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10 de mai. de 2022

quem tem medo das gays?

 


Um político reaça escroto, misógino, que não goza e não quer que outros gozem, fechou o MUSEU DA DIVERSIDADE.

Não vou citar nome pra não dar palanque para esse tipo de lixo mas, não é de surpreender afinal, no Brasil Pátria Amada de hoje, ser bixa ou qualquer outra letra que nos identifique é crime inafiançável e motivo para perseguição e humilhação.

Não que antes não fosse mas agora, com a chancela do miliciano e sua família, pode descer a lenha nas gays afinal, quer ser bixa vá ser no seu canto sem pedir direitos ou usar o dinheiro público para pouca vergonha como se as bixas não pagassem impostos também ou não fossem portadoras de RG e CPF.

O apagamento nosso é desde sempre e não restrito ao Brazil, todos sabemos porque sempre fomos jogados para a margem quando não simplesmente erradicados do mundo feito algum tipo de praga então, fechar um museu que fale de nossa história e memória não é novidade, a memória é heterossexual, religiosa e do bem, bixa não pode ter memória, só uma vaga lembrança, não precisa de museu porque bixa não te história, só doença e vergonha e ameaça as criancinhas com suas ideologias.

Mas vai ser difícil nos apagar porque sem nós, vocês não teriam muita coisa. Não teriam um senso de liberdade inovador, não teriam liberdade sexual, não teriam computadores, não teriam livros, não teriam arte, não teriam história, não gozariam porque a gente sabe você pai de família adora sair com as bixas para dar vazão aos seus desejos mais recônditos, não teriam humor, não teriam cores, não teriam palavras, não teriam feriado, não teriam moda, não teriam serviços essenciais porque sim, as bixas estão lá, não teriam modelos, não teriam graça, não teriam vida.

Vocês podem fechar o nosso museu mas JAMAIS fecharão a nossa MEMÓRIA!

PS: Mas de tudo isso, o que dói mais é saber que muitos de nós não valorizam e não reconhecem a nossa história então, procure conhecer! Se hoje temos alguns direitos é devido a gigantes que do alto de seus temores desafiaram o status quo para que estejamos onde estamos, eles estão aqui ainda, alguns, outros só pelos livros, estude sua história!)

16 de nov. de 2021

harder. better. faster.

 



Ser gay pode ser maravilhoso na maioria da vezes (e realmente é), desfrutamos de uma liberdade ímpar quando comparados aos padrões normativos de relacionamentos sexuais e afetivos e possuímos uma visão de mundo única que nos permite lidar com as adversidades de uma forma, digamos, menos pesada do que a maioria das pessoas o que, se não é uma regra, é uma grande vantagem.

Somos livres (quase todos ao menos) dos ditames de moral e costumes que corroem a sociedade normativa até a medula e estamos sim remodelando como amar, transar, viver e conviver, é um movimento sem volta mesmo porque, ainda que ao nosso redor existam aqueles que desejam andar para trás ou nem mesmo andar, a evolução só tem uma direção e é para frente então, não adianta reclamar, melhor aceitar o novo porque ele sempre vem e o velho deve ser guardado feito doce memória onde esse novo nasceu.

Sinto orgulho de fazer parte de um tempo em que tantas coisas estão em cheque, questionadas, revistas, remodeladas, reposicionadas, atualizadas para refletir um hoje que não cabe mais em regras tão mortas e, modéstia parte, acho que consigo acompanhar até razoavelmente a velocidade de mudança, já fui um pensamento antigo e modelado pelos padrões em que fui criado assim como boa parte de nós o foi, não há culpa a ser atribuída ou dedo a ser apontado porque somos, além de criações de nós mesmos, produtos do meio no qual estamos inseridos então, se você consegue manter-se atualizado isso é uma vantagem imensa e não digo isso como algum tipo de febre incansável de busca pelo novo que o tempo vai construindo em nós conforme vamos saindo da curva mas como uma necessidade de manter-se dentro do mundo e não fechado em nossos mundos que é receita certa para morrer lentamente.

Mas, ao mesmo tempo, sinto que na comunidade gay (ao menos na masculina) esses ares de progresso parecem ter estacionado décadas atrás.

Explico.

Nós gays homens cis sempre batemos no peito e falamos que a liberdade sexual era a maior conquista, poder transar sem culpa, sem medo (até onde as DSTs permitem), sem neuras e sem ter de fazer análise depois deveria ser a grande herança dos homens gays mas, acaba sendo sua maior prisão e não digo isso de forma moralista ou para cancelar o sexo casual que nós, gays, conseguimos a um clique de distância.

Ao quebrarmos essas regras de acasalamento e remover a procriação deixando o prazer do gozo por ele conquistamos uma liberdade extrema que nos livrou do jugo social imposto pela cultura e religião, excomungados felizes que somos mas adentramos num purgatório cheio de divisões e subdivisões e códigos que nos fizeram perder a essência de sermos criaturas do gozo, do prazer e, porque não dizer, hedonistas.

Essa liberdade que tanto gritamos aos ventos se esvai quando os aplicativos de sexo possuem perfis tão complexos e excludentes que mais parecem bulas de medicação tarja preta, há tantas exceções e normas que uma coisa simples como o sexo torna-se trabalho de conclusão de curso, caso de estudo e o sexo casual vira sexo programado e regrado, se não encaixar nas regras não ocorrerá e não apenas neles mas na famosa noite gay esses mesmos comportamentos seguem existindo mesmo depois de tana luta e suor e lágrimas para conquistarmos a liberdade sexual.

São regras de vestir, olhar, comportar, falar, beber e gestual que implicam numa recusa imediata do outro, dá-se block visual pois se entende que aquele perfil não atende aos requisitos ou então, banimos o outro depois de procurar seu eu on-line e ver se realmente condiz com a realidade ou seja, o eu de carne e osso sempre perderá porque o eu digital é um padrão inatingível, perfeito e imaculado, não há carne, pau ou gozo que possa se comparar.

É triste ver que mesmo de depois de tanto tempo e tanta porrada seguimos numa cultura segregacionista, digitalizada para identificar padrões e descartar o não se encaixa neles ou não atende a um mínimo de requisitos que não se sabe de onde vieram ou quem os determinou. A vida e o sexo são coisas reais, não precisamos de regras para eles, deveria bastar apenas um papo, um olhar ou química para fazer acontecer e não likes, fotos, filtros e considerações sobre aparência.

Falamos muito sobre a 'uberização' de nossa sociedade, a era do delivery e estamos realmente nela principalmente com os aplicativos de sexo e baladas dedicadas ao sexo casual e, veja bem, não quero pagar de moralista, acho válido e excelente que possamos ter todos os meios possíveis de encontrar alguém para sexo seja on-line ou em clubes de sexo, longe de mim querer impor regras para isso porque a maior liberdade que existe é poder gozar sem culpa e sem medo, apenas pelo prazer em si mas, o casual não precisa ser impessoal, descartável, somos todos humanos e temos sentimentos e necessidade de troca com outros para além de fluídos corporais.

Quando descartamos o outro apenas por não estar no perfil, porque a noite é jovem e você ainda pode conseguir algo melhor (aí no final dela bate a neura e você acaba ficando com qualquer um só para não ir embora no zero a zero), esse desuso do outro é um desuso de nós mesmos, estamos esvaziando o que há de melhor em nós e levando junto o que há de melhor no outro via tela de celular e corredores escuros de bares e clubes, não há nada ruim nisso como eu disse mas, essa troca pode ser bem mais gratificante do que alguns minutos e depois nunca mais.

Há um medo do permanente, o descartável é melhor porque não implica em laços ou responsabilidades e sempre existe o próximos perfil, essa cultura de figurinha repetida não fecha álbum deixa a todos nós como álbuns incompletos, estamos cultivando vazios e ficando cada vez mais arredios e imediatistas, precisamos do agora e do próximos, não queremos um agora prolongado porque ele demanda atenção e mais de 140 caracteres e ninguém quer ter tempo para isso, precisamos apenas do rápido porque ele atende a urgência que criamos para nós mesmos, estamos indo cada vez mais rápido e, nesse ritmo, chegaremos ao final antes do tempo, casados, exaustos, com a impressão de que vivemos muito e bem quando na verdade vivemos pouco e mal.... 

27 de jul. de 2021

vamos ser viado pra sempre

 


Em plena ditadura velada, tempo de mito, tempo de milícia, de negações, de messias falso, de família tradicional que estupra mas não mata e acaba matando, de não te estupro porque não merece, de arte censurada, de pensamento tolhido e vigiado, vamos ser viado pra sempre.

E em cadeia nacional, em evento internacional, na cara da sociedade, samba, dança, vai até o chão, desfila porque pode e desfila porque quer, deixa o povo do golpe passado e com ódio e deixa eles xingarem porque na cortada você deixa o queixo deles partido, o queixo e a mente deles são de vidro, cheios de pó de tanto que ficaram sem usar, mortos pelo capitão e seus filhos que só entendem o que é gado, pasto e Brasil verde de ódio e amarelo de medo.

Sim, sejamos todos viados pra sempre e cada vez mais viados, fico pensando na cara do mito e do seu pessoal vendo você bela, phynna, afrontosa nem aí para os olhares que te cravam, para os que intimamente querem sua morte, que odeiam estar com uma bixa representando o país, que preferiam ver você longe ou morta, bixa morta é bixa boa, será que terão coragem de te receber na volta? Capaz! Afinal, pelo andar da carruagem, eles terão pedir arrego para as bixas porque não vai sobrar mais ninguém para estender a mão e a gente, do alto de nossa bixice vai dizer na egípcia NÃO!

