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14 de fev. de 2020

Pateta

Como esfacelar uma sociedade?

Muitas maneiras, oras!

Primeiro se elege um asno conservador que não sabe patavinas sobre como gerir um país mas tem o apoio das elites socio-econômicas cansadas de dar passagem aos pobres, pretos, bixas, mulheres, nordestinos e tudo mais que não fala parte de sua casta.

Some um discurso teocrático voltado para os neopentecostais e cristãos TFP, uma certa dose de autoritarismo e intolerância, valores conservadores, ufanismo exacerbado, pátria amada, eles contra nós e falocentrismo.

Depois, comece lentamente a testar os limites dessa sociedade através de factóides, frases, atos, ataques a imprensa, fake news, destempero emocional, violência verbal. Veja até onde a sociedade engole algumas coisas e rejeita outras.

Enquanto isso, vá desmontando gradativamente a cultura, educação e impondo uma censura velada. Acena com melhoras na economia e com números que comprovem isso tirados de sua cartola mágica neoliberal e critique quem está torcendo contra o país.

Por fim, peça ao seu ministro da economia que deixe claro para quem vocês estão governando, dólar alto não é problema, é solução afinal para os ricos isso significa mais dinheiro, no máximo terão de trocar as férias na Europa ou nos EUA por algum resort no nordeste ou algum projeto de país sul-americano, talvez um safari na África ou um pulo em Cancun. Aquela SUV do ano terá de ser trocada por uma semi-nova e a festa de quinze anos terá de ser feita naquela balada já meio decadente e não no clube da moda e a champanhe terá de ser algo mais barato e não aquela importada.

Mas tudo bem! Vale o sacrifício!

Só de saber que a empregada, o motorista, o porteiro, a manicure, seus filhos e filhas não estarão entupindo as filas de check-in nos aeroportos atrapalhando o acesso da Business Premiu First Platinum Gold, já vale esses pequenos sacrifícios.

Só de não topar com esse povo na Disney, em NYC, Miami, Londres, Chile ou Paris já vale fazer esses pequenos cortes no estilo de vida. Só de não ver os filhos e filhas deles na mesma universidade que os seus dá gosto ter de cortar alguns dólares do orçamento doméstico já tão apertado.

Não ver esse povo comprando carro então, vale qualquer coisa, para isso tem ônibus e metrô, gente! E ver esse povo indo ao shopping? Como se tivessem condições de gastar por lá onde madames levam seus cães de vários salários mínimos passear junto com as babás que estão pra por a mão no diploma, quem vai cuidar das crianças e levar o totó pra passear nos dias de chuva?

Por mim o dólar podia estar até em cinco reais! Não me importo desde que esse povo pare de ocupar esses espaços que nos pertence, pagamos impostos, fazemos doações, ajudamos tanto, qual o problema deles em ficar no seu canto, onde tudo faz mais sentido? Eles não tem condições de entender este lado aqui, as diferenças entre os tipos de café, de pães artesanais, dos diferentes tipos de tecido, as fragrâncias finas que exalamos, não sabem se comportar num avião, num táxi, num Uber, não sabem como ir a um museu aliás nem precisam, lá onde moram tem tudo que precisam, não?

Onde já se viu irem pra Disney? Nem português falam direito, que dirá inglês! Para viajar ao exterior tem de saber se portar, se vestir, falar, andar, representar o país lá fora, não pode ser qualquer um não! Vá lá, uma vez na vida, um sonho realizado, um desejo, uma doação feita por algum desses programas que realizam sonhos, tudo bem! UMA VEZ, mais que isso é desnecessário, gente!

Como esse pessoal pode fazer um check-in, um bag drop, pedir um upgrade, conhecer os rewards do programa de milhagem? Como podem saber o que é late check-in, early check-out? Se quer devem saber o que é um single room, nem mesmo um boarding pass. Nem sabem pronunciar as marcas do Duty Free!

Por isso o ministro está certo, tem de deixar esse dólar alto mesmos porque essas coisas devem ser apenas para quem tem condições de usá-las, de entender como usar, não pode ser pra qualquer um.

