'Você me ama?' voltou à carga com tudo, desmembrou minhas defesas e tentativas de argumentar já que resposta mesmo, não havia. Acho que houve em algum tempo já morto há muito e hoje apenas disponível nos livros de história.

Então, não houve mais 'Você me ama?'. Apenas um silêncio alto, eloquente, mas não de cristal, esse quebrara-se quando 'Você me ama?' começou a ficar sem eco ou resposta. Aos poucos ele foi diminuindo, deixando o ar menos denso até que me soou como um silvo fino e distante feito um trem que eu perdera desde sempre.

Sôfrego, vomitei incontinente um 'eu te amo' baixinho, quase um suspiro mas era na verdade eu reaprendendo a falar. Lá do fundo de mim, entendi que a pergunta havia sido respondida.

20 de jan. de 2021

eu não saberia dizer

 




Eu não saberia dizer resmungou meio lado como a cuspir as palavras para que elas não me caíssem na cara, as vi descendo pela boca e correndo depois pelo asfalto apressadas, pegaram um táxi que quase não parou e se foram não sei para onde.

Mas você diria, assim, se pudesse? Perguntei meio sem jeito e sem medo ou melhor, com o segundo mas disfarcei bem, era uma máscara que estava habituado a usar, segunda pele que já mais tirava fosse no banho ou para dormir, facilitava ir tocando os dias.

Se pudesse, quer dizer que não posso, não quero ou não consigo? Me deu assim essas três alternativas que para mim davam no mesmo, uma questão semântica que ali era irrelevante e fiz cara de quem assim pensava mas como era pouco, tive de juntar na boca as palavras separando a saliva que já me faltava com cuidado, era bom evitar que elas fossem vingativas já que não queriam sair de onde estavam.

E há diferença? Me traíram, acho que escorregaram na saliva e trocaram de lugar, havia pensado outras mas foi isso que saiu.

Muita e plantou ali um silêncio pra colher um pouco mais ali na frente, eu vi as sementes entrarem no solo de ninguém que existia entre nós, achei que ali já não vingava nada mas elas caíram tão bem e pude ouvi-las brotando.

Passou um ônibus já meio vazio, cansado, indo se retirar e talvez conversar com outros ônibus sobre o dia, comer e vomitar gente o dia todo não é para qualquer um. Passou um táxi, por um momento achei que eram aquelas palavras que haviam fugido mas não, estava vazio.

Passou uma avião bem lá no alto, estava meio rouco eu acho, gripe talvez, voar tão alto tem um preço imagino. Passou um casal jovem, tão juntos que pensei serem uma pessoa só, deu saudade mas passou também só que não junta como eles, foi sozinha mesmo, já andava assim há tempos.

Ouvi o silêncio brotar do chão.

Poder eu posso, conseguir qualquer um consegue já querer, isso eu não sei se quero e me fitou com ar de graça, não de graça rida mas de graça daquelas emprestada dos santos, aura, halo, santificado seja o vosso nome assim me ferra como no fel.

E pode não saber se quer? Deveria ter usado ‘sequer’, teria caído melhor.

E você sabe se quer? Ele também deveria ter usado.

Se quero deveria ter saído como pergunta num tom de reprimenda ou contestação firme mas, saiu sem entonação ou pontuação, duas palavras soltas vagando naquele espaço onde o silencia rendia frutos já podres.

Não vejo sentido, digo, nisso tudo, acho que já não temos mais o que ou como e baixou a cabeça e baixei a cabeça e baixamos as cabeças e fitamos o chão, os pés ficarem sem jeito.

Gostaria que visse, eu acho, talvez ainda haja algo mas disse sem convicção, me faltava o sangue necessário para preencher as palavras.

Aquele ali é o meu e apontou com o queixo para o ônibus que se aproximava.

Aquele ali é o meu e apontei com o queixo para coração que se distanciava.

A gente se cruza, ou não, melhor, cada um assim, você sabe, entende, eu acho e já em pé me estendeu a mão enquanto com a outra fazia sinal para que ônibus parasse, pegava um e largava outro, não sei bem qual era qual.

Sim e dei a mão que não acenava para partir. Ele subiu no ônibus sem olhar para trás e eu chamei o táxi que vinha logo atrás, não estava livre mas podia rachar a corrida, as palavras que estavam nele, aquelas, não iam sem importar nem um pouco.

19 de jan. de 2021

francisco o lobisomem

 



francisco o lobisomem andava acabrunhado, estranho e não pelo fato de ser um lobisomem o que poderia ser considerado estranho mas já não era considerado estranho há tempos porque lobisomem nem era assim algo de meter medo quando tem coisa bem pior que lobisomem no mundo.

francisco o lobisomem andava assim porque já fazia muito tempo que sua transmutação em lobo não seguia mais um padrão, um ritmo, um calendário, uma expectativa. ele se lembrava de quando podia marcar na folhinha os dias em que o lobo uivaria dentro dele rasgando tudo por dentro para sair mas agora, ele não conseguia mais saber direito quando isso ia acontecer e isso lhe causava muitos problemas.

francisco o lobisomem não conseguia mais saber ao certo quando a lua seria cheia, ou porque o céu assim não o permitia de tão nublado e cinza, ou porque diziam que a distância da terra a lua mudara com o passar do tempo, ou porque a terra era plana e ele não entendia onde a lua iria aparecer, ou porque estavam colocando gente na lua, ou porque tinha tanto satélite ao redor da terra que a lua ficava meio perdida e ele também sem saber quando exatamente deixaria de ser homem para virar lobo se bem que hoje em dia parece tudo a mesma coisa, até mais lobo do que homem e ele se perguntava às vezes se não haveriam lobos que viravam homens num tipo de maldição ao contrário, tinha dó dos lobos que eram criaturas gentis mesmo com ele que não era um lobo de verdade só ocasionalmente.

francisco o lobisomem lembrou de uma vez que lobo, encontrou outros lobos que não erma homens que viravam lobos mas lobos mesmo que eram lobos desde lobos eram lobos e não havia essa coisa de homem virar lobo. lhe disseram que andava difícil ser lobo, a competição humana era forte e ser lobo quando o lobo-homem era o inimigo fazia ser lobo algo quase impossível e ele perguntou se eles conheciam outros lobisomens e eles disseram que sim mas que eram poucos porque até lobisomens andavam minguando, não era mais bom ser lobo que dizer lobisomem e tinha lobo que não gostava de lobisomem e tinha homem que não gostava de lobo nem de lobisomem e tinha quem não gostasse de nada e queria todos mortos.

francisco o lobisomem andava então assim meio entristecido e passava algumas vergonhas porque, incapaz de saber ao certo quando viraria o lobo que era o home do lobo do homem lobo, já se transmutara em locais pouco recomendados como a vez em que ele no coletivo que o levava de volta para a casa depois de um dia de trabalho noturno, sim porque lobisomem vive só de matança nos filmes e livros, na vida real ele tem de trabalhar para pagar as contas como qualquer outra criatura folclórica, e, sem saber que a lua ia cheia feito uma barriga cheia de vermes, transmutou-se ali dentro do ônibus mesmo mas, ninguém deu fé dos pedaços de carne e sangue caindo e da besta saindo de dentro de si, ele uivou e alguém reclamou por silêncio no meio do transporte lotado, reclamaram também da sujeira que ele fazia, se fosse virar bicho que descesse e virasse do lado de fora, envergonhado, desceu no próximo ponto de foi lá concluir sua transmutação em paz.

