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7 de dez. de 2020

tic tac tic tac

 


Não precisa ser vidente nem nada para entender que na atual situação, isto vai acontecer.

E não se trata apenas da falta de coordenação e bom senso dos governantes sejam eles municipais, estaduais ou federais sendo esta última esfera a pior vide seu negacionismo e insistência em considerar a pandemia como algo menor e que não precisa de tanto alarde já que admitir o oposto seria ir contra sua base de apoiadores digitais e o capitão jamais vai desdizer algo que disse e passar por covarde ou mentiroso pouco importando quantos cadáveres terá de usar para isso.

Há um descaso generalizado, tanto das autoridades como da sociedade, o medo saiu e entrou a sandice, as festas clandestinas pululam com preços de variam de $500 a mais de $1500 ou seja, apenas os abastados podem ir e podem se dar a luxo de pegar o COVID pois, caso infectados, terão o melhor atendimento e morte que o dinheiro pode comprar mas, não são apenas as festas ricas que proliferam, as festas de rua e para quem não pode pagar pulseirinha de ouro também acontecem sem medo ou freio e quem frequenta essas, não poderá chegar de SUV no Einstein para ficar no apartamento ou UTI de última geração.

Sexta passada, passando pelo centro na volta do trabalho, parecia uma sexta como outra qualquer, sem vírus, sem morte, sem pandemia que não fosse alcoólica. Bares abertos, música alta, e muita, mas muita gente dançando, fumando, bebendo e achando que máscara é coisa só para o carnaval. Geral perdeu o medo, cagou para o vírus e o aumento de casos que está batendo na porta, o comércio e empresariado combalidos não querem nem ouvir falar de lockdown de olho no fim de ano que promete algum tipo de alívio para os prejuízos que já amargam esse ano e a população quer algum tipo de consolo pelo menos no período de festas mesmo que em Janeiro todos tenham de chorar seus mortos e entupir os cemitérios.

A falta de pulso e organização dos governos casada com a falta de bom senso social estão preparando um cenário sombrio para o início de 2021, esse que a gente está torcendo para ser melhor mas, ainda que alguma vacina vença os obstáculos ideológicos de um governo que não pensa, até algum tipo de estrutura ser montada para vacinação em massa, muita gente vai estar a sete palmos pagando pelo desrespeito e despreparo que temos agora.

A pandemia não matou apenas pessoas, matou nosso bom senso, empatia e sentimento de sociedade, rimos da cara dela como quem ri de uma lenda urbana, penas que essa lenda urbana não tem nada de lenda e não gosta de quem ri de sua cara, mata  mesmo, sem dó nem piedade.

Feliz vírus novo!

20 de mar. de 2020

O Brasil que deu certo

A menina não acreditava ou acreditava mas não queria ou fazia que sim mas na verdade nem sabia se deveria mesmo acreditar em tudo aquilo e munida dessas incertezas resolveu que para matá-las precisava era sair dali e ver com seus próprios olhos para não ter de usar os dos outros que poderiam ser mentiras feitas apenas para enganar.

Num momento de distração, burlou a vigia severa dos pais e ganhou a rua que já ia escura mesmo que ali dentro a diferença entre dia e noite fosse imaginária e determinada pela intensidade das luzes artificiais.

Poucos ainda zanzavam pelas ruas, voltando para suas casas depois de mais um dia de trabalho ou do pouco trabalho que ainda existia entre eles. Verificou a pequena mochila que carregava onde uma pequena ração de alimentos deveria ser capaz de lhe sustentar até atingir seu destino, comida era luxo por ali e desde que se dera por gente sabia que racionar era viver.

Atenta, seguiu seu caminho sem dar olhar a quem cruzasse seu caminho, despertar interesse ou perguntas era perigoso e poderia aguar seu plano de fuga. Lembrou repentinamente de um livro que lera, há tempos, um dos poucos que ainda circulavam por ali, ela uma das poucas que ainda conseguia fazer sentido das palavras escritas, os mais novos desconheciam a utilidade dos livros, julgavam um prazer mórbido lidar com papel.

Pensou como a história do livro era parecida com a sua, com a deles, com a de todos ali mas moveu o pensamento pois tinha mesmo de focar em encontrar o caminho para fora dali, aquela história de pessoas presas num parque no meio do país e forçadas a crer que o tempo ali havia parado era apenas isso, uma história, nada mais.

Para achar seu caminho foi folheando a memória, andar com pedaços de papel era um risco desnecessário então, havia memorizado a rota que descobrira num pedaço roto de papel que descobrira por acaso entre as coisas dos pais.

Foi seguindo seu caminho até dar de cara com uma porta de aço. Parou. Pensou. Voltou a folhear a mentelivromapa. Arregalou os olhos como quem lembra de um detalhe importante subitamente. Apertou o botão que se escondia sob camadas eternas de pó e ferrugem.

Um gemido de estômago vazio de séculos se fez. Ela assustou e pensou correr. Olhou para os lados e para trás mas ninguém parecia ter dado fé do barulho. O gemido foi se tornando um ranger fino como se alguém descascasse metal com uma lixa, depois como se alguém tentasse escorregar por cabos com as unhas e finalmente cessou.

Uma porta se abriu a sua frente, Escuro dentro e ela mesmo com medo olhou para trás e entrou. Quando entrou uma luz meio morta de tão velha meio que acendeu e ela, assustada, olhou ao redor. À sua direita uma placa de aço carcomido lhe dizia zero um do s tres q tro cinco s is ete oit nov dez. Vasculhou novamente a mentemapa e apertou o último botão.

