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13 de abr. de 2020

Velha roupa colorida


Que a morte vai chegar não resta dúvida, independente de cor, classe social, posses, orientação sexual, identidade de gênero, idade, nacionalidade ou o que for.

A hora de passar a régua e encerrar a conta vem de qualquer maneira.

Mas de tempos em tempos, somos confrontados com situações que nos fazem encarar a hora final com mais frequência e urgência queiramos ou não, como esses tempos de pandemia quando vidas humanas são ceifadas em baciadas sem dó ou piedade.

A bem da verdade, antes de tudo isso que estamos vivendo, pessoas morriam de moléstias diversas, algumas completamente curáveis mas cujos doentes não tinham acesso devido a barreiras sociais, políticas ou econômicas, outras sem cura independente do quão rico fosse o doente e, infelizmente, morriam por fome, inanição ou causas não naturais que, em tese, a humanidade deveria ter deixado para trás há séculos.

O que deixa a todos espantados e assustados é velocidade com que estamos morrendo agora e a incerteza de nossa invulnerabilidade ante o avanço inexorável da doença. A morte antes acenava como algum tipo de visita distante que ia acenando cada vez mais perto até não ser mais possível ignorar sua presença. A morte era um problema do outro, lamentávamos que ela havia chegado, cumpríamos os ritos de despedida e enterrávamos junto com o falecido nosso medo de que poderíamos ser os próximos.

Com a pandemia, esse medo passou a dividir a mesa conosco e, em quarentenam temos de dormir e acordar com ele ao nosso lado, fazer as refeições, tomar banho e fazer de conta que ele não está lá. A urgência da morte veio e fez casa e não parece que vai embora tão cedo e com ela, veio o pânico de que o outro pode ser o agente mortífero e não o outro que sempre enxergávamos como imbuído de más intenções e desejoso de nos ferir para compensar qualquer desejo patológico ou desfavorecimento social. O outro na pandemia adquiriu um ar mais soturno de amigo que repentinamente ficou perigoso e precisamos manter afastado.

Talvez passada a pandemia nunca mais sejamos os mesmos uns com os outros, ingressaremos na era do pós-social, não sei mas sei que se há algo que aprendemos ou deveríamos estar aprendendo com isso é como tratamos nossos idosos.

Já por costume e tradição, nós ocidentais tendemos a enxergar os velhos como um fardo, algo que deve ser descartado e colocado de lado. Nossa sociedade preza a juventude e o novo como bálsamos insubstituíveis, o que é velho deve ser posto num museu e esquecido, inscrito nos livros de história para ninguém mais ver e ouvir falar.

Com o advento da pandemia e durante o vigente governo de agenda neoliberal ficou claro que as vidas idosas são um preço aceitável a ser pago para manter a roda girando e a sociedade funcionando afinal, eles já cumpriram seu papel, deram sua contribuição e precisam agora dar espaço aos jovens que tem de construir a pátria arrasada Brazil. O governo certamente agradece esse sacrifício já que promoverá um fôlego nas contas públicas sem que seja preciso posar de vilão ante a sociedade.

As vidas idosas passaram a ser moeda de troca no jogo político e social, se antes eram um incômodo encarado por muitas famílias como obrigação da qual se incumbiam sob o medo do julgamento social, com a pandemia passaram a ser artigo de exposição e justificativa para expressões de descaso das autoridades e até mesmo entre familiares que antes estariam pouco se lixando para elas.

Na verdade, esse valor súbito das vidas idosas vem do medo que a pandemia - como está se mostrando - não se retenha nelas e passe a devorar outras vidas com a mesma voracidade. Se um velho morre por que sua vida se extingue naturalmente ante o desgaste e fragilidade impostos pelo tempo não há problema afinal, é o curso natural das coisas mas, quando uma doença agressiva começa a ceifar essas vidas e mostra que pode clamar por outras mais jovens, entregamos as vidas velhas como oferenda para ver se a doença se sacia e nos deixa em paz.

Já ouvi e creio que tenham ouvido também comentários de que deveríamos deixar os velhos morrerem e focar no salvamento dos mais novos porque os velhos já estão no fim mesmo, qual a utilidade de gastar recursos com eles? Isso diz muito sobre nós como sociedade e espero que saíamos disso com outra concepção de valor da vida humana e de como tratamos nossos idosos.

