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14 de jan. de 2021

fobia homo 4

 



É triste termos de celebrar um dia do orgulho gay, gostaria de não precisar celebrar essa data, de simplesmente ter orgulho e não precisar reafirmar isto a cada segundo, minuto, hora, dia, semana, mês, ano.

É triste termos de celebrar orgulho quando isto deveria estar implícito e de tácita aceitação, não sendo necessária essa sensação de estarmos pedindo permissão para apenas sermos quem somos, nada mais ou menos.

É triste termos de celebrar orgulho quando há motivos de sobra para o oposto vide a quantidade de gays (em todo seu leque) que são vítimas de violência, humilhação, preconceito, injúrias, ofensas e todo sortilégio de infortúnios sem qualquer manifestação social de compadecimento, justiça ou solidariedade.

É triste termos de celebrar orgulho por uma conquista tão banal quanto casar, uma instituição falida há séculos, dinossauro da herança moral e religiosa mas, infelizmente, único parâmetro que temos para tentarmos construir algum tipo de família ou identidade social. Até nisso somos forçados a adotar padrões heteronormativos.

É triste termos de celebrar orgulho quando as linhas do tempo, mesmo coloridas, escondem reacionários e fóbicos em geral de plantão, prontos para cerrar os punhos e desferir um golpe certeiro assim que a alegria acabar. A incapacidade humana de respeitar e entender o próximo (não digo aceitar porque implica um sentimento de comiseração, de súplica, como se eles fossem obrigados a fazê-lo, isso não quero, não preciso, dispenso cordialmente. Eu me aceito e isso basta, de vocês apenas esses dois itens que mencionei antes deste aparte) é tão infinita quanto o universo e não temos muita certeza sobre este último.

É triste termos de celebrar orgulho chancelado por corporações oportunistas que aproveitam momentos para vender mais e parecerem simpatizantes e apoiadoras quando, passado o circo, voltam a escusar-se de fazê-lo pelos motivos mais estúpidos e mantém seus funcionários gays no melhor estilo 'façamos de conta que não sei' afinal, bicha boa é que compra seus produtos mas não aparece. Fácil fazer campanhas uma ou duas vezes ao ano e esquecer de nós nos outros dias do ano.

É triste termos de celebrar orgulho. Mas é necessário.

É necessário porque você não me respeita, não me trata com educação, não me entende, não quer que eu tenha os mesmos direitos humanos (veja que aboli o gênero ou orientação da questão já que não o 'X' da mesma) que você, como se apenas você fosse eleito para gozar de tais direitos, fossem eles seus, de posse e assim pudesse outorgá-los a quem lhe parecesse mais merecedor dos mesmos. Aliás, nem o gozo temos pois nosso gozo é escondido, tem de ser abafado, dissimulado, é marginal enquanto o seu explode em nossas caras a cada comercial de cerveja, de margarina, novelas, filmes, livros e todo mais. Seu gozo é imperativo, faz do meu algo sujo e saciável apenas como luxúria, jamais como prazer, você goza, eu [gozo].

É necessário para que você aprenda a conviver comigo fora do gueto, fora do estereótipo, fora do chavão, fora do comum. Para que você possa ver-me como seu igual, seu par, desejoso de compartilhar das felicidades e desgraças do gênero humano, não quero casar para ofender sua sociedade mas para ao menos poder abertamente viver os prazeres e dissabores de uma vida comum, cotidiana, essa mesma que você leva ai tranquila e paulatinamente.

É necessário para que você desmistifique essa noção arcaica de que sou antinatural, condenado ao inferno, vicioso, vil, sujo, indecente; todos nós somos tudo isso sem exceção, uns mais outros menos, somos humanos e temos muito mais pecados e vícios que virtudes, quem sabe o equilíbrio entre ambos não se encontre entre meu orgulho e a sua soberba. E se você pensa em comemorar seu orgulho, fique em paz, não precisa fazê-lo pois dia de orgulho hetero é todo dia erguido em cima da vergonha gay, não é pedir muito ao menos um dia por ano invertermos a mão dessa rua.

Quem sabe anos vindouros não a tornem uma grande avenida onde seguiremos na mesa direção...

13 de jan. de 2021

fobia homo 3

 



Seja lá quem for que tenha nos colocado aqui também nos dotou de algo chamado livre arbítrio o que muitos confundem com liberdade para fazer ou dizer o que bem entendem.

Não digo com isto que atos e palavras devam ser vigiados, moderados ou cerceados de alguma forma, a história é rica e pródiga em casos onde esse tipo de decisão acabou mal, muito mal. Porem, é de se esperar que após anos seguidos de aprendizado houvéssemos assimilado algo, nem que fosse o mais básico dos princípios de respeito e dignidade mas, a humanidade é craque na arte da involução e cospe com louvor nos pratos que ela mesma sujou.

Que dizer então desses que ainda insistem em usar termos como 'ditadura gay', 'gayzismo', gayzista', 'opção sexual' e outras pérolas similares que não repetirei preservando o decoro homossexual que mereço e me é de direito. Sim pois gays tem decoro e muito! Temos de ter afinal lidar com vocês, horda de dominadores, perpetuadores da espécie, bastiões do sêmen segrado, guardiões da vagina materna, não é tarefa para os fracos de moral.

Pior quando seus argumentos baseiam-se em 'notícias' as quais você nem mesmo se deram ao trabalho de averiguar e confirmar as fontes exibindo buracos maiores do que as crateras lunares mas, eu lhe entendo afinal não precisa nada disso para esculachar nós 'gayzistas', 'fascistas gays', 'maculadores da família' e, se somos 'vitimistas' (palavras suas, não minhas), o somos apenas pelas mãos da sociedade hetero normativa, essa mesma que você diz estar em extinção mas que domina e oprime todos que não se enquadram nela há milênios.

Somos todos 'vitimistas' de seu escracho, de sua falta de tato, de sua falta de respeito, de sua ignorância e preconceito, de suas leis e costumes que nos alijaram do convívio social e era por lá que deveríamos ficar, não é mesmo? Nas bordas carcomidas do seu mundo esperando os restos que vocês nos atirassem. E agora que a rua não é mais de mão única, é avenida e jamais voltará a ser viela, você grita e bate os pés dizendo que ser hetero é crime e algo em extinção? Olha, acho que precisamos ter uma conversa muito, mas muito séria sobre a evolução humana (se é que você não é criacionista) e os mecanismos perniciosos de controle que a maioria (vocês) exerceram desde sempre sobre a minoria (nós)

Mas tudo isso eu ainda sou capaz de entender e de certo modo, relevar afinal é um direito seu não gostar dos gays e achar que estamos aí para tacar fogo no puteiro, fazer sexo no meio da rua, cuspir na cara da família e lhe ser útil apenas como estereótipo e riso frouxo. Lamento que sua mentalidade seja assim tacanha mas, ainda assim, é um direito seu entretanto, se me permite um adendo, não precisamos atear fogo em puteiro nenhum porque o bordel há muito está em chamas e as putas não são paridas por gays, fazer sexo no meio da rua vocês já fazem e não precisam de nós, cuspir na cara da família também não vejo como podemos ajudar posto que isso também vocês fazem bem demais e, no quesito estereótipos e motivo de riso, bem, vocês precisam de alguém para dar um alívio em suas vidas sem graça, gosto ou cor não é mesmo?

Sim, tudo isso eu posso relevar, sem problemas mas quando você, real ou ficcionalmente, se coloca numa posição de objeto sendo que a violência gratuita contra a mulher (seja ela física ou psicológica) só faz aumentar, penso seriamente que você necessita de ajuda psiquiátrica para dizer o mínimo. Na verdade, acho que você precisa de auxilio histórico e social para entender bem quem é oprimido e quem é opressor porque não devem estar muito claros esses papeis em sua mente, algum tipo de má formação ou fiação mal feita que deva estar gerando esse tipo de pensamentos esdrúxulos.

Não se trata apenas de um direito seu de expressão mas de algo pior pois há uma interpretação totalmente errônea do que é feminismo como se fosse uma ameaça ou câncer a ser combatido e, por tabela, qualquer movimento direcionado a empoderar e trazer à luz qualquer tipo de segmento social que passou tempo demais sob o jugo da maioria é também condenável e deve ser combatido.

Minha sugestão, se você realmente pensa assim, mude para um país sob o poder do ISIS e, depois de algum tempo, venha me falar se ficou clara a diferença entre oprimido e opressor se bem que, pelo visto, capaz de você curtir e até mesmo achar a burka sua cara.

12 de jan. de 2021

fobia homo 2

 



Vivemos o ódio pleno, puro, simples e irrestrito. Somos incapazes de entender o outro, parece que ele ao abrir a boca fala em línguas e nos apavora fazendo com que nossa reação (humana e ancestral ante aquilo que não entendemos) seja primal e animal.

Destilamos essa ira toda sem distinção ainda mais nos tempos atuais quando todos querem mudar mas não sabem exatamente como ou porque fato esse que me causa pânico pois esse vácuo, disse antes, adora ser preenchido por coisas pouco sensatas mas que sabem muito bem atender esse desejo oco que estamos todos sentindo.

Incluo a mim nessa destilaria de fel nas vezes em que, no ímpeto de justificar meus pontos de vista, sou mais 'agressivo' e contundente mas, vejam bem as aspas usadas, minha agressividade não é gratuita, cega ou sem direção e menos ainda renhida ante aqueles que pensam contra mim ainda que, repito, quem lê possa achar que minhas palavras possuam muitas arestas feitas com o único propósito de ferir. Ledo engano, trata-se apenas de argumentação forte e certa surpresa em crer que após séculos de evolução e história ainda me depare com pessoas que pensam em termos tão absolutos e obscuros mas, não vá por aí pois diferente do que muitos fazem não bloqueio ou excluo já que entendo ser direito seu expressar-se ainda que dessa forma tão infeliz, desfazer a amizade (uso o termo aqui da forma mais substantiva possível, reservo a adjetivação para os que me são realmente caros) é apenas aquiescer à sua vontade e dar-lhe o manto da razão e tal jamais farei, no máximo calo e lhe delego apenas meu desprezo.