Então vamos ser viados pra sempre, porque sendo bixas, você sendo bixa está sendo bixa por todos nós, por todas as bixas que não podem ser bixa porque se o fizerem, morrem. Por todas baixas que por serem bixas morrem, morreram e morrerão. Por todas as bixas que não podem ser porque ser é um crime quando o Estado assim o diz. Por todas as bixas que somos porque precisamos ser bixas para fazermos sentido, não saberíamos ser de outra forma porque ser bixa é ser algo mais, o ser hétero é tão limitado e limítrofe, tão pouco, tão menos, tão sem graça, ser bixa é ser vida, é estar vida, é estar aqui e dar vida para tanta morte.

Então vai lá, seja bixa e leva nossa bixice ao limite, opa, não, esquece, bixa não tem limite, leva a gente para qualquer outro lugar que vai além então....



20 de jan. de 2021

eu não saberia dizer

 




Eu não saberia dizer resmungou meio lado como a cuspir as palavras para que elas não me caíssem na cara, as vi descendo pela boca e correndo depois pelo asfalto apressadas, pegaram um táxi que quase não parou e se foram não sei para onde.

Mas você diria, assim, se pudesse? Perguntei meio sem jeito e sem medo ou melhor, com o segundo mas disfarcei bem, era uma máscara que estava habituado a usar, segunda pele que já mais tirava fosse no banho ou para dormir, facilitava ir tocando os dias.

Se pudesse, quer dizer que não posso, não quero ou não consigo? Me deu assim essas três alternativas que para mim davam no mesmo, uma questão semântica que ali era irrelevante e fiz cara de quem assim pensava mas como era pouco, tive de juntar na boca as palavras separando a saliva que já me faltava com cuidado, era bom evitar que elas fossem vingativas já que não queriam sair de onde estavam.

E há diferença? Me traíram, acho que escorregaram na saliva e trocaram de lugar, havia pensado outras mas foi isso que saiu.

Muita e plantou ali um silêncio pra colher um pouco mais ali na frente, eu vi as sementes entrarem no solo de ninguém que existia entre nós, achei que ali já não vingava nada mas elas caíram tão bem e pude ouvi-las brotando.

Passou um ônibus já meio vazio, cansado, indo se retirar e talvez conversar com outros ônibus sobre o dia, comer e vomitar gente o dia todo não é para qualquer um. Passou um táxi, por um momento achei que eram aquelas palavras que haviam fugido mas não, estava vazio.

Passou uma avião bem lá no alto, estava meio rouco eu acho, gripe talvez, voar tão alto tem um preço imagino. Passou um casal jovem, tão juntos que pensei serem uma pessoa só, deu saudade mas passou também só que não junta como eles, foi sozinha mesmo, já andava assim há tempos.

Ouvi o silêncio brotar do chão.

Poder eu posso, conseguir qualquer um consegue já querer, isso eu não sei se quero e me fitou com ar de graça, não de graça rida mas de graça daquelas emprestada dos santos, aura, halo, santificado seja o vosso nome assim me ferra como no fel.

E pode não saber se quer? Deveria ter usado ‘sequer’, teria caído melhor.

E você sabe se quer? Ele também deveria ter usado.

Se quero deveria ter saído como pergunta num tom de reprimenda ou contestação firme mas, saiu sem entonação ou pontuação, duas palavras soltas vagando naquele espaço onde o silencia rendia frutos já podres.

Não vejo sentido, digo, nisso tudo, acho que já não temos mais o que ou como e baixou a cabeça e baixei a cabeça e baixamos as cabeças e fitamos o chão, os pés ficarem sem jeito.

Gostaria que visse, eu acho, talvez ainda haja algo mas disse sem convicção, me faltava o sangue necessário para preencher as palavras.

Aquele ali é o meu e apontou com o queixo para o ônibus que se aproximava.

Aquele ali é o meu e apontei com o queixo para coração que se distanciava.

A gente se cruza, ou não, melhor, cada um assim, você sabe, entende, eu acho e já em pé me estendeu a mão enquanto com a outra fazia sinal para que ônibus parasse, pegava um e largava outro, não sei bem qual era qual.

Sim e dei a mão que não acenava para partir. Ele subiu no ônibus sem olhar para trás e eu chamei o táxi que vinha logo atrás, não estava livre mas podia rachar a corrida, as palavras que estavam nele, aquelas, não iam sem importar nem um pouco.

14 de jan. de 2021

fobia homo 4

 



É triste termos de celebrar um dia do orgulho gay, gostaria de não precisar celebrar essa data, de simplesmente ter orgulho e não precisar reafirmar isto a cada segundo, minuto, hora, dia, semana, mês, ano.

É triste termos de celebrar orgulho quando isto deveria estar implícito e de tácita aceitação, não sendo necessária essa sensação de estarmos pedindo permissão para apenas sermos quem somos, nada mais ou menos.

É triste termos de celebrar orgulho quando há motivos de sobra para o oposto vide a quantidade de gays (em todo seu leque) que são vítimas de violência, humilhação, preconceito, injúrias, ofensas e todo sortilégio de infortúnios sem qualquer manifestação social de compadecimento, justiça ou solidariedade.

É triste termos de celebrar orgulho por uma conquista tão banal quanto casar, uma instituição falida há séculos, dinossauro da herança moral e religiosa mas, infelizmente, único parâmetro que temos para tentarmos construir algum tipo de família ou identidade social. Até nisso somos forçados a adotar padrões heteronormativos.

É triste termos de celebrar orgulho quando as linhas do tempo, mesmo coloridas, escondem reacionários e fóbicos em geral de plantão, prontos para cerrar os punhos e desferir um golpe certeiro assim que a alegria acabar. A incapacidade humana de respeitar e entender o próximo (não digo aceitar porque implica um sentimento de comiseração, de súplica, como se eles fossem obrigados a fazê-lo, isso não quero, não preciso, dispenso cordialmente. Eu me aceito e isso basta, de vocês apenas esses dois itens que mencionei antes deste aparte) é tão infinita quanto o universo e não temos muita certeza sobre este último.

É triste termos de celebrar orgulho chancelado por corporações oportunistas que aproveitam momentos para vender mais e parecerem simpatizantes e apoiadoras quando, passado o circo, voltam a escusar-se de fazê-lo pelos motivos mais estúpidos e mantém seus funcionários gays no melhor estilo 'façamos de conta que não sei' afinal, bicha boa é que compra seus produtos mas não aparece. Fácil fazer campanhas uma ou duas vezes ao ano e esquecer de nós nos outros dias do ano.

É triste termos de celebrar orgulho. Mas é necessário.

É necessário porque você não me respeita, não me trata com educação, não me entende, não quer que eu tenha os mesmos direitos humanos (veja que aboli o gênero ou orientação da questão já que não o 'X' da mesma) que você, como se apenas você fosse eleito para gozar de tais direitos, fossem eles seus, de posse e assim pudesse outorgá-los a quem lhe parecesse mais merecedor dos mesmos. Aliás, nem o gozo temos pois nosso gozo é escondido, tem de ser abafado, dissimulado, é marginal enquanto o seu explode em nossas caras a cada comercial de cerveja, de margarina, novelas, filmes, livros e todo mais. Seu gozo é imperativo, faz do meu algo sujo e saciável apenas como luxúria, jamais como prazer, você goza, eu [gozo].

É necessário para que você aprenda a conviver comigo fora do gueto, fora do estereótipo, fora do chavão, fora do comum. Para que você possa ver-me como seu igual, seu par, desejoso de compartilhar das felicidades e desgraças do gênero humano, não quero casar para ofender sua sociedade mas para ao menos poder abertamente viver os prazeres e dissabores de uma vida comum, cotidiana, essa mesma que você leva ai tranquila e paulatinamente.

É necessário para que você desmistifique essa noção arcaica de que sou antinatural, condenado ao inferno, vicioso, vil, sujo, indecente; todos nós somos tudo isso sem exceção, uns mais outros menos, somos humanos e temos muito mais pecados e vícios que virtudes, quem sabe o equilíbrio entre ambos não se encontre entre meu orgulho e a sua soberba. E se você pensa em comemorar seu orgulho, fique em paz, não precisa fazê-lo pois dia de orgulho hetero é todo dia erguido em cima da vergonha gay, não é pedir muito ao menos um dia por ano invertermos a mão dessa rua.

Quem sabe anos vindouros não a tornem uma grande avenida onde seguiremos na mesa direção...

13 de jan. de 2021

fobia homo 3

 



Seja lá quem for que tenha nos colocado aqui também nos dotou de algo chamado livre arbítrio o que muitos confundem com liberdade para fazer ou dizer o que bem entendem.

Não digo com isto que atos e palavras devam ser vigiados, moderados ou cerceados de alguma forma, a história é rica e pródiga em casos onde esse tipo de decisão acabou mal, muito mal. Porem, é de se esperar que após anos seguidos de aprendizado houvéssemos assimilado algo, nem que fosse o mais básico dos princípios de respeito e dignidade mas, a humanidade é craque na arte da involução e cospe com louvor nos pratos que ela mesma sujou.

Que dizer então desses que ainda insistem em usar termos como 'ditadura gay', 'gayzismo', gayzista', 'opção sexual' e outras pérolas similares que não repetirei preservando o decoro homossexual que mereço e me é de direito. Sim pois gays tem decoro e muito! Temos de ter afinal lidar com vocês, horda de dominadores, perpetuadores da espécie, bastiões do sêmen segrado, guardiões da vagina materna, não é tarefa para os fracos de moral.

