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19 de jan. de 2021

francisco o lobisomem

 



francisco o lobisomem andava acabrunhado, estranho e não pelo fato de ser um lobisomem o que poderia ser considerado estranho mas já não era considerado estranho há tempos porque lobisomem nem era assim algo de meter medo quando tem coisa bem pior que lobisomem no mundo.

francisco o lobisomem andava assim porque já fazia muito tempo que sua transmutação em lobo não seguia mais um padrão, um ritmo, um calendário, uma expectativa. ele se lembrava de quando podia marcar na folhinha os dias em que o lobo uivaria dentro dele rasgando tudo por dentro para sair mas agora, ele não conseguia mais saber direito quando isso ia acontecer e isso lhe causava muitos problemas.

francisco o lobisomem não conseguia mais saber ao certo quando a lua seria cheia, ou porque o céu assim não o permitia de tão nublado e cinza, ou porque diziam que a distância da terra a lua mudara com o passar do tempo, ou porque a terra era plana e ele não entendia onde a lua iria aparecer, ou porque estavam colocando gente na lua, ou porque tinha tanto satélite ao redor da terra que a lua ficava meio perdida e ele também sem saber quando exatamente deixaria de ser homem para virar lobo se bem que hoje em dia parece tudo a mesma coisa, até mais lobo do que homem e ele se perguntava às vezes se não haveriam lobos que viravam homens num tipo de maldição ao contrário, tinha dó dos lobos que eram criaturas gentis mesmo com ele que não era um lobo de verdade só ocasionalmente.

francisco o lobisomem lembrou de uma vez que lobo, encontrou outros lobos que não erma homens que viravam lobos mas lobos mesmo que eram lobos desde lobos eram lobos e não havia essa coisa de homem virar lobo. lhe disseram que andava difícil ser lobo, a competição humana era forte e ser lobo quando o lobo-homem era o inimigo fazia ser lobo algo quase impossível e ele perguntou se eles conheciam outros lobisomens e eles disseram que sim mas que eram poucos porque até lobisomens andavam minguando, não era mais bom ser lobo que dizer lobisomem e tinha lobo que não gostava de lobisomem e tinha homem que não gostava de lobo nem de lobisomem e tinha quem não gostasse de nada e queria todos mortos.

francisco o lobisomem andava então assim meio entristecido e passava algumas vergonhas porque, incapaz de saber ao certo quando viraria o lobo que era o home do lobo do homem lobo, já se transmutara em locais pouco recomendados como a vez em que ele no coletivo que o levava de volta para a casa depois de um dia de trabalho noturno, sim porque lobisomem vive só de matança nos filmes e livros, na vida real ele tem de trabalhar para pagar as contas como qualquer outra criatura folclórica, e, sem saber que a lua ia cheia feito uma barriga cheia de vermes, transmutou-se ali dentro do ônibus mesmo mas, ninguém deu fé dos pedaços de carne e sangue caindo e da besta saindo de dentro de si, ele uivou e alguém reclamou por silêncio no meio do transporte lotado, reclamaram também da sujeira que ele fazia, se fosse virar bicho que descesse e virasse do lado de fora, envergonhado, desceu no próximo ponto de foi lá concluir sua transmutação em paz.

francisco o lobisomem maldizia não o fato de ser lobisomem mas o fato de passar vergonhas por isso como naquela vez em que ele, em lobo, foi prego pelo controle de zoonoses e só não foi sacrificado porque no dia seguinte, encontraram homem e não lobo na gaiola onde estava e, confusos, deixaram ele ir embora crentes de que haviam sido pegos em algum tipo de pegadinha entre colegas.

francisco o lobisomem também tinha problemas com vacinas porque, além das humanas, todo ano tinha um problema sério em explicar no posto porque precisava da vacina que só era dada em animais, uma vez disse que precisava porque era lobisomem e quase foi trancafiado por estar doido ou drogado.

francisco o lobisomem seguia assim sua vida até que um dia, sem poder ver a lua ou saber sua fase, transmutou-se quando passava em frente um circo e o dono viu e o pegou ainda lobo e levou como atração para o circo de lonas remendadas, animais abatidos, palhaços borrados e músicas riscadas. de princípio foi difícil explicar ao homem que o lobo só saía quando a lua vinha cheia, o homem queria o lobo todas as noites mas deu-se por vencido quando viu que só naquelas noites o lobo vencia o homem mas, o homem que queria o lobo mesmo assim manteve o lobo que vivia no homem porque esse lobo rendia um bom dinheiro até que um dia, o lobo que saía do homem deixou de ser novidade porque o homem que queria o lobo dentro do homem achou outros lobos mais interessantes e aquele que só virava lobo na lua cheia já não servia para mais nada.

francisco o lobisomem foi visto pela última vez nalgum lugar do país, todo lobo pelo que se diz, não era mais homem, cansara, era só lobo e há quem diga que se pode ouvir seu uivo cantado em noites de lua cheia e silêncio absoluto.

