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13 de abr. de 2020

Velha roupa colorida


Que a morte vai chegar não resta dúvida, independente de cor, classe social, posses, orientação sexual, identidade de gênero, idade, nacionalidade ou o que for.

A hora de passar a régua e encerrar a conta vem de qualquer maneira.

Mas de tempos em tempos, somos confrontados com situações que nos fazem encarar a hora final com mais frequência e urgência queiramos ou não, como esses tempos de pandemia quando vidas humanas são ceifadas em baciadas sem dó ou piedade.

A bem da verdade, antes de tudo isso que estamos vivendo, pessoas morriam de moléstias diversas, algumas completamente curáveis mas cujos doentes não tinham acesso devido a barreiras sociais, políticas ou econômicas, outras sem cura independente do quão rico fosse o doente e, infelizmente, morriam por fome, inanição ou causas não naturais que, em tese, a humanidade deveria ter deixado para trás há séculos.

O que deixa a todos espantados e assustados é velocidade com que estamos morrendo agora e a incerteza de nossa invulnerabilidade ante o avanço inexorável da doença. A morte antes acenava como algum tipo de visita distante que ia acenando cada vez mais perto até não ser mais possível ignorar sua presença. A morte era um problema do outro, lamentávamos que ela havia chegado, cumpríamos os ritos de despedida e enterrávamos junto com o falecido nosso medo de que poderíamos ser os próximos.

Com a pandemia, esse medo passou a dividir a mesa conosco e, em quarentenam temos de dormir e acordar com ele ao nosso lado, fazer as refeições, tomar banho e fazer de conta que ele não está lá. A urgência da morte veio e fez casa e não parece que vai embora tão cedo e com ela, veio o pânico de que o outro pode ser o agente mortífero e não o outro que sempre enxergávamos como imbuído de más intenções e desejoso de nos ferir para compensar qualquer desejo patológico ou desfavorecimento social. O outro na pandemia adquiriu um ar mais soturno de amigo que repentinamente ficou perigoso e precisamos manter afastado.

Talvez passada a pandemia nunca mais sejamos os mesmos uns com os outros, ingressaremos na era do pós-social, não sei mas sei que se há algo que aprendemos ou deveríamos estar aprendendo com isso é como tratamos nossos idosos.

Já por costume e tradição, nós ocidentais tendemos a enxergar os velhos como um fardo, algo que deve ser descartado e colocado de lado. Nossa sociedade preza a juventude e o novo como bálsamos insubstituíveis, o que é velho deve ser posto num museu e esquecido, inscrito nos livros de história para ninguém mais ver e ouvir falar.

Com o advento da pandemia e durante o vigente governo de agenda neoliberal ficou claro que as vidas idosas são um preço aceitável a ser pago para manter a roda girando e a sociedade funcionando afinal, eles já cumpriram seu papel, deram sua contribuição e precisam agora dar espaço aos jovens que tem de construir a pátria arrasada Brazil. O governo certamente agradece esse sacrifício já que promoverá um fôlego nas contas públicas sem que seja preciso posar de vilão ante a sociedade.

As vidas idosas passaram a ser moeda de troca no jogo político e social, se antes eram um incômodo encarado por muitas famílias como obrigação da qual se incumbiam sob o medo do julgamento social, com a pandemia passaram a ser artigo de exposição e justificativa para expressões de descaso das autoridades e até mesmo entre familiares que antes estariam pouco se lixando para elas.

Na verdade, esse valor súbito das vidas idosas vem do medo que a pandemia - como está se mostrando - não se retenha nelas e passe a devorar outras vidas com a mesma voracidade. Se um velho morre por que sua vida se extingue naturalmente ante o desgaste e fragilidade impostos pelo tempo não há problema afinal, é o curso natural das coisas mas, quando uma doença agressiva começa a ceifar essas vidas e mostra que pode clamar por outras mais jovens, entregamos as vidas velhas como oferenda para ver se a doença se sacia e nos deixa em paz.