Pior quando seus argumentos baseiam-se em 'notícias' as quais você nem mesmo se deram ao trabalho de averiguar e confirmar as fontes exibindo buracos maiores do que as crateras lunares mas, eu lhe entendo afinal não precisa nada disso para esculachar nós 'gayzistas', 'fascistas gays', 'maculadores da família' e, se somos 'vitimistas' (palavras suas, não minhas), o somos apenas pelas mãos da sociedade hetero normativa, essa mesma que você diz estar em extinção mas que domina e oprime todos que não se enquadram nela há milênios.

Somos todos 'vitimistas' de seu escracho, de sua falta de tato, de sua falta de respeito, de sua ignorância e preconceito, de suas leis e costumes que nos alijaram do convívio social e era por lá que deveríamos ficar, não é mesmo? Nas bordas carcomidas do seu mundo esperando os restos que vocês nos atirassem. E agora que a rua não é mais de mão única, é avenida e jamais voltará a ser viela, você grita e bate os pés dizendo que ser hetero é crime e algo em extinção? Olha, acho que precisamos ter uma conversa muito, mas muito séria sobre a evolução humana (se é que você não é criacionista) e os mecanismos perniciosos de controle que a maioria (vocês) exerceram desde sempre sobre a minoria (nós)

Mas tudo isso eu ainda sou capaz de entender e de certo modo, relevar afinal é um direito seu não gostar dos gays e achar que estamos aí para tacar fogo no puteiro, fazer sexo no meio da rua, cuspir na cara da família e lhe ser útil apenas como estereótipo e riso frouxo. Lamento que sua mentalidade seja assim tacanha mas, ainda assim, é um direito seu entretanto, se me permite um adendo, não precisamos atear fogo em puteiro nenhum porque o bordel há muito está em chamas e as putas não são paridas por gays, fazer sexo no meio da rua vocês já fazem e não precisam de nós, cuspir na cara da família também não vejo como podemos ajudar posto que isso também vocês fazem bem demais e, no quesito estereótipos e motivo de riso, bem, vocês precisam de alguém para dar um alívio em suas vidas sem graça, gosto ou cor não é mesmo?

Sim, tudo isso eu posso relevar, sem problemas mas quando você, real ou ficcionalmente, se coloca numa posição de objeto sendo que a violência gratuita contra a mulher (seja ela física ou psicológica) só faz aumentar, penso seriamente que você necessita de ajuda psiquiátrica para dizer o mínimo. Na verdade, acho que você precisa de auxilio histórico e social para entender bem quem é oprimido e quem é opressor porque não devem estar muito claros esses papeis em sua mente, algum tipo de má formação ou fiação mal feita que deva estar gerando esse tipo de pensamentos esdrúxulos.

Não se trata apenas de um direito seu de expressão mas de algo pior pois há uma interpretação totalmente errônea do que é feminismo como se fosse uma ameaça ou câncer a ser combatido e, por tabela, qualquer movimento direcionado a empoderar e trazer à luz qualquer tipo de segmento social que passou tempo demais sob o jugo da maioria é também condenável e deve ser combatido.

Minha sugestão, se você realmente pensa assim, mude para um país sob o poder do ISIS e, depois de algum tempo, venha me falar se ficou clara a diferença entre oprimido e opressor se bem que, pelo visto, capaz de você curtir e até mesmo achar a burka sua cara.

12 de jan. de 2021

fobia homo 2

 



Vivemos o ódio pleno, puro, simples e irrestrito. Somos incapazes de entender o outro, parece que ele ao abrir a boca fala em línguas e nos apavora fazendo com que nossa reação (humana e ancestral ante aquilo que não entendemos) seja primal e animal.

Destilamos essa ira toda sem distinção ainda mais nos tempos atuais quando todos querem mudar mas não sabem exatamente como ou porque fato esse que me causa pânico pois esse vácuo, disse antes, adora ser preenchido por coisas pouco sensatas mas que sabem muito bem atender esse desejo oco que estamos todos sentindo.

Incluo a mim nessa destilaria de fel nas vezes em que, no ímpeto de justificar meus pontos de vista, sou mais 'agressivo' e contundente mas, vejam bem as aspas usadas, minha agressividade não é gratuita, cega ou sem direção e menos ainda renhida ante aqueles que pensam contra mim ainda que, repito, quem lê possa achar que minhas palavras possuam muitas arestas feitas com o único propósito de ferir. Ledo engano, trata-se apenas de argumentação forte e certa surpresa em crer que após séculos de evolução e história ainda me depare com pessoas que pensam em termos tão absolutos e obscuros mas, não vá por aí pois diferente do que muitos fazem não bloqueio ou excluo já que entendo ser direito seu expressar-se ainda que dessa forma tão infeliz, desfazer a amizade (uso o termo aqui da forma mais substantiva possível, reservo a adjetivação para os que me são realmente caros) é apenas aquiescer à sua vontade e dar-lhe o manto da razão e tal jamais farei, no máximo calo e lhe delego apenas meu desprezo.

Agora, voltemos ao fato o qual ainda não atingi e pretende fazê-lo agora. Novamente, virou hábito parece, um homossexual é vítima de simples ódio, esse mesmo que disse no começo do texto. Qual a justificativa? Medo? Uma cantada mal recebida? Não. Se pela segunda então as mulheres já deveriam ter extinguido quase todos os homens e, pelo primeiro, posso entender mas não aceitar e entendo pelo fato de temer o que não aceita (como disse mais acima) ou por um desejo sublimado e não realizado sendo necessário eliminar o objeto do desejo (que poderia nem mesmo saber que o era) para apaziguar a alma atormentada.

Mas não. Não creio que tenha sido por qualquer um deles mas simplesmente pelo ódio puro, desejo de não aceitar o outro em sua liberdade que agride quem não a entende e por uma certeza absoluta de que, feito, as consequências seriam ridículas quiçá inexistentes e assim se provou já que o desgraçado que o fez saiu pela porta da frente da delegacia depois de pagar uma fiança infantil. Então eu pergunto a você que reclama da ditadura gay e de que se está endeusando o 'modo de vida gay' ainda mais quando 'pessoas' são condenados a pagar por suas injúrias e discurso de ódio e aqueles poucos que nos defendem como Jean Wyllys, quando se posicionam fortemente contra a ditadura religiosa que se impõe calmamente sobre todos nós, heteros e gays, a seu ver podem sair ilesos, qual parte desse todo você não vê?

Quantos gays você já testemunhou, viu, ouviu ou soube terem atacado violentamente algum hetero ou religioso? Quantos gays você conhece (se é que conhece algum, de novela não vale! Tem de ser da vida real!) pregam o ódio aos outros seja por serem heteros ou religiosos? Quantos gays você já ouviu falar terem pago senão com sangue o preço da intolerância? Quando atacamos esses que nos atacam, onde está a ofensa? Usamos por acaso palavras indecorosas ou pejorativas? Comparamos alguém com o aparelho excretor? Usamos de uma falsa moral para deturpar conceitos e direitos e atingir seus objetivos? Ou de tom histriônico e apelativo para justificar uma possível falta de embasamento?

Não, meu caro, isso quem fez são os moralistas fervorosos do altar de plantão, os que acham mesmo somos todos nós gays uma pilha de aparelhos excretores mal usados e que não tem como argumentar contra o fato maior de que a luta não é para tornar todos viados mas apenas para termos, como cidadãos que pagam os mesmos impostos que vocês, os direitos que de berço lhes são agraciados e que insistem em pensar como apenas vossos e não de todos.

São estes tempos que vivemos onde um gay morto não tem problema afinal somos descartáveis e de uso apenas como estereótipo e alívio cômico para os humorísticos de gosto duvidoso. E não pense que essa chibata do assassínio estala apenas nas costas das bichas, ela estala nas costas de toda minoria que vocês insistem em subjugar aproveitando o momento atual de extremos para propagar essa eugenia que pretendem implantar. Esse gay que foi esfaqueado não viu, ou tenha visto não sei, mas no cabo da faca a mão não era apenas de seu vizinho ignorante e obtuso, pelo qual só posso mesmo sentir a maior das comiserações, eram várias mãos juntas enfiando fundo a faca do ódio, do preconceito, do desrespeito ao outro pelo simples fato dele ser/agir/pensar diferente.

Há sangue nas mãos, meu amigo. Nas minhas por aceitar que ainda se passe isso mas acima de tudo, nas suas por avalizar esse tipo de ação e por não enxergar que todo esse ódio, neste caso em específico, é uma rua de mão única onde quem possui o carro é apenas você!

O resto de nós aqui está há anos a pé e, infelizmente, vindo na direção contrária.


8 de jan. de 2021

memórias de um verde desbotado

 


Lembro daquela festa, arrumamos tudo, idas e vindas levando enfeites, pessoas, bebidas. 


Lembro do posto de gasolina onde enchemos dezenas de bexigas pretas e brancas, o carro cheio delas, algumas fugiam de nós como fugíamos de nós mesmos e corríamos para pegá-las mas a nós, jamais alcançamos.

O carro lotado de bolas parecia algo saído de um circo, nós dois nos bancos da frente os palhaços, clichês de nós mesmos, rindo por fora e apáticos por dentro. Já não éramos fazia um tempo mas a cola que nos unia parecia indissolúvel ante promessas de separação e de mera amizade, esse tipo de lenda urbana que permeia os relacionamentos.