Não vai adiantar muito passarmos por isso tudo e nossos idosos seguirem abandonados em asilos e largados a própria sorte porque não tem mais qualquer utilidade para nós nem para a sociedade. Sairemos de uma pandemia apenas para entrar em outra que sempre vivemos.

2 de abr. de 2020

O mundo de amanhã

Poucas vezes vi uma pessoa tão sensata quando o cientista Atila Iamarino entrevistado do último Roda Viva.

De maneira didática, simples e direta, explicou o tamanho do problema que enfrentamos, como há tempos já se previa que poderia acontecer sem que nenhum governo tomasse qualquer providência e, sem expressar qualquer ideologia que pudesse ser usada para desacreditar seu discurso (obviamente que os Bolsonaristas irão achar qualquer resquício de socialismo e esquerdoapatia em sua fala) teceu cenários claros de como passaremos e sairemos dessa pandemia.

Acima de tudo, considerando o Estado Teocrático que já vivemos e o desmonte - que já vinha de  anos e anos - pregado pelo atual governo da ciência em detrimento de estudos, formações e profissões que representem um 'ganho' efetivo e imediato para o país a saber, médicos, advogados e engenheiros, aquelas profissões que toda a família branca, hetero, cis gosta de ter em seus quadros, enfim, tudo isso posto, é na ciência que temos a única esperança de solucionar esse problema.

Não em igrejas, templos ou afins. Em laboratórios. Esses mesmos que estão sucateados e largados a própria sorte e que agora, precisam tirar do ar uma vacina para curar a todos.

Mas, o que mais me preocupa na fala de Atila e vem me preocupando com frequência é como sairemos dessa crise. Não digo a saída em si pois sei que ela está lá e que iremos encontrá-la, me refiro a como sairemos dela enquanto pessoas porque o mundo que deixamos para trás quando entramos em quarentena não existe mais.

Ainda é cedo para entender como será isso, como faremos e como lidaremos com esse novo mundo que se abrirá e tenho certeza de que durante as próximas décadas, muitos estudiosos estarão debruçados sobre essa crise tentando entender os impactos dela em nosso modo de vida.

Fico matutando em como será quando a quarentena for suspensa ou encontrarmos uma vacina ou tratamento para essa doença. Voltaremos ao mundo como se nada tivesse acontecido? Retomaremos nossa rotina como sempre foi? Teremos os mesmos hábitos e costumes? Seremos essencialmente os mesmo?

Pessoalmente, acho que não.

Somos criaturas sociais ou anti-sociais conforme o caso, não fomos feitos para o isolamento, qualquer animal confinado adoece do corpo e da alma além de ser extremamente perigoso. Esse período que estamos passando pode ser benéfico ou nocivo conforme você decida encarar, talvez precisássemos dele para rever alguns conceitos, reavaliar nossas vidas e perceber que a imersão numa equação trabalho-casa-trabalho-sem tempo irmão não tinha uma solução que não considerasse a nós como o X da questão.

Passamos a entender que o tempo pode sim correr em outros ritmos e que cada um de nós possui tempos diferentes. Começamos talvez a valorizar mais o trabalho de cada um de nós entendendo que sem ele, o nosso pouco faz sentido. Algum tipo de empatia e simpatia parece ter nascido quando, trancados em casa, começamos a notar o quanto nossas vidas são cheia de coisas vazias e como pouco conhecíamos uns aos outros tendo vivido juntos por tantos anos.

Talvez tenhamos começado a entender que não precisamos estar em todos os lugares ao mesmo tempo, comprando tudo que não precisamos ao mesmo tempo e usando a internet para algo útil. Demos férias ao planeta que está finalmente descansando de nós, quem sabe não voltamos para ele com outros olhos, mais humanos, mais coletivos, mais sensatos.

Tomara que passemos a dar mais valor aos poucos e mágicos momentos que temos uns com os outros pois a epidemia mostrou a todos nós que a vida é um sopro, um vento que passa, um ar. Quem sabe não aprendamos a eleger melhores representantes, pessoas mais dedicadas ao bem comum e não a ideologias ou partidarismos.