Ou isso ou então aqui é a Disney e somos todos Pateta.

10 de fev. de 2020

Onde os fracos não tem vez.

Já havia escrito aqui sobre os comentários do messias sobre as pessoas com HIV-AIDS e agora, esta outra notícia ecoa com esse discurso pronto deixado claro que a agenda neoliberal segue firme e forte seu caminho para desmontar a sociedade matando aqueles se encontram na sua base para deixar os mais abastados tranquilos e protegidos.

Não é a toa que o empresariado sente-se mais do que confortável em pedir a revisão dessa estabilidade dada a pessoas com HIV-AIDS já que elas representam um custo para eles e para o governo. Bolsonaro de forma explícita deu seu aval ao corroborar esse pensamento que já é um desejo antigo das elites econômicas do país.

Atualmente, as empresas não podem perguntar sobre sua sorologia em uma entrevista de emprego pois é considerado ato de preconceito já que pode levar o empregado a não contratar aquela pessoa pelo simples fato de que ela poderá ficar mais doente que outras não portadoras do vírus o que, em termos de lucros e cifras, é horrível para o empresário.

Igualmente, após a contratação o empregado não pode ser dispensado ou sofrer qualquer preconceito pela sua condição de soropositivo e esta lei proíbe que isso aconteça mas, os empresários alegam que isso pode mascarar pessoas mal intencionadas que usarão da doença para permanecer em seus empregos mesmo não apresentando o que se costuma chamar de performance adequada ou dentro do que se espera na empresa.

Obviamente que gente mal intencionada há em todo canto e não apenas pessoas com HIV-AIDS basta ver a quantidade de fraudes que pululam no INSS e muitas com vista grossa das autoridades. O que se está tramando é um mecanismo que permita dispensar essas pessoas que, devido a sua condição soropositiva, podem sim adoecer mais do que pessoas sem o vírus ainda que os atuais tratamentos, se seguidos corretamente, tornem isso virtualmente impossível e tudo isso porque custa caro para o empresário manter um funcionário nessas condições.

Isso abre uma brecha perturbadora pois os próximos da lista serão as mulheres grávidas, os portadores de doenças crônicas como diabetes e pressão alta e daí para dispensar PCD, LGBTQs, afrodescendentes ou qualquer outra minoria que não se encaixe no padrão empresarial é um pulo.

Está mais do que claro que a agenda neoliberal e conservadora de Bolsonaro avança a passos largos e não fossem outras instituições vigilantes, já estaríamos numa situação muito pior mas lembrem-se de que temos ainda três anos pela frente e que agora eles estão implantando forte sua agenda conservadora sem medo de machucar quem quer que seja e somos nós, as minorias, que eles tem mais gosto e vontade de machucar.

Mal sabem eles que estamos acostumados a apanhar feio de todos os lados e que se tem uma coisa que aprendemos bem foi lutar.

Cai dentro, Bolsonaro!

5 de fev. de 2020

A homofobia nossa de cada dia

Imagino que todos estejam a par do crime que vitimou uma família no ABC Paulista recentemente, detalhes aqui.

Logo de cara, a filha do casal e sua namorada e/ou esposa foram presas como principais suspeitas e, pelo andar da carruagem, serão realmente indiciadas pelo crime que, até onde se sabe, foi cometido num misto de ganância, amor tóxico, relacionamento abusivo e sabe-se lá mais o que.

Não cabe a mim ou a ninguém fazer julgamento ou entender porque crime tão bárbaro - leia os detalhes na matéria no link acima - foi cometido e reduzir a um simples caso de homofobia já que, aparentemente, o pai não aceitava a orientação sexual da filha ou seu relacionamento com a namorada-esposa. Seria uma dedução simplista e tendenciosa para explicar algo que muito provavelmente tem raízes muito mais profundas.

O que mais me choca e preocupa são os comentários na matéria em questão e em outros lugares apontando a orientação sexual como causadora do crime numa profusão de 'opção sexual', 'homossexualismo' e toda gama de termos que a sociedade pensa saber usar com maestria nesses momentos.