Já ouvi e creio que tenham ouvido também comentários de que deveríamos deixar os velhos morrerem e focar no salvamento dos mais novos porque os velhos já estão no fim mesmo, qual a utilidade de gastar recursos com eles? Isso diz muito sobre nós como sociedade e espero que saíamos disso com outra concepção de valor da vida humana e de como tratamos nossos idosos.

Não vai adiantar muito passarmos por isso tudo e nossos idosos seguirem abandonados em asilos e largados a própria sorte porque não tem mais qualquer utilidade para nós nem para a sociedade. Sairemos de uma pandemia apenas para entrar em outra que sempre vivemos.

9 de abr. de 2020

O medo de nós mesmos

Enquanto Bolsonaro articula seu auto-golpe espalhando seus factóides e emparedando a democracia um tijolo por vez, nós seguimos isolados compulsoriamente até que a normalidade decida dar as caras novamente.

Talvez o COVID tenha apenas derrubado uma ilusão de liberdade e autonomia que pensávamos ter envoltos em nossas batalhas diárias por uma vida que nunca foi nossa e que agora descobrimos não ser a que queríamos.

Já vivíamos em isolamento feliz sem reclamar disso, fechados em nossas casas, trancafiados atrás de portas, fechaduras, travas e cadeados vendo o mundo passar pelas telas do computado, celular e TV e aceitávamos isso como parte da modernidade facilitadora da vida, benesses tecnológicas facilitadoras.

Quantos de nós efetivamente sabiam como foi o dia uns dos outros, tinha uma genuína preocupação com isso para além de curtir ou repostar uma foto ou comentário? Aquele bom dia que não saía da boca, aquele aperto de mãos que não vinha nunca, aquele olhar que jamais chegava. A imersão digital que nos alimentava a vida supria com folga a necessidade de toque e contato humano relegando este a ocasiões específicas e pontuais.

Ainda nos víamos, conversávamos, sorríamos e olhávamos uns para os outros mas sempre sob um olhar on-line considerando aquela pessoa a nossa frente algum tipo de emulação de seu eu digital, nos perguntando intimamente se aquela simulação era parte do feed das redes e concluindo, de forma nada empírica, que por dentro o que havia era um pão há muito bolorento.

A pandemia colocou abaixo esse simulacro de civilidade forçando nossa vista para o interior jogado para baixo do tapete da vida, acabamos confrontados com nós mesmos e com o outro e descobrimos que nem ele, nem nós éramos quem imaginávamos ser. Trancados dentro de nossas casas, acabamos tomando uma consciência de que nosso corpo é finito em si, suas necessidades são outras totalmente diferentes das que o cotidiano externo clamava e nossas vidas independem de algum tipo de fé irrestrita numa ideia vaga de que as coisas são como são e de que tudo se resolve por si.

Confrontados com a clausura forçada, descobrimos que há vida dentro da vida que tínhamos, uma vida que não sabíamos, que desaprendemos, que esquecemos e tivemos de reaprender a usar. Seremos os QUARENTENIALS, os filhos da pandemia e sairemos dela com outros modos e hábitos. Talvez sejamos testemunhas do pós-internet pois se por um lado a rede ajudou muitos de nós a não enlouquecer, acabou mostrando nossa dependência um do outro e como a hierarquia social que julgávamos justa era apenas uma falácia.

No melhor cenário, sairemos disso com algum tipo de noção renovada da importância do convívio humano ainda que, num primeiro momento, temerosos de ter essa contato. No pior cenário, passaremos a ser criaturas isoladas e que valorizarão a individualidade real e virtual ainda mais concluindo que o suficiente para sermos felizes é termos apenas a nós mesmos o que, grosseiramente, não está assim tão longe da verdade.