francisco o lobisomem maldizia não o fato de ser lobisomem mas o fato de passar vergonhas por isso como naquela vez em que ele, em lobo, foi prego pelo controle de zoonoses e só não foi sacrificado porque no dia seguinte, encontraram homem e não lobo na gaiola onde estava e, confusos, deixaram ele ir embora crentes de que haviam sido pegos em algum tipo de pegadinha entre colegas.

francisco o lobisomem também tinha problemas com vacinas porque, além das humanas, todo ano tinha um problema sério em explicar no posto porque precisava da vacina que só era dada em animais, uma vez disse que precisava porque era lobisomem e quase foi trancafiado por estar doido ou drogado.

francisco o lobisomem seguia assim sua vida até que um dia, sem poder ver a lua ou saber sua fase, transmutou-se quando passava em frente um circo e o dono viu e o pegou ainda lobo e levou como atração para o circo de lonas remendadas, animais abatidos, palhaços borrados e músicas riscadas. de princípio foi difícil explicar ao homem que o lobo só saía quando a lua vinha cheia, o homem queria o lobo todas as noites mas deu-se por vencido quando viu que só naquelas noites o lobo vencia o homem mas, o homem que queria o lobo mesmo assim manteve o lobo que vivia no homem porque esse lobo rendia um bom dinheiro até que um dia, o lobo que saía do homem deixou de ser novidade porque o homem que queria o lobo dentro do homem achou outros lobos mais interessantes e aquele que só virava lobo na lua cheia já não servia para mais nada.

francisco o lobisomem foi visto pela última vez nalgum lugar do país, todo lobo pelo que se diz, não era mais homem, cansara, era só lobo e há quem diga que se pode ouvir seu uivo cantado em noites de lua cheia e silêncio absoluto.

18 de jan. de 2021

silver



a bala de prata sai rasgando o cano da armapau feito orgasmo natimorto de um gozo abduzido de um corpo que não sabe como ser se não for no risco, no perigo, no fio da navalhacarne que corte rios de almas feito manteiga.

ela mata o lobo, o homem, o lobo do homem, o lobo no homem, o lobhomem que não é lobisomem porque esse são dois distintos, o lobhomem é um bicho que só faz se alimentar de seus pares porque não consegue encontrar satisfação que outra carne que não seja a dos seus iguais, sente prazer, lambe as patas e dedos e quer mais e gosta de ver a vítima sofrer enquanto lhe devora os ossos.

a bala de prata é magia feita minério mas só funciona ali, no abra ka dabra, na prestidigitação de centoquarenta caracteres, de live de fim de semana, de like, de curtida, de fé no fake, eu acima de tudo e deu acima de todos. ela voa rápido para matar não o bicho que roa nossos pés mas o coração que já vai fraco e bate vez ou outra de tão irregular ante o tempo que não tem mais cadência.

vamos comprando balas de prata, para matar não os monstros mas nossos pensamentos, nossas ideias, nossos amores, nossos sexos, nossos amigos, nossa humana(idade), a gente atira no que não viu e acerta o que vê todos os dias e o monstro segue rindo porque as balas de prata são doce em sua boca cheia de carne e sangue, se há bala para matar o monstro, há de encontrar o revólver que a atire, propulsão a jato de palavras que todos falam mas não sabem dizer e, se você não sabe dizer o que fala, como quer falar o que diz?

balas de prata são jujubas que ferem, estilhaçam os dentes e partem osso, articulação e pele, alojadas dentro de nós vão se dissolvendo e enchendo a gente de prata, expulsando o sangue até que fica apenas prata e gente que tem prata no lugar do sangue não morre mais com bala de prata, gente que tem prata dentro não tem nem valor, só é fria e dura e cheia de prata e aí não tem mais remédio ou bala que dê jeito...


15 de jan. de 2021

ernesto o vampiro

 


ernesto o vampiro acordou atrasado pois na falta de caixão ou cova ou ataúde ou seja o que for, acabou dormindo numa estação de metrô e dormiu pouco porque a estação ia cheia o dia todo e ele não dormiu direito com aquela gente toda indo para cima e para baixo e com aquele cheiro de gente que ele gostava mas que para dormir lhe atrapalhava demais.

ernesto o vampiro acordou com fome e tentou jantar uma mulher que ia cheia de sacolas mas a mulher quando o pescoço já lhe estava nos dentes gritou e ele pensou que fosse com ele a lhe querer o sangue mas era com outro que pelo jeito havia lhe passado a mão e ernesto foi empurrado e só ficou vendo a gritaria que parou o vagão.

ernesto o vampiro tentou então um jovem que estava encostado na porta com fones de ouvido e ar distante e que o olhou nos olhos e ele olhou de volta e achou que tinha mesmerizado a vítima mas ela piscava para ele e erneste o vampiro ficoi sem saber se era um tique nervoso ou o que e a vítima passava os lábios pela língua e ele tinha fome mas aquilo o assustou e a vítima mostrava a língua como sedenta e ele ficou com receio e achou melhor se afastar.

ernesto o vampiro tentou uma velha que se cercava de sacolas e um carrinho e que parecia estar cimentada no assento do trem e foi se chegando se chegando se chegando e ele não gostava de sangue velho mas tem horas que não dá para ter luxo e quando já se acercava da velha viu um fio de ranho a lhe escorrer do nariz e ficou com nojo porque vampiro ele até podia ser mas aquilo era demais até para um vampiro.

ernesto o vampiro viu então um homem alto grande forte mais ao fundo do trem que lhe abriu as narinas com cheiro de sangue quente forte viril e flutuou até o homem quer dizer não flutuou porque estava cheio demais então ele foi esbarrando nas pessoas que o xingavam até chegar perto do homem cujo cheiro de sangue testosterona o deixou babando isso era uma refeição digna mas, quando ernesto o vampiro ia dar o bote o homem o segurou pelo pescoço chamou de viado e atirou longe dizendo que o mundo estava assim perdido e apertando o membro dizendo que se ele quisesse aquilo teria de morrer primeiro e ernesto ainda fraco sem ter comido achou melhor deixar para lá.

ernesto o vampiro viu então uma garotinha sentada ao lado da mãe que dormia com ar de uma exaustão que ele vampiro jamais vira e, ainda que tivesse restrições quanto a alimentar-se de crianças, a fome apertava então foi para cima da menina que antes de que ele pudesse lhe cravar os dentes sacou o celular e tirou várias fotos com flash assustando o mortovivo que fugiu estabanado.

ernesto o vampiro já sentia o estômago morto mas vivo nas costas mortas vivas e precisava de sangue mas não conseguia morder ninguém ali, bons tempos em que um vampiro podia se alimentar sem medo, sem passar vexames como esse de agora, em que vampiros eram vistos como figuras míticas místicas e românticas com a dádiva da vida eterna.

ernesto o vampiro já estava quase seco quando tocou uma campainha e o povo todo se alvoroçou para sair e ele estava no meio e as pessoas estavam nervosas e ele no caminho e era um empurra empurra e ernesto o vampiro não conseguia sair dali e tentou usar seus poderes mas estava por demais fraco e as pessoas bravas e famintas e ele sendo levado pela turba e foi pisoteado e virou um tipo de massa vampírica amorfa no chão do trem e as pessoas sentiram o cheiro de sangue fresco e se foram ao chão e devoraram tudo um dia havia sido ernesto o vampiro e depois saíram e foram seguir com suas vidas satisfeitas e felizes e de veias cheias.

nunca mais se ouviu falar de ernesto o vampiro....