Cordiais, mantínhamos um bom relacionamento sem dar o espaço e o tempo necessários um ao outro para que os laços efetivamente se rompessem e pudéssemos quem sabe num futuro nos olharmos com ternura. Éramos jovens demais, ignorantes desses procedimentos pós-amorosos e de alguma forma cármica, incapazes de abrir mão um do outro ou ser, efetivamente, um do outro. No meio disso, achávamos tempo para sermos o que podíamos ser para nós mesmos e o sexo que brotava disso deixava um gosto amargo na alma depois do gozo.

Festa grande, estávamos animados e nem era nossa, de um amigo mas a tratamos como se fosse nossa. Você estava sozinho ou sem ninguém que representasse algum compromisso, eu estava iniciando algo com alguém que se não era você, o lembrava. Meio que o oposto do que eu (achava então) que queria mas ele tinha um real interesse em mim e eu começava a sentir o mesmo por ele, não tinha parâmetros para comparar, você fora o primeiro e mais marcante, não sabia como escolher algo diferente de você no mercado, o diferente me assustava.

Tudo quase pronto, as pessoas começavam a chegar e eu precisava ir buscar meu moço, ia me acompanhar na festa, estávamos bem e eu achava que ia me libertar daquela simbiose meio nefasta que vivíamos. Fui buscá-lo, de quebra, trouxe o DJ que daria som na festa, conhecido nosso, me perguntou sobre você, no carro, eu já com meu moço e uma amiga deste, disse que estava bem mas que não estávamos mais juntos, clima tenso, o moço sentiu o peso no ar, desconversamos. Eu queria gostar dele apesar das diferenças que, se não eram intransponíveis, eram para mim gritantes mas havia mesmo um afeto brotando e o nutri crente de que faria tremer as barragens, imaginarias ou não, que punha entre nós, sentia um gosto de futuro, promissor, dali podia sair algo bom e isso me animava.

Chegamos, a festa já ia alta, muita gente. Acomodamos o DJ e expliquei ao meu moço que estava ajudando nosso amigo e que por isso, não poderia assim aproveitar a festa com ele como desejava. Vocês já se conheciam pois, no dia em que ele me abordou, estávamos juntos num clube, juntos, mas separados, achávamos que podíamos viver assim próximos mas sem nos amar plenamente, queríamos a companhia um do outro mas não o amor, não fechávamos essa equação, quando tentávamos resolvê-la, nos noves fora, acabava a conta não fechando e o final, apesar de sermos par, era sempre ímpar.

Mas achei que era diferente, abria-se o caminho para a libertação e acreditava mesmo que acharíamos nossos caminhos separados mas ainda juntos. Quisera eu saber naquele tempo que maquiamos essas mentiras tão bem que nos parecem verdades, hoje, já não aceitaria essa imitação barata e poria tudo em pratos limpos pois teria antevisto a dor e sofrimento embutidos, escamoteados em nossas aparências de maturidade e amizade fraterna.

Meu moço dançava, eu e você trabalhávamos. A certa altura, você me acua num canto, eu acho mesmo que estava a lhe evitar a noite toda, receoso do ar faminto que captara em você, confuso por não saber se não me queria feliz com outro ou apenas não me queria feliz salvo na infelicidade que compartilhávamos amiúde.

‘Você está me evitando a noite toda...’ brotou a acusação de sua boca e olhos cabisbaixos.

Emudeci, neguei mas era incapaz de fixar meus olhos nos seus.

‘O que você quer com esse cara?’ soltou você seco.

Não sabia o que responder, olhei o chão.

‘O que você quer com esse cara? Ele não tem nada a ver com você, como você pode?’ veio você mais incisivo.

‘E você que o que de mim?’ bruto ‘Não sei, o que você espera? O que quer? Não estamos mais juntos e ele gosta de mim’

‘Gosta?’ respondeu você ‘Mesmo? E você gosta dele?’

Fiquei mudo, esperava que o chão me ajudasse a responder.

‘E você? Gosta dele? Sério mesmo?’ insistiu você.

‘Sim’ sussurrei.

‘Olha pra mim e repete isso que você falou’ disse você.

Vai chão, me ajuda!

‘Olha pra mim, porra! E repete isso que você falou, diz que não sente mais nada por mim’ e com as ultimas silabas saiu um choro honesto, sentido.

Antes que eu compartilhasse de suas lagrimas, sai esbaforido para encontrar meu moço. A festa seguiu, nos evitamos a noite toda mas de relance vi os copos e você em grande intimidade.

Chegava o fim da festa, pessoas indo embora e resolvo dar carona a você e outros amigos que moravam ali perto. Vamos, digo ao moço que volto logo, coisa de minutos, que me espere, ao sair, uma amiga nos vê e profetiza: ‘Não demora!’ com olhar de que sabia como se fecharia a noite. Saímos e um a um deixo todos em casa, você é a ultima entrega da noite.

Desço do carro, você está meio alto, digo até logo mas você me faz entrar, não queria, ou queria sem querer e dentro de sua garagem você me ataca, me aborda e eu ainda em abstinência de você não resisto e tenho uma recaída homérica, nos amamos com fome, desejo voraz, os beijos parecem tirar nacos de carne de nossos corpos, juramos amor, maldizemos a nós presos nesse moto perpetuo de desejo e necessidade absurda, gozamos avidamente e me sinto culpado.

Você entra em casa e eu no carro, volto para a festa muito tempo depois, encontro meu moço dormindo e minha amiga vidente que lê em minha face o que se passou, não tenho como negar, ela nos conhece bem demais para lhe escondermos o que somos.

6 de jan. de 2021

não há vacina para sua doença

 


A OMS, através de sua resolução de 17/05/1990, aboliu a homossexualidade como doença além de alterar a nomeação retirando o sufixo ‘-ismo’ que denotava a orientação sexual como patologia. Igualmente, o CFP em sua resolução 01/99 instrui que a homossexualidade não é uma doença, distúrbio ou perversão não demandando assim tratamento que vise sua ‘cura’ e/ou reversão.


Mas, os que nos odeiam e perseguem, amparados pelo manto conservador do Bolsonarismo, insiste em fomentar e apoiar 'profissionais' ou os assim chamados ‘psicólogos’ (que deixam suas convicções religiosas interferir em sua profissão o que é lamentável além de condenável) no tratamento de pessoas LGBTQIA+ que, seja por qual for o motivo, lutam para aceitar sua orientação sexual.

Essas pessoas precisam sim de apoio psicológico mas não para deixar de ser o que são e sim no processo de aceitação de sua natureza e orientação sexual para que possam tornar-se funcionais e felizes superando os traumas que lhes foram impostos pela sociedade, família e amigos e entendendo que não há crime ou doença em ser LGBTQ, que qualquer que tenha sido a origem da criação, assim fomos feitos e não há o que corrigir.

As tentativas de reverter a orientação sexual resultará apenas em um pessoa fragmentada, miserável e infeliz, não se pode mudar a natureza do que somos simplesmente porque a religião que vocês pregam assim o diz, vocês partem de um pressuposto que o homossexual é uma criatura miserável e infeliz e que precisa de ajuda para deixar ‘essa vida’ e ser um membro digno da sociedade e, porque não dizer, seguidor dos preceitos desse seu deus de ódio e intolerância sofismado por escrituras que que vocês distorcem e adaptam às suas necessidades.

Porque tanto ódio? Porque essa perseguição incansável? Porque esse medo tão gritante? Só posso intuir que ele não esteja apenas embasado em conceitos religiosos mas num pavor patológico do que é diferente, daquilo que desafia as regras que ninguém os obriga a seguir salvo o temor da danação eterna e, se for este o caso, trago péssimas notícias, estamos tão fadados a ela quanto vocês que pregam tamanho ódio e praticam atos pouco cristãos aos seus próximos, não é a nossa alma que está em risco mas a sua.

Esse seu medo de nós advém de alguma questão muito mal resolvida quanto a sua própria identidade e condutas sexuais presas e restritas a conceitos e normas seculares e temporais que caducaram há tempos sem que se tenham dado conta disso. A natureza questionadora e libertária do homossexual, que usa sim a sexualidade como meio de desbravar e demarcar territórios onde o heteronormativo padece, enquadrado por todos os lados por movimentos que não mais aceitam ficar sob seu jugo, lhes é assustadora, trai o status quo da assim chamado família tradicional sendo que esta também há muito já deixou de existir.

É lamentável para não dizer sórdido sua associação da homossexualidade com pedofilia e demais distúrbios sexuais graves quando os maiores perpetradores de tais abusos são heterossexuais sendo estes também que lotam as clínicas clandestinas de aborto enquanto casais homoafetivos estão mais do que dispostos a aceitar os filhos que vocês não desejavam ter.

Da mesma forma, essa sua tentativa de inversão onde nós somos o malévolos e perseguidores e vocês, as vítimas, é outro jogo pérfido e baixo pois como pode a minoria perseguir a maioria? Vocês estão há séculos perseguindo não apenas a nós mas todos aqueles que não se encaixam no seu conceito estúpido e intolerante, a sociedade lhes é favorável pois se lhes questionam, basta acenar com a danação eterna e acusar aqueles que buscam os direitos inalienáveis de todos ser humano de golpistas, inimigos da fé, ameaça a sociedade, ditadores de gênero.

Pensem comigo apenas um instante, quem está perseguindo quem? Quem tem a seu favor toda a estrutura de uma religião empresarial e aparato do estado? Quem tem espaço na mídia e está sempre atacando a nós? Quem é intolerante? Quem deseja ver a homossexualidade banida e tratada? Quem deseja um estado teocrático onde tudo o que for diferente do pregado por vocês deve ser excluído e excomungado?

Eu posso olhar no espelho com tranquilidade e paz na alma, e vocês?