15 de jan. de 2021

ernesto o vampiro

 


ernesto o vampiro acordou atrasado pois na falta de caixão ou cova ou ataúde ou seja o que for, acabou dormindo numa estação de metrô e dormiu pouco porque a estação ia cheia o dia todo e ele não dormiu direito com aquela gente toda indo para cima e para baixo e com aquele cheiro de gente que ele gostava mas que para dormir lhe atrapalhava demais.

ernesto o vampiro acordou com fome e tentou jantar uma mulher que ia cheia de sacolas mas a mulher quando o pescoço já lhe estava nos dentes gritou e ele pensou que fosse com ele a lhe querer o sangue mas era com outro que pelo jeito havia lhe passado a mão e ernesto foi empurrado e só ficou vendo a gritaria que parou o vagão.

ernesto o vampiro tentou então um jovem que estava encostado na porta com fones de ouvido e ar distante e que o olhou nos olhos e ele olhou de volta e achou que tinha mesmerizado a vítima mas ela piscava para ele e erneste o vampiro ficoi sem saber se era um tique nervoso ou o que e a vítima passava os lábios pela língua e ele tinha fome mas aquilo o assustou e a vítima mostrava a língua como sedenta e ele ficou com receio e achou melhor se afastar.

ernesto o vampiro tentou uma velha que se cercava de sacolas e um carrinho e que parecia estar cimentada no assento do trem e foi se chegando se chegando se chegando e ele não gostava de sangue velho mas tem horas que não dá para ter luxo e quando já se acercava da velha viu um fio de ranho a lhe escorrer do nariz e ficou com nojo porque vampiro ele até podia ser mas aquilo era demais até para um vampiro.

ernesto o vampiro viu então um homem alto grande forte mais ao fundo do trem que lhe abriu as narinas com cheiro de sangue quente forte viril e flutuou até o homem quer dizer não flutuou porque estava cheio demais então ele foi esbarrando nas pessoas que o xingavam até chegar perto do homem cujo cheiro de sangue testosterona o deixou babando isso era uma refeição digna mas, quando ernesto o vampiro ia dar o bote o homem o segurou pelo pescoço chamou de viado e atirou longe dizendo que o mundo estava assim perdido e apertando o membro dizendo que se ele quisesse aquilo teria de morrer primeiro e ernesto ainda fraco sem ter comido achou melhor deixar para lá.

ernesto o vampiro viu então uma garotinha sentada ao lado da mãe que dormia com ar de uma exaustão que ele vampiro jamais vira e, ainda que tivesse restrições quanto a alimentar-se de crianças, a fome apertava então foi para cima da menina que antes de que ele pudesse lhe cravar os dentes sacou o celular e tirou várias fotos com flash assustando o mortovivo que fugiu estabanado.

ernesto o vampiro já sentia o estômago morto mas vivo nas costas mortas vivas e precisava de sangue mas não conseguia morder ninguém ali, bons tempos em que um vampiro podia se alimentar sem medo, sem passar vexames como esse de agora, em que vampiros eram vistos como figuras míticas místicas e românticas com a dádiva da vida eterna.

ernesto o vampiro já estava quase seco quando tocou uma campainha e o povo todo se alvoroçou para sair e ele estava no meio e as pessoas estavam nervosas e ele no caminho e era um empurra empurra e ernesto o vampiro não conseguia sair dali e tentou usar seus poderes mas estava por demais fraco e as pessoas bravas e famintas e ele sendo levado pela turba e foi pisoteado e virou um tipo de massa vampírica amorfa no chão do trem e as pessoas sentiram o cheiro de sangue fresco e se foram ao chão e devoraram tudo um dia havia sido ernesto o vampiro e depois saíram e foram seguir com suas vidas satisfeitas e felizes e de veias cheias.

nunca mais se ouviu falar de ernesto o vampiro....