13 de jan. de 2021

fobia homo 3

 



Seja lá quem for que tenha nos colocado aqui também nos dotou de algo chamado livre arbítrio o que muitos confundem com liberdade para fazer ou dizer o que bem entendem.

Não digo com isto que atos e palavras devam ser vigiados, moderados ou cerceados de alguma forma, a história é rica e pródiga em casos onde esse tipo de decisão acabou mal, muito mal. Porem, é de se esperar que após anos seguidos de aprendizado houvéssemos assimilado algo, nem que fosse o mais básico dos princípios de respeito e dignidade mas, a humanidade é craque na arte da involução e cospe com louvor nos pratos que ela mesma sujou.

Que dizer então desses que ainda insistem em usar termos como 'ditadura gay', 'gayzismo', gayzista', 'opção sexual' e outras pérolas similares que não repetirei preservando o decoro homossexual que mereço e me é de direito. Sim pois gays tem decoro e muito! Temos de ter afinal lidar com vocês, horda de dominadores, perpetuadores da espécie, bastiões do sêmen segrado, guardiões da vagina materna, não é tarefa para os fracos de moral.

Pior quando seus argumentos baseiam-se em 'notícias' as quais você nem mesmo se deram ao trabalho de averiguar e confirmar as fontes exibindo buracos maiores do que as crateras lunares mas, eu lhe entendo afinal não precisa nada disso para esculachar nós 'gayzistas', 'fascistas gays', 'maculadores da família' e, se somos 'vitimistas' (palavras suas, não minhas), o somos apenas pelas mãos da sociedade hetero normativa, essa mesma que você diz estar em extinção mas que domina e oprime todos que não se enquadram nela há milênios.

Somos todos 'vitimistas' de seu escracho, de sua falta de tato, de sua falta de respeito, de sua ignorância e preconceito, de suas leis e costumes que nos alijaram do convívio social e era por lá que deveríamos ficar, não é mesmo? Nas bordas carcomidas do seu mundo esperando os restos que vocês nos atirassem. E agora que a rua não é mais de mão única, é avenida e jamais voltará a ser viela, você grita e bate os pés dizendo que ser hetero é crime e algo em extinção? Olha, acho que precisamos ter uma conversa muito, mas muito séria sobre a evolução humana (se é que você não é criacionista) e os mecanismos perniciosos de controle que a maioria (vocês) exerceram desde sempre sobre a minoria (nós)

Mas tudo isso eu ainda sou capaz de entender e de certo modo, relevar afinal é um direito seu não gostar dos gays e achar que estamos aí para tacar fogo no puteiro, fazer sexo no meio da rua, cuspir na cara da família e lhe ser útil apenas como estereótipo e riso frouxo. Lamento que sua mentalidade seja assim tacanha mas, ainda assim, é um direito seu entretanto, se me permite um adendo, não precisamos atear fogo em puteiro nenhum porque o bordel há muito está em chamas e as putas não são paridas por gays, fazer sexo no meio da rua vocês já fazem e não precisam de nós, cuspir na cara da família também não vejo como podemos ajudar posto que isso também vocês fazem bem demais e, no quesito estereótipos e motivo de riso, bem, vocês precisam de alguém para dar um alívio em suas vidas sem graça, gosto ou cor não é mesmo?

Sim, tudo isso eu posso relevar, sem problemas mas quando você, real ou ficcionalmente, se coloca numa posição de objeto sendo que a violência gratuita contra a mulher (seja ela física ou psicológica) só faz aumentar, penso seriamente que você necessita de ajuda psiquiátrica para dizer o mínimo. Na verdade, acho que você precisa de auxilio histórico e social para entender bem quem é oprimido e quem é opressor porque não devem estar muito claros esses papeis em sua mente, algum tipo de má formação ou fiação mal feita que deva estar gerando esse tipo de pensamentos esdrúxulos.

Não se trata apenas de um direito seu de expressão mas de algo pior pois há uma interpretação totalmente errônea do que é feminismo como se fosse uma ameaça ou câncer a ser combatido e, por tabela, qualquer movimento direcionado a empoderar e trazer à luz qualquer tipo de segmento social que passou tempo demais sob o jugo da maioria é também condenável e deve ser combatido.

Minha sugestão, se você realmente pensa assim, mude para um país sob o poder do ISIS e, depois de algum tempo, venha me falar se ficou clara a diferença entre oprimido e opressor se bem que, pelo visto, capaz de você curtir e até mesmo achar a burka sua cara.

18 de dez. de 2020

o tear

 



Acordou antes mesmo dos primeiros raios de sol resolverem trabalhar e isso sempre a confundia, não sabia se era um dia novo que iniciava ou apenas uma extensão do anterior o que, na verdade, lhe era indiferente.

Havia muito a fazer e assim, passou rápido um café, cortou uma fatia fina de pão no qual passou um pouco de manteiga que já ia meio desandando e depois, ficou ali uns momentos observando a manteiga penetrar nos pequenos furinhos do pão. Sempre passava a manteiga de forma que a fatia de pão ficasse uniformemente coberta, mas hoje, de forma acidental ou não, havia deixado um pequeno pedaço dela em uma das beiradas da fatia e agora, ela vagarosamente escorria por aquela parede de trigo.


Ficou ali observando aquele movimento moroso, a xícara de café soltando um vapor leve, o aroma era de café ou algo que parecia com isso, ela lembrava do cheiro do café e principalmente do gosto ou era do gosto e depois do cheiro, não sabia, só sabia que lembrava café. A manteiga finalmente percorreu toda a lateral da fatia de pão e se esparramou no pequeno prato que a acolhia, ela queria ser a manteiga mas a vida era uma fatia muito grande de pão.


Desjejum feito, lavou a pouca louça que usara e já com os primeiros indícios de trabalho solar foi-se para a sala onde o tear a aguardava em silêncio. Abriu as janelas, a claridade já começava a inundar o cômodo o que lhe permitiria trabalhar, essa época era boa, havia muita luz, diferente das outras, ela não lembrava os nomes, sabia apenas que numas fazia frio e noutras, muito calor, agora era algo no meio, ela queria ser uma estação mas a vida havia cancelado sua parada.


Olhou para o tear, o trabalho já ia adiantado, questão de mais o que? Um dia, pouco mais? Era uma encomenda boa, lhe traria alguns dividendos, o suficiente para alguns meses até pingar outro trabalho, não eram muitos, teares eram antigos, poucas pessoas sabiam manejar um, acabariam por desaparecer, ela queria desaparecer mas sempre acabava aparecendo de volta.


Esfregou as mãos no avental já carcomido por um sem fim de esfregadas, arfou de leve e sentou-se no banco em frente ao tear quando o sol finalmente despontava no horizonte. Ela queria ser um sol, se contentaria com uma lua, mas o universo era muito grande para ela.


Começou a tecer, era bom começar cedo, fazia o trabalho render, ela rendia muito, lembrava de um tempo em que tecia quase sem parar, o tear chegava a pedir arrego, ela chegou a vara noites tecendo mas não sabia ao certo quando fora isso, podia ser um sonho, talvez fosse, ela tecia há tanto tempo que até o tempo era apenas um fio a mais a ser tecido, ela queria ser o tempo mas ele era um fio muito grande para tecer em seu tear.


A manhã já ia alta, o trabalho rendia bem e ela resolveu fazer uma pausa para tomar um café e comer mais uma fatia de pão, almoçaria mais à tarde. Dessa vez não passou manteiga, apenas comeu o pão e bebeu meia xícara de café. Ficou alguns minutos olhando pela janela da cozinha, o tempo estava bom lá fora, talvez valesse uma caminhada para esticar as pernas, ela antes fazia isso mas não lembrava quando o fizera a última vez, tinha de acabar aquela peça o quanto antes, havia pressa na entrega mas o sol estava tão convidativo, ela queria caminhar mas os caminhos já não eram os mesmos há tempos.