11 de dez. de 2020

só por hoje...

 



Só por hoje quero que você me respeite.

Quero que não faça aquelas piadinhas sem graça e estúpidas sobre gays, que não use o diminutivo para enfatizar inferioridade ou fraqueza, que não me associe aos estereótipos distorcidos que a sociedade e a mídia não cansam de reforçar todos os dias.

Quero que você deixe de lado sua religião e me trate realmente como seu irmão, que você não use a palavra opção pois não optei por nada sou assim desde o útero, desde sempre. Quero que você pare de me odiar e por vinte e quatro horas ao menos tente me amar, quero que você pare de me julgar e passe a me apoiar, quero que você para de me agredir e passe a me abraçar, quero que você me trate como gostaria de ser tratado.

Quero que você abra sua mente e seu coração para a verdade universal de que somos tão pequenos e tão raros que nada justifica gastarmos o pouco tempo que temos demolindo um ao outro, caçando um ao outro, denegrindo um ao outro, matando um ao outro. Apenas por um dia poderíamos tentar viver em paz.

Quero que você abrace a diferença e esqueça a igualdade, não somos iguais, jamais seremos e isso é bom, é saudável e devemos celebrar. Não afaste de si o que não entende pois já entendemos tão pouco, não feche as portas na cara da vida, não promova uma linha reta quando somos feitos de caminhos tortuosos que se cruzam inúmeras vezes, seguir assim é solitário e nenhum de nós foi feito para andar sozinho.

Quero que você enxergue além das cores do arco-íris, entre as sete cores existem tantos outros tons que fogem a nossa percepção, tantos amores que escapam nossa afeição, o olho humano foi condicionado a não perceber tudo isso mas nosso espírito possui sim essa capacidade, nós apenas o deixamos nas sombras brincando com chamas bruxuleantes, a luz cega e machuca mas se a deixamos entrar não restará um canto que ela não banhe e traga para si.

Quero que você me dê sua mão, não precisa dizer nada, basta me dar a mão e me olhar nos olhos, eu entenderei. Quero que você veja além do sexo e de sua expressão, que não deixe a carne ditar como tratar esse irmão, que não deixe o leito ser a moeda que define nossa transação, que não deixe a genitália dizer o que deve fazer o coração, que entenda que meu sangue tem o mesmo tom vermelho que o seu e meus cortes sangram exatamente como os que lhe farão.

Quero que você tenha orgulho por ser meu amigo, meu pai, minha mãe, meu irmão, por trabalhar comigo, por estudar comigo, por estar ao meu lado, por viver comigo, por respirar o mesmo ar, por bebermos a mesma água, por estarmos aqui e agora onde tudo é possível e tudo pode acontecer, que chance de fazermos o bem e sermos mais de nós mesmos e podermos olhar um para o outro e saber que está tudo bem, que o futuro é um campo aberto e as sementes estão em nossas mãos.

Só por hoje, que me diz? Vamos tentar com afinco, são apenas vinte e quatro horas, passa rápido e quem sabe amanhã você pode querer mais vinte e quatro e depois disso mais outras vinte e quatro até não precisemos mais dos relógios para medir o tempo que precisamos nos amar, entender e respeitar.

Mas se não der, tudo bem, eu entendo, não se preocupe. Guardarei comigo estas vinte e quatro horas com carinho confiante de que um dia poderemos usá-las de novo.

10 de dez. de 2020

sou gay mas de família de bem

 





Lendo isto aqui me fez pensar nos gays conservadores, quem são, de onde vem, como vivem, se reproduzem.

Não que os homossexuais (ou qualquer pessoa LGBTQ) não possam identificar-se ou simpatizar com ideias e modelos conservadores, da mesma forma que o amor deve ser livre, as expressões e afinidades políticas também devem ser porem o apoio a políticos conservadores como Bolsonaro e afins só consigo digerir e chegar a algum tipo de entendimento se pressupor que essa pessoa LGBT possui sérios problemas de aceitação quanto a sua orientação sexual e/ou identidade de gênero ou então sofrer de severos distúrbios psíquicos.

Insisto em dizer que não acho errado ou condenável uma pessoa LGBT ‘de direita’ ou conservadora mesmo que, pessoalmente, entenda esse tipo de atitude como no mínimo contraditória, pois a população LGBT possui ideais e história completamente diletantes dos movimentos conservadores os quais sempre trataram a estes como minoria que deve ser mantida sob o mais rígido controle e, em sendo possível, afastado do convívio social seja ela familiar ou como beneficiário de politicas sociais inclusivas e aplicáveis ao resto da sociedade e população.

Aparentemente, estes ‘gays conservadores’ enxergam neste tipo de político pessoas corretas, honestas e de retidão moral considerando o movimento LGBT como extremistas e dispostos apenas à promiscuidade, lascívia e imposição de seu ‘modo de vida’ a todas as camadas da sociedade, ou seja, trocaram as bolas e confundem moral com política o que é receita certa para desandar qualquer coisa.

Alguns desses ‘conservadores’ atestam mesmo que a vida sexual de cada um é assunto que deve ficar restrito a alcova e não discutido abertamente o que é, lamento dizer, o mesmo que devolver ao armário e trancar a sete chaves tudo que os movimentos LGBT lograram conquistar sem falar no fato lamentável de que isolar a sexualidade deixando-a restrita ao foro íntimo é viver uma mentira, um engodo, uma farsa no melhor estilo ‘não pergunte, não fale’ como se fosse simplesmente ligar/desligar uma chave.

Entendo isto (e esta é minha opinião, fique à vontade para discordar) como um estado de negação absoluta. Como podemos tratar a sexualidade humana compartimentalizando a ela quando é parte integrante do que somos e vivemos? Ou somos LGBT apenas em alguns momentos, em alguns lugares e dentro de nossos quartos? Isso não é liberdade, é escravidão e não aceitação da sexualidade com a qual nascemos, é empoderar esses políticos que já deixaram inúmeras vezes explícitas suas opiniões sobre a população LGBT e não adianta argumentar que eles se retrataram (o que não tenho conhecimento de ter efetivamente ocorrido e, se ocorreu, não foi por constatar o absurdo que fez mas muito provavelmente forçado por alguma ação judicial pairando sob suas cabeças) pois não se trata de ter cometido um erro ou deslize mas pessoas que trataram o que somos como escória, doença e lixo social.

Ainda na mesma reportagem, esses mesmos apoiadores dizem que se identificam com estes políticos pois eles os tratam como ‘normais’, acho que aí temos algo importante a ser considerado, essa necessidade de ser tratado como normal, será que essas pessoas ainda entendem sua orientação sexual como algo nocivo e que não deve ser vivido em sua plenitude? Ainda estariam buscando encaixar-se no que a sociedade entende e aceita como normal? Engraçado como a palavra promiscuidade é usada no texto, quase com nojo e como se essa fosse a única qualidade que se possa identificar com os LGBT e que é sim um trunfo nosso pois onde leem promiscuidade (que não é direito reservado dos LGBT, tenha certeza) deveriam ler liberdade sexual. Nós LGBT sempre soubemos viver de forma muito mais livre, descomplicada e vívida nossa vida sexual e sexualidade e isso é extremamente agressivo e transgressor aos olhos da sociedade pois a liberdade sexual implica numa subversão de uma ordem normativa e previamente estabelecida com séculos de reforço religioso e social dificílimos de quebrar.

É triste que nos tempos em que vivemos, quando tantos avanços importantes para a população LGBT dançam na corda bamba, ver pessoas que parecem simplesmente ter congelado no tempo e completamente cegas para o perigo que não apenas os direitos civis LGBT correm, mas todos os direitos e liberdades em si ante a teocracia que se acerca de todos nós cada vez mais a cada dia. A solução não é, em busca de um horizonte mais tranquilo, jogar nas mãos de factoides e vomitadores de discurso de ódio disfarçado de moral e bons costumes o futuro de nossa sociedade mas de entendermos que essas pessoas são oportunistas sem agenda que estão ocupando o vácuo politico que vivemos acenando como salvadores da pátria.

Seria muito bom neste momento se todos nós déssemos uma olhadela para trás na história e quem sabe pedir conselho ao povo alemão que deve estar lamentando profundamente esse péssimo hábito da história em se repetir.

3 de dez. de 2020

sete dias

 



SEGUNDA-FEIRA


É saudade então, algo que já vi e não vejo mais ou um desejo inerte que desperta ao toque ou sussurro de alguma palavra mágica, ánima que faltou quando da concepção, talvez seja isso a busca pelo amor. Quando fecundados, algo se perde na fusão dos gametas e, saídos do ventre, passamos o resto de nossos dias a buscar esse complemento que nos falta.


Acho que você buscava o mesmo ou os olhares não haveriam de cair em traição e posto a nós em situação de desconforto agradável. Depois de cruzados, o caminho já ia sem volta e do olhar passamos a palavra e pequenos gestos que denotavam um sentimento mútuo embrionário.


A criação demanda tempo mas desse bem, os que gostam parecem dispor com bem lhes parece ainda que, incoscientemente, saibam seguir seu ritmo e direção únicos.


TERÇA-FEIRA


O que demanda o sentimento, o desejo prescinde. A carne deve ser provada até os ossos, como se apenas neles residisse a essência, o gosto. O afã do início rouba de nós o prazer da degustação, quando finalmente resolvemos deixar o paladar banquetear-se, o sumo do gosto já foi sorvido e ainda que a carne seja saborosa, seu suco primordial já se foi e passamos apenas a mastigar o mesmo naco até dele sorver a última gota de suco.