Agora, voltemos ao fato o qual ainda não atingi e pretende fazê-lo agora. Novamente, virou hábito parece, um homossexual é vítima de simples ódio, esse mesmo que disse no começo do texto. Qual a justificativa? Medo? Uma cantada mal recebida? Não. Se pela segunda então as mulheres já deveriam ter extinguido quase todos os homens e, pelo primeiro, posso entender mas não aceitar e entendo pelo fato de temer o que não aceita (como disse mais acima) ou por um desejo sublimado e não realizado sendo necessário eliminar o objeto do desejo (que poderia nem mesmo saber que o era) para apaziguar a alma atormentada.

Mas não. Não creio que tenha sido por qualquer um deles mas simplesmente pelo ódio puro, desejo de não aceitar o outro em sua liberdade que agride quem não a entende e por uma certeza absoluta de que, feito, as consequências seriam ridículas quiçá inexistentes e assim se provou já que o desgraçado que o fez saiu pela porta da frente da delegacia depois de pagar uma fiança infantil. Então eu pergunto a você que reclama da ditadura gay e de que se está endeusando o 'modo de vida gay' ainda mais quando 'pessoas' são condenados a pagar por suas injúrias e discurso de ódio e aqueles poucos que nos defendem como Jean Wyllys, quando se posicionam fortemente contra a ditadura religiosa que se impõe calmamente sobre todos nós, heteros e gays, a seu ver podem sair ilesos, qual parte desse todo você não vê?

Quantos gays você já testemunhou, viu, ouviu ou soube terem atacado violentamente algum hetero ou religioso? Quantos gays você conhece (se é que conhece algum, de novela não vale! Tem de ser da vida real!) pregam o ódio aos outros seja por serem heteros ou religiosos? Quantos gays você já ouviu falar terem pago senão com sangue o preço da intolerância? Quando atacamos esses que nos atacam, onde está a ofensa? Usamos por acaso palavras indecorosas ou pejorativas? Comparamos alguém com o aparelho excretor? Usamos de uma falsa moral para deturpar conceitos e direitos e atingir seus objetivos? Ou de tom histriônico e apelativo para justificar uma possível falta de embasamento?

Não, meu caro, isso quem fez são os moralistas fervorosos do altar de plantão, os que acham mesmo somos todos nós gays uma pilha de aparelhos excretores mal usados e que não tem como argumentar contra o fato maior de que a luta não é para tornar todos viados mas apenas para termos, como cidadãos que pagam os mesmos impostos que vocês, os direitos que de berço lhes são agraciados e que insistem em pensar como apenas vossos e não de todos.

São estes tempos que vivemos onde um gay morto não tem problema afinal somos descartáveis e de uso apenas como estereótipo e alívio cômico para os humorísticos de gosto duvidoso. E não pense que essa chibata do assassínio estala apenas nas costas das bichas, ela estala nas costas de toda minoria que vocês insistem em subjugar aproveitando o momento atual de extremos para propagar essa eugenia que pretendem implantar. Esse gay que foi esfaqueado não viu, ou tenha visto não sei, mas no cabo da faca a mão não era apenas de seu vizinho ignorante e obtuso, pelo qual só posso mesmo sentir a maior das comiserações, eram várias mãos juntas enfiando fundo a faca do ódio, do preconceito, do desrespeito ao outro pelo simples fato dele ser/agir/pensar diferente.

Há sangue nas mãos, meu amigo. Nas minhas por aceitar que ainda se passe isso mas acima de tudo, nas suas por avalizar esse tipo de ação e por não enxergar que todo esse ódio, neste caso em específico, é uma rua de mão única onde quem possui o carro é apenas você!

O resto de nós aqui está há anos a pé e, infelizmente, vindo na direção contrária.


11 de jan. de 2021

fobia homo 1




A intolerância travestida de ofensa, moral e bons costumes, vai mostrando suas garras proporcionalmente ao abalo do status quo onde viado bom é o que fica em seu gueto, quietinho e aparece apenas como alívio cômico estereotipado e pejorativo ou como prestador de serviços que essa parcela risível da sociedade entende como femininos, agregando um preconceito a outro tão ou mais pernicioso.

Quando a viadagem rompe os muros do gueto e resolve dar a cara a tapa, como lidar? Afinal, tínhamos lá nosso cantinho, não? Porque ameaçar a sociedade que tacitamente nos cedeu esse espaço onde podemos ser o que quisermos? Precisa casar? Ter filho? Aparecer na TV? Querer ser visto? Onde já sei viu! Ponha-se no seu lugar, bicha! Ninguém é obrigado a ver suas indecências em rede nacional, ruas e avenidas, que absurdo! Saudades do tempo em que esses viados sabiam seu lugar!

Esse lugar nunca existiu, foi imposto e abraçado por nós gays na absoluta falta e impossibilidade de podermos coabitar o mesmo espaço que a maioria hetero. Ainda que nocivo sob alguns aspectos, esse gueto construiu nossa identidade e ajudou um sem fim de viados (eu incluso) a sentir-se aceito, parte de algo e não isolado do e no mundo. Por anos vivemos assim dos restos e rebarbas atirados a nós feito esmola mas, o tempo é inexorável e com ele as mudanças que nenhuma força obscura pode deter ainda que possam (apenas) atrasar e obstruir sem fazer com que se diminua o ritmo da marcha posta em movimento por pessoas, situações e desejos muito além de sua ilusão de controle.

É do humano a aversão total a qualquer mudança, somos assim independente de credo, cor, orientação sexual, apetite, forma ou desejo. Somo criaturas do conforto, do padrão, do estável, do conhecido. Tudo que foge disto nos apavora, gela a espinha, traz calafrios e pânico e, como todo e qualquer animal acuado, partimos para o ataque esquecendo da claridade que nos foi agraciada por anos de evolução pelo simples fato de termos medo.

Estamos numa fase de transição, saímos do armário e não há mais volta. Ficar onde estamos, aceitando o pedaço que temos no latifúndio é aceitar mais uma esmola, um cala a boca e assim, só nos resta uma alternativa, ir em frente, adiante. Certo que muitos de nós pagarão preços diferentes por essa decisão, uns apenas algumas frases ou indiretas aqui e ali, outros com algum status ou posição, alguns com a pele e um naco de carne e tantos outros, menos afortunados, com a vida. Somos as bruxas na cidade onde todos gritam não lobo mas viado e as estacas estão atiçadas para arder nossa carne gay, exalando aos ares um aroma de purificação que, na verdade, irá empestear todos as narinas com o odor não de carne mas de consciências incineradas, a culpa vai aderir aos poros para nunca mais sair.

Por isso mesmo, ações de grandes empresas, mídia, entretenimento e outros tantos pela representatividade precisam existir cada vez mais, para fazer entender a esses imbecis parcos de discernimento que a ofensa maior reside no fato de agirem como fascistas sanguinários, reacionários estúpidos desejosos de um mundo moribundo apegando-se com unhas e dentes aos pedaços podres que ainda lhes restam. E inundam com seus latidos de ódio como se estivéssemos obrigando, forçando, agredindo, demandando algo que não fosse simples, singelo e de direito universal e igualitário, respeito. Quanto mais ações bem feitas e que valorizam o sentimento, o amor, o respeito, a união melhor ainda mais nos tempos em que vivemos.


Mas não, essa corja prefere agir como se fôssemos nós, gays, a ameaça maior aos seus filhos e família (instituição falida há séculos) e não a violência cotidiana que nos acossa. Não os desmandos dos governantes tentando fechar suas contas com nosso trabalho e dinheiro. Não é a sua crítica vazia a corrupção enquanto fura fila do mercado, no trânsito acelera para não deixar o pedestre passar ou o outro carro entrar, enquanto deixa o carrinho do mercado largado em qualquer lugar ou o arremessa em direção ao auto mais próximo (que não o seu), faz de conta que está no mais profundo sono enquanto o idoso fica em pé e se tem de lhe ceder o lugar, reclama. Não devolve o troco que veio a mais porque a obrigação era do outro ter feito a conta certa, paga pelo atestado fajuto para seu filho cabular aula ou para matar um dia no trabalho, acredita que passando o outro para trás, vai chegar na frente quando, nessa fábula, somos todos a tartaruga e o coelho já morreu faz tempo.

Não. Nada disse importa porque os gays estão tomando o poder, impondo sua ditadura, seu estilo de vida, seu modo, seu jeito goela abaixo da sociedade, esse é o problema. Geralmente quando não sabemos identificar o que está errado conosco e ao redor, buscamos um bode expiatório para aliviar nossa consciência desprovida de espelhos, agora somos nós gays o bode da vez. Quando e se lograrem acabar conosco, oro pela próxima camada social que escolherem até que, finalmente, sobrará apenas a vocês para balir e preencher o papel.

Quer boicotar algo? Boicote seu preconceito, sua ignorância, sua intolerância, seu medo. Boicote esse desejo que você não entende e não é seu, foi posto em sua mente e peito por pessoas de intenções nefastas e que desejam usar sua pele para cobrir o lobo que são.

Boicote tudo isso e adote uma postura mais humana e conciliadora. Ou acabará tendo de boicotar a vida quando menos esperar.

1 de dez. de 2020

atestado

 


Antes de tudo, quero deixar claro que distúrbios emocionais, psicológicos, psiquiátricos ou afins são assunto sério e precisam de tratamento profissional qualificado, acompanhamento e medicação. Se você suspeita que sofre de algum desses distúrbios, procure ajuda profissional e tratamento, não se acanhe!