Voltando ao tear, sentou-se e foi quando deu fé, pela primeira vez ao olhar para a barra do vestido que roçava gentilmente o chão, um pequeno fio que dela se desprendia. Mirou o fio por longos minutos, não com surpresa mas com interrogação, era de se esperar que houvesse já que o vestido vivera dias mais ilustres. Pensou em puxá-lo mas isso poderia desfazer toda a costura e sua era a responsabilidade de tecer e não o oposto, resolveu então deixar o fio quieto e voltou ao tear.


A tarde avançou rapidamente, a luz já ia fugindo quando ela parou seu trabalho, sim não tardaria a acabar e enquanto admirava seu trabalho lembrou-se do pequeno fio solto em sua saia. Olhou para baixo e talvez pela pouca luz ou cansaço das vistas, ela queria ver mas a visão era demais para tanto, o fio lhe parecia maior. Certamente que seus movimentos tecendo o haviam soltado mais, levou a mão até o fujão e fez menção de puxá-lo, mas, anos de tecelã lhe impediram de cometer crime tão hediondo e cansada, resolveu ir deitar-se.


No dia seguinte repetiu lá seu mesmo ritual e, quando sentou ante ao tear olhou para baixo, de certo que o fio deveria ter sumido já, impossível que ainda estivesse lá mas estava e agora, à luz do dia, não havia falha ou truque das vistas, estava mesmo maior. Abaixou-se e o pegou com uma das mãos, já formava um pequeno bolo, ela deveria cortá-lo ou mesmo tentar costurá-lo de volta mas para isso precisaria parar o trabalho e a data da entrega se aproximava além do mais, ela sentia-se cansada, mais do que ontem e do que antes, ela pouco se cansava, ela não queria descansar mas o cansaço era uma fatia de pão com manteiga demais sobre ela.


Deixou o fio para lá e voltou a tecer, nem mesmo fez pausa para café ou almoço, queria terminar logo, a entrega, era preciso respeitar os prazos, seu cansaço não importava, ela jamais havia atrasado uma entrega, seu tear era mais preciso que muitos relógios e seria possível acertar as datas do ano por suas entregas.


Quando o dia bateu seu ponto transferindo o turno para a noite, ela parou de tecer e, meio ressabiada, olhou para o chão, lá estava um pequeno monte de fios, já um pequeno novelo saindo de si, ela ensimesmada pensou em como poderia estar se desfazendo assim uma fazenda tão boa mas, ainda que fosse de qualidade, não há tal coisa que peite o tempo que acaba por desfazer tudo que é do bom e do melhor afinal, para ele isso não existe. Exausta, levantou-se e foi para a cama arrastando atrás de si aquele pequeno filhote de tecido, incapaz de lhe cortar o cordão umbilical por uma questão de princípios mais do que praticidade.


Acordou no dia seguinte com a luz do sol a lhe tocar as faces emprestando um calor há muito esquecido, chegou a pensar que sonhava com calores há tanto enterrados e olvidados mas a surpresa lhe pegou no pé pois se o sol lhe fazia carícias, o trabalho já estava então atrasado. Pulou da cama e sem café, pão ou manteiga foi-se ao tear mas sentia-se pesada, mais do que o peso do vestido, corpo ou alma que já fora tecida e costurada tantas vezes, olhou para trás e lá estava o novelo agora maior, já se poderia tecer um pequeno tapete dele, pegou-o nas mãos e indecisa e em susto, largou-o como se houvesse tocado algum leproso.


O dia corria já, era fazer repor o tempo perdido, ilusão pura mesmo que houvesse às mãos todo o tecido do mundo. Sentia as forças lhe faltarem mas era preciso tecer, cumprir a entrega, a clientela não podia esperar, ela sim.


No tear, o trabalho ia bem, pensava mesmo que era seu melhor trabalho em tempos, talvez o melhor de sua vida, se fosse seu legado, poderia ir-se em paz e ouviria do lado de lá os elogios e faces de espanto antes tamanha peça de arte, quem sabe gerações futuras não estudariam seu trabalho, não fosse usado como referência e padrão de qualidade para tecelões futuros se é que tal coisa existira no futuro mas, sempre haveria necessidade de tecelões fosse para tecer roupas, tapetes ou mesmo a delicada fábrica que unia em finos fios a trama da vida e, se não fosse para tecer, que fosse para remendar, tudo se rasga com o tempo e apenas mãos firmes e experientes sabiam como por de volta o que as intempéries cotidianas haviam rasgado.


Esses pensamentos lhe fizeram escorrer um fiozinho de suor frio pela testa e pelas faces, faltava tão pouco agora, era um tear bom aquele, estava ali desde sempre ou desde quando ela entendia o que era o sempre, brotou em sua mente uma lembrança meio embaçada de menina vendo mulher tecer, a vida era um tear, tecemos com nossas lágrimas o pano que nos servirá de mortalha, alguém lhe falara isso ou era um lembrança solta.


Olhou para o chão, o novelo que se soltava de sua saia já estava grande, se lhe faltasse fio poderia usá-lo para acabar a entrega mas fio havia, fio havia, ela tinha um bom estoque, estava segura mas, como a segurança é por si insegura, para apaziguar seu medo e satisfazer sua certeza, levantou-se e foi até onde guardava os fios arrastando atrás de si aquele pequenos animal de estimação felpudo.


Ao abrir o armário onde acomodava seus fios, quase foi ao chão, empalideceu de tal forma que a cera de velas tinham mais coloração que sua face, o armário estava vazio e a entrega seria no dia seguinte. Voltou ao tear arrastando dois pesos, o de sua decepção por não ter-se antecipado ao fato e o pequeno novelo que ia onde ela fosse.


Sentou-se em frente o tear, lá fora a tarde se espalhava por todo lado de forma preguiçosa, ela inspirou profundamente e desejou que a tarde ficasse ali mais tempo mas já ao longe as cores da noite começavam a comer em pequenos pedaços aquele resto de dia.


Desolada, não poderia cumprir com a entrega e lhe faltava tão pouco, um novelo bastaria, não mais. Como pudera ser tão descuidada? Uma vida dedicada assim ir ao fim, nunca lhe havia passado isso, agora deixaria como legado não elogios mas um nome que seria eternamente associado à inconstância e incompetência, seu tear seria vendido como bugiganga e não preservado como item histórico.


Suspirando levemente olhou para o chão, o novelo ainda estava lá, maior ainda ela pensou, como se não bastasse a desgraça de agora ainda tinha aquele atestado de sua incapacidade a lhe lamber as saias e então, em algum tipo de iluminação divina ou desespero, é difícil diferenciar ambos pois confunde-se muito, quando se pensa num é outro e vice-versa, teve ali a resposta de suas preces ou angústias.


Sacou o novelo do chão e o desfiou encaixando sua meada no tear. Com o olho, mediu a quantidade, haveria de ser o suficiente, não tinha também outra alternativa que não essa, preparada e determinada, começou a tecer pois a noite já se mudava e o dia seguinte iniciara sua jornada trazendo consigo a entrega.