Todavia, é um processo prazeroso esse e nos entregamos a ele com afinco afinal nossas carnes eram tenras e novas, havia muito que saborear e pouco que refugar. Durante as refeições eu, você ou nós deixamos escapar algo que não estava no cardápio ou deveria ser a sobremesa o que adoçou ainda mais as bocas e nos fez pensar nos dias que viriam trazendo apenas mais sabores.


QUARTA-FEIRA


A metade é um lugar inóspito, inspira cuidado pois é invariavelmente o ponto de onde se decide ir adiante ou retornar de forma segura. Tal decisão deveria ser tomada de forma cuidadosa e pensada mas, costumamos fazê-lo de julgamento impreciso, infestado de emoções inebriantes e promessas de que tudo sempre será melhor no dia seguinte, na próxima esquina, ao virar a página.


Ainda que os presságios sejam animadores, deveria haver algum tipo de regra que forçasse a todos, chegando em tal estágio, pesar bem o que fazer em seguida e tomar uma decisão proveitosa a ambos mesmo às custas da desgraça de uma das partes.


Infelizmente, isso não ocorre, sentir é tomar decisões assim, se fosse o oposto o mundo viveria em paz e os casais estariam juntos para sempre ou cada um vivendo tranquilamente uma existência única, pacífica e plena de si mesmo.


Tomamos as mãos um do outro e mandando às favas qualquer sinal ou sugestão de bom senso, seguimos em frente deixando para trás qualquer possibilidade de fazer a volta. Isso é amor, se fosse o contrário não o seria ou estamos todos cegos e carentes ante a hipótese de seguir sozinhos um caminho tão longo.


QUINTA-FEIRA


Depois de um tempo, até o inominável ganha nome, é do humano nomear as coisas e isso feito, passa-se a criar um laço afetivo com o nomeado e a partir desse momento, ele começa a fenecer.


Talvez deixar as coisas sem nome fosse uma alternativa mais honesta e que nos permitiria uma vida menos atribulada mas, não somos assim e seguimos dando nomes a tudo que vemos pela frente. Demos os nomes ao que sentíamos e isso nos encheu de orgulho, talvez isso seja a causa da morte de muitos ou seja apenas o cansaço.


Registramos em cartório, reconhecemos firma e voltamos para casa satisfeitos.


SEXTA-FEIRA


A antecipação é uma antessala cheia de gente onde ninguém é chamado pela ordem de chegada, senha ou nome. Ficamos todos ali esperando, os pés tremendo nervosamente, as pernas abrindo e fechando e os dedos tamborilando sobre as coxas.


A questão é que antecipamos algo que já sabemos, conhecemos e sabemos certo mas fingimos não saber, feito uma surpresa ao contrário. A felicidade tem um valor, é certo, problema é estipular o preço, essa conta fecha pouquíssimas vezes pois a matemática que usamos nunca é mesma.


Se eu quero multiplicar, você divide, se quero somar, você quer subtrair, se quero chegar a raiz quadrada, você faz cara de pi e assim vamos.


SÁBADO


No sétimo dia descansamos, exaustos um do outro.


DOMINGO


Fui a missa bem cedo, você estava lá também mas sentado do lado oposto ao meu.


A homilia seguia seu curso, cada um ali fermentando seus pecados e arrependimentos, olhando para as imagens de ar sofredor buscando algum alento, as palavras proferidas eram apenas mais uma chibatada em lombos já em carne viva, deveriam servir redenção mas só havia mesmo penitência.


Estava ali para prestar meus tributos ao falecido, não esperava que voltasse dos mortos feito o Nazareno mas, achei de bom tom ao menos encomendar uma missa em seu nome já que me fora tão importante durante tanto tempo.


De soslaio olhava para você, quem sabe não viera fazer o mesmo, vi o tempo que marcar bem cada minuto nosso em suas faces e não apenas nas minhas, suspirei fundo olhando para as pinturas nas paredes e cruzei olhos com aquele santo das causas perdidas ou impossíveis, não lhe pedi nada porque já havia passado e muito o tempo de lhe fazer pedidos, era momento de aceitar e purgar e deixar ao altíssimo qualquer possibilidade de julgamento.


No momento em que os falecidos eram citados em solene homenagem, abaixei a cabeça, arrisquei um olhar em sua direção e acho que vi algo úmido em seu rosto mas não sei ao certo, me contive em relembrar os mortos e desejar que estivessem em lugar melhor, cabe aos vivos apenas isso e tocar a vida até o momento de ir com eles ter e saber se lhes fizemos justiça ou vergonha.


Acabada a missa, saí de fininho, queria deixar aquele lugar o quanto antes e antes de você mas, acho que as entidades superiores fazem graça conosco e a aglomeração à saída me deteve o suficiente para que logo no umbral nos deparássemos um ante o outro.


Acho que vi as imagens virarem seus rostos nesse momento em tensão, não sei, Trocamos olhares velhos, cansados e sentidos, velávamos o mesmo corpo e agora era tempo de deixá-lo cumprir seu ritual de passagem.


Esprememos cada um nossos lábios num esgar de sorriso de compreensão mútua ou resignação e saímos dali para a vida que seguia seu curso normalmente do lado de fora.




30 de out. de 2020

brincando de presidente

 


Eu nasci gay graças a todas a forças do universo e, se existe algum tipo de reencarnação, voltarei ainda mais gay porque voltar hétero e escroto como o nosso 'presidente' é praga que nenhuma alma merece, melhor ir logo arder nos fogos eternos do inferno seja ele qual for.

Não temos um presidente, temos um comediante medíocre que segue um repertório datado e que surte efeito apenas para seus convertidos, uma plateia de mortos-vivos que se apegam a um modelo de sociedade cambaleante e moribundo com unhas postiças e dentes moles de forma histriônica e violenta pois sabem que seu mundo está com os dias contados e esse tipo de governo é um suspiro, um vento adicional para seus pulmões caquéticos e cheios de poeira histórica.

Bolsonaro é um palhaço cansado, maquiagem borrada pelo tempo num picadeiro roído pelas traças da história, só consegue arrancar risos de seu público quando reforça as mesmas piadas que passam de geração a geração nas mesas de festas de fim de ano familiares, festas de firma quando as gravatas foram parar nas testas e os sapatos nas mãos, churrascos que reúnem parentes que se veem em ocasiões especiais apenas para perguntar sobre as namoradinhas, namoradinhos, dizer que a sobrinha está ficando um mulherão, o sobrinho está ficando meio boiola, é pavê ou pra cumê, mulher minha não faz isso, vira homem porra enquanto as carnes vão assando além do ponto na grelha junto com as aspirações de uma sociedade que perdeu seu caminho e, desesperada, voltou-se para um mascate piadista de quinta categoria.

Bolsonaro não virou boiola por causa do guaraná, ele não pode virar gay porque não aguentaria um dia sequer como gay, trans, bi, queer ou qualquer um de nós, não duraria cinco minutos como um de nós porque ser LGBTQ no Brasil é sobreviver todo santo dia, não é matar um leão mas fazer de tudo para não ser morto por ele a cada minuto. Bolsonaro não saberia ser gay nem se quisesse, ele não tem capacidade para entender qualquer vivência fora de seu picadeiro de piadas exauridas, se passasse um dia, minutos que fosse, pediria arrego, choraria feito uma criança e pediria colo, desculpas, sumiria para qualquer buraco fundo e nunca mais daria as caras no mundo. Não poderia jamais 'virar boiola' porque não sobreviveria a uma vida gay, para ele ser gay é isso, virar algo que não é normal, um interruptor que podemos ligar e desligar ao nosso prazer, faz troça da gente porque em seu mundo binário, rígido e severo, não pode haver nada que não seja macho alfa forte dominante e zeloso de sua masculinidade, padrões de rosa e azul sem meios termos.

Bolsonaro faz piada com a gente porque essa é a única maneira de lidar com seu pavor de que sejamos humanos, gente, cidadãos e que tenha de nos tratar como tal. Para ele, 'virar boiola', 'jogar água fora da bacia' e todo repertório de piadas infantis e imbecilóides faz sentido enquanto patrono dos tiozões país afora de chinelo Raider, short de tactel, óculos na ponta do nariz e celular na mão, camiseta de time para completar o clichê. Como não pode fuzilar todos nós ou colocar num campo, faz piada porque fazer piada é humilhar o outro, diminuir, fazer dele uma não-pessoa, com seu discurso burlesco grotesco, incita que o assédio e humilhação sigam em frente porque, se o chefe pode, eu também posso e assim, dá-lhe mais e mais crianças, adolescente e adultos tendo se passar por humilhações diárias pelo simples fato de serem e existirem.

Para Bolsonaro, a presidência não é um cargo, uma responsabilidade mas o recreio da escola, a turma do fundão, governar o país por quatro anos é, para ele, um eterno churrasco de família onde ele pode, sem medo de represálias, falar suas asneiras e atrocidades enquanto a nossa carne vai assando lentamente sob o fogo de seu fascismo ardente.

5 de out. de 2020

vendo a banda passar

 



Já gostei muito de Ryan Murphy, as primeiras temporadas de AHS e ACS forma bem interessantes e confesso que FEUD me ganhou porque eu sou devoto das grandes divas do cinema mas depois, parece que ele ficou ganancioso e passou a produzir em quantidade e não em qualidade meio como a Netflix faz, solta uma baciada de séries e se ao menos duas delas emplacarem já vale e o resto cancelam.

