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23 de mar. de 2020

É justo, justíssimo!

O pior da epidemia não é a doença em si pois ela seguirá seu fluxo até ser controlada ou encontrarem sua cura e tratamento.

O pior é a máscara humana que ante o esfacelamento do tecido social cai mais rápido do que as bolsas ao redor do mundo.

É simplesmente abjeto e beira o absurdo comentários como o de Roberto Justus, o supra sumo da elite branca, cis, HT, rica e tradicional cujo áudio remete ao pior momento da história humana, o nazismo.

Num discurso eugenista, elitista, nada empático e totalmente focado na seleção natural que deverá priorizar o mais fortes em detrimento dos mais fracos, Herr Justus deixa bem claro de que lado está sua solidariedade afinal, como irá ganhar seus milhões sem ter quem para ele trabalhe?

Alinhado com Bolsonaro e sua quadrilha de paspalhos neoliberais, Justus prevê uma recessão terrível e que trará grandes prejuízos a todos caso a 'histeria' e o 'pânico' não sejam controlados e a economia não siga funcionando normalmente e, para que isso ocorra, o sacrifício de alguns será preciso e não de forma simbólica mas literal.

O discurso de Justus está alinhado com o de Bolsonaro e sua tchurma que estão se cagando de medo da recessão que essa pandemia causará não pelo social mas pelo abalo político que causará justamente quando pretendiam se perpetuar no poder e implantar sua agenda conservadora e neoliberal no país.

Para eles, isso é uma gripe qualquer, um resfriado e se os velhos irão morrer, que morram, oras! Eles já estavam no fim da linha e muito provavelmente não foi essa epidemia mas outras doenças que irão matá-los. Da mesma forma, se os pobres morrerem também será um grande infortunio mas, como pensam eles, não se pode fazer um omelete sem quebrar alguns ovos.

O pensamento de Bolsonaro ao tratar essa crise como capital político é medonho e condizente com o caráter de um sociopata, Hitler bateria palmas se pudesse. Para Bolsonaro a economia vem antes de tudo porque é sua carta na mesa, seu capital de troca, sem ela ele está na corda bamba então, se for preciso matar parte da população, tudo bem!

A economia já está na merda, a crise já se instalou, a recessão já vem a galope e não apenas aqui mas no mundo e o momento é de zelar pela saúde pública e adotar medidas que ao menos amenizem a recessão que se acerca, tranquilizem a população e demonstrem que há efetivamente alguém no comando da nação e não um imbecil e seus filhos fazendo merda nas redes sociais e jogando queda de braço com governadores que, ainda que não sejam santos, estão tomando medidas efetivas para conter o contágio da população e um eventual colapso dos sistemas de saúde.

A galera que apoia o messias segue cega feito o gado que sempre foram, mugindo e espalhando que é tudo uma conspiração comunista, do PT e que a China é a grande responsável por tudo destilando ódio, xenofobia e preconceito alimentados pelo discurso inflamado do messias e seus filhos dementes. Preferem enfiar a cabeça no buraco olavista e bolsonarista ao invés de entender que o buraco onde estamos engoliu a todos sem exceção e só vamos sair dele com muita luta e resiliência.

Discursos como o Justus são reais, muito reais e ecoam tais teorias conspiratórias e pensamento eugenista que as elites bolsonaristas elegeram e seguem defendendo, se for para sobreviver alguém, que seja a melhor parte da sociedade, esse é o pensamento bolsonarista.

A epidemia vai passar, tenho certeza disso mas me pergunto quando iremos nos curar do vírus Bolsonaro que está nos matando a cada dia que passa e, seguindo nesse ritmo, ao final dos quatro anos, restará apenas ele para contar a história para os escombros do que um dia foi um país.

16 de mar. de 2020

A epidemia que nunca passou

Pandemia. Contágio. Vírus. Doença. Quarentena.