Outros tantos, conservadores convictos, já bradam onde estaria a esquerda, a Lei Maria da Penha para essas moças? Logo vão aparecer dizendo que elas foram vítimas de homofobia e que se fosse o contrário, estariam já de punhos em riste clamando por justiça. E, para coroar tudo, alguns comentando que tal crime apenas comprova o desejo gay de acabar com a família, que se fossem pessoas 'normais' isso não aconteceria como se a orientação sexual fosse responsável por desvios de caráter ou sociopatia.

Em ocasiões como estas, em que crimes são cometidos por LGBTQs, a sociedade normativa que já tolera a contragosto gays, vê-se no direito absoluto de apontar a 'sexualidade deviante' como causa prima do crime afinal, gays não prezam pela família, são devassos, não tem religião, são pecadores e pessoas sem qualquer senso moral ou decência e, nos dias de hoje, numa lógica reversa bizarra, dizem que gays sempre usarão a homofobia como justificativa para um ato de violência que porventura venham a praticar o que é sim um ato de extrema homofobia.

Quando a violência é cometida por um membro da maioria normativa os brados por justiça são altos sem dúvida mas, quando o quesito LGBTQ é adicionado ao caso já passamos para o nível de queimar na fogueira afinal são pessoas com graves desvios de personalidade e sexuais. Essa associação faz todo sentido numa sociedade que ainda encara pessoas LGBTQ como ameaça ao status quo não por serem concretamente isso mas por representarem uma parcela da população que não aceita mais ser invisível e que está demandando respeito e visibilidade o que assusta a maioria.

É mais fácil aceitar que pedófilos e criminosos sejam gays porque já lhes é inerente um desvio do que aceitar que a orientação sexual não é fator determinante para moldar um criminoso mas pode, quando confrontada com preconceito, ódio, desprezo e humilhação, ajudar a formar essa personalidade torta juntado-se a outros problemas ou patologias não identificadas ou tratadas.

Como o crime foi cometido por duas pessoas LGBTQ, ocorre essa inversão de valores em que se passa a julgar o crime não pelo ato em si mas pela sexualidade da pessoa quando, no caso de um hétero ter cometido o mesmo crime, a sexualidade sequer seria mencionada como fator para o crime.

Quando héteros cometem crimes tão ou até mais horrendos contra pessoas LGBTQ os comentários não apontam a heterossexualidade como fator determinante para o crime, muito pelo contrário, a culpa é das bixas que não se dão ao respeito e novamente a culpa é de quem não tem a orientação sexual ou identidade de gênero normativa o que nos faz bater recordes de assassinatos de pessoas LGBTQ a cada ano.

Como se não bastasse isso, a cadeia de comentários pedindo PENA DE MORTE é impressionante, fico pensando se estas pessoas que pedem tal mecanismo tem a ciência de que num país como o nosso, com uma polícia inepta e despreparada, um sistema judiciário podre e onde fala a lei do dinheiro, a pena capital serviria apenas contra pobres, bixas, negros e qualquer outra minoria e até mesmo contra essas mesmas pessoas que a pedem pois uma vez implantada, não haverá distinção entre quem é bandido e quem é mocinho e, quando for ver, será tarde demais para voltar atrás.

A antesala de tudo isso é o preconceito enraizado e estrutural que vivemos dia a dia no país e que, infelizmente, com o atual governo, não arrefecerá já que ele passa o pano para racistas, homofóbicos e outros mais.

Enquanto essa parcela da sociedade - e nós mesmos - não entender que nossas 'diferenças' devem nos unir ao invés de nos separar estaremos eternamente a merce de fascistas e de comentários como esses nas matérias sobre esse crime terrível, julgando pessoas não pelos seus atos mas por suas individualidades e seguiremos numa sociedade onde sua inocência será ditada pela cor de sua pele, aparência, poder aquisitivo, moradia, orientação sexual ou identidade de gênero.

O horror nosso de cada dia.