Não há dúvida de que ele tem um papel essencial na representação e visibilidade de pessoas LGBTQIA+ pois suas produções tratam essas pessoas com dignidade e sem pudores da indústria mas, parece que no anseio de produzir o máximo possível ele acaba se esquecendo de outras coisas e, sua marca registrada, brindando o espectador com uma profusão de cores como se toda a escala Pantone tivesse explodido na tela.

Nesse caso, a homenagem feita a esse filme incrível dirigido por William Friedkin  em 1968 e baseado na peça homônima de Mart Crowley é uma excelente oportunidade para gerações mais novas conhecerem esse texto que pode até ter envelhecido mas não ficou datado mas tenho algumas reservas quanto ao novo filme mesmo Mart tendo participado do processo de confecção do roteiro antes de falecer em Março deste ano.

Primeiro que este é um texto teatral, forte, pesado, cheio de acidez e mordacidade, indiretas e ofensas verbais num jogo psicológico que lembra 'Quem tem medo de Virginia Woolf?', começa num ritmo leve e até descontraído mas aos poucos vira uma montanha russa de ressentimento, culpa, frustrações e jogos mentais tóxicos.

Se na primeira versão isso foi preservado e maximizado pela mão de Friedkin (que é um ótimo diretor de atores) além do jogo de iluminação que, no ápice do jogo mental deixa os personagens imersos numa semiescuridão opressiva e que só aumenta o desconforto e, por um elenco oriundo do teatro, nessa versão o texto foi diluído, ficou mais leve e a mão de Murphy se faz sentir na explosão de cores e opção por manter tudo claro e gritante numa clara alusão de que a homossexualidade não precisa ser escondida mas vista e vivida mas, isso acaba emprestando ao filme uma sensação de festa que saiu do controle ao invés de embate de sentimentos e culpas.

A inclusão de flash backs para ilustrar as memórias de cada personagem durante o jogo do telefone ajuda a diluir esse peso da versão anterior muito mais claustrofóbica e tensa e a opção por adicionar cenas finais que ilustram o possível desfecho de cada personagem acabam dando uma sensação de esperança que o texto original não tinha em absoluto. Optar por manter a trama nos anos 60 ao invés de trazê-la para a atualidade também foi acertada pois isso certamente seria um desastre, pode parecer que os assuntos tratados no filme sejam datados mas não são, estamos falando de um texto de um período em que ser gay era algo perigoso e fatal até e isso segue sendo verdade hoje em dia mesmo tanto tempo depois.

Quanto aos dramas de cada personagem, também seguem mais do que atuais desde o casal que enfrenta uma crise passando pelos gays frustrados e amargos que só conseguem algum tipo de satisfação destruindo quem conhecem, pelo gay afeminado que só é visto como piada, o gay negro que é forçado a lidar com mais de um preconceito, o gay que apenas é gay e um hetero que não sabe o que está fazendo ali ou até saiba mas se arrepende de estar.

Infelizmente, parece que no intuito de deixar o texto mais palatável talvez para as gerações mais novas, as atuações acabaram ficando perdidas e sempre com uma sensação de quase lá, se comparadas com as atuações do filme original chegam a ser sofríveis até vide a cena em que Michael se dá conta da merda que fez onde Jim Parsons falha miseravelmente em passar a emoção necessária para a cena.

Esse era um texto que merecia uma direção mais robusta, que espremesse os atores até sair sangue, não era para ser um filme colorido mas um filme denso que fizesse com que todos saíssem dele moídos como fez o primeiro. Infelizmente nada disso aconteceu e temos apenas uma homenagem singela e colorida que serve como caricatura de um texto magistral.

23 de set. de 2020

maria vai com as outras

 


maria não ia mas acabou indo, maria foi com as outras, queria ir, ficar é que não ia, maria foi, com as outras porque com as outras tudo bem, se fosse com ela não queria mas com as outras foi para a rua, noite fria, céu escuro, maria não queria céu claro mas também não precisava estar tão escuro, maria gosta de ir com as outras porque assim tem com quem conversar, fumar um cigarro, tomar uma cerveja, bater uma carreira, fumar um beque, maria com as outras está segura, de si, de tudo, de todos, na rua tem de ser com as outras, se for sozinha maria vai e pode não voltar.

maria na rua com as outras, o céu um breu tipo buraco no fundo da terra, lembrou do poço na casa onde morou criança, fundo, escuro, sem cor, diziam que lá viviam as crianças que não se comportavam, maria não ia com essas crianças, medo, respeito, os dois, maria só ia com quem a mãe deixava, quando não ia, a mãe ameaçava com o poço, sem falar palavra, só apontava e maria prometia que nunca mais ia com as outras.

maria com as outras ia bem, já tinha ido sozinha mas não gostou, teve homem que não quis lhe devolver, teve homem que não quis lhe pagar, teve homem que lhe bateu, sozinha não tinha como mas indo com as outras, ela contava e apontava e as amigas davam um jeito no homem, nunca mais voltava então maria sempre ia com as outras porque elas iam com ela, não de cara mas depois sim.

maria olhou de novo para o céu, escuro demais gente, nem estrela, nem lua, nem nada, a luz da rua só e olhe lá, os carros passando e ela com medo de olhar para dentro deles sem ter o céu como testemunha, as amigas ocupadas só olhavam quando ela pedia, lembrou da casa de novo, do homem da casa que devia ser o pai, ou não era, era homem, homem não é pai nem nada, é só homem e homem só quer ser homem e ela mulher, a mãe também mas o homem da casa queria ela e a mãe brigou mas o homem brigou mais forte e mãe se calou num sangue escuro que brotou do nada e o homem fez maria ir com ele, sem as outras, sem a mãe, sem ninguém, só eles e depois, maria não quis mais com ninguém e a mãe não queria mais ir com maria e nem lhe ameaçava com o poço e maria ficou sem ir por muito tempo até um dia ela não sangrou e a mãe não quis ir com ela e o homem da casa não quis ir também e ambos fizeram ela ir com outras porque ali não era casa de maria.

maria foi, sofreu, perdeu sangue e uma coisa que saiu de si, maria foi com as outras sem saber quem era, o poço de casa a lhe seguir na memória e aos poucos ficando esquecido porque poço sem fundo mesmo é a vida, é ir com as outras que não tem poço, não tem fundo, não tem onde ir a não ser com as outras. maria se achou com as outras, aos poucos, foi indo com elas e acabou ficando com as outras, teve dores, teve amores, teve sangue, teve briga mas ela nunca deixou de ir com as outras porque elas eram agora suas amigas, sua família, sem elas, maria não tinha para onde ir.

maria ficou ali vendo os carros passando, o céu um poço, em cima dela, de sua cabeça, aa rua iluminada amarela, fria, carros passando quentes, as outras indo e voltando e ela sem ir ainda, maria ia com as outras às vezes, quando chamavam mas não gostava, gostava de ir sozinha, de ir com as outras só quando não era trabalho ou quando era preciso para fazer a féria do dia.

maria olhava para o céu escuro demais, as outras chamavam sua atenção para os carros, olhar o céu é coisa de doido ou namorados e elas não eram nem um, nem outro, maria tinha de prestar atenção ou as outras não iam mais querer que ela fosse junto, atrapalhava.

maria sentiu o céu mais escuro ainda, disse a uma amiga que o céu estava muito escuro, demais da conta mas a amiga não lhe deu atenção. maria achou que o céu estava ficando cada vez mais escuro, como se isso fosse possível e que ele estava engolindo toda a luza da rua, as amigas fizeram cara de pouco caso, a luz da rua fraca iluminava mal e porcamente a calçada onde estavam, os carros passavam com farol baixo e elas iam.

maria estava assustada, queria ir embora mas as amigas não iam, ela iria sem as outras, as outras disseram que era melhor antes que ela estragasse a noite de todas mas ela teria de fazer dobrado na noite seguinte, maria disse que sim, que faria mas queria ir embora e foi, a noite um breu que nem o início do mundo conheceu.

noite seguinte maria não foi com as outras. perguntaram por maria mas ninguém lhe sabia o paradeiro. maria não foi com as outras, ficaram procurando por maria, nada, buscaram por maria, nada, maria tinha morrido, nada, maria tinha se ajeitado, nada, maria dera golpe, nada, maria não foi mais com as outras, ninguém soube mais de maria mas depois disso, todas as noites foram muito claras, quase dia, as outras achavam bom, noite de breu, de poço, nunca era bom sinal...

4 de ago. de 2020

o que é igual nem sempre é justo



Você, sim você mesmo que corrobora esse discurso de extrema direita seja dos vivos ou dos já despachados para o outro lado, antes de liberar minha verbohomorragia sobre seus argumentos fascistas, alguns esclarecimentos que entendo serem mais do que aplicáveis batendo na mesma tecla e sim, porque batendo na mesma tecla há que se achar por fim sua afinação e fazer calar o descalabro cacofônico que esse discurso ódio insiste em marcar em nossa carne tenra e homossexual, essa mesma que você não aceita ou entende mas não consegue tirar da boca sedenta de sangue rosa.

Homossexualismo é o caralho: não se usa mais, tente Homossexualidade já que desde meados dos anos 90 ser gay não é mais (nunca foi) doença e isso pela OMS e todo aparato médico e científico que se preza restando apenas conceitos morais e religiosos mais vagos que plenário em feriado prolongado.

Minoria: entende-se por minoria uma parcela de um grupo ou população que não faz parte ou comunga das regras e/ou conceitos e preceitos ditados ou praticados pela maior parte desse mesmo grupo/população o qual, via de regra, denomina-se maioria. Considerando-se esse conceito equitativo então não vejo como a parte pode ditar o comportamento do todo quando o inverso pode e geralmente é praticado.