Bem, acho que todos viram o caso desta moça na padaria, não? Triste, horrendo mas nada que não seja normal e comum no Brasil Bolsonarista. Logo após o ataque, a 'advogada' (aspas amplas porque a OAB desconhece a rábula, deve ter comprado o diploma ou, em seus delírios, é formada e pode advogar) veio pedir desculpas, meter atestado, sofre de bipolaridade, transtornos emocionais e que a vítima foi ela e não as pessoas que ela xingou, humilhou, ofendeu e agrediu na padaria.

Vamos por partes.

Se ela realmente sofre de algum tipo de distúrbio psiquiátrico ou psicológico a primeira questão é se ela está ou não em tratamento, se faz ou não uso de medicação e se, na ocasião, havia feito uso de álcool ou outras substâncias que poderiam ter atuado com a medicação e causado o comportamento agressivo. Se ela realmente sofre de algum tipo de transtorno, jamais poderia sair desacompanhada ou talvez nem mesmo sair de casa quanto mais consumir qualquer tipo de substância que pudesse causar um surto. Pelo que se pode ver no vídeo, ela não parece ter vindo de casa ou do trabalho mas indo ou voltando de alguma festa ou balada e, volto a dizer, como uma pessoa assim pode andar ou sair sem supervisão e consumir substâncias que podem potencializar efeitos de remédios pesados que devem ser tomados por pessoas que sofrem desse tipo de distúrbio? Se ela realmente sofre dessas doenças há um atenuante mas não se pode relevar o fato ocorrido e deveríamos ouvir as pessoas que são responsáveis por ela já que ela não pode ser responsável por si.

Isso posto, ainda eu sua condição possa ser algum tipo de atenuante não a exime de culpa pois seu comportamento, atitude e falas registradas em vídeo deixam claro que ela, ainda que em surtada, estava totalmente coerente e apenas livre das travas morais e sociais que a impediriam de fazer tal coisa em condições normais ainda que, nos dias de hoje com um governo que passa carta branca para esse tipo de horror, as pessoas sentem-se muito à vontade para proferir ofensas raciais, sociais, de orientação sexual ou gênero sem qualquer constrangimento ou seja, ela pode até ser doente mas não é louca e, em surto, deixou clara sua personalidade e modo de pensar.

Os cidadão do bem surtados tem esse tipo de comportamento comum, podem notar, sempre fazem das duas e depois metem o atestado de distúrbios e doenças emocionais e mentais e tentam virar o jogo para saírem como vítimas da situação e não como criminosos pelo simples fato de que dentro de sua lógica distorcida por toneladas de medicamentos e voto 17 eles realmente estão sendo perseguidos por não poderem ofender as bixas, as pessoas trans, pretas e toda e qualquer pessoa que não se encaixe no mundo binário e centrado que enxergam.

Eles desejam a liberdade de dizer o que quiserem sem o ônus de arcar com as consequências e aí, pagam de doidos, veja só! Em suas mentes, o que fazem não é ofensa e quando retrucamos e revidamos estamos tolhendo sua liberdade de expressão que na verdade não está sendo posta em cheque, apenas recebendo a reação contrária na proporção de seu ato horrendo, hão de entender de que para toda ação há uma reação na mesma força e medida e estavam acostumados a não serem questionados.

Não adianta vir de atestado, vocês podem até serem doentes e usaram medicamentos, hoje em dia quem não usa mas, não venham usar disso como muleta para seu comportamento escroto e lixo, isso não cabe mais no mundo e vocês não conseguirão mais virar o jogo e sair impunes, esse tempo acabou! Vocês podem se esconder atrás de seus atestados e laudos, de suas doenças e desculpas mas nunca mais conseguirão se safar da culpa por seus atos, vocês acham que podem usar de subterfúgios para isso mas não, não vão conseguir mais porque a gente deste lado aqui já sacou seu jogo e ninguém aqui vai mais baixar a cabeça e passar pano para vocês.

Podem se entupir de remédios e jogar todos seus atestados, nada vai colar quando a gente sabe o jogo de vocês e não vai mais engolir essas mentiras que vocês adoram contar porque não tem estrutura nem coragem para assumir que são sim racistas, machistas, homofóbicos e querem nos ver mortos.

Pode vir de atestado que a gente vem de perícia.

30 de nov. de 2020

prato feito

 



Antes de qualquer coisa, deixo claro que não tenho a solução para esse ou qualquer problema e que as opiniões que expresso aqui são minhas e tão somente minhas, sinta-se livre para concordar, discordar e parar de ler se for o caso.

Ainda estamos na 'ressaca' desse caso horrendo, parece meio chover no molhado falar dele e de como indignou a todos nós, parece pouco seguir falando dele, parece nada não falar e deixar o Carrefour soltar notas de desculpa e inserções em horário nobre de seu presidente branco europeu fingindo um horror lido nas placas pois era incapaz de decorar um texto simples ou mesmo falar de improviso que teria sido mais humano e sincero.

O horror maior entretanto veio de quem governa, de quem mama nas tetas do presidente, lhe lambe o cajado e as botas cheias de merda. Não existe racismos no Brasil! Que coisa maravilhosa, gente! Somos talvez a única nação no mundo que erradicou esse câncer! Serei forçado a votar no coiso por esse feito tão incrível! Racismo no Brasil? Onde? Estão importando coisas de fora para tumultuar a sociedade, Brasil é um país misturado, um caldeirão cultural e racial, somos todos pretos e pardos e índios e brasileiros.

E vem o cidadão de bem comentar nas redes e sites que estão fazendo massa de manobra, que o cara era meliante, tinha ficha, era agressor, assassino condenado, batia na mulher, era estuprador e outros, tudo para justificar que ali foi apenas a lei do retorno, que ele teve o que mereceu e que coisa boa não deveria estar fazendo senão, não teria morrido, essas coisas que todo cidadão de bem adora repetir para não ter de encarar a triste realidade dos fatos.

O caso Carrefour não é isolado, acontece todos os dias em todo lugar mas a gente faz de conta que não acontece, não vê. O Carrefour tem histórico: em 2009, funcionários da unidade de Osasco espancaram um homem negro sob alegação de que ele estaria tentando roubar o carro que era dele mesmo. Em 2018, um homem negro deficiente foi espancado na unidade de São Bernardo do Campo porque abriu uma lata de cerveja dentro da unidade. Entre 2017/18, uma mulher negra e dependente química foi espancada e estuprada numa unidade do Rio de Janeiro e fora os caso do cachorro que foi morto por um segurança da loja e daquele outro caso de uma pessoa que morreu dentro da loja que seguiu funcionando normalmente tendo apenas coberto o corpo com guarda-sóis.

O Carrefour aparece porque é uma empresa grande, gigante, internacional mas casos iguais ou piores que acontecem diariamente em outros estabelecimentos passam batido por nós e pior, de tanto vermos casos assim acabamos normalizando sua ocorrência, mais um, acontece sempre como qualquer outra coisa numa cidade grande e num país como o nosso.

O pior é que lutar contra isso é uma tarefa ingrata, tipo enxugar gelo porque boicotar a empresa pode parecer um ato viável mas na verdade pouco tem de efeito porque as pessoas seguem comprando na rede e não seria apenas boicotar o supermercado mas as marcas que fazem negócio com ele e que também tem culpa no cartório mas se fazem de isentas porque não vão perder bilhões em vendas. Não adianta pressionar o Carrefour, temos de pressionar a Unilever, a Coca-Cola, a Nestlé e todas as grandes marcas que também pecam por omissão e tem sim casos de racismo, homofobia e outros em seus catálogos, uma tarefa praticamente impossível já que boa parte das marcas que consumimos estão nas mãos dessas e outras empresas que controlam tudo que consumimos mundialmente.

Além disso, há o fator social e político, quando o governo se faz de besta e prefere proferir absurdos, sandices e imbecilidades ao invés de encarar de frente o problema, incita a parcela da sociedade que pensa igual a fazer a mesma coisa e normalizar e relativizar casos assim tomando sempre a vítima como culpada e duvidosa, se apanhou ou morreu é porque coisa boa não era, se fosse gente de bem não teria acontecido nada, se fosse gente branca de bem, obviamente.

Enquanto aceitarmos tacitamente declarações estapafúrdias de governantes imbecis e pedidos de desculpa corporativos vazios cheios de medo da queda nas ações e não de culpa, estaremos no mesmo barco que o Carrefour e todos os que acham que a vítima é sempre culpada.

25 de set. de 2020

doente é você, não eu

 




Quem é o doente? Quem precisa de tratamento? Quem precisa de internação?

Não eu que nasci viado e morrerei assim graças a todas as entidades que oxalá regem o universo e o nosso destino, se há reencarnação, peço para voltar ainda mais bixa, trixa, homossexual terrível e padecendo do mais alto grau de homossexualismo.

Melhor do que voltar hétero, conservador, pai de família, conservador, moralista, ministro da educação, bolsonarista ou da familícia 17, melhor do que ser crente e cristão, melhor do que ser temente a deus, melhor que ser da fé, melhor que ser desses que pregam o amor de deus e ódio de satanás, melhor do que ser parte da família torta brasileira.

Homossexualismo é uma doença lida, todos deveriam contrair, epidemia, pandemia, espalhar feito rastilho de glitter, de sexo, falta paudemia, falta epidermia, falta mais gozo, se todos pegassem homossexualismo seríamos maia felizes porque estaríamos preocupados em gozar, em ouvir a última música da Kylie, da Gaga, da Madonna e de todas as divas que lacram o caminho do normativo.

Estaríamos preocupado em escolher a roupa para ir na balada, em chamar os amigos pro esquenta, pra ir no Arouche, na Parada, na festa bapho que vai ser lendária, na sauna e cinemão onde os paus não tem nome mas todos dizem amém, em fazer piada com tudo e rir nos momentos mais tristes porque homossexualismo tem como sintoma uma alegria de ser e existir já que o mundo e a sociedade insistem em nos fazer chorar todo santo dia.