E talvez saiamos disso com um senso melhor de pressa e urgência.

A vida pós-pandemia ainda é uma incógnita, estamos todos apenas especulando, jogando ideias ao vento para ver qual vai vingar. Pode ser que nada disso que escrevi aqui aconteça e que saiamos disso tudo ainda piores do que entramos, teremos cicatrizes obviamente, histórias a contar por alguns anos mas a grande questão imediata é, o que faremos com tudo isso que estamos passando?

23 de mar. de 2020

É justo, justíssimo!

O pior da epidemia não é a doença em si pois ela seguirá seu fluxo até ser controlada ou encontrarem sua cura e tratamento.

O pior é a máscara humana que ante o esfacelamento do tecido social cai mais rápido do que as bolsas ao redor do mundo.

É simplesmente abjeto e beira o absurdo comentários como o de Roberto Justus, o supra sumo da elite branca, cis, HT, rica e tradicional cujo áudio remete ao pior momento da história humana, o nazismo.

Num discurso eugenista, elitista, nada empático e totalmente focado na seleção natural que deverá priorizar o mais fortes em detrimento dos mais fracos, Herr Justus deixa bem claro de que lado está sua solidariedade afinal, como irá ganhar seus milhões sem ter quem para ele trabalhe?

Alinhado com Bolsonaro e sua quadrilha de paspalhos neoliberais, Justus prevê uma recessão terrível e que trará grandes prejuízos a todos caso a 'histeria' e o 'pânico' não sejam controlados e a economia não siga funcionando normalmente e, para que isso ocorra, o sacrifício de alguns será preciso e não de forma simbólica mas literal.

O discurso de Justus está alinhado com o de Bolsonaro e sua tchurma que estão se cagando de medo da recessão que essa pandemia causará não pelo social mas pelo abalo político que causará justamente quando pretendiam se perpetuar no poder e implantar sua agenda conservadora e neoliberal no país.

Para eles, isso é uma gripe qualquer, um resfriado e se os velhos irão morrer, que morram, oras! Eles já estavam no fim da linha e muito provavelmente não foi essa epidemia mas outras doenças que irão matá-los. Da mesma forma, se os pobres morrerem também será um grande infortunio mas, como pensam eles, não se pode fazer um omelete sem quebrar alguns ovos.

O pensamento de Bolsonaro ao tratar essa crise como capital político é medonho e condizente com o caráter de um sociopata, Hitler bateria palmas se pudesse. Para Bolsonaro a economia vem antes de tudo porque é sua carta na mesa, seu capital de troca, sem ela ele está na corda bamba então, se for preciso matar parte da população, tudo bem!

A economia já está na merda, a crise já se instalou, a recessão já vem a galope e não apenas aqui mas no mundo e o momento é de zelar pela saúde pública e adotar medidas que ao menos amenizem a recessão que se acerca, tranquilizem a população e demonstrem que há efetivamente alguém no comando da nação e não um imbecil e seus filhos fazendo merda nas redes sociais e jogando queda de braço com governadores que, ainda que não sejam santos, estão tomando medidas efetivas para conter o contágio da população e um eventual colapso dos sistemas de saúde.

A galera que apoia o messias segue cega feito o gado que sempre foram, mugindo e espalhando que é tudo uma conspiração comunista, do PT e que a China é a grande responsável por tudo destilando ódio, xenofobia e preconceito alimentados pelo discurso inflamado do messias e seus filhos dementes. Preferem enfiar a cabeça no buraco olavista e bolsonarista ao invés de entender que o buraco onde estamos engoliu a todos sem exceção e só vamos sair dele com muita luta e resiliência.

Discursos como o Justus são reais, muito reais e ecoam tais teorias conspiratórias e pensamento eugenista que as elites bolsonaristas elegeram e seguem defendendo, se for para sobreviver alguém, que seja a melhor parte da sociedade, esse é o pensamento bolsonarista.

A epidemia vai passar, tenho certeza disso mas me pergunto quando iremos nos curar do vírus Bolsonaro que está nos matando a cada dia que passa e, seguindo nesse ritmo, ao final dos quatro anos, restará apenas ele para contar a história para os escombros do que um dia foi um país.

16 de mar. de 2020

A epidemia que nunca passou

Pandemia. Contágio. Vírus. Doença. Quarentena.