E teceu a noite toda, horas a fio, com fio, fiando-se no tecido que dela saía, seu nome seria intocado, seu tear imaculado, seu trabalho reconhecido e sua técnica reverenciada. Ela seria alguém, não apenas um fio no tear mas o tear, nunca fizera outra coisa exceto tecer, tecera de tudo de tapetes a tapeçarias, a finas tramas que jamais entendera a serventia, de panos raros e caros, padronagens simples e das mais intricadas, seguira tecendo fosse na chuva, sol, neve ou seca, tecia de olhos fechados, muitas vezes com amor outras tantas com um sentimento menor mas tecia, a vida tecia junto mas ela não reconhecia a padronagem, tentava se encaixar na trama mas a vida sempre mudava o padrão, ela teve padrão mas não lembrava qual era, achava ter tecido fios com outros mas há tanto tempo que não sabia quais eram os fios usados, não lembrava bem deles apenas de seguir tecendo, dias, noites e sempre no prazo, isso era o mais importante, tecer é vida, tecer com arte de no prazo é arte em vida e se a arte imita a vida que dizer de sua tecelagens, não eram arte e vida? Não eram sua vida, não tecia sua vida para outros deixando que eles usassem sua vida tecida como proteção aos fios tortos que não sabiam tecer por si?


O dia chegou de mansinho, veio junto uma névoa suave que cobriu tudo dando às paragens aparência de algo imerso em líquido. Quando a névoa subiu e a luz morna finalmente tocou a terra, as pessoas começaram a sair para suas tarefas diárias, havia muito a entregar e o prazo é muito importante, o leite deve estar às portas cedo, os jornais idem, o comércio deve abrir suas portas e a vida deve ter seus prazos atendidos.


A entrega da encomenda foi respeitada, a peça de tecelagem era realmente única, foi um espanto geral ante tamanha qualidade e fineza do trabalho executado, uns diziam que não era algo terreno, que apenas os divinos poderiam ter concebido algo tão perfeito e belo, outros sussurravam que forças menos nobres pudessem estar envolvidas, uns tantos lhe achavam defeitos por motivos de inveja e amargura apenas, outros não deram atenção e a pessoa a quem era destinada a peça rompeu em prantos ante tamanha beleza, disse sentir uma injustiça que peça tão rara e única fosse de sua propriedade e decidiu por doá-la a comunidade, houve quem duvidasse de seus motivos mas a doação foi aceita mesmo assim.


O único consenso foi a dúvida sobre o paradeiro da artesã autora de tão magnífica peça.

17 de dez. de 2020

pequenas lembranças aleatórias

 



O relato abaixo é real e se passou há muito tempo, quase igual ao preâmbulo de todos os filmes da saga Star Wars.

Estava solteiro, como não nasci para a clausura, buscava ocupar a vaga. O moço em questão, já havia cruzado comigo na noite em diferentes ocasiões mas, não o sabia surdo. Certa vez, estava na Vieira, no dia anterior ao G-Day Hopi Hari tomando meus gorós quando alguém chega em mim e diz: ‘Meu amigo quer te conhecer’, estando ele sozinho, ou o amigo era imaginário ou estava ele bêbado, destino ao qual me encaminhava à passos largos. Percebendo o ar de dúvida, apontou para um bar do outro lado da rua onde me encontrava, entendi que o moço estava lá e o segui até ele.

Chegamos, e não é que era o surdo que trocara olhares comigo tantas vezes antes? Ainda sem sabê-lo surdo disse oi e então, seu amigo (que ouvia muito bem) disse: ‘Ele é surdo’. Suspense, como se a revelação fosse o ultimo segredo de Fátima, tempos depois, entendi o porque quando, ao irmos numa boite com amigos dele e já o namorando, um desses amigos (também surdo e extremamente pegável) começou a trocar olhares com outro cara que, ao chegar nele e constatar sua surdez, deu-lhe meia dúzia de beijos para fazer tabela e, alegando o chamado da natureza, embarafustou clube adentro para nunca mais voltar. Fiquei chocado mas o rapaz que levou o fora assimilou bem e ainda me disse que era comum, que ele estava mais do que acostumado, eu não e ainda acho que foi uma das pires cenas que já vi.

Voltando a vaca surda, nos cumprimentamos e começamos a conversar ou o mais próximo disso dado que sou analfabeto de Libras e, encurtando, acabamos um na boca do outro, surdos são ótimos amantes, não perdem tempo com palavras ou aparências, dão valor ao toque e intuem tudo o que nós, falantes, dissimulamos entre as frases tornado o ato de ficar, gostar e amar algo complexo, jogatina e um absurdo de incompetência. Ao final, ele precisava ir e me disse que estaria no Hopi Hari no dia seguinte, nos despedimos calorosamente. Fiquei ansiando pelo dia seguinte, queria ir com ele mas respondeu já ter marcado com amigos e que nos encontraríamos lá.

Eu no parque louco atrás do moço, besta, não tinha marcado um lugar para nos encontrarmos e fiquei caçando o lugar todo por ele quando, finalmente, o vejo saindo do mesmo brinquedo em que eu acabar de andar. Para meu infortúnio, ele fez que não me viu quando tenho certeza de que o fez pois passei bem à sua frente mas, como nem mesmo fez menção de minha existência, esfriei meus ânimos e os cobri com desgosto deixando que o resto do dia se acabasse num amargo e triste fim.

Passou-se um tempo e nos reencontramos, dessa vez ele me viu. Veio falar comigo, desculpou-se, à época estava num relacionamento complicado e fora um erro alimentar minhas esperanças, estava livre agora e queria muito ficar comigo. Desacreditei, expus meus temores e rancores, ele ouviu calado (claro), só podia fazer mais desculpas as quais, ao fim de alguns drinks, aceitei. Se há fato mais verídico do que relacionamentos serem loterias, desconheço; porém, falhamos ao ler os sinais de que o prêmio se acabou e que precisamos voltar ao jogo.

Engatamos a coisa e conheci os amigos com quem ele dividia um apartamento, todos não surdos e muito simpáticos. Nesse dia, me contou já ter sido casado e ter um filho o que para mim nada mudou. Fomos nos afeiçoando, o sexo era fora do comum, fodemos com a boca, não com a genitália, a profusão de ais/uis e demais expressões inerentes ao sexo inexistiam ali dando lugar a um silêncio pornográfico e um sexo mudo mas arrisco dizer mais sentido do que o gritado entre unhas e dentes.

Conheci sua ex-mulher e seu filho, todos eram simpáticos e cheguei a apresentá-lo aos amigos pois a coisa ia séria. Fomos à uma festa de aniversário de um amigo dele e esta penso ter sido uma das experiências mais estranhas que já passei. Todos eram surdos, apenas eu ouvia; era uma festa, havia bebida, comida, pessoas conversando (em Libras, óbvio eu era o único que ouvia) mas não havia música e para que haveria? Porém, engana-se quem acha que eles por não ouvir, não sentem a música, quando íamos a boites, ele preferia ficar o mais próximo possível das caixas de som pois assim poderia sentir as vibrações da música e ‘ouví-la’ o que deve ter me custado alguns decibéis da audição.

Nessa festa, lembro do ar de surpresa quando ele me apresentou como seu namorado dizendo que eu escutava, incrédulos, me olhavam com um misto de surpresa e inveja do amigo que conseguira quebrar a barreira do som. Tudo ia bem e, como de praxe, tão bem que começou a azedar. Não emito julgamentos, não desejo isso para mim e nem tenho outorgado o direito de apontar o certo ou errado, cada um deve saber para si tais coisas e cuidar de sua vida, fosse sempre assim, o mundo seria um local agradável.