O que não morrerá e certamente aumentará é o medo que temos uns dos outros, esse medo não apenas pela violência social que nos aparta e afeta mas o medo congênito de que o outro sempre é uma ameaça de algum tipo a nossa integridade, sanidade e autenticidade enquanto indivíduos. Se antes vivíamos esse medo de forma comedida e um tanto educada, polindo as arestas sociais que nos afetavam e tolhendo o contato com pessoas que se apresentassem como potencialmente nocivas, no mundo pós-pandemia teremos de somar a esse medo o medo de que esse outro competindo pelas mesmas coisas que nós também pode ser arauto de doença e morte e por isso mesmo deve ser isolado e afastado tanto quanto for possível.

A herança da pandemia será essa, o medo desnudo e irrestrito, justificado do outro que passa a representar uma ameaça real e não mais imaginária e desse medo nascerá o homo pandemicus que saberá lidar com essa convivência virótica melhor que seus antecessores.

A ver.

7 de abr. de 2020

BRASOC


Nunca um livro me pareceu tão real quanto 1984 de George Orwell.

Duvida? Vejamos então.

Temos um governo que renega e deseja ardentemente reescrever e reinterpretar o passado sob a luz de sua ideologia fomentando o negacionismo e que seus opositores deturparam a história em benefício próprio.

Confere.

Temos um governo que está desmontando a educação e cultura rengando qualquer manifestação cultural ou educacional que seja contrária a seus ideais de sociedade, desestimulando a ciência e qualquer área de estudo que seja relacionada ao pensamento, crítica social ou humanidades dando prioridade a outras áreas que sejam mais 'produtivas' e tragam um benefício real a nação.

Confere.

Temo um governo que unificou toda uma parcela considerável da sociedade contra um inimigo inexistente mas que está sempre alerta para derrotar a nação e acabar com o modo de vida que conhecemos. Essa luta é inexorável, 24x7 e não pode jamais arrefecer.

Confere.

Temos um governo que promove 'minutos de ódio' diariamente nas redes sociais contra os inimigos da pátria, do povo, da família e da sociedade angariando uma turba ensandecida que está disposta a matar ou morrer pelo seu país.

Confere.

Temos um governo que condena e renega a imprensa livre porque a considera vendida, não isenta, tendenciosa, mentirosa e suja. É a maior fonte de notícias falsas que existe mas nega tudo com veemência mesmo quando pegos em flagrante e botam a culpa na imprensa pérfida que distorce todos os fatos e conclamam a sociedade a não lhe dar ouvidos, apenas às fontes chanceladas pelo governo.

Confere.

Temos um governo que promove a desigualdade social como liberdade, cada um tem um papel na sociedade e deve desempenhá-lo com orgulho pelo bem da pátria sem desejar ser o que não é e nunca poderá ser.

Confere.

Temos um governo que vai na direção oposta de qualquer fato comprovado e que controla sua narrativa com mão de ferro desmerecendo, humilhando, descredenciando, ofendendo e ameaçando quem se opõe a ele ou fala verdades inconvenientes.

Confere.

Temos um governo centrado numa figura mítica que representa o ideal supremo da nação, o mito, o salvador, o messias, uma figura acima de qualquer julgamento e que deve ser seguida sem questionamento ou argumentação.

Confere.

Viu como estamos vivendo já na BRASOC?

Você que não se deu conta ainda....

3 de mar. de 2020

Contágio

O tecido social que nos cerca é algo tão frágil que não nos damos conta, vivemos escorados num conjunto de regras, normas, convenções e regras que estão apenas sugeridas em nosso inconsciente coletivo e que jogaremos ao chão ao menor indício de que teremos de lutar pela sobrevivência.

Acha que não?

Veja essa epidemia nova que se espalhou pelo mundo, por mais que as autoridades de saúde e governos locais e mundiais atestem que não há razão para pânico, as pessoas já começas a estocar alimentos, água, remédios e produtos como álcool em gel e máscaras simplesmente desapareceram das farmácias. Talvez justamente porque essas autoridades e governos pedem calma seja porque todos estamos apavorados afinal, desde quando governos e autoridades realmente informam a sociedade com fatos reais e verídicos? Partimos do pressuposto de que estão mentindo e de que a situação é bem pior do que reportam e que os pedidos de calma são para proteger os mais ricos e as elites.