O tecido social delicado e indelével mostra toda sua fragilidade quando confrontado por uma praga que se alastra de forma global e irrestrita, coloca a prova o senso de sociedade, solidariedade e empatia, expõe o pior de nós enquanto espécie.

Enquanto bolsas caem das alturas, ricos se preocupam em não ficar menos ricos ou lucram com a desgraça mundial (e você pode ter certeza de que eles irão lucrar, e muito), governos se desdobram para evitar que a doença se espalhe pensando não na população mas no custo que a busca desenfreada por tratamento nos serviços de saúde precários traria aos cofres públicos, aos investimentos estrangeiros, ao dinheiro que deixaria de circular.

O custo dessa epidemia, digo o custo real, econômico, ainda será entendido e medido mas já sabemos que será alto, desenha-se um cenário de recessão global, falências, desemprego e encolhimento de economias, uma conta que vai acabar no colo das classes mais pobres certamente já que rico não vai pagar esse boleto.

O custo humano e social já estamos pagando quando nos recusamos a abrir mão de nosso conforto diário, da balada, do bar com a galera, do show, do cineminha pensando que a doença vai passar longe de nós. Pode até passar e espero que passe mas, e o outro? E quem não pode se dar ao luxo de desdenhar a doença? E quem não tem a opção de ficar em quarentena confortável em seu apartamento de vários metros quadrados, abastecido, com acesso a internet e streaming e gerente cuidando de seus investimentos?

O ser humano é uma criatura abjeta, basta ver uma situação como esta pandemia para comprovar que seu único pensamento é em si, individual, solo, único. Tudo bem o outro morrer desde que eu não morra ou não tenha de abrir mão do meu conforto e privilégios.

Então, quando um casal de idosos que viajam para Búzios, tem médico próprio, plano de saúde e moram num bairro de classe média alta segue com sua diaristas trabalhando em casa mesmo estando ambos infectados, há quem diga que ela precisa seguir trabalhando pois foi a profissão que escolheu para si, que diaristas não são mais escravas e que o referido casal demonstrou empatia ao fornecer luvas, máscaras e outros meios de proteção.

Não. Apenas não.

O preço dessa doença ainda não foi sentido pois as classes mais baixas ainda não começaram a se infectar, quando começarem teremos então uma boa noção do que essa pandemia vai custar a todos nós. Pobre não pode se dar ao luxo de ficar de quarentena, não pode ficar em casa porque precisa trabalhar, tem conta para pagar e não tem opção. Não viaja para Búzios ou tem médico pessoal.

Enquanto a elite segue confinada em suas torres, o pobre segue pegando coletivo e trens lotados, não tem isolamento, não tem escolha. Pobre não faz home office amores, pobre não tem como estocar comida nem licença remunerada, pobre tem de lutar todo dia contra o vírus da desigualdade ou morre.

Achar que empatia é fornecer luva e máscara e dizer para a pessoa vir só uma vez por semana é cagar para a vida alheia, fazer troça com a saúde do outro. Empatia não é estocar comida e comprar todo o álcool em gel, isso é mesquinharia em seu aspecto mais grotesco. Estamos em momento de pensar COLETIVAMENTE e deixar o INDIVIDUAL um pouco de lado.

Empatia é deixar quem lhe presta serviços em licença remunerada até que a situação se acalme. É comprar apenas o que falta entendendo que o o seu estoque é a fome do outro. É abrir mão daquele lazer porque ele pode representar a morte do outro. É pensar que a doença não conhece classe, posse ou status, ela vai infectar todos sem exceção e sem dó mas podemos, como pessoas, minimizar seu impacto pensando uns nos outros e não em nossas necessidades pessoais.

Epidemias como essa são e serão cada vez mais comuns num mundo globalizado, conectado e mutante, cabe a ciência tentar prever e prevenir, aos governos controlar, dar apoio, cuidar e gerenciar e a nós, atuar como seres pensantes e aptos para a vida em sociedade.