Não sei o que houve, pessoas são estranhas e reagem de formas absurdas ante os problemas da vida. Ele, vim a saber depois, passou a não cumprir suas obrigações para com os amigos que dividia moradia, descobri que seu filho usava por fraldas sacos de supermercado e que sua mulher ameaçava com a Justiça e guarda do filho, tudo culminou com uma ligação de seus amigos dizendo que ele sumira da noite para o dia levando o que podia do apartamento incluso alguma grana dos moradores e pertences menores dos mesmos.

Desabei, creio mesmo que seus amigos meio que desconfiaram se eu não o acobertava mas, acho que fui sincero o suficiente quando os encontrei e puderam ler em minha face a desolação do amor quebrado e convertido em drama. Não havia explicação possível ou plausível e as revelações do parágrafo acima se deram quando estes amigos dele me confrontaram. Saí de lá desolado e com a promessa de que caso ele fizesse contato, os avisaria pois eles pensavam mesmo em por a policia atrás dele se tivessem o cheiro de seu paradeiro.

Cai em mim e notei que além do desfalque na casa, sofrera eu um: relógio que gostava muito e que antes de sua evaporação lhe emprestara com juras de amor. Recriminei minha inocência sentimentalóide e assumi o prejuízo. Dias se passaram e recebo uma ligação dele (através de um amigo), estava no sul do país e viria a SP, queria me ver, devolver o relógio. Hesitei, não queria mais vê-lo, que ficasse com as horas que me roubara, as marcasse no objeto furtado mas, resquícios do amor falaram mais alto e cedi marcando dia e hora para encontrá-lo e tentar por senso em naquela comédia toda errada.

Fui ao encontro, não avisei aos amigos que o veria a pedido dele mesmo pois lhe dissera que lhe poriam a ferros se o vissem. Nos encontramos em Santana, rapidamente, não me lembro se houve alguma explicação, se houve a sublimei com o fato de que não teríamos mais nada. Acho que houve um pedido de desculpas, o relógio me foi devolvido e antes de nos despedirmos lembro-me de lhe ter dito que o gostava demais.

Acho que ele também pois seu ar era de devastação, não precisava ser surdo para fazer o silencio que seguiu. Ele foi embora e eu segui meu rumo, acabei falando aos amigos enganados que o vira o que serviu apenas para cortar nossos laços já frágeis, não acreditaram ou aceitarem que não os tivesse avisado sobre o encontro.

Nunca mais o vi.





16 de dez. de 2020

até que ela nos separe...ou una a todos...

 



Mais dia, ou menos dele, vamos todos bater as contas com a ceifadora. Fato.


É de nossa cultura, genético arrisco, vendermos tudo e todos a quem for para nos comprar aqui mais algumas horas, unhas e dentes atracados a isso que chamamos vida, essa bosta colorida que nos cega os sentidos e empanturra mais e mais e, mesmo assim, não fechamos a boca nem fazemos menção de largar o prato ainda que este possa se mostrar vazio ou, se você é desses, meio cheio, tomarnocu, viu?


Nem eu quero sair dessa pra melhor, meu chapa! E olha que nem creio assim nos portões de San Pietro ou nas labaredas sem fim de Mefistófeles ainda que acredite em conceitos meio que vagos de bem/mal. Mas, o peso que a morte nos faz carregar é demasiado, vai longe mesmo do valor da vida e nos faz esquecê-lo pensando apenas na hora final seja de forma direta ou indireta.


Trabalho quase utópico esse de nos fazer encarar a hora ruim com mais tranquilidade e adotar o fim como parte do começo mas, um dia há que se conseguir. Eu tento cá, do meu jeito, uns dias mais, outros menos e vou levando assim sabendo que cada dia deixado para trás e mais a frente para me deixar frente a frente com a juíza final. Nem sei como vou lhe olhar nos olhos descarnados, mais um problema, pintamos a morte de forma sempre horrenda e grotesca, embutimos medo em sua concepção e imagem sendo que nem mesmo temos como saber como ela é, se é e como vem nos buscar mas, como ante o desconhecido e mais fácil satanizar do que harmonizar, vamos indo aí com esse medo genético e hereditário de morar a sete palmos nesse último latifúndio (a parte que nos cabe de fato, ninguém tasca!).


Sempre fui avesso aos rituais mortuários, velórios e afins sempre me pareceram um séquito de sofrimento engajado em lhe fazer não esquecer a dor e não lhe deixar esquecer de seu destino certo mas, como todo resto de nossas vidas, é uma fase e como tal precisa de seus ritos de passagem e assimilação coisa que estamos paulatinamente ‘matando’ (não resisti) quando cremamos os corpos de forma rápida ou os enterramos com cada vez mais celeridade, impessoalidade e de forma a acabar com tudo aquilo o quanto antes o que é compreensível pois queremos é mesmo escapar da dor o mais breve possível.


Não podemos ignorar a morte mas, podemos meio que apagar sua passagem e deixá-la com área de parte da paisagem urbana desonerando seu caráter definitivo. Assim, cremamos os corpos para não termos mais que ir aos cemitérios nos lembrar menos dos mortos e mais de que nós mesmos vamos estar ali um dia, fazemos túmulos planos, esteticamente modernos e que mais parecem lajotas em um calçadão do que jazigos grandiosos, vá lá, opulência pura para deixar claro que nem a morte pode quebrar a diferença de classes mas, deixamos tudo com um grau de asceticismo que beira o esquecimento.


Nossa memória dos mortos vai, no máximo, até o sétimo dia e o que antes era prática comum, hoje se limita a uma pequena parte do jornal onde se pode ler as odes ao que se foram, costume antigo e, creio que, ainda perpetuado por um pequeno numero de pessoas ainda apegadas às tradições mais clássicas, desconsidero o que se faz como homenagem póstuma em redes sociais, acho macabro pois fica lá é pra sempre, como se o morto pudesse curtir ou comentar de um facebook do além, cruz credo! Ao menos no jornal é naquele dia e pronto, acabou!


Antes, velava-se os defuntos em casa pois eram familiares e lugar deles é em casa, onde todos se reuniam para prestar as ultima homenagens ao falecido e acabava mesmo com ares de festa mortuária o que entendo ser legal pois antes comemorar o que houve de bom com aquele que se foi do que lamentar sua agora eterna ausência fazendo da vida dos que ficam um inferno oco e sem gosto. Claro, fácil falar, fazer é que são elas mas, enfim, apressamos tudo na vida sem saber que isso só nos põe mais próximo das mãos da morte e acabamos assim apressando ela em seu rituais para que passe logo e possamos colocar terra sobre ela, abafando os sentimentos apenas para cobri-los depois com camadas e mais camadas de antidepressivos.


Lidar com a morte, clichê, faz parte da vida, seu moço! Esse ritual todo, ainda que doloroso pois nos arrancou alguém que gostávamos, precisa ter seu tempo respeitado e processado de acordo, sem pressa, sem velocidade para que acabe logo, fuga dos momentos ruins como se vida fosse feita apenas de momentos doces. Do jeito que a coisa vai, acabaremos tendo é a morte sem os mortos.


Não quero morrer que não sou tatu mas, quando vier a hora, quero mais é que os que ficam façam uma festa e bebam meu corpo oco, festejam o que vivemos juntos e não o que não viveremos mais, quero sim os choros dos que me amam mas não pela minha ausência e sim pela doce lembrança de que passei por suas vidas, as marquei de alguma forma e os fiz feliz ainda que por míseros segundos.


Façam isso por mim, eu mesmo estarei é morto e disso tudo pouco vou aproveitar mesmo.


15 de dez. de 2020

do que se pode ou não tocar e sentir (as mesmas coisas?)