Estaríamos mais preocupados em ver a última temporada de RuPaul, em ver aquela série babado, em trocar informações e impressões e não fake news, em amar como se não houvesse amanhã porque para quem é gay o amanhã muitas vezes é algo inexistente ou tão incerto quanto os números da loteria, em trepar como se não houvesse amanhã porque o sexo liberta e alivia, se as pessoas que falam merda e apontam dedos trepassem mais teríamos um mundo melhor.

Então, vamos passar o homossexualismo para todo mundo, vamos infectar a todos, chamem a gente para pegar essa doença maravilhosa, chega de COVID, chega de doenças que matam, venham pegar homossexualismo com a gente, pega fácil, basta um beijo, um pega, se quiser garantir o contágio podemos fazer sexo, será um prazer, garantido! Vamos infectar o mundo com o homossexualismo, vamos deixar todos viados, trans, queer, gays, vamos tornar todos doentes de homossexualismo terminal, sem vacina, sem tratamento, sem internação, sem lockdown, sem quarentena, sem isolamento.

Porque estágio terminal de homossexualismo é ser vivo, ser gente, ser você.

Porque vacina para homossexualismo é viver sem preconceito, sem medo, sem ter de justificar quem somos ou como amamos.

Porque tratamento para homossexualismo é ser feliz, é gozar, é viver sem ter de satisfação aos outros.

Porque internação para homossexualismos é balada, bar e fervo.

Porque lockdown para homossexualismo é festa fechada com amigos queridos.

Porque quarentena para homossexualismo é maratonar a vida.

Porque isolamento para homossexualismo não existe, quem nos isola são vocês aí do outro lado.

13 de abr. de 2020

Velha roupa colorida


Que a morte vai chegar não resta dúvida, independente de cor, classe social, posses, orientação sexual, identidade de gênero, idade, nacionalidade ou o que for.

A hora de passar a régua e encerrar a conta vem de qualquer maneira.

Mas de tempos em tempos, somos confrontados com situações que nos fazem encarar a hora final com mais frequência e urgência queiramos ou não, como esses tempos de pandemia quando vidas humanas são ceifadas em baciadas sem dó ou piedade.

A bem da verdade, antes de tudo isso que estamos vivendo, pessoas morriam de moléstias diversas, algumas completamente curáveis mas cujos doentes não tinham acesso devido a barreiras sociais, políticas ou econômicas, outras sem cura independente do quão rico fosse o doente e, infelizmente, morriam por fome, inanição ou causas não naturais que, em tese, a humanidade deveria ter deixado para trás há séculos.

O que deixa a todos espantados e assustados é velocidade com que estamos morrendo agora e a incerteza de nossa invulnerabilidade ante o avanço inexorável da doença. A morte antes acenava como algum tipo de visita distante que ia acenando cada vez mais perto até não ser mais possível ignorar sua presença. A morte era um problema do outro, lamentávamos que ela havia chegado, cumpríamos os ritos de despedida e enterrávamos junto com o falecido nosso medo de que poderíamos ser os próximos.

Com a pandemia, esse medo passou a dividir a mesa conosco e, em quarentenam temos de dormir e acordar com ele ao nosso lado, fazer as refeições, tomar banho e fazer de conta que ele não está lá. A urgência da morte veio e fez casa e não parece que vai embora tão cedo e com ela, veio o pânico de que o outro pode ser o agente mortífero e não o outro que sempre enxergávamos como imbuído de más intenções e desejoso de nos ferir para compensar qualquer desejo patológico ou desfavorecimento social. O outro na pandemia adquiriu um ar mais soturno de amigo que repentinamente ficou perigoso e precisamos manter afastado.

Talvez passada a pandemia nunca mais sejamos os mesmos uns com os outros, ingressaremos na era do pós-social, não sei mas sei que se há algo que aprendemos ou deveríamos estar aprendendo com isso é como tratamos nossos idosos.

Já por costume e tradição, nós ocidentais tendemos a enxergar os velhos como um fardo, algo que deve ser descartado e colocado de lado. Nossa sociedade preza a juventude e o novo como bálsamos insubstituíveis, o que é velho deve ser posto num museu e esquecido, inscrito nos livros de história para ninguém mais ver e ouvir falar.

Com o advento da pandemia e durante o vigente governo de agenda neoliberal ficou claro que as vidas idosas são um preço aceitável a ser pago para manter a roda girando e a sociedade funcionando afinal, eles já cumpriram seu papel, deram sua contribuição e precisam agora dar espaço aos jovens que tem de construir a pátria arrasada Brazil. O governo certamente agradece esse sacrifício já que promoverá um fôlego nas contas públicas sem que seja preciso posar de vilão ante a sociedade.

As vidas idosas passaram a ser moeda de troca no jogo político e social, se antes eram um incômodo encarado por muitas famílias como obrigação da qual se incumbiam sob o medo do julgamento social, com a pandemia passaram a ser artigo de exposição e justificativa para expressões de descaso das autoridades e até mesmo entre familiares que antes estariam pouco se lixando para elas.

Na verdade, esse valor súbito das vidas idosas vem do medo que a pandemia - como está se mostrando - não se retenha nelas e passe a devorar outras vidas com a mesma voracidade. Se um velho morre por que sua vida se extingue naturalmente ante o desgaste e fragilidade impostos pelo tempo não há problema afinal, é o curso natural das coisas mas, quando uma doença agressiva começa a ceifar essas vidas e mostra que pode clamar por outras mais jovens, entregamos as vidas velhas como oferenda para ver se a doença se sacia e nos deixa em paz.

Já ouvi e creio que tenham ouvido também comentários de que deveríamos deixar os velhos morrerem e focar no salvamento dos mais novos porque os velhos já estão no fim mesmo, qual a utilidade de gastar recursos com eles? Isso diz muito sobre nós como sociedade e espero que saíamos disso com outra concepção de valor da vida humana e de como tratamos nossos idosos.

Não vai adiantar muito passarmos por isso tudo e nossos idosos seguirem abandonados em asilos e largados a própria sorte porque não tem mais qualquer utilidade para nós nem para a sociedade. Sairemos de uma pandemia apenas para entrar em outra que sempre vivemos.

10 de abr. de 2020

A epidemia que podemos curar


Estamos em distanciamento social ou isolamento, como preferir mas o fato é que é compulsório, era isso ou deixar a doença espalhar feito fogo rasteiro e ceifar vidas até cansar ou alguém aparecer com alguma cura.


Mas antes da pandemia e de sermos forçados a ficar em casa, reassinar ideias de trabalho e contato social e reentender o que é viver, já vivíamos isolados e distantes socialmente.


Sim.

Fazíamos isso quando optávamos por desver as pessoas que precisam de nosso apoio não apenas em momentos como esse mas em todos os momentos da vida.

Quando fazíamos de conta que os problemas de outros não eram os nossos, o que arde nos olhos alheios é brisa nos nossos.

Quando falávamos coisas bonitas nas redes sociais mas fechávamos as portas quando a ajuda tinha de ser real.

Eu espero que essa pandemia sirva ao menos para que, ao final dela, sejamos pessoas mais conscientes e presentes nas vidas uns dos outros e dispostas a apoiar, incentivar e valorizar quem enfrenta uma pandemia social há tempos.

Então, já que estamos todos imbuídos desse sentimento cívico trazido pelo afastamento da pandemia, um jeito meio torto e bruto de nos aproximar, que tal prestigiar o trabalho de gente capacitada, que batalha, que luta e que precisa da sua ajuda para seguir na batalha diária contra um vírus muito mais mortal que esse de agora, o vírus do preconceito para o qual ainda não temos cura infelizmente.

E não deixe esse sentimento passar com a pandemia, implante ele no seu coração e em sua mente, faça com que ele perdure e valorize o humano porque a vida passa rápido demais para deixarmos que ela seja maculada por preconceito, fobias e qualquer coisa que não seja o amor.




4 de mar. de 2020

Transparente

Creio que todos tenham vista a matéria do Dr. Drauzio no Fantástico de domingo último, caso não, clique aqui.

Não vejo TV aberta, não por preconceito nem nada mas simplesmente porque não há nada nela que me agrade ou mereça minha atenção, prefiro gastar meu tempo com outras coisas mas, eventualmente, aparecem matérias como essa que precisam ser vistas, compartilhadas e gerar uma reflexão em cada um de nós.

Depois de ver a matéria, a palavra que apareceu em minha mente foi PRIVILÉGIO. Sim. Essa mesma e em maiúsculas. Damos tanto por certo e imutável em nossas vidas que passamos a desvalorizar os pequenos milagres e benesses que usufruímos passando a um atitude de contestação permanente e insatisfação constante.

O carro que não temos, o emprego que não gostamos, o dinheiro que não temos, a roupa que não podemos comprar, a comida que não gostamos, as pessoas que não amamos, as filas que pegamos, o transporte que atrasa, a sociedade que não melhora, o governo que nada faz, futilidades que assomam um valor absurdo no mar de pseudo-problemas que gostamos de mergulhar.

Matérias como essa fazem pensar, provavelmente teremos esse momento de epifania por alguns momentos em que aquelas realidades tão desoladoras nos batem na cara para, logo em seguida, voltarmos às nossas lamúrias diárias e reclamações fúteis, normal, somos apenas humanos e eternamente insatisfeitos.

Mas, se pudermos nos apegar a esse sentimento e fazê-lo durar mais do alguns minutos, empregar o sentido de privilégio em nosso cotidiano e passarmos a perceber que fazemos parte da pequena parcela de pessoas que possuem acesso às oportunidades, vantagens e benefícios que a sociedade infelizmente reserva apenas a poucos, talvez possamos fazer nossas vidas e o mundo um lugar menos pior.

Pode parecer piegas, clichê, coisa de guru de auto-ajuda mas não, pense na história daquelas pessoas da matéria que, além de estarem encarceradas, são pessoas trans ou seja, carregam mais de um estigma que dificilmente a sociedade irá perdoar e, mesmo assim, elas estão vivas, tem alguma esperança e lutam para viver dia a dia pois para elas, o amanhã é algo tão incerto quanto o hoje e menos incerto do que ontem.