Já a epidemia de egoísmo, desigualdade e pobreza segue fazendo vítimas como sempre e seguirá assim mesmo depois que essa de agora for superada. Contra essa epidemia social não há vacina, não há remédio, não há contenção e ela fica mais evidente quando temos doenças graves como o coronavírus entre nós.

O coronavírus é patológico, o outro é sociológico.

14 de fev. de 2020

Pateta

Como esfacelar uma sociedade?

Muitas maneiras, oras!

Primeiro se elege um asno conservador que não sabe patavinas sobre como gerir um país mas tem o apoio das elites socio-econômicas cansadas de dar passagem aos pobres, pretos, bixas, mulheres, nordestinos e tudo mais que não fala parte de sua casta.

Some um discurso teocrático voltado para os neopentecostais e cristãos TFP, uma certa dose de autoritarismo e intolerância, valores conservadores, ufanismo exacerbado, pátria amada, eles contra nós e falocentrismo.

Depois, comece lentamente a testar os limites dessa sociedade através de factóides, frases, atos, ataques a imprensa, fake news, destempero emocional, violência verbal. Veja até onde a sociedade engole algumas coisas e rejeita outras.

Enquanto isso, vá desmontando gradativamente a cultura, educação e impondo uma censura velada. Acena com melhoras na economia e com números que comprovem isso tirados de sua cartola mágica neoliberal e critique quem está torcendo contra o país.

Por fim, peça ao seu ministro da economia que deixe claro para quem vocês estão governando, dólar alto não é problema, é solução afinal para os ricos isso significa mais dinheiro, no máximo terão de trocar as férias na Europa ou nos EUA por algum resort no nordeste ou algum projeto de país sul-americano, talvez um safari na África ou um pulo em Cancun. Aquela SUV do ano terá de ser trocada por uma semi-nova e a festa de quinze anos terá de ser feita naquela balada já meio decadente e não no clube da moda e a champanhe terá de ser algo mais barato e não aquela importada.

Mas tudo bem! Vale o sacrifício!

Só de saber que a empregada, o motorista, o porteiro, a manicure, seus filhos e filhas não estarão entupindo as filas de check-in nos aeroportos atrapalhando o acesso da Business Premiu First Platinum Gold, já vale esses pequenos sacrifícios.

Só de não topar com esse povo na Disney, em NYC, Miami, Londres, Chile ou Paris já vale fazer esses pequenos cortes no estilo de vida. Só de não ver os filhos e filhas deles na mesma universidade que os seus dá gosto ter de cortar alguns dólares do orçamento doméstico já tão apertado.

Não ver esse povo comprando carro então, vale qualquer coisa, para isso tem ônibus e metrô, gente! E ver esse povo indo ao shopping? Como se tivessem condições de gastar por lá onde madames levam seus cães de vários salários mínimos passear junto com as babás que estão pra por a mão no diploma, quem vai cuidar das crianças e levar o totó pra passear nos dias de chuva?

Por mim o dólar podia estar até em cinco reais! Não me importo desde que esse povo pare de ocupar esses espaços que nos pertence, pagamos impostos, fazemos doações, ajudamos tanto, qual o problema deles em ficar no seu canto, onde tudo faz mais sentido? Eles não tem condições de entender este lado aqui, as diferenças entre os tipos de café, de pães artesanais, dos diferentes tipos de tecido, as fragrâncias finas que exalamos, não sabem se comportar num avião, num táxi, num Uber, não sabem como ir a um museu aliás nem precisam, lá onde moram tem tudo que precisam, não?

Onde já se viu irem pra Disney? Nem português falam direito, que dirá inglês! Para viajar ao exterior tem de saber se portar, se vestir, falar, andar, representar o país lá fora, não pode ser qualquer um não! Vá lá, uma vez na vida, um sonho realizado, um desejo, uma doação feita por algum desses programas que realizam sonhos, tudo bem! UMA VEZ, mais que isso é desnecessário, gente!

Como esse pessoal pode fazer um check-in, um bag drop, pedir um upgrade, conhecer os rewards do programa de milhagem? Como podem saber o que é late check-in, early check-out? Se quer devem saber o que é um single room, nem mesmo um boarding pass. Nem sabem pronunciar as marcas do Duty Free!