9 de jan. de 2020

Os armários do messias

É no mínimo curioso o ódio que o messias e aqueles que o seguem nutrem para com a comunidade LGBTQ, com se não bastasse toda a gama de problemas e dificuldades que vida já se incumbe de jogar em nosso colo.

Raro o dia em que o messias não fala alguma merda vide este e este caso emblemáticos.

Pessoalmente, antes de considerar tal comportamento como homofóbico, prefiro considerá-lo como manobra política que ecoa diretamente no eleitorado do messias que, paulatinamente, começa a se desfazer ante o total desgoverno e incapacidade sua e de seu séquito em tocar a coisa pública e fazer o pais andar ao invés de ser alvo de escárnio mundial.

Ao atacar os LGBTQ, o messias repete seu discurso de campanha usando a bandeira da moral, costumes e família para alavancar alguma popularidade e apontar possíveis culpados pela situação precária de seu governo, como se as bixas tivessem alguma responsabilidade por ele ser o imbecil que é.

Na outra mão, é inegável a homofobia que suas declarações carregam além do discurso de ódio que promove e incita na população pois, se o governante é capaz de soltar os piores impropérios e desmerecer parcela da sociedade para a qual ele deveria governar com mais atenção e carinho, que dirá o cidadão comum que vai sentir-se no mais absoluto direito de reproduzir o discurso que vem de cima?

Há algo de muito errado nessa fobia e ódio todo e não me parece ter sua causa apenas em preconceito puro e simples o que em si já é altamente condenável. Muito menos em um discurso conservador e fascista de que as minorias devem curvar-se ante a vontade da maioria igualmente execrável e que reflete sim boa parcela da sociedade nacional, infelizmente.

Quando o messias se refere aos gays ele baba, saliva, sua macheza se põe em riste e a testosterona bombeia o sangue. O macho patriarca não pode aceitar a homossexualidade como via de amor porque ela abre um precedente para que o amor e o sexo não sejam mais exclusividades suas e pessoas livres para gozar e amar são muito perigosas porque tem consciência e posse de seus corpos e mentes.

Quando vejo o messias e seus acólitos bradarem palavras de ordem contra os LGBTQ, contra a ideologia de gênero e outras coisas mais que devem sim estar no centro de debates de qualquer sociedade que se entenda como tal, penso na carga de homossexualidade reprimida que eles carregam em si.

Talvez algum amor não concretizado na juventude, uma paixão momentânea por algum colega de escola ou quartel - ambiente onde a homossexualidade reina absoluta mas velada - algum trauma gay que marcou profundamente a vida dessas pessoas para que passassem a considerar os gays como demônios vindos do círculo mais profundo dos infernos.

Não os digo gays enrustidos porque a sexualidade de cada um é tema complexo e delicado mas só consigo conceber tamanho ódio e nojo com base em alguma experiência fatídica e não apenas em teorias ou filosofias adquiridas. Quando não aceitamos o desejo manifestado ele incuba feito um xenomorfo e vai corroendo tudo por dentro até germinar em ódio daquilo que não conseguimos viver, entender ou experimentar por medo ou covardia.

O que se condena é o objeto do desejo não consumado, o amor que não foi feito e o afeto que não foi dado ou retribuído e talvez nem tenha sido culpa deles mas do tecido social que lhes tolheu esse direito e possibilidade. Penso mesmo que os homofóbicos mais radicais e raivosos são os que guardam dentro de si um desejo gay reprimido de tal forma que se torna um buraco negro sugando todo e qualquer amor, afeto ou empatia que gravite a sua volta.

No desespero de não ver seu desejo feito e seu tesão alimentado, essas pessoas desejam ver perecer todo o amor que os outros tem coragem de aceitar e abrir ao mundo sem medo de ser como são e isso dói feito uma ferida aberta no peito deles, nada pior do que o rancor humano, a inveja, a raiva de quem não soube escolher ou não lhe foi dito que havia escolha, de quem renegou o amor e o sexo como coisas sujas e grosseiras por serem fora da curva normativa.

São essas pessoas que hoje governam o país e nós, infelizmente, estamos sendo tragado para dentro de seus armários.

lembranças aleatórias não relacionadas com a infância

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