O tecido social delicado e indelével mostra toda sua fragilidade quando confrontado por uma praga que se alastra de forma global e irrestrita, coloca a prova o senso de sociedade, solidariedade e empatia, expõe o pior de nós enquanto espécie.

Enquanto bolsas caem das alturas, ricos se preocupam em não ficar menos ricos ou lucram com a desgraça mundial (e você pode ter certeza de que eles irão lucrar, e muito), governos se desdobram para evitar que a doença se espalhe pensando não na população mas no custo que a busca desenfreada por tratamento nos serviços de saúde precários traria aos cofres públicos, aos investimentos estrangeiros, ao dinheiro que deixaria de circular.

O custo dessa epidemia, digo o custo real, econômico, ainda será entendido e medido mas já sabemos que será alto, desenha-se um cenário de recessão global, falências, desemprego e encolhimento de economias, uma conta que vai acabar no colo das classes mais pobres certamente já que rico não vai pagar esse boleto.

O custo humano e social já estamos pagando quando nos recusamos a abrir mão de nosso conforto diário, da balada, do bar com a galera, do show, do cineminha pensando que a doença vai passar longe de nós. Pode até passar e espero que passe mas, e o outro? E quem não pode se dar ao luxo de desdenhar a doença? E quem não tem a opção de ficar em quarentena confortável em seu apartamento de vários metros quadrados, abastecido, com acesso a internet e streaming e gerente cuidando de seus investimentos?

O ser humano é uma criatura abjeta, basta ver uma situação como esta pandemia para comprovar que seu único pensamento é em si, individual, solo, único. Tudo bem o outro morrer desde que eu não morra ou não tenha de abrir mão do meu conforto e privilégios.

Então, quando um casal de idosos que viajam para Búzios, tem médico próprio, plano de saúde e moram num bairro de classe média alta segue com sua diaristas trabalhando em casa mesmo estando ambos infectados, há quem diga que ela precisa seguir trabalhando pois foi a profissão que escolheu para si, que diaristas não são mais escravas e que o referido casal demonstrou empatia ao fornecer luvas, máscaras e outros meios de proteção.

Não. Apenas não.

O preço dessa doença ainda não foi sentido pois as classes mais baixas ainda não começaram a se infectar, quando começarem teremos então uma boa noção do que essa pandemia vai custar a todos nós. Pobre não pode se dar ao luxo de ficar de quarentena, não pode ficar em casa porque precisa trabalhar, tem conta para pagar e não tem opção. Não viaja para Búzios ou tem médico pessoal.

Enquanto a elite segue confinada em suas torres, o pobre segue pegando coletivo e trens lotados, não tem isolamento, não tem escolha. Pobre não faz home office amores, pobre não tem como estocar comida nem licença remunerada, pobre tem de lutar todo dia contra o vírus da desigualdade ou morre.

Achar que empatia é fornecer luva e máscara e dizer para a pessoa vir só uma vez por semana é cagar para a vida alheia, fazer troça com a saúde do outro. Empatia não é estocar comida e comprar todo o álcool em gel, isso é mesquinharia em seu aspecto mais grotesco. Estamos em momento de pensar COLETIVAMENTE e deixar o INDIVIDUAL um pouco de lado.

Empatia é deixar quem lhe presta serviços em licença remunerada até que a situação se acalme. É comprar apenas o que falta entendendo que o o seu estoque é a fome do outro. É abrir mão daquele lazer porque ele pode representar a morte do outro. É pensar que a doença não conhece classe, posse ou status, ela vai infectar todos sem exceção e sem dó mas podemos, como pessoas, minimizar seu impacto pensando uns nos outros e não em nossas necessidades pessoais.

Epidemias como essa são e serão cada vez mais comuns num mundo globalizado, conectado e mutante, cabe a ciência tentar prever e prevenir, aos governos controlar, dar apoio, cuidar e gerenciar e a nós, atuar como seres pensantes e aptos para a vida em sociedade.

Já a epidemia de egoísmo, desigualdade e pobreza segue fazendo vítimas como sempre e seguirá assim mesmo depois que essa de agora for superada. Contra essa epidemia social não há vacina, não há remédio, não há contenção e ela fica mais evidente quando temos doenças graves como o coronavírus entre nós.