Claro que uma epidemia como essa precisa de toda nossa atenção, precaução e atenção e prefiro crer que as autoridades e governos estão mesmo empenhados em conter o vírus, minimizar seu impacto e encontrar uma cura ou vacina o mais rapidamente quanto possível mas, o efeito cascata já se faz sentir ainda mais nos tempos de hoje quando as pessoas podem viajar mais e de forma mais rápida facilitando a disseminação da doença.

Eventos como esse sempre me deixam assustado pois é uma crença pessoal minha de que nosso fim não virá do céu ou alguma guerra sem fim mas de alguma doença terrível que vai dizimar com facilidade grande parte de nós e jogar nossa sociedade no lixo da história e no esgoto da civilização pois não há civilidade ou solidariedade que resista ao instinto de sobrevivência.

O maior estrago que uma epidemia dessas pode fazer é, além do custo em vidas obviamente, dizimar as estruturas sociais frágeis que nos unem basta ver como mercados e bolsas regiram ao vírus se espalhando pelo planeta e como as pessoas começaram a entrar em pânico por uma doença que nem é assim tão fatal.

São esses acontecimentos que metem medo em mim, que me fazem descrer de nosso raça e entender que somos animais acima de tudo, no frigir dos ovos é cada um por si e o mundo contra todos, não acho que esse vírus será nosso fim mas a cada nova epidemia que eclode passo a ter mais e mais certeza de que esse será nosso fim e de que aqueles que sobreviverem, estarão imersos num desses mundos pós-apocalípticos que o cinema vira e mexe nos apresenta.

Quem viver, verá.

27 de fev. de 2020

Cuidado com os idos de Março

Como era de se esperar, Bolsonaro craque do bate-assopra evitou falar com a imprensa sobre o vídeo compartilhado por ele incitando as manifestações de Março e desautorizou qualquer membro de seu gabinete a declarar abertamente apoio o que não significa que, nos bastidores, isso não ocorra.

Não se enganem, esse golpe já vem marinando há tempos desde que Bolsonaro era apenas um representante do baixo clero e foi lá que plantou a semente que esta dando frutos agora, ele paga de defensor da democracia e pátria mas ele e seu clã de milicianos estão implantando seu projeto de poder em plena luz das instituições que condenam mas não agem, como se ele fosse apenas um moleque que se pode repreender com uma admoestação e nada mais.

Em qualquer país com um mínimo de consciência democrática ele já teria sido afastado do cargo e responderia por crimes de responsabilidade vide os inúmeros ataques não apenas às instituições democráticas que, por seu cargo, jurou defender mas como a setores da sociedade que despreza e preferiria ver eliminados porém, essas mesmas instituições que deveriam zelar pela democracia e cobrar explicações do chefe do executivo, que diariamente flerta com o autoritarismo, encontram-se reféns de um movimento que não souberam mesurar advindo dos mecanismos midiáticos que a quadrilha Bolsonarista sabe manipular com maestria vendendo para a sociedade a ideia de que tais organismos democráticos estão, na verdade, impedindo o Messias de governar e agindo contra a pátria, sociedade e roubando o futuro da nação.

Bolsonaro e seus filhos são demônios do Twitter e não passam dia sem atacar de forma indireta ou contundente as instituições alegando que eles são o rompimento da velha política, do fisiologismo, da corrupção, dos abusos e relações espúrias de poder, um discurso que já foi usado muitas vezes por líderes autoritários que desejavam mudar a sociedade para implantar uma visão de mundo que não era nada agradável. Propaganda, nada mais, o clã vende bem suas ideias e depois faz de conta que nós não entendemos direito e culpa a esquerda, a imprensa e os traidores da pátria pelos mal entendidos, quem controla a narrativa, controla o futuro.