Por isso o ministro está certo, tem de deixar esse dólar alto mesmos porque essas coisas devem ser apenas para quem tem condições de usá-las, de entender como usar, não pode ser pra qualquer um.

Ou isso ou então aqui é a Disney e somos todos Pateta.

12 de fev. de 2020

Chuva de rico, chuva de pobre

Domingo para Segunda a cidade sofreu com o excesso de chuva, reinou o caos e ainda ontem ainda sentíamos a ressaca da calamidade, muito provavelmente hoje e nos dias a seguir sentiremos ainda alguns reflexos para não mencionar o preço de frutas, legumes e verduras que devem disparar já que o CEAGESP que abastece a capital teve praticamente toda suas mercadorias estragadas.

Engraçado, vai ano e vem ano e nada se resolve, todos sabemos que essa época é de chuvas intensas caraterísticas de nosso clima mas as autoridade perecem crer que moramos na Suíça e, quando a tragédia se passa, culpam o clima, a chuva, Deus e seja lá mais o que for enquanto a verba para obras de contenção e prevenção de enchentes teve apenas 40% de seu total gastas em obras e medidas efetivas para a cidade.

Mas, a bem da verdade, não adianta culpar apenas as autoridades ainda que elas sejam sim responsáveis em antever e tomar as medidas necessárias pois já conhecem bem como a banda toca por aqui. Parte dessa culpa deve ser repartida conosco que seguimos jogando lixo e detritos nas ruas, bueiros, locais inadequados sem nos preocuparmos com os efeitos que isso causa no ambiente.

A solução, que não é simples, parte de uma consciência coletiva tanto nossa quanto das autoridades de que uma cidade como a nossa precisa de um plano de reflorestamento urgente assim como de um plano diretor que remova as pessoas de locais de risco e as coloque em segurança, mais fácil dizer do que fazer, infelizmente.

Mudando de assunto para o título do texto, a chuva de rico não é a mesma chuva do pobre.

Enquanto a maioria esmagadora da população lutou para chegar ao trabalho pensando em evitar ter descontado o dia de trabalho ou pior, perder o emprego, perdendo horas sem fim dento de coletivos ou ilhados em alagamentos, pondo suas vidas e saúde em risco para não irritar o patrão, outra parcela contabilizou prejuízos muito mais fúteis quando seus carros de luxo ficaram submersos.

A chuva do pobre castiga e mata, atrasa e isola. O que já é difícil no dia a dia torna-se uma tarefa de Sísifo quando chove desse jeito. A chuva de pobre vem como ira divina, castigo para fazer quem não tem carro se locomover mais humilhado pela cidade cruzando de um extremo a outro para que a madame e o empresário não fiquem seus serviços sem os quais suas vidas mais do que perfeitas sairiam do eixo em questão de minutos.

A chuva do pobre não tem compaixão. Ela vem do riso dos ricos que ficam com pena digital ao ver terminais de ônibus ilhados, trilhos debaixo d'água, estações de trem fechadas, um horror pós-moderno feito filem coreando neo distópico exibido em 4K na sala de pé direito algo.

A chuva do rico traz é o dilema de arrumar a caranga que custa o suficiente para sustentar algumas famílias por alguns anos ou comprar outra. Saber como vai passar a manteiga no pão sem a empregada, por a roupa na máquina que nem sabe como usar, quem vai olhar as crianças para que eu possa ir na minha aula de pilates?

Nem nas catástrofes naturais os pobres conseguem algum tipo de igualdade, talvez até elas saibam distinguir ou os ricos consigam comprar suas graças e deixar o pior naco, para variar, para os pobres.

lembranças aleatórias não relacionadas com a infância

Lembrança #10 Lembro de uma festa ou rave ou balada que eu ajudei um amigo a organizar num tipo de sítio eu acho. Estava separado do meu nam...