Opção: melhor buscar outro termo, que tal orientação já que está mais próximo do que somos posto que assim viemos ao mundo sem qualquer tipo de interruptor que permita ligar/desligar quem atiça nossos hormônios.

Ditadura gay: sério? Vamos pensar um pouco, nesse tipo de regime de exceção certa parcela do grupo impõe às demais as regras e isso resumindo de forma muito branda um tema muito complexo e, extrapolando para nós gays, se implantarmos esse tipo de regime garanto que a sua vida seria algo muito melhor mas, me foge por completo agora qualquer caso onde uma dita minoria tão ferrenhamente perseguida e hostilizada ter condições de um golpe de estado tão elaborado.

Acho graça e tenho dó que, ao mesmo tempo que seja preciso se paramentar de teorias tão eugenistas disfarçadas de moralismo para embasar sua defesa de algo que é indefensável (e não digo que seja sua não aceitação ou entendimento de nosso 'modo de vida' já que posso entender que você não deseje ou consiga fazê-lo, tudo bem eu respeito como seu direito tanto quanto os que desejo para mim) mas, a discriminação velada de respeito ou justificativas pseudo-científicas chega a ser pior que a aberta e declarada, é o pior tipo de preconceito, o mais nefasto e mórbido pois come em silêncio e é porta certa para sorrateiramente formalizar e justificar ataques às minorias.

Outro detalhe importante e exposto acima, você que é hetero, caucasiano e goza das benesses da maioria pode achar graça ou mesmo um disparate esse discurso todo em cima de nossos direitos e como gasta-se muita saliva no tema enquanto propostas para melhorar a sua vida são deixadas de lado. Sua visão, sinto dizer, é por demais tacanha e limitada se assim pensa pois se há um único culpado pela penúria em que você alegadamente diz viver, esse culpado está no espelho mais próximo ao seu alcance e não no gay ao seu lado.

Para você a vida sempre foi mais simples ainda que você chore por mazelas que fariam um miserável corar. Você é a maioria, nunca precisou disfarçar nada além de algumas mentiras bestas aqui e acolá enquanto muitos de nós precisamos disfarçar a essência do que somos e sentimos, sabe o que é isso? Fingir ser o que não se é apenas para atender à maioria? As regras estavam e estão ao seu lado afinal você dita o que deve ser considerado como padrão forçando-nos a perseguir um ideal que não tem absolutamente nada a ver com nossas vidas. Assim, só posso sinceramente sentir pelo seu benefício social que é minguado ou pelas falhas do sistema que você, enquanto maioria, ajuda a manter onde e como está mas jamais venha esfregar na minha cara que os direitos que pleiteamos são o motivo pela situação em que você se encontra pois do pão que você sempre comeu temos nos alimentado há anos apenas das migalhas mofadas e inverter essa equação seria o mesmo que culpar os escravos e não o senhor pela situação em que se encontram.

Se desejamos estabelecer algum padrão esteja certo de que não é de comportamento ou modelo social já que tais modelos estão claramente falidos e foram implantados por você e sua maioria restando a nós apenas emular tais cenários e tentar como nos é possível reinventar essas convenções e isso, meu caro, assusta muito pois mostra a possibilidade da escolha independente de gênero ou orientação sexual e quando somos confrontados com as escolhas que poderíamos ter feito e não fizemos temos apenas o temor cego do desconhecido que é esse território. O único modelo que desejo implantar é o modelo onde eu possa ter os mesmos direitos que você e você pode retrucar que já temos esses direitos o que novamente sinto dizer é mentira deslavada pois enquanto eu não puder ser quem e como sou aberta e claramente, não às escusas ou longe dos olhos de todos, declarar meu amor e afeto de forma tão natural quanto o seu que prevalece há milênios em detrimento do meu legado às sombras, então não temos os mesmos direitos e há um abismo enorme entre nós o qual só faz aumentar com sua ignorância e medo.

Eu entendo seu temor e como amparar esse medo todo em teorias nefastas disfarçadas de intelectualidade lhe traz segurança e justificativa mas, se o intelecto serve ao bem com extrema facilidade (e na grande maioria dos casos como reza nossa História, tristemente) serve também ao mal e põe o lobo em sedas para que lhe toquemos a pele sem temer até que lhe vejamos os dentes e seja tarde demais para escapar ao bote.

Nesses casos, é mais fácil atacar a minoria que busca por seus direitos pixando sua luta como inconsequente e motivada a desviar o foco de outros pontos mais importantes e, de certa forma, concordo com você pois fomos jogados no olho da tormenta como bucha de canhão e de nós fizeram cavalo de batalha para expor apenas a bestialidade alheia, nada mais. Porém, que pensar de uma sociedade que não entende ou atende suas minorias? Seria melhor se os viados ficassem restritos a esquetes cômicos e pejorativos de televisão ou guetificados em áreas específicas? Mas, se fosse assim então não estaria você hoje ainda comprando e vendendo escravos no mercado municipal? Minoria boa é aquela que sabe comportar-se como tal, quando passamos a questionar e demandar de vocês maioria mais do que nos dão então somos o cão que morde a mão alimentadora só que o caminho, uma vez aberto, não tem volta, é fato!

Sei que você preferiria que nessa eleição outros assuntos tivessem vindo à baila para discussão e mais uma vez estou de acordo mas, prefiro pensar que se estamos discutindo ainda que porca e nojentamente assunto tão importante então estamos no caminho certo pois estamos discutindo não apenas os direitos que você sempre gozou e que nunca tivemos mas, penso, todo o conceito de sociedade que desejamos ser doravante e que será, tenho fé por seus filhos e os de todos nós, mais lá frente, um lugar menos agressivo e mais compreensivo para vivermos.

29 de jul. de 2020

te pego lá fora



Onze e quinze e o sinal cantou bonito, fez gosto em por todos pra fora da escola, queria mais que eles fossem embora dali o quanto antes para lhe dar descanso ao menos até o dia seguinte.

Ele olhou para o relógio na parede e para o de pulso, só para confirmar que a hora não lhe ia errada e começou a arrumar seu material. Não era de bom tom chegar atrasado a encontro tão importante mesmo porque haveria plateia e não se pode negar o circo quando o pão já anda tão escasso.

Colocou a mochila nas costas, falou rapidamente com alguns amigos e ouviu deles palavras de incentivo, que devia seguir em frente e não esmorecer como se todos ali, ainda contando os anos com uma única palavra, tivessem grandes planos para o mundo.

Hesitou ao sair da sala, e se o outro lhe acertasse logo de cara um no queixo e ele nem conseguisse revidar? E se o outro usasse algum truque sujo? E se usasse algum pau ou arma que fosse? E se? Deveria ter evitado o conflito através do diálogo? Poderia ter solicitado a mediação de um professor?

Não, certos assuntos se resolvem assim, entre homens e sem recorrer a ninguém mesmo. Os de sua classe estariam lá para ele e imaginava que os do outro também fossem estar, a roupa suja seria lavada ante todos e, no fim das contas, era com sangue que ela precisava ser limpa.

Andou pelos corredores fazendo um caminho mais longo do que de costume, não era medo, que é isso! Apenas traçava sua estratégia para a hora do ataque. Passou pelo banheiro, ouviu mais frases de apoio e sussurros de como ele seria vencido facilmente pelo outro. Molhou o rosto e mirou-se no espelho por instantes tentando achar a coragem que precisava. Recuou quando percebeu que o reflexo lhe olhava de volta com ar estranho, meio de galhofa, lhe tirando assim sem mais nem menos. Saiu do banheiro ainda respingando e seguiu seu caminho rumo a saída da escola.

Não havia mais volta, era ali mesmo, seu ringue estava armado e ele ouvia a multidão lá fora gritando seu nome ou os nomes de amigos ou de suas mães e pais que tinham vindo lhes buscar. Fechou os olhos, repassou cada passo de como seria sua estratégia de luta, ensaios de alguns golpes, kung fu dos tolos, caratê dos ansiosos, boxe dos anjos e cortou as asas que ameaçavam sair na parte de trás de sua camiseta do uniforme.

Saiu. A luz do dia lhe franziu o cenho e ele, aos poucos, viu a lona armada no concreto da calçada, o público ao redor e quando este, apercebido de sua presença fez-se Mar Vermelho, pode ver do outro lado seu oponente.

Mediu-o bem, analisou cada parte do outro buscando suas fraquezas, onde atacar primeiro e sentiu que o outro também o escrutinava sem dó. O círculo se fechou e agora estavam um em frente ao outro e a distância foi diminuindo conforme o público ia se fechando sobre eles que ainda se analisavam, olho no olho, aferindo-se, imaginando-se em combate.

Finalmente o espaço interno os fez ficar cara a cara e o silêncio da plateia indicou que começaria a luta e, se não começasse logo, latas de refrigerante, salgadinhos, cadernos e livros voariam pois a massa queria o show que lhe fora prometido e a voz da massa é o molho de tomate servido dos ferimentos dos gladiadores.

E eles se pegaram de vez e a massa recuou, abriu-se o círculo, de forma abrupta, quase em reverência não fosse pelo silêncio pasmo expresso na cara de todos ali presentes quando finalmente, ao dar-se espaço suficiente, pode-se ver os dois num beijo profundo, em carícias, rolando pela calçada.

O público se desfez, sem pressa foi cada um para seu lado e os dois lutadores se amaram na calçada quente sob o sol do meio dia.

lembranças aleatórias não relacionadas com a infância

Lembrança #10 Lembro de uma festa ou rave ou balada que eu ajudei um amigo a organizar num tipo de sítio eu acho. Estava separado do meu nam...