A coisa gemeu de novo como se tentasse acostumar com ela dentro de suas entranhas ou fosse devorá-la e ela se encolheu num canto. A porta se fechou com um ruído ríspido e a coisa começou a subir devagar como se não desejasse sair de onde estava.

Sob a luz morta dentro subindo, ela ficou pensando em como seria ao sair, o que seria ao sair, quem seria ao sair. Seria tudo como havia pensado, como havia falado com aquelas pessoas, como sonhava quando os pais a punham para dormir e ela dormia acordada sonhando com aquele outro lugar?

A luz deu um lampejo mais forte e do outro lado da coisa ela pode ver um cartaz meio rasgado velho e descolorido onde se podia ler algo como BR S L ACIM DE UDO,  EUS AC MA E TO OS. Franziu o cenho, lembrava vagamente daquilo, como se fosse algo enterrado que nos deparamos sem querer ao remexer em coisas velhas demais ou mortas. Riu.

A coisa parou. Chiado forte. Gemido de satisfação como se tivesse lembrado qual sua função e estivesse feliz por executá-la. A porta soltou um silvo longo e abriu como se estivesse sussurrando. Uma luz clara, leve e quente atingiu seu rosto junto com uma lufada de um ar que ela nunca havia respirado, Puro. Sem contaminar, Incólume. Inocente. Intocado. Selvagem.

Ela saiu. A porta se fechou atrás dela com um silêncio solene.

A coisa começou a descer de volta ao seu leito profundo e ela começou a andar pelo país que nunca vira alguém nenhum.

16 de mar. de 2020

A epidemia que nunca passou

Pandemia. Contágio. Vírus. Doença. Quarentena.

O tecido social delicado e indelével mostra toda sua fragilidade quando confrontado por uma praga que se alastra de forma global e irrestrita, coloca a prova o senso de sociedade, solidariedade e empatia, expõe o pior de nós enquanto espécie.

Enquanto bolsas caem das alturas, ricos se preocupam em não ficar menos ricos ou lucram com a desgraça mundial (e você pode ter certeza de que eles irão lucrar, e muito), governos se desdobram para evitar que a doença se espalhe pensando não na população mas no custo que a busca desenfreada por tratamento nos serviços de saúde precários traria aos cofres públicos, aos investimentos estrangeiros, ao dinheiro que deixaria de circular.

O custo dessa epidemia, digo o custo real, econômico, ainda será entendido e medido mas já sabemos que será alto, desenha-se um cenário de recessão global, falências, desemprego e encolhimento de economias, uma conta que vai acabar no colo das classes mais pobres certamente já que rico não vai pagar esse boleto.

O custo humano e social já estamos pagando quando nos recusamos a abrir mão de nosso conforto diário, da balada, do bar com a galera, do show, do cineminha pensando que a doença vai passar longe de nós. Pode até passar e espero que passe mas, e o outro? E quem não pode se dar ao luxo de desdenhar a doença? E quem não tem a opção de ficar em quarentena confortável em seu apartamento de vários metros quadrados, abastecido, com acesso a internet e streaming e gerente cuidando de seus investimentos?

O ser humano é uma criatura abjeta, basta ver uma situação como esta pandemia para comprovar que seu único pensamento é em si, individual, solo, único. Tudo bem o outro morrer desde que eu não morra ou não tenha de abrir mão do meu conforto e privilégios.

Então, quando um casal de idosos que viajam para Búzios, tem médico próprio, plano de saúde e moram num bairro de classe média alta segue com sua diaristas trabalhando em casa mesmo estando ambos infectados, há quem diga que ela precisa seguir trabalhando pois foi a profissão que escolheu para si, que diaristas não são mais escravas e que o referido casal demonstrou empatia ao fornecer luvas, máscaras e outros meios de proteção.

Não. Apenas não.

O preço dessa doença ainda não foi sentido pois as classes mais baixas ainda não começaram a se infectar, quando começarem teremos então uma boa noção do que essa pandemia vai custar a todos nós. Pobre não pode se dar ao luxo de ficar de quarentena, não pode ficar em casa porque precisa trabalhar, tem conta para pagar e não tem opção. Não viaja para Búzios ou tem médico pessoal.

Enquanto a elite segue confinada em suas torres, o pobre segue pegando coletivo e trens lotados, não tem isolamento, não tem escolha. Pobre não faz home office amores, pobre não tem como estocar comida nem licença remunerada, pobre tem de lutar todo dia contra o vírus da desigualdade ou morre.

Achar que empatia é fornecer luva e máscara e dizer para a pessoa vir só uma vez por semana é cagar para a vida alheia, fazer troça com a saúde do outro. Empatia não é estocar comida e comprar todo o álcool em gel, isso é mesquinharia em seu aspecto mais grotesco. Estamos em momento de pensar COLETIVAMENTE e deixar o INDIVIDUAL um pouco de lado.

Empatia é deixar quem lhe presta serviços em licença remunerada até que a situação se acalme. É comprar apenas o que falta entendendo que o o seu estoque é a fome do outro. É abrir mão daquele lazer porque ele pode representar a morte do outro. É pensar que a doença não conhece classe, posse ou status, ela vai infectar todos sem exceção e sem dó mas podemos, como pessoas, minimizar seu impacto pensando uns nos outros e não em nossas necessidades pessoais.

Epidemias como essa são e serão cada vez mais comuns num mundo globalizado, conectado e mutante, cabe a ciência tentar prever e prevenir, aos governos controlar, dar apoio, cuidar e gerenciar e a nós, atuar como seres pensantes e aptos para a vida em sociedade.

Já a epidemia de egoísmo, desigualdade e pobreza segue fazendo vítimas como sempre e seguirá assim mesmo depois que essa de agora for superada. Contra essa epidemia social não há vacina, não há remédio, não há contenção e ela