O coronavírus é patológico, o outro é sociológico.

3 de mar. de 2020

Contágio

O tecido social que nos cerca é algo tão frágil que não nos damos conta, vivemos escorados num conjunto de regras, normas, convenções e regras que estão apenas sugeridas em nosso inconsciente coletivo e que jogaremos ao chão ao menor indício de que teremos de lutar pela sobrevivência.

Acha que não?

Veja essa epidemia nova que se espalhou pelo mundo, por mais que as autoridades de saúde e governos locais e mundiais atestem que não há razão para pânico, as pessoas já começas a estocar alimentos, água, remédios e produtos como álcool em gel e máscaras simplesmente desapareceram das farmácias. Talvez justamente porque essas autoridades e governos pedem calma seja porque todos estamos apavorados afinal, desde quando governos e autoridades realmente informam a sociedade com fatos reais e verídicos? Partimos do pressuposto de que estão mentindo e de que a situação é bem pior do que reportam e que os pedidos de calma são para proteger os mais ricos e as elites.

Claro que uma epidemia como essa precisa de toda nossa atenção, precaução e atenção e prefiro crer que as autoridades e governos estão mesmo empenhados em conter o vírus, minimizar seu impacto e encontrar uma cura ou vacina o mais rapidamente quanto possível mas, o efeito cascata já se faz sentir ainda mais nos tempos de hoje quando as pessoas podem viajar mais e de forma mais rápida facilitando a disseminação da doença.

Eventos como esse sempre me deixam assustado pois é uma crença pessoal minha de que nosso fim não virá do céu ou alguma guerra sem fim mas de alguma doença terrível que vai dizimar com facilidade grande parte de nós e jogar nossa sociedade no lixo da história e no esgoto da civilização pois não há civilidade ou solidariedade que resista ao instinto de sobrevivência.

O maior estrago que uma epidemia dessas pode fazer é, além do custo em vidas obviamente, dizimar as estruturas sociais frágeis que nos unem basta ver como mercados e bolsas regiram ao vírus se espalhando pelo planeta e como as pessoas começaram a entrar em pânico por uma doença que nem é assim tão fatal.

São esses acontecimentos que metem medo em mim, que me fazem descrer de nosso raça e entender que somos animais acima de tudo, no frigir dos ovos é cada um por si e o mundo contra todos, não acho que esse vírus será nosso fim mas a cada nova epidemia que eclode passo a ter mais e mais certeza de que esse será nosso fim e de que aqueles que sobreviverem, estarão imersos num desses mundos pós-apocalípticos que o cinema vira e mexe nos apresenta.

Quem viver, verá.

14 de jan. de 2020

Precismos (ainda) falar sobre HIV e AIDS

Quem é da minha geração ou antes disso sabe o que foi a epidemia de AIDS que assolou o mundo e ceifou sem piedade ou distinção centenas de milhares de pessoas (os números podem passar dos milhões já que muitos casos não foram informados e/ou identificados como decorrentes da doença).

Não tive conhecidos ou amigos que, até onde saiba, morreram em decorrência de HIV-AIDS mas tenho quase certeza de que meu primeiro namorado - uma história longa e um tanto triste que depois conto - morreu devido a complicações devidas a imunodeficiência tendo preferido sua família, compreensivelmente no lugar deles, atribuir sua morte a outras causas.

Para nós que crescemos sob o espectro dessa doença, a vida adquiriu um tom nefasto de fim de festa, muitos voltaram para seus armários com medo fosse da epidemia que se espalhava sem controle ou de serem, ao exibir sintomas indicativos da mesma, identificados como gays.

O estigma AIDS-HIV denominado de forma pejorativa, horrenda e espetaculosa pela mídia como CÂNCER GAY ou PESTE GAY, fez com toda uma geração que estava prestes a desbundar e adiantar em décadas a luta pelos direitos LGBTQ puxasse o freio de mão pois a homofobia tinha um novo e poderoso aliado e pior ainda foi ver dentro da comunidade LGBTQ atos pérfidos de preconceito e exclusão já que os doentes eram enjeitados que apenas poucos voluntários despidos de qualquer preconceito e cientes de que aquelas pessoas precisavam de ajuda aceitavam tratar, acolher, apoiar e amparar.