Não admira que seus apoiadores clamem por um novo AI-5, por uma nova ditadura e exaltem os militares como única esperança de resgate da nação, tal ideia foi martelada até a exaustão em suas mentes via grupos de Whats, Twitter e outros fontes 'confiáveis' de informação fazendo com que essas pessoas, que já não tinham ou possuíam um conhecimento mínimo do que foi o período mais obscuro de nossa história, renegassem tal passado e passassem a admirá-lo e, num estranho saudosismo, uma nostalgia mórbida, pregassem seu retorno como solução final para que seu Messias possa cumprir a missão que lhe foi delegada por deus e pelas famílias de bem.

E não se enganem, essas famílias de bem, esses homens honrados, muito honrados, são a mesma elite que em 1964 apoiou e ajudou o golpe, para esses não importa se a desigualdade social segue aumentando, se há precarização do trabalho, desmonte da cultura ou qualquer outra coisa, para eles o que não pode mais acontecer é pobre, negro, e periferia viajando, estudando, comprando carro e reclamando mais direitos, para eles, se o lucro aumenta com a ditadura então vamos é implantar ela para ontem.

E, para coroar o projeto de golpe, basta criar o braço armado que está configurado com as PMs de cada estado que, em tese, deveriam estar subordinadas aos governos locais mas parecem mais inclinadas a bater continência ao capitão reformado que caiu na presidência. Bolsonaro nunca negou seu apreço e apoio aos militares de qualquer patente ou grupamento vide que militarizou todo seu gabinete e, onde não pode ou logrou fazê-lo, colocou um milico para controlar e informar o que se passa.

Com essa onda de greves das PMs, Bolsonaro tem à sua disposição o aparelho armado do Estado para suprimir qualquer resistência ao projeto de governo que ele pretende implantar pois essa é sua base eleitoral junto com as elites econômicas, evangélicos e barões do agronegócio que anseiam por uma época onde possam mandar e desmandar como lhes parecer melhor, com nos idos de 64, bons tempos!

A relação espúria dos Bolsonaros com a PM em seu braço mais abjeto, as milícias, é mais evidente que óleo na água mas parece não haver vontade de ligar os pontos e conectar os fatos já que os interesses em jogo são maiores do que o assassinato de uma vereadora, o massacre das populações periféricas, o encarceramento dos mais pobres e o desmonte da tecitura de apoio às camadas menos favorecidas da sociedade.

Enquanto tudo isso se passa, as ditas instituições e oposição parecem perdidas no tempo e espaço, discutindo como lidar com o descontrole que assomou o país como se fosse alguma surpresa, não é. Como disse acima, tudo isso vem sendo marinado há tempos mas todos achamos que não poderia ser tão ruim e que se ficasse ruim, tirávamos o capitão de lá afinal, tiramos o PT, não é? Só que o capitão veio e ficou, fincou o pé e cavou fundo sua trincheira no poder e, ao parecer um descontrolado, enganou a todos nós e está mostrando as garras que julgávamos que não tinha.

De tudo isso, o mais trágico é que esse povo que gera trending topics, pede fechamento do congresso e volta do AI-5 não tem noção do que estão fazendo tamanha a cegueira que se apossou deles, como se fosse possível controlar melhor o maluco colocando-o no comando do hospício mas esquecendo que, uma vez lá, o maluco dirá que é são e que os doidos somos nós e vai mandar trancafiar qualquer um que diga o contrário.

18 de fev. de 2020

Sentido!

Finalmente! E sem o disparo de um único tiro!

Jair deu golpe matreiro, sem mandar prender ou fuzilar ninguém (exceto aquele miliciano), golpe 'branco', arma nem tanto, armou sim mas foi a fritura de alguns apoiadores pensando que o ano mal começou e já está só levando bucha, que dirá depois do carnaval quando o país realmente se der conta que vai começar o ano?