23 de set. de 2020

maria vai com as outras

 


maria não ia mas acabou indo, maria foi com as outras, queria ir, ficar é que não ia, maria foi, com as outras porque com as outras tudo bem, se fosse com ela não queria mas com as outras foi para a rua, noite fria, céu escuro, maria não queria céu claro mas também não precisava estar tão escuro, maria gosta de ir com as outras porque assim tem com quem conversar, fumar um cigarro, tomar uma cerveja, bater uma carreira, fumar um beque, maria com as outras está segura, de si, de tudo, de todos, na rua tem de ser com as outras, se for sozinha maria vai e pode não voltar.

maria na rua com as outras, o céu um breu tipo buraco no fundo da terra, lembrou do poço na casa onde morou criança, fundo, escuro, sem cor, diziam que lá viviam as crianças que não se comportavam, maria não ia com essas crianças, medo, respeito, os dois, maria só ia com quem a mãe deixava, quando não ia, a mãe ameaçava com o poço, sem falar palavra, só apontava e maria prometia que nunca mais ia com as outras.

maria com as outras ia bem, já tinha ido sozinha mas não gostou, teve homem que não quis lhe devolver, teve homem que não quis lhe pagar, teve homem que lhe bateu, sozinha não tinha como mas indo com as outras, ela contava e apontava e as amigas davam um jeito no homem, nunca mais voltava então maria sempre ia com as outras porque elas iam com ela, não de cara mas depois sim.

maria olhou de novo para o céu, escuro demais gente, nem estrela, nem lua, nem nada, a luz da rua só e olhe lá, os carros passando e ela com medo de olhar para dentro deles sem ter o céu como testemunha, as amigas ocupadas só olhavam quando ela pedia, lembrou da casa de novo, do homem da casa que devia ser o pai, ou não era, era homem, homem não é pai nem nada, é só homem e homem só quer ser homem e ela mulher, a mãe também mas o homem da casa queria ela e a mãe brigou mas o homem brigou mais forte e mãe se calou num sangue escuro que brotou do nada e o homem fez maria ir com ele, sem as outras, sem a mãe, sem ninguém, só eles e depois, maria não quis mais com ninguém e a mãe não queria mais ir com maria e nem lhe ameaçava com o poço e maria ficou sem ir por muito tempo até um dia ela não sangrou e a mãe não quis ir com ela e o homem da casa não quis ir também e ambos fizeram ela ir com outras porque ali não era casa de maria.

maria foi, sofreu, perdeu sangue e uma coisa que saiu de si, maria foi com as outras sem saber quem era, o poço de casa a lhe seguir na memória e aos poucos ficando esquecido porque poço sem fundo mesmo é a vida, é ir com as outras que não tem poço, não tem fundo, não tem onde ir a não ser com as outras. maria se achou com as outras, aos poucos, foi indo com elas e acabou ficando com as outras, teve dores, teve amores, teve sangue, teve briga mas ela nunca deixou de ir com as outras porque elas eram agora suas amigas, sua família, sem elas, maria não tinha para onde ir.

maria ficou ali vendo os carros passando, o céu um poço, em cima dela, de sua cabeça, aa rua iluminada amarela, fria, carros passando quentes, as outras indo e voltando e ela sem ir ainda, maria ia com as outras às vezes, quando chamavam mas não gostava, gostava de ir sozinha, de ir com as outras só quando não era trabalho ou quando era preciso para fazer a féria do dia.

maria olhava para o céu escuro demais, as outras chamavam sua atenção para os carros, olhar o céu é coisa de doido ou namorados e elas não eram nem um, nem outro, maria tinha de prestar atenção ou as outras não iam mais querer que ela fosse junto, atrapalhava.

maria sentiu o céu mais escuro ainda, disse a uma amiga que o céu estava muito escuro, demais da conta mas a amiga não lhe deu atenção. maria achou que o céu estava ficando cada vez mais escuro, como se isso fosse possível e que ele estava engolindo toda a luza da rua, as amigas fizeram cara de pouco caso, a luz da rua fraca iluminava mal e porcamente a calçada onde estavam, os carros passavam com farol baixo e elas iam.

maria estava assustada, queria ir embora mas as amigas não iam, ela iria sem as outras, as outras disseram que era melhor antes que ela estragasse a noite de todas mas ela teria de fazer dobrado na noite seguinte, maria disse que sim, que faria mas queria ir embora e foi, a noite um breu que nem o início do mundo conheceu.

noite seguinte maria não foi com as outras. perguntaram por maria mas ninguém lhe sabia o paradeiro. maria não foi com as outras, ficaram procurando por maria, nada, buscaram por maria, nada, maria tinha morrido, nada, maria tinha se ajeitado, nada, maria dera golpe, nada, maria não foi mais com as outras, ninguém soube mais de maria mas depois disso, todas as noites foram muito claras, quase dia, as outras achavam bom, noite de breu, de poço, nunca era bom sinal...

lembranças aleatórias não relacionadas com a infância

Lembrança #10 Lembro de uma festa ou rave ou balada que eu ajudei um amigo a organizar num tipo de sítio eu acho. Estava separado do meu nam...