 



Existem coisas palpáveis, tangíveis, possíveis, comungando realidade ainda que esta seja algo por demais subjetiva posto que cada um a experimenta com base em seus próprios valores, bagagem, vivencia, sentido e sentimento (não confundir); o real daqui pode ser imaginário aí e vale o oposto, oxalá fossemos todos menos real e mais onírico, feitos de pó de estrela, luz morta-viva de uma galáxia distante, renascida em cada gene mudo que não grita por não deixarmos que o faça e assim, abrir as portas de um mundo mais de gente e menos pseudo-pessoas.

E existe isso, essa coisa cegamudasurda que descarece desses sentidos cinco para fazer-se aqui, algo maior e que depende tanto de atos menores, simples, ínfimos, micro, nano. Mas ímãs que somos, ao invés de grudar o que presta, atuamos nos polos opostos afastando o que se deve e aproximando o que não presta, sina certa da raça, buscar o que sempre esteve na mão achando-o anos-luz distante apenas para na hora sem volta arreganhar bocas e olhos para a verdade quando ela ri de nossa cara ante o tempo perdido.

Mudar? Fácil demais, sim, é, basta pouco, um gesto, um ato(mo), um segundo, milésimo, um oi, olá, te amo, saudades e quero te ver e, um pouco mais de esforço, nada demais, só um pouco mais de boa vontade, de querer mesmo, e essas palavras tomam carne, membros e troncos, abraços, beijos, mãos e olhos. Então, sugiro que no ano próximo que de novo só tem o nome, façamos por merecer essas palavras em vida, em hóstia sacramentada, louvada, transubstanciada, metafisicadeada, empurrando goela abaixo de alguns dos 365 dias modorrentos que seguirão a certeza de que amamos quem nos ama e que desejamos mais proximidade dos que estimamos.

Deixemos as palavras para os léxicos, para os políticos, para as novelas e para nós escritores que sabemos seu real valor, que elas sejam veiculo de trazer para cá, para dentro, para os (a)braços seus, meus, nossos e vossos que são amigos amados e que as lembranças trazem cada vez que conclamadas um gosto doce na boca, um ar novo ao sangue, um olhar de dias melhores, de tempos mais lindos, mais de tudo ainda que seja do mesmo se esse mesmo for com as pessoas certas; não é tédio, nem aborrecido quando à volta estamos com quem conta.

Saiamos mais de nossos trinômios ou equações sem solução para buscar um no outro o ‘x’ da questão, em nós mesmos pouco resolve se a adição depende de mais um e nunca menos um ainda que preciso é ser inteiro mas esse inteiro só faz ser quando agregado aos demais. Por isso mesmo quero mais de todos vocês no ano que vem, vem vindo, chegando, sorrateiro, matreiro, esperto, de faca na mão para dar o golpe de misericórdia no agonizante, cansado, de guerra e nós de batalha.

Prometer? Nunca, não vou pois promessa é divida e dessas já estou cheio das que nunca paguei mas, fica o esforço cimentado de que arrancarei a pele dos ossos para ser mais a vocês e que vocês sejam mais a mim, sem cobrar nada que amizade não é agiota nem cheque especial ou cartão. Tudo se vai de uma forma muito fácil e rápida, meus caros, olho para o lado e vejo gente que não é mais ou que foi um dia e hoje é menos que uma sombra platonesca na vida enquanto eu, do lado de cá da caverna, não sei como trazer de volta para a vida iluminada aqui fora e, nesses momentos, em fato, não há que se fazer muito além de estender a mão, ombro e dar a quem precisa paciência, amor, um afago e aquele sorriso legendado ‘eu sei, eu sei’.

Fantoches de nós mesmos, cortemos as cordas e apontando o dedo ao pupeteiro feito aquele passarinho gritemos ‘Nunca mais!’. Antes que a terra e o universo nos repossua, sejamos felizes, é simples, fácil, nada custa e nem dá assim tanto trabalho, nós é que gostamos de complicar.

14 de dez. de 2020

d(ê) passagem

 


A viagem é feita de tempo onde os caminhos se cruzam de forma que nos parece aleatória mas, em verdade, tecem tramas delicadas entre nossas vidas engendrando momentos que perduram em sorrisos leves e olhares vagos, daqueles perdidos ao longe na ânsia de trazer de volta aquele tesouro que foi e que vive apenas mornamente acolhido em nossas lembranças.


Talvez o alicerce seja feito dos sonhos que morreram, não dos que nem mesmo deram o primeiro ar no mundo, mas daqueles que o fizeram e feito chama mágica arderam numa supernova, os melhores pois a beleza decaí e restam apenas os cacos para rememorar seus feitos gloriosos. Passamos o resto e o fim da vida tentando colar de volta esses pequenos pedaços de luz, vã tentativa de recompor o caleidoscópio original, ficamos mirando luzes distorcidas tentando identificar nelas aquele amor há tanto ido, aqueles dias perfeitos, aqueles momentos saídos do forno.


Não, esses que ardem vezes mais forte e se consomem em menos da metade do tempo são os que efetivamente deixam as marcas, as rugas, as cicatrizes que mesmo depois de curadas ainda formigam emulando o ferimento original. Se temos algo que deve fenecer são esses sonhos, melhor que vê-los viver para tornarem-se paródias de si e de nós, velemos então esses mortos e os bebamos, que a angústia não seja de perdê-los, mas de tê-los sentido tanto e, sob a pele, ter-nos imiscuído deles.


Eu temo o meu caminho, principalmente quando me desvio dele não por medo de me perder, mas pela sensação apavorante de conhecer outros, onde poderiam me levar e retornar ao meu velho conhecido eu sentindo que seus buracos são mais fundos do que pensei e pior, foram cavados por mim. A insatisfação gerada gesta em meu ventre alimentada pelos lenitivos artificiais, até quando, eu não sei.


Quando voltei ao meu caminho hoje, havia um mal-estar, uma sensação ruim e percebi que havia enterrado parte de meus sonhos, entristeci e ainda me encontro, julgo, velando, mas de rabo de olho eu vejo que o rei morto já possui a seu lado rei posto, aguardando respeitosamente que se desça ao solo o falecido para sentar em mim feito trono e demandar que faça o que devo fazer, seja o que tenho de ser e siga onde devo ir.


E então, aquele sorriso delicado que falei no começo aparece, converte o choro de triste em saudoso e move meus olhos para o horizonte, aquele lugar que insiste em me enviar sonhos e mais sonhos reis, queira eu ou não.


Nesse quesito meu querer vale quase nada, me resta ser súdito, fazer reverência e dizer 'Amém!'.

11 de dez. de 2020

só por hoje...

 



Só por hoje quero que você me respeite.

Quero que não faça aquelas piadinhas sem graça e estúpidas sobre gays, que não use o diminutivo para enfatizar inferioridade ou fraqueza, que não me associe aos estereótipos distorcidos que a sociedade e a mídia não cansam de reforçar todos os dias.

Quero que você deixe de lado sua religião e me trate realmente como seu irmão, que você não use a palavra opção pois não optei por nada sou assim desde o útero, desde sempre. Quero que você pare de me odiar e por vinte e quatro horas ao menos tente me amar, quero que você pare de me julgar e passe a me apoiar, quero que você para de me agredir e passe a me abraçar, quero que você me trate como gostaria de ser tratado.

Quero que você abra sua mente e seu coração para a verdade universal de que somos tão pequenos e tão raros que nada justifica gastarmos o pouco tempo que temos demolindo um ao outro, caçando um ao outro, denegrindo um ao outro, matando um ao outro. Apenas por um dia poderíamos tentar viver em paz.