Moro já anda mais pra lá do que pra cá, a 'educassão' só precisa de um empurrãozinho pra cair, nada que o imbecil que comanda a pasta não possa fazer nos próximos dias e aí, só enfiar lá mais um general, capitão, alferes ou qualquer bosta dessas para o Messias ficar mais seguro de que não vai ter gente querendo quebrar a hierarquia da caserna.

Militar segue ordem, não pergunta, não questiona, melhor estilo tropa, missão dada é cumprida, Jair gosta assim e as Olavetes estão só dando dor de cabeça. Com mais milicos ao seu redor, Jair pode sair dando bananas a quem bem entender e se reclamar é prendo e arrebento essa merda.

As bananas de Jair estão bem maduras, senhores. Estão prontas para descascar e entubar em nossos rabos, sem KY, sem gel, sem cuspe, a palo seco que assim que é na ditadura ou quer mais?

Quer?

ANCINE vai ter um 'órgão regulador' gerido por um militar, quer mais? Aos poucos o golpe vai ganhando cara e dizendo a que veio, meus amores. E vai de banana que engorda e faz crescer! Jair sai dando banana pra todo mundo que não sabe como se portar na frente do mandatário da nação, milico aposentado que nunca provou um golpe safra 64 com canapés de AI5, melhor convescote ever!

Jair queria mas como não dava pra refazer esse ou chamar aquele Ustra pra colocar ordem na petralhada e esquerdopatas, bixas, artistas, putas e demais merdas, teve de aprender na marra a fazer seu 64 Revisited e Remaster, vai lá, usa de referência mas não copia que não é pra geral dizer que é ditadura, não é!

Só um revisionismo aqui e ali, tirar uns livros aqui e acolá, acabar com essa mamata de pobre com benefício social, viajar de avião e querer estudar filosofia, sociologia ou qualquer umas dessas coisas de vagabundo subversivo, tem de estudar direito, engenharia, medicina, profissão de gente de bem, decente, branca, TFP. Heil White!

Não estamos maltratando ninguém, não estamos destruindo nada, apenas adaptando para ficar mais condizente com a maioria cristã sociopatas de cristo e aquela biblioteca ali pode tirar que vou fazer o gabinete da minha mulher que é temente a deus e obedece a mim, talkei? Livro aqui não precisa, livro pra que? Esse espaço aí onde tem livro deve ter coisa se esquerda, livro é coisa de comunista, tira daí e faz um banheiro pra minha esposa poder ficar mais confortável, ela também não lê porque eu proíbo, onde já se viu mulher lendo?

E toma aqui uma banana pra vocês que estão achando ruim, oras!

5 de fev. de 2020

A homofobia nossa de cada dia

Imagino que todos estejam a par do crime que vitimou uma família no ABC Paulista recentemente, detalhes aqui.

Logo de cara, a filha do casal e sua namorada e/ou esposa foram presas como principais suspeitas e, pelo andar da carruagem, serão realmente indiciadas pelo crime que, até onde se sabe, foi cometido num misto de ganância, amor tóxico, relacionamento abusivo e sabe-se lá mais o que.

Não cabe a mim ou a ninguém fazer julgamento ou entender porque crime tão bárbaro - leia os detalhes na matéria no link acima - foi cometido e reduzir a um simples caso de homofobia já que, aparentemente, o pai não aceitava a orientação sexual da filha ou seu relacionamento com a namorada-esposa. Seria uma dedução simplista e tendenciosa para explicar algo que muito provavelmente tem raízes muito mais profundas.

O que mais me choca e preocupa são os comentários na matéria em questão e em outros lugares apontando a orientação sexual como causadora do crime numa profusão de 'opção sexual', 'homossexualismo' e toda gama de termos que a sociedade pensa saber usar com maestria nesses momentos.