Para elas, as pequenas conquistas são de valor imenso, não dão nada por certo porque sabem que a vida, num estalar de dedos, pode fazer tudo virar pó ainda mais se você faz parte de qualquer minoria social que, tradicionalmente, terá menos chances, menos reconhecimento, menos oportunidades e mais preconceito, mais discriminação, mais ódio, mais nojo, mais julgamento, mais exclusão, e mais de tudo que é ruim, nocivo e humilhante.

Pense no caso de Suzy - não desmerecendo a história das demais - há mais oito anos sem receber uma visita seja de amigos ou família, sequer uma carta, um postal, nada. Pare um momento e pense se de súbito, seus amigos e familiares deixassem de falar com você por apenas uma semana, isso, apenas uma semana, como você se sentiria? E se fossem anos? O que você faria?

Pois ela está lá, isolada, náufraga social há oito anos, OITO ANOS, sem ninguém, sem uma pessoa para conversar, tocar, trazer notícias de fora, sem ter alguém que venha lhe dizer que te ama e que está lá te esperando, que te dê forças, que te apoie, que seja amigo, família, parente.

Suzy sossobrou o navio da vida e acabou sozinha naquela ilha para onde mandamos quem não queremos mais ver, lembrar ou ter por perto. Suzy é mais uma entre as centenas de milhares de náufragos que enfiamos nas cadeias porque bandido bom é bandido morto seja real ou figurativamente. Não importa quem está lá desde que lá permaneça.

Suzy é a nova leprosa, ela e suas amigas são a nova epidemia não o coronavírus, uma epidemia que vem matando mais e mais a cada ano incentivada por autoridades que preferem fazer vista grossa e direta ou indiretamente incentivam esse massacre. Suzy e suas amigas são vítimas caladas de uma estatística que só aumenta e de uma sociedade que prefere vê-las mortas do que ajudando a fazer um país melhor mesmo que seja por apenas viverem suas vidas.

Eu te peço desculpas, Suzy. Por mim, por aqueles que eu conheço e por todos mais por esses oito anos de hiato social. Te peço desculpas por sermos tão cegos e hipócritas, por sermos tão escrotos e individualistas. Te peço desculpas por reclamar de banalidades, por me sentir um nada, por me sentir injustiçado ou preterido na vida. Te peço desculpas por reclamar daquela comida que não gostei, por fazer pouco daquela pessoa que vi na rua, por falar mal de quem não conheço, por julgar sem entender.

Eu te peço desculpas, Suzy. Por estar aqui fora achando que estou livre e ter pena de você que está aí presa e sozinha há oito anos. Quem está preso sou eu, Suzy. Quem está sozinho sou eu, Suzy. Quem está precisando aprender algo sou eu, Suzy.

Saia daí e venha nos ensinar, por favor!

14 de fev. de 2020

Pateta

Como esfacelar uma sociedade?

Muitas maneiras, oras!

Primeiro se elege um asno conservador que não sabe patavinas sobre como gerir um país mas tem o apoio das elites socio-econômicas cansadas de dar passagem aos pobres, pretos, bixas, mulheres, nordestinos e tudo mais que não fala parte de sua casta.

Some um discurso teocrático voltado para os neopentecostais e cristãos TFP, uma certa dose de autoritarismo e intolerância, valores conservadores, ufanismo exacerbado, pátria amada, eles contra nós e falocentrismo.

Depois, comece lentamente a testar os limites dessa sociedade através de factóides, frases, atos, ataques a imprensa, fake news, destempero emocional, violência verbal. Veja até onde a sociedade engole algumas coisas e rejeita outras.

Enquanto isso, vá desmontando gradativamente a cultura, educação e impondo uma censura velada. Acena com melhoras na economia e com números que comprovem isso tirados de sua cartola mágica neoliberal e critique quem está torcendo contra o país.

Por fim, peça ao seu ministro da economia que deixe claro para quem vocês estão governando, dólar alto não é problema, é solução afinal para os ricos isso significa mais dinheiro, no máximo terão de trocar as férias na Europa ou nos EUA por algum resort no nordeste ou algum projeto de país sul-americano, talvez um safari na África ou um pulo em Cancun. Aquela SUV do ano terá de ser trocada por uma semi-nova e a festa de quinze anos terá de ser feita naquela balada já meio decadente e não no clube da moda e a champanhe terá de ser algo mais barato e não aquela importada.

Mas tudo bem! Vale o sacrifício!

Só de saber que a empregada, o motorista, o porteiro, a manicure, seus filhos e filhas não estarão entupindo as filas de check-in nos aeroportos atrapalhando o acesso da Business Premiu First Platinum Gold, já vale esses pequenos sacrifícios.

Só de não topar com esse povo na Disney, em NYC, Miami, Londres, Chile ou Paris já vale fazer esses pequenos cortes no estilo de vida. Só de não ver os filhos e filhas deles na mesma universidade que os seus dá gosto ter de cortar alguns dólares do orçamento doméstico já tão apertado.

Não ver esse povo comprando carro então, vale qualquer coisa, para isso tem ônibus e metrô, gente! E ver esse povo indo ao shopping? Como se tivessem condições de gastar por lá onde madames levam seus cães de vários salários mínimos passear junto com as babás que estão pra por a mão no diploma, quem vai cuidar das crianças e levar o totó pra passear nos dias de chuva?

Por mim o dólar podia estar até em cinco reais! Não me importo desde que esse povo pare de ocupar esses espaços que nos pertence, pagamos impostos, fazemos doações, ajudamos tanto, qual o problema deles em ficar no seu canto, onde tudo faz mais sentido? Eles não tem condições de entender este lado aqui, as diferenças entre os tipos de café, de pães artesanais, dos diferentes tipos de tecido, as fragrâncias finas que exalamos, não sabem se comportar num avião, num táxi, num Uber, não sabem como ir a um museu aliás nem precisam, lá onde moram tem tudo que precisam, não?

Onde já se viu irem pra Disney? Nem português falam direito, que dirá inglês! Para viajar ao exterior tem de saber se portar, se vestir, falar, andar, representar o país lá fora, não pode ser qualquer um não! Vá lá, uma vez na vida, um sonho realizado, um desejo, uma doação feita por algum desses programas que realizam sonhos, tudo bem! UMA VEZ, mais que isso é desnecessário, gente!

Como esse pessoal pode fazer um check-in, um bag drop, pedir um upgrade, conhecer os rewards do programa de milhagem? Como podem saber o que é late check-in, early check-out? Se quer devem saber o que é um single room, nem mesmo um boarding pass. Nem sabem pronunciar as marcas do Duty Free!

Por isso o ministro está certo, tem de deixar esse dólar alto mesmos porque essas coisas devem ser apenas para quem tem condições de usá-las, de entender como usar, não pode ser pra qualquer um.

Ou isso ou então aqui é a Disney e somos todos Pateta.

10 de fev. de 2020

Onde os fracos não tem vez.

Já havia escrito aqui sobre os comentários do messias sobre as pessoas com HIV-AIDS e agora, esta outra notícia ecoa com esse discurso pronto deixado claro que a agenda neoliberal segue firme e forte seu caminho para desmontar a sociedade matando aqueles se encontram na sua base para deixar os mais abastados tranquilos e protegidos.

Não é a toa que o empresariado sente-se mais do que confortável em pedir a revisão dessa estabilidade dada a pessoas com HIV-AIDS já que elas representam um custo para eles e para o governo. Bolsonaro de forma explícita deu seu aval ao corroborar esse pensamento que já é um desejo antigo das elites econômicas do país.

Atualmente, as empresas não podem perguntar sobre sua sorologia em uma entrevista de emprego pois é considerado ato de preconceito já que pode levar o empregado a não contratar aquela pessoa pelo simples fato de que ela poderá ficar mais doente que outras não portadoras do vírus o que, em termos de lucros e cifras, é horrível para o empresário.

Igualmente, após a contratação o empregado não pode ser dispensado ou sofrer qualquer preconceito pela sua condição de soropositivo e esta lei proíbe que isso aconteça mas, os empresários alegam que isso pode mascarar pessoas mal intencionadas que usarão da doença para permanecer em seus empregos mesmo não apresentando o que se costuma chamar de performance adequada ou dentro do que se espera na empresa.

Obviamente que gente mal intencionada há em todo canto e não apenas pessoas com HIV-AIDS basta ver a quantidade de fraudes que pululam no INSS e muitas com vista grossa das autoridades. O que se está tramando é um mecanismo que permita dispensar essas pessoas que, devido a sua condição soropositiva, podem sim adoecer mais do que pessoas sem o vírus ainda que os atuais tratamentos, se seguidos corretamente, tornem isso virtualmente impossível e tudo isso porque custa caro para o empresário manter um funcionário nessas condições.

Isso abre uma brecha perturbadora pois os próximos da lista serão as mulheres grávidas, os portadores de doenças crônicas como diabetes e pressão alta e daí para dispensar PCD, LGBTQs, afrodescendentes ou qualquer outra minoria que não se encaixe no padrão empresarial é um pulo.

Está mais do que claro que a agenda neoliberal e conservadora de Bolsonaro avança a passos largos e não fossem outras instituições vigilantes, já estaríamos numa situação muito pior mas lembrem-se de que temos ainda três anos pela frente e que agora eles estão implantando forte sua agenda conservadora sem medo de machucar quem quer que seja e somos nós, as minorias, que eles tem mais gosto e vontade de machucar.

Mal sabem eles que estamos acostumados a apanhar feio de todos os lados e que se tem uma coisa que aprendemos bem foi lutar.

Cai dentro, Bolsonaro!

6 de fev. de 2020

As doenças que não tem cura

Como não bastasse conviver com a doença, toda a carga de preconceito, estigma e problemas que ela acarreta, as pessoas com HIV-AIDS ainda tem de enfrentar um governo que está fazendo de tudo para deixar com que morram sem qualquer ajuda ou apoio vide as declarações do ilustre messias recentemente.