Quero que você abrace a diferença e esqueça a igualdade, não somos iguais, jamais seremos e isso é bom, é saudável e devemos celebrar. Não afaste de si o que não entende pois já entendemos tão pouco, não feche as portas na cara da vida, não promova uma linha reta quando somos feitos de caminhos tortuosos que se cruzam inúmeras vezes, seguir assim é solitário e nenhum de nós foi feito para andar sozinho.

Quero que você enxergue além das cores do arco-íris, entre as sete cores existem tantos outros tons que fogem a nossa percepção, tantos amores que escapam nossa afeição, o olho humano foi condicionado a não perceber tudo isso mas nosso espírito possui sim essa capacidade, nós apenas o deixamos nas sombras brincando com chamas bruxuleantes, a luz cega e machuca mas se a deixamos entrar não restará um canto que ela não banhe e traga para si.

Quero que você me dê sua mão, não precisa dizer nada, basta me dar a mão e me olhar nos olhos, eu entenderei. Quero que você veja além do sexo e de sua expressão, que não deixe a carne ditar como tratar esse irmão, que não deixe o leito ser a moeda que define nossa transação, que não deixe a genitália dizer o que deve fazer o coração, que entenda que meu sangue tem o mesmo tom vermelho que o seu e meus cortes sangram exatamente como os que lhe farão.

Quero que você tenha orgulho por ser meu amigo, meu pai, minha mãe, meu irmão, por trabalhar comigo, por estudar comigo, por estar ao meu lado, por viver comigo, por respirar o mesmo ar, por bebermos a mesma água, por estarmos aqui e agora onde tudo é possível e tudo pode acontecer, que chance de fazermos o bem e sermos mais de nós mesmos e podermos olhar um para o outro e saber que está tudo bem, que o futuro é um campo aberto e as sementes estão em nossas mãos.

Só por hoje, que me diz? Vamos tentar com afinco, são apenas vinte e quatro horas, passa rápido e quem sabe amanhã você pode querer mais vinte e quatro e depois disso mais outras vinte e quatro até não precisemos mais dos relógios para medir o tempo que precisamos nos amar, entender e respeitar.

Mas se não der, tudo bem, eu entendo, não se preocupe. Guardarei comigo estas vinte e quatro horas com carinho confiante de que um dia poderemos usá-las de novo.

10 de dez. de 2020

sou gay mas de família de bem

 





Lendo isto aqui me fez pensar nos gays conservadores, quem são, de onde vem, como vivem, se reproduzem.

Não que os homossexuais (ou qualquer pessoa LGBTQ) não possam identificar-se ou simpatizar com ideias e modelos conservadores, da mesma forma que o amor deve ser livre, as expressões e afinidades políticas também devem ser porem o apoio a políticos conservadores como Bolsonaro e afins só consigo digerir e chegar a algum tipo de entendimento se pressupor que essa pessoa LGBT possui sérios problemas de aceitação quanto a sua orientação sexual e/ou identidade de gênero ou então sofrer de severos distúrbios psíquicos.

Insisto em dizer que não acho errado ou condenável uma pessoa LGBT ‘de direita’ ou conservadora mesmo que, pessoalmente, entenda esse tipo de atitude como no mínimo contraditória, pois a população LGBT possui ideais e história completamente diletantes dos movimentos conservadores os quais sempre trataram a estes como minoria que deve ser mantida sob o mais rígido controle e, em sendo possível, afastado do convívio social seja ela familiar ou como beneficiário de politicas sociais inclusivas e aplicáveis ao resto da sociedade e população.

Aparentemente, estes ‘gays conservadores’ enxergam neste tipo de político pessoas corretas, honestas e de retidão moral considerando o movimento LGBT como extremistas e dispostos apenas à promiscuidade, lascívia e imposição de seu ‘modo de vida’ a todas as camadas da sociedade, ou seja, trocaram as bolas e confundem moral com política o que é receita certa para desandar qualquer coisa.

Alguns desses ‘conservadores’ atestam mesmo que a vida sexual de cada um é assunto que deve ficar restrito a alcova e não discutido abertamente o que é, lamento dizer, o mesmo que devolver ao armário e trancar a sete chaves tudo que os movimentos LGBT lograram conquistar sem falar no fato lamentável de que isolar a sexualidade deixando-a restrita ao foro íntimo é viver uma mentira, um engodo, uma farsa no melhor estilo ‘não pergunte, não fale’ como se fosse simplesmente ligar/desligar uma chave.

Entendo isto (e esta é minha opinião, fique à vontade para discordar) como um estado de negação absoluta. Como podemos tratar a sexualidade humana compartimentalizando a ela quando é parte integrante do que somos e vivemos? Ou somos LGBT apenas em alguns momentos, em alguns lugares e dentro de nossos quartos? Isso não é liberdade, é escravidão e não aceitação da sexualidade com a qual nascemos, é empoderar esses políticos que já deixaram inúmeras vezes explícitas suas opiniões sobre a população LGBT e não adianta argumentar que eles se retrataram (o que não tenho conhecimento de ter efetivamente ocorrido e, se ocorreu, não foi por constatar o absurdo que fez mas muito provavelmente forçado por alguma ação judicial pairando sob suas cabeças) pois não se trata de ter cometido um erro ou deslize mas pessoas que trataram o que somos como escória, doença e lixo social.

Ainda na mesma reportagem, esses mesmos apoiadores dizem que se identificam com estes políticos pois eles os tratam como ‘normais’, acho que aí temos algo importante a ser considerado, essa necessidade de ser tratado como normal, será que essas pessoas ainda entendem sua orientação sexual como algo nocivo e que não deve ser vivido em sua plenitude? Ainda estariam buscando encaixar-se no que a sociedade entende e aceita como normal? Engraçado como a palavra promiscuidade é usada no texto, quase com nojo e como se essa fosse a única qualidade que se possa identificar com os LGBT e que é sim um trunfo nosso pois onde leem promiscuidade (que não é direito reservado dos LGBT, tenha certeza) deveriam ler liberdade sexual. Nós LGBT sempre soubemos viver de forma muito mais livre, descomplicada e vívida nossa vida sexual e sexualidade e isso é extremamente agressivo e transgressor aos olhos da sociedade pois a liberdade sexual implica numa subversão de uma ordem normativa e previamente estabelecida com séculos de reforço religioso e social dificílimos de quebrar.

É triste que nos tempos em que vivemos, quando tantos avanços importantes para a população LGBT dançam na corda bamba, ver pessoas que parecem simplesmente ter congelado no tempo e completamente cegas para o perigo que não apenas os direitos civis LGBT correm, mas todos os direitos e liberdades em si ante a teocracia que se acerca de todos nós cada vez mais a cada dia. A solução não é, em busca de um horizonte mais tranquilo, jogar nas mãos de factoides e vomitadores de discurso de ódio disfarçado de moral e bons costumes o futuro de nossa sociedade mas de entendermos que essas pessoas são oportunistas sem agenda que estão ocupando o vácuo politico que vivemos acenando como salvadores da pátria.

Seria muito bom neste momento se todos nós déssemos uma olhadela para trás na história e quem sabe pedir conselho ao povo alemão que deve estar lamentando profundamente esse péssimo hábito da história em se repetir.

lembranças aleatórias não relacionadas com a infância

Lembrança #10 Lembro de uma festa ou rave ou balada que eu ajudei um amigo a organizar num tipo de sítio eu acho. Estava separado do meu nam...