Outros tantos, conservadores convictos, já bradam onde estaria a esquerda, a Lei Maria da Penha para essas moças? Logo vão aparecer dizendo que elas foram vítimas de homofobia e que se fosse o contrário, estariam já de punhos em riste clamando por justiça. E, para coroar tudo, alguns comentando que tal crime apenas comprova o desejo gay de acabar com a família, que se fossem pessoas 'normais' isso não aconteceria como se a orientação sexual fosse responsável por desvios de caráter ou sociopatia.

Em ocasiões como estas, em que crimes são cometidos por LGBTQs, a sociedade normativa que já tolera a contragosto gays, vê-se no direito absoluto de apontar a 'sexualidade deviante' como causa prima do crime afinal, gays não prezam pela família, são devassos, não tem religião, são pecadores e pessoas sem qualquer senso moral ou decência e, nos dias de hoje, numa lógica reversa bizarra, dizem que gays sempre usarão a homofobia como justificativa para um ato de violência que porventura venham a praticar o que é sim um ato de extrema homofobia.

Quando a violência é cometida por um membro da maioria normativa os brados por justiça são altos sem dúvida mas, quando o quesito LGBTQ é adicionado ao caso já passamos para o nível de queimar na fogueira afinal são pessoas com graves desvios de personalidade e sexuais. Essa associação faz todo sentido numa sociedade que ainda encara pessoas LGBTQ como ameaça ao status quo não por serem concretamente isso mas por representarem uma parcela da população que não aceita mais ser invisível e que está demandando respeito e visibilidade o que assusta a maioria.

É mais fácil aceitar que pedófilos e criminosos sejam gays porque já lhes é inerente um desvio do que aceitar que a orientação sexual não é fator determinante para moldar um criminoso mas pode, quando confrontada com preconceito, ódio, desprezo e humilhação, ajudar a formar essa personalidade torta juntado-se a outros problemas ou patologias não identificadas ou tratadas.

Como o crime foi cometido por duas pessoas LGBTQ, ocorre essa inversão de valores em que se passa a julgar o crime não pelo ato em si mas pela sexualidade da pessoa quando, no caso de um hétero ter cometido o mesmo crime, a sexualidade sequer seria mencionada como fator para o crime.

Quando héteros cometem crimes tão ou até mais horrendos contra pessoas LGBTQ os comentários não apontam a heterossexualidade como fator determinante para o crime, muito pelo contrário, a culpa é das bixas que não se dão ao respeito e novamente a culpa é de quem não tem a orientação sexual ou identidade de gênero normativa o que nos faz bater recordes de assassinatos de pessoas LGBTQ a cada ano.

Como se não bastasse isso, a cadeia de comentários pedindo PENA DE MORTE é impressionante, fico pensando se estas pessoas que pedem tal mecanismo tem a ciência de que num país como o nosso, com uma polícia inepta e despreparada, um sistema judiciário podre e onde fala a lei do dinheiro, a pena capital serviria apenas contra pobres, bixas, negros e qualquer outra minoria e até mesmo contra essas mesmas pessoas que a pedem pois uma vez implantada, não haverá distinção entre quem é bandido e quem é mocinho e, quando for ver, será tarde demais para voltar atrás.

A antesala de tudo isso é o preconceito enraizado e estrutural que vivemos dia a dia no país e que, infelizmente, com o atual governo, não arrefecerá já que ele passa o pano para racistas, homofóbicos e outros mais.

Enquanto essa parcela da sociedade - e nós mesmos - não entender que nossas 'diferenças' devem nos unir ao invés de nos separar estaremos eternamente a merce de fascistas e de comentários como esses nas matérias sobre esse crime terrível, julgando pessoas não pelos seus atos mas por suas individualidades e seguiremos numa sociedade onde sua inocência será ditada pela cor de sua pele, aparência, poder aquisitivo, moradia, orientação sexual ou identidade de gênero.

O horror nosso de cada dia.

lembranças aleatórias não relacionadas com a infância

Lembrança #10 Lembro de uma festa ou rave ou balada que eu ajudei um amigo a organizar num tipo de sítio eu acho. Estava separado do meu nam...