Se dependesse exclusivamente dele, todas essas pessoas seriam deixadas a própria sorte afinal, HIV-AIDS é uma doença de bixa então elas que se cuidem e se virem para buscar tratamento. Tem grana? Ótimo! Não tem? Do governo é que não vai sair dinheiro para tratar essa doença que você mesmo causou com sua pouca vergonha e depravação.

O custo do tratamento de AIDS vem decaindo conforme a medicina encontra medicações mais eficientes e com cada vez menos efeitos colaterais, tratamentos como PReP, PEP e tudo isso aliado a políticas públicas, implantadas no governo do PT para felicidade dos conservadores, que entenderam o AIDS-HIV como problema de saúde pública e não privada, ajudaram milhões de pessoas a terem acesso ao tratamento e obter qualidade de vida, somos referência mundial em políticas e programas de combate e tratamento a doença resta saber até quando.

Esse discurso do messias não é surpresa afinal ele já deixou claro inúmeras vezes o asco que sente de pessoas LGBTQ e além disso, serve como cortina de fumaça para seu gado já que os problemas reais de seu (des)governo seguem aparecendo deixando-o irritadiço e contrariado.

O custo do tratamento de pessoas com AIDS-HIV é ínfimo se comparado ao custo da máquina pública e se comparado ao custo que o governo teria caso essas mesmas pessoas não pudessem ter acesso ao tratamento e começassem a adoecer vítimas das doenças oportunistas que advém se a AIDS-HIV não forem tratados desde cedo mas, na lógica bolsonarista essa conta não existe, pessoas com AIDS-HIV são um fardo para sociedade, um peso, uma despesa pois a doença que tem foi transmitida, em sua concepção torta, pelo sexo gay, são sujas e merecem morrer pois buscaram isso para elas mesmas.

Igualmente, a campanha da Pastora Damares que iniciou agora às vésperas do carnaval pregando abstinência sexual - jura? Antes do carnaval? - como forma de prevenir a gravidez precoce e a transmissão de DSTs funciona mais ou menos como falar para quem quer emagrecer que a melhor coisa é simplesmente parar de comer!

Segundo ela e seu chefe, o carnaval cheio de putaria, a gravidez precoce e as DSTs são tudo culpa dos governos do PT que implantou a bandalheira geral, ainda bem que sou PT, sou da bandalheira generalizada! Isso faz parte do projeto nefasto que eles tem para o país, em outros tempos, já teriam mandado fuzilar meia dúzia mas como pegaria mal, estão desmontando educação, cultura, arte, saúde e agora o nosso gozo, quer fuder? Não pode! Olha a Damares aí!

Pregar a abstinência sexual é um projeto político e não de saúde, não adianta dizer para um doente terminal NÃO MORRA, há que tratar da melhor forma possível mas, na lógica do governo, é preciso controlar o gozo das pessoas porque pessoas livres para transar e gozar como e com quem quiserem são perigosas, nada é mais ameaçador a um fascista que pessoas livres seja em qual sentido for.

Como eles não podem adotar medidas e políticas efetivas e eficazes contra a propagação de DSTs, a gravidez na adolescência e o aumento dos casos de HIV-AIDS entre os mais jovens que a cada ano só faz aumentar sem falar de forma aberta e clara sobre sexo, sexualidade e gênero, adotam a medida de implantar a castidade forçada pois ela traz consigo uma carga moral totalmente condizente com a filosofia do atual governo.

Para combater todas essas questões de forma real e eficaz é preciso implantar uma educação sexual que aborde os temas do sexo, sexualidade e afins de forma clara e direta principalmente aos mais jovens que estão inciando sua vida sexual. É preciso conscientizar, explicar, educar e não proibir, vocês acham mesmo que os jovens ou os mais velhos irão mesmo se abster de foder? Em que mundo esse pessoal vive?

Para finalizar, não basta combater as doenças que mencionei aqui, é preciso combater outras muito mais difíceis de erradicar, a ignorância e o preconceito essas sim doenças que matam muito mais que qualquer outra epidemia ou patologia mas infelizmente, creio que ainda estamos muito, mas muito distantes de obter qualquer tratamento que funcione contra elas e muito menos de uma cura.

4 de fev. de 2020

A bixa que se aceita

Ler esta matéria do UOL apenas reforçou a ideia que já alimentava como certa de que ou você tem a lei da passabilidade ou estará fadado ao preconceito.

De certa forma, é irônico para não dizer trágico que o modelo de gay passável para o público hétero seja o gay feminino, travestido, escandaloso, pintoso, poc, ou qualquer outro adjetivo que você decida usar para designar esses gays que são sim parte do universo LGBTQ.

Aliás, nós gays cis somos os primeiros a discriminar esse tipo de gay, não queremos ser amigos deles, ter por perto, estar junto ou ter qualquer tipo de associação, servem quando muito para alívio cômico ou chacota, piada, exemplo de comportamento gay que apenas depõe contra a comunidade como se fossem algum tipo de câncer ou doença infecciosa que precisa ser contida e isso é um assunto que precisamos resolver e rápido se quisermos cobrar de fora o respeito que tanto desejamos.

A bem da verdade, há uma geração nova que está dando a cara a tapa e desconstruindo essas noções e estereótipos tendo como apoio e referência figuras nas artes que empoderam e legitimam tal representação o que é muito, mas muito importante.

Mas, dentro do universo normativo HT cis é lamentável que a figura do gay aceito seja ainda a que descrevi mais acima. Não é a toa que a personagem do filme de maior bilheteria do cinema nacional seja uma caricatura de mulher feita por um gay assim como, conforme a matéria, outros tipos de gays que seguem a mesma apresentação fazem e fizeram sucesso na TV e cinema.

Para o publico normativo cis HT esse é o tipo de gay palatável, que desce fácil, que se reconhece como gay porque agrega toda a carga estereotipada que a sociedade normativa identifica com o homossexual. É o que se espera dele, a bixa louca cabeleireira, a dançarina, a transformista, a exagerada, a caricata, a piada pronta, são os gays que a sociedade HT está preparada para aceitar em seu seio porque cumprem uma função pré-determinada e não tem qualquer traço que ameace a normatividade.

Muito menos são criaturas politizadas, políticas ou que enfrentam dramas próximos do cotidiano de qualquer mortal e, quando o fazem, é dentro de uma concepção definida por motores morais que não são corroborados pela maioria que enxerga em tais dramas apenas uma fraca emulação de conflitos pessoais dignos de nota.

Assim, quando temos em filmes, novelas e outros, gays representados como pessoas reais, que padecem de problemas reais, que tem dilemas reais, sentimentos reais e que demandam respeito e direitos que são reais para a maioria esmagadora dos héteros, esses personagens são ignorados ou mal vistos, rechaçados ante a aproximação periculosa que tem com as pessoas ditas normais.

O gay não pode ser visto como gente porque se for, o outro terá de confrontar sua visão do gay padronizado pelos estereótipos herdados e reforçados e que lhe é bem mais agradável sem controvérsia ou questionamentos sobre a validade de sua luta por direitos inerentes a qualquer pessoa ou direito de existir como seres humanos.

O gay da família é aquele que está lá para fazer rir, fazer troça com o que o pai e a mãe não podem mas ele sim porque é gay e se espera dele que seja engraçado e afetado. Se ele demonstra que possui sentimentos e que pode construir laços afetivos ou que possui sim uma sexualidade e que pode e deve expressá-la livremente, essa mesma família que antes o adorava passará a execrá-lo por estar ameaçando a fábrica do tecido social que julgam serem os patronos.

'Ah! Mas então não pode ter gay afeminado? Não pode ter as femininas?' você pode argumentar. Claro que sim! O problema é que só existem elas na concepção normativa pelas razões que expus acima e todas as gays que estão desconstruindo essa questão mas que não se enquadram no padrão normativo que se espera delas sofrem sim uma carga enorme de preconceito pois estão lutando por algo mais que fazer rir ou servir de piada pronta.

A medida certa desse tipo de preconceito pode ser sentida na situação comum - já vivida por mim e meu marido - que gays cis passam quando recebem a famosa frase 'Mas você nem parece gay..', essa é a pior frase que você pode falar para um gay pois a carga homofóbica que ela carrega é imensa e apenas corrobora o que expus até aqui, que o gay só é aceito e reconhecido como tal quando corresponde à imagem do gay que vive na imaginação social, quando foge disso há uma incapacidade de identificar a pessoa como gay já que ela tem a passabilidade ou seja, parece hétero e assim, não pode ser gay porque gay é daquele jeito que todos imaginam.

Resultado: bug geral, tela azul do Windows.

27 de jan. de 2020

E eu gosto de meninos e meninas

Comecei pensando escrever sobre a famigerada ideologia de gênero mas, tem gente mais capacitada para isso e assim, usando por base este texto de Roberto Muniz Dias - vale a leitura -, decidi ir por outro caminho.

Peço ao querido leitor que atente a esta imagem:


Pense bem por alguns minutos, lhe dou esse tempo para tentar encontra o que está errado, valendo!

(pausa dramática para voltar ao texto)

Vamos lá? Ok.

Esqueça por um momento a ideologia de gênero enquanto teoria ainda que estaremos em sua alçada no que escreverei. Foquemos no quesito MENINOS E MENINAS, percebeu bem o que a lista da escola pede aos pais?

Estamos ante o mais sórdido mecanismo de perpetuação de papéis socias, machismo explícito disfarçado de educação, misoginia velada de lúdico, tudo para deixar calmos os pais de que a escola não está propondo ideologias, apenas perpetuando as figuras que cada um deve ocupar na sociedade.

É notório que o atual governo e sua estrutura estão numa cruzada santa contra qualquer possibilidade que remonte a discussões de gênero e muito menos a qualquer tipo de contestação quanto aos cargos sociais que homens e mulheres devem exercer na vida privada e social, Damares já deixou isso mais do que claro.