O lado positivo, se há um, foi que a epidemia acabou por tornar coesa a luta pelos direitos LGBTQ - não em seu todo já que alguns setores sentiam-se preteridos ou mesmo estigmatizados pela atenção e problemas trazidos pela doença, como se não fosse de sua alçada o fato de que a comunidade toda era afetada por ela - partindo da demanda por tratamento digno, pesquisa, quebras de patentes de remédios e tudo o que hoje temos como garantia e certo.

Isso não quer dizer que em 2020 não há mais preconceito com pessoas portadoras de HIV-AIDS, ainda que atualmente a doença seja até mesmo considerada como crônica e pouco letal, o estigma que os soropositivos carregam ainda é imenso e muitos preferem esconder sua sorologia temerosos de que ao torná-la pública perderão amigos, emprego, status, contato humano, família e por aí vai.

O que é mais preocupante é a quantidade de novos casos de contaminação na faixa etária dos mais jovens, a cada ano essa faixa faz só aumentar. São pessoas que estão iniciando a vida sexual - e cada vez mais cedo e sem qualquer informação que não seja obtida pela internet, Youtube ou algum influenciador - e que não conviveram com o fantasma da morte que diariamente vinha reclamar para si a vida de alguém querido ou próximo.

Para eles, a AIDS-HIV é como algum tipo de diabetes, você tem remédios que controlam a doença e, ademais, há uma série de tratamentos disponíveis para pré ou pós exposição a um comportamento de risco. É do jovem sentir-se invulnerável e capaz de subjugar o mundo mas a AIDS-HIV não sabem disso e infectam qualquer um lhes dê mole, com essa perda do medo e desmistificação de doença fatal e incurável exatamente essa parcela passou a desconsiderar os métodos de proteção e exposição a comportamentos de risco.

Isso faz com que os casos de infecção disparem a cada ano e, com o atual governo fascista desmontando as estruturas de apoio e prevenção já que a eles e seus seguidores gay bom é gay morto e a AIDS-HIV ainda é uma doença de bixas, a tendência é de piorar cada vez mais o que, na mente tosca dos conservadores funciona pois vai dar cabo de uma parcela da população que eles querem morta mesmo mas, esquecem que a AIDS-HIV não trabalha com qualquer tipo de barreira social, moral, sexual, econômica ou de fronteira e que o custo final para tratar e acolher as pessoas doentes sairá de bolso de todos nós.

Além disso, os casos de DSTs que eram consideradas praticamente erradicadas aumentam a cada ano já que não há conscientização da sociedade em promover campanhas de informação e prevenção e, como disse acima, as pessoas não tem mais medo de doenças sexualmente transmissíveis o que, para as doenças, é ótimo pois elas podem alastrar-se sem freio e, através de mutações genéticas, tornar-se mais resistentes aos tratamentos convencionais vide a sífilis que voltou pior do que nunca mas quase ninguém fala disso.

Enquanto não encararmos DSTs, HIV e AIDS como casos graves de saúde pública e cobrarmos das autoridade medidas concretas e efetivas para controlar o ritmo desenfreado de infecções, estaremos todos com a bunda na janela disponível para passar a mão. Precisamos seguir falando sobre HIV e AIDS e principalmente para as gerações mais novas que conhecem um mundo 'sem AIDS', mostrar e explicar que essa doença não tem cura e que ela carrega um estigma terrível e que o melhor caminho ainda é a proteção.

Ao normalizar a AIDS como uma doença crônica e tratável - ainda que o seja - estamos fazendo pouco de um patologia que segue impávida infectando milhões de pessoas por ano, estigmatizando uma parcela da sociedade que precisa de apoio e tratamento e passando a mensagem de que tudo ber ter AIDS, é OK, é comum, todo mundo tem e quem não tem basta tomar aí um PreP ou algo assim, ninguém morre de AIDS.

Essas ilusões são a pior doença e contra elas não há tratamento melhor do que a informação.

lembranças aleatórias não relacionadas com a infância

Lembrança #10 Lembro de uma festa ou rave ou balada que eu ajudei um amigo a organizar num tipo de sítio eu acho. Estava separado do meu nam...