É cruel, vil e horrendo uma escola imputar que meninos podem sim ter uma profissão enquanto as meninas terão como futuro pilotar fogão, pia e máquinas de lavar. Fico pensando nessas crianças que desde cedo já tem podados quaisquer sonhos de serem o que quiserem tendo de seguir os papéis sociais que deles se espera.

Na atual conjuntura, a escola está ante um dilema complexo, precisa educar e, em tese, formar cidadãos conscientes e idealmente pensantes mas, a norma que vem de cima não fomenta esse tipo de educação, oprime vide os casos de alunos filmando professores que estavam 'doutrinando' seus alunos.

Os pais, por sua vez, cada vez menos se importam com a educação de seus filhos, jogam tudo para o Estado e escolas como se fosse a obrigação deles formar seus filhos mas não sabem dizer o que esperam, apenas o que não querem e nem disso tem clara certeza muitas vezes.

A educação é um jogo compartilhado, deve ser um caminho trilhado pela escola, pais e alunos em proporções tão equivalentes quanto possível, nesse jogo de empurra quem perde são as crianças que acabam obtendo sua formação de Youtubers e influenciadores digitais já que ninguém fora desse ambiente o que fazer ou dizer.

Esse tipo de ocorrência, dessa lista de materiais, pode parecer algo banal ou até sem sentido, você pode pensar que há coisas mais importantes com as quais se preocupar e eu até concordo mas, pense bem por um momento.

Se desde criança já embutimos o pensamento de que homens e mulheres são diferentes e que cada um deve brincar, usar e fazer de conta conforme seu gênero, pouco ou nada estamos fazendo para diminuir a diferença entre homens e mulheres muito pelo contrário. 

Estamos reforçando comportamentos normativos que futuramente farão apenas aumentar as diferenças entre homens e mulheres, o feminicídio já que a mulher é uma pessoa de segunda classe, e, de tabela, todos os preconceitos socias associados a manutenção dessas diferenças já que uma sociedade com diferenças gritantes entre homens e mulheres, machista e misógina é mais propensa a expandir tais preconceitos a outras minorias como gays, afrodescendentes, imigrantes ou qualquer outro grupo social que esteja abaixo da classe de machos alfa que se perpetua no poder.

Deveríamos estar preocupados com a ideologia machista e não com a ideologia de gênero.

14 de jan. de 2020

Precismos (ainda) falar sobre HIV e AIDS

Quem é da minha geração ou antes disso sabe o que foi a epidemia de AIDS que assolou o mundo e ceifou sem piedade ou distinção centenas de milhares de pessoas (os números podem passar dos milhões já que muitos casos não foram informados e/ou identificados como decorrentes da doença).

Não tive conhecidos ou amigos que, até onde saiba, morreram em decorrência de HIV-AIDS mas tenho quase certeza de que meu primeiro namorado - uma história longa e um tanto triste que depois conto - morreu devido a complicações devidas a imunodeficiência tendo preferido sua família, compreensivelmente no lugar deles, atribuir sua morte a outras causas.

Para nós que crescemos sob o espectro dessa doença, a vida adquiriu um tom nefasto de fim de festa, muitos voltaram para seus armários com medo fosse da epidemia que se espalhava sem controle ou de serem, ao exibir sintomas indicativos da mesma, identificados como gays.

O estigma AIDS-HIV denominado de forma pejorativa, horrenda e espetaculosa pela mídia como CÂNCER GAY ou PESTE GAY, fez com toda uma geração que estava prestes a desbundar e adiantar em décadas a luta pelos direitos LGBTQ puxasse o freio de mão pois a homofobia tinha um novo e poderoso aliado e pior ainda foi ver dentro da comunidade LGBTQ atos pérfidos de preconceito e exclusão já que os doentes eram enjeitados que apenas poucos voluntários despidos de qualquer preconceito e cientes de que aquelas pessoas precisavam de ajuda aceitavam tratar, acolher, apoiar e amparar.

O lado positivo, se há um, foi que a epidemia acabou por tornar coesa a luta pelos direitos LGBTQ - não em seu todo já que alguns setores sentiam-se preteridos ou mesmo estigmatizados pela atenção e problemas trazidos pela doença, como se não fosse de sua alçada o fato de que a comunidade toda era afetada por ela - partindo da demanda por tratamento digno, pesquisa, quebras de patentes de remédios e tudo o que hoje temos como garantia e certo.

Isso não quer dizer que em 2020 não há mais preconceito com pessoas portadoras de HIV-AIDS, ainda que atualmente a doença seja até mesmo considerada como crônica e pouco letal, o estigma que os soropositivos carregam ainda é imenso e muitos preferem esconder sua sorologia temerosos de que ao torná-la pública perderão amigos, emprego, status, contato humano, família e por aí vai.

O que é mais preocupante é a quantidade de novos casos de contaminação na faixa etária dos mais jovens, a cada ano essa faixa faz só aumentar. São pessoas que estão iniciando a vida sexual - e cada vez mais cedo e sem qualquer informação que não seja obtida pela internet, Youtube ou algum influenciador - e que não conviveram com o fantasma da morte que diariamente vinha reclamar para si a vida de alguém querido ou próximo.

Para eles, a AIDS-HIV é como algum tipo de diabetes, você tem remédios que controlam a doença e, ademais, há uma série de tratamentos disponíveis para pré ou pós exposição a um comportamento de risco. É do jovem sentir-se invulnerável e capaz de subjugar o mundo mas a AIDS-HIV não sabem disso e infectam qualquer um lhes dê mole, com essa perda do medo e desmistificação de doença fatal e incurável exatamente essa parcela passou a desconsiderar os métodos de proteção e exposição a comportamentos de risco.

Isso faz com que os casos de infecção disparem a cada ano e, com o atual governo fascista desmontando as estruturas de apoio e prevenção já que a eles e seus seguidores gay bom é gay morto e a AIDS-HIV ainda é uma doença de bixas, a tendência é de piorar cada vez mais o que, na mente tosca dos conservadores funciona pois vai dar cabo de uma parcela da população que eles querem morta mesmo mas, esquecem que a AIDS-HIV não trabalha com qualquer tipo de barreira social, moral, sexual, econômica ou de fronteira e que o custo final para tratar e acolher as pessoas doentes sairá de bolso de todos nós.

Além disso, os casos de DSTs que eram consideradas praticamente erradicadas aumentam a cada ano já que não há conscientização da sociedade em promover campanhas de informação e prevenção e, como disse acima, as pessoas não tem mais medo de doenças sexualmente transmissíveis o que, para as doenças, é ótimo pois elas podem alastrar-se sem freio e, através de mutações genéticas, tornar-se mais resistentes aos tratamentos convencionais vide a sífilis que voltou pior do que nunca mas quase ninguém fala disso.

Enquanto não encararmos DSTs, HIV e AIDS como casos graves de saúde pública e cobrarmos das autoridade medidas concretas e efetivas para controlar o ritmo desenfreado de infecções, estaremos todos com a bunda na janela disponível para passar a mão. Precisamos seguir falando sobre HIV e AIDS e principalmente para as gerações mais novas que conhecem um mundo 'sem AIDS', mostrar e explicar que essa doença não tem cura e que ela carrega um estigma terrível e que o melhor caminho ainda é a proteção.

Ao normalizar a AIDS como uma doença crônica e tratável - ainda que o seja - estamos fazendo pouco de um patologia que segue impávida infectando milhões de pessoas por ano, estigmatizando uma parcela da sociedade que precisa de apoio e tratamento e passando a mensagem de que tudo ber ter AIDS, é OK, é comum, todo mundo tem e quem não tem basta tomar aí um PreP ou algo assim, ninguém morre de AIDS.

Essas ilusões são a pior doença e contra elas não há tratamento melhor do que a informação.

10 de jan. de 2020

Quem cala consente

Antes de falar a que vim, convém fazer uma rápida explanação do que é fé e do que é religião pois são sim coisas muito distintas mas que frequentemente misturam por aí como se uma fosse parte da outra.

Fé. Não é algo concreto, é mais um sentimento ou (pre)disposição em crer em algo que supera a condição humana sem que esteja formal ou teologicamente relacionado a uma crença ou conjunto de valores específicos.

Ter fé não significa necessariamente crer em algum tipo de divindade ainda que, por conseguinte, quem segue alguma religião irá direcionar sua fé a essa ou aquela divindade ou divindades. Ter fé seria mais crer que o universo tem seus desígnios e que tudo transcorrerá como deve ser e que por mais dura que possa parecer a realidade, as leis universais físicas ou metafísicas darão cabo de tudo e de todos como for preciso.

Fé é algo imaterial e não é preciso crer em algo para ter, basta ter e pronto.

Já religião é um conjunto de crenças, regras, doutrinas, normas ou até mesmo leis que definem como a fé em determinada(s) divindade(s) deve seguir ou seja, sua fé está restrita aos ditames e costumes daquela religião em si e invariavelmente fechados a outras concepções ou noções externas tornando a fé uma coisa hermética e que se alimenta apenas desses preceitos ditados pela divindade não em si mas através de seus 'profetas' ou 'pregadores'.

Lembro que estas são visões minhas, sinta-se livre para concordar ou não.

Quando temos uma religião ou grupo de religiosos que entende seu dever, direito ou função ditar como devemos nos comportar, o que podemos ou não ouvir, ver, ler, assistir e fazer, estamos adentrando um terreno perigoso em que a religião - não a fé - passa a agir como Estado impondo suas regras a todos que não a seguem independente de quem seja.

Quem discorda é considerado inimigo daquela 'fé', é perseguido e execrado e atacado por todos os lados até se converter ou ser expulso da sociedade no melhor estilo medieval ou até pior. A religião é uma falha grotesca da humanidade que precisa ainda de algo que lhe dê algum lenitivo para questões que talvez jamais consiga responder e, se agisse apenas como amparo da alma reconfortando a quem entende precisar desse tipo de apoio, não teríamos problemas pois a religião, quando age desta forma, atua como um tipo almofada emocional.

Como disse acima, temos problemas quando a religião passa a querer ditar como devemos ser e nos comportar de forma generalizada e a religião não pode fazer isso pois não lhe cabe este papel, isso cabe a cada um de nós e ao Estado que deve zelar pelo tecido social da melhor forma possível.

A religião é feita por homens, o que sabemos de cada uma delas foi herdado de uma série de crenças e escrituras que não se sabe quem escreveu ou como foram escritas, em qual contexto ou com qual intuito e pior, tudo feito por seres humanos, as criaturas mais falhas que já pisaram na face do planeta. Como dar crédito a algo que uma pessoa, julgando-se iluminada e eleita, prega como verdade universal e inconteste? Não cabe questionar? Devemos aceitar piamente? Muitas religiões não aceitam qualquer tipo de questionamento e se o fizermos, seremos encarados como descrentes ou pagãos.

Eu só passarei a crer em alguma religião quando a divindade ou divindades que em tese a sustentam materializarem-se na minha frente corroborando cada detalhe do que está escrito, converto-me na hora sem titubear!

Mas, você pode dizer, você também vive sob um conjunto de regras que não sabe ao certo quem fez e ainda assim as segue. Justo. Porém, esse conjunto de regras não foi ditado por uma chama, arbusto, voz misteriosa e potente ou visão, são regras que resultaram de séculos e milênios de evolução social e que são feitas por pessoas eleitas por nós para mantê-las e alterá-las quando necessário, podem e devem ser questionadas e inquiridas, devem evoluir e acompanhar a sociedade que é sempre mutante, não são mandamentos cuspidos de uma montanha ou ditados por nuvens no céu.

Agora chegando ao título do post, quando temos uma religião ou grupo religioso censurando qualquer tipo de manifestação artística ou de opinião porque estas ofendem sua fé, estamos, se nos calarmos, abrindo um precedente horrível para que amanhã outras opiniões ou expressões sejam censuradas igualmente até chegarmos ao patamar de nos sentirmos coibidos de fazê-lo.

É um caminho sem volta e que parece impossível mas é real e está acontecendo ante nossos olhos e estamos todos fazendo de conta que esta tudo bem. Não está. Quando dermos por nós já será tarde demais para fazer qualquer coisa, estaremos amarrados em nome das divindades e sendo forçados a orar rosários e novenas porque a alternativa a isso será a excomunhão social ou, pior cenário, queimar em praça pública.

Acha exagero?

Lembre que já fizemos isso e muito pior em nome da religião e a história tem o péssimo hábito de repetir-se quando lhe damos as costas...

9 de jan. de 2020

Os armários do messias

É no mínimo curioso o ódio que o messias e aqueles que o seguem nutrem para com a comunidade LGBTQ, com se não bastasse toda a gama de problemas e dificuldades que vida já se incumbe de jogar em nosso colo.

Raro o dia em que o messias não fala alguma merda vide este e este caso emblemáticos.

Pessoalmente, antes de considerar tal comportamento como homofóbico, prefiro considerá-lo como manobra política que ecoa diretamente no eleitorado do messias que, paulatinamente, começa a se desfazer ante o total desgoverno e incapacidade sua e de seu séquito em tocar a coisa pública e fazer o pais andar ao invés de ser alvo de escárnio mundial.

Ao atacar os LGBTQ, o messias repete seu discurso de campanha usando a bandeira da moral, costumes e família para alavancar alguma popularidade e apontar possíveis culpados pela situação precária de seu governo, como se as bixas tivessem alguma responsabilidade por ele ser o imbecil que é.

Na outra mão, é inegável a homofobia que suas declarações carregam além do discurso de ódio que promove e incita na população pois, se o governante é capaz de soltar os piores impropérios e desmerecer parcela da sociedade para a qual ele deveria governar com mais atenção e carinho, que dirá o cidadão comum que vai sentir-se no mais absoluto direito de reproduzir o discurso que vem de cima?

Há algo de muito errado nessa fobia e ódio todo e não me parece ter sua causa apenas em preconceito puro e simples o que em si já é altamente condenável. Muito menos em um discurso conservador e fascista de que as minorias devem curvar-se ante a vontade da maioria igualmente execrável e que reflete sim boa parcela da sociedade nacional, infelizmente.

Quando o messias se refere aos gays ele baba, saliva, sua macheza se põe em riste e a testosterona bombeia o sangue. O macho patriarca não pode aceitar a homossexualidade como via de amor porque ela abre um precedente para que o amor e o sexo não sejam mais exclusividades suas e pessoas livres para gozar e amar são muito perigosas porque tem consciência e posse de seus corpos e mentes.

Quando vejo o messias e seus acólitos bradarem palavras de ordem contra os LGBTQ, contra a ideologia de gênero e outras coisas mais que devem sim estar no centro de debates de qualquer sociedade que se entenda como tal, penso na carga de homossexualidade reprimida que eles carregam em si.

Talvez algum amor não concretizado na juventude, uma paixão momentânea por algum colega de escola ou quartel - ambiente onde a homossexualidade reina absoluta mas velada - algum trauma gay que marcou profundamente a vida dessas pessoas para que passassem a considerar os gays como demônios vindos do círculo mais profundo dos infernos.

Não os digo gays enrustidos porque a sexualidade de cada um é tema complexo e delicado mas só consigo conceber tamanho ódio e nojo com base em alguma experiência fatídica e não apenas em teorias ou filosofias adquiridas. Quando não aceitamos o desejo manifestado ele incuba feito um xenomorfo e vai corroendo tudo por dentro até germinar em ódio daquilo que não conseguimos viver, entender ou experimentar por medo ou covardia.

O que se condena é o objeto do desejo não consumado, o amor que não foi feito e o afeto que não foi dado ou retribuído e talvez nem tenha sido culpa deles mas do tecido social que lhes tolheu esse direito e possibilidade. Penso mesmo que os homofóbicos mais radicais e raivosos são os que guardam dentro de si um desejo gay reprimido de tal forma que se torna um buraco negro sugando todo e qualquer amor, afeto ou empatia que gravite a sua volta.

No desespero de não ver seu desejo feito e seu tesão alimentado, essas pessoas desejam ver perecer todo o amor que os outros tem coragem de aceitar e abrir ao mundo sem medo de ser como são e isso dói feito uma ferida aberta no peito deles, nada pior do que o rancor humano, a inveja, a raiva de quem não soube escolher ou não lhe foi dito que havia escolha, de quem renegou o amor e o sexo como coisas sujas e grosseiras por serem fora da curva normativa.

São essas pessoas que hoje governam o país e nós, infelizmente, estamos sendo tragado para dentro de seus armários.

8 de jan. de 2020

E o ódio ainda cega...

Escrevi aqui sobre aquele incidente da Karol Eller o qual acabou por se mostrar bem diferente dos fatos reportados pela 'Youtuber'.

Claro, é revoltante uma figura que pertence ao universo LGBTQ - e não adianta renegar, ela é sim parte do L do LGBTQ, desejar que ela não seja ou que seja expulsa da comunidade é um ato homofóbico sim - usar a homofobia que a duras penas foi criminalizada como saída para tal situação mas, como só podemos nos fiar no que diz a mídia e a polícia, prefiro ainda lhe conceder o benefício da dúvida.

Mesmo que tenha sido ela a iniciar o enrosco todo e que, em assim sendo, tenha automaticamente perdido a razão, não posso deixar de pensar que em algum momento o cociente homofobia veio somar no calor da discussão o que merece nosso mais forte repúdio.

No pior cenário, temos uma mulher lésbica, aparentemente conservadora, apoiadora do messias e crítica do movimento LGBTQ e sua militância, crente do conceito de vitimismo e mimimi e que, ao se defrontar com uma situação adversa e potencialmente danosa e perigosa a si, resolveu alegar homofobia como se houvesse criado repentinamente uma consciência LGBTQ apenas por que lhe era, então, conveniente.

Isso no pior cenário porque mesmo sendo ela tudo isso que mencionei, não teria então direito de alegar ter sido vítima de homofobia? Ou a criminalização serve apenas para ativistas e gays de esquerda? Se é assim então há algo de muito errado conosco porque não podemos exigir que tal direito seja aplicado apenas para os gays deste lado de cá, alijar os gays de direita desses direitos é agir como os héteros e praticar a homofobia também.

O que devemos fazer é tentar entender porque pessoas LGBTQ não conseguem se encaixar ou encontrar uma voz na comunidade e trazer essas pessoas para nosso lado criando vozes que dialoguem com elas, não afastá-las e execrá-las.

Se existem gays de direita e conservadores o problema não é que eles estão aí mas que nós, enquanto comunidade e voz de uma parcela da sociedade, falhamos em abrir os olhos dessas pessoas que acabaram, consciente ou inconscientemente abraçando o 'inimigo' pois ele soube dialogar e dizer o que elas queriam ouvir.

Acho compreensível que existam gays de direita e que repudiem a militância e tudo mais, não adianta fazermos cara feia e achar que eles não existem ou tem graves problemas mentais, ao considerarmos essas pessoas como traidoras ou não dignas da luta LGBTQ as estamos empurrando cada vez mais para os braços do outro lado e enfraquecendo o nosso que posa de intolerante municiando a sociedade hétero com argumentos que não conseguimos refutar.

Eu espero que Karol tenha entendido onde errou e que todo esse caso tenha ajudado a abrir seus olhos mas, se ela ainda seguir convicta de suas posições não cabe a nós fechar as portas a ela mas sim mostrar que estaremos sempre com elas abertas para aceitá-la.

lembranças aleatórias não relacionadas com a infância

Lembrança #10 Lembro de uma festa ou rave ou balada que eu ajudei um amigo a organizar num tipo de sítio eu acho. Estava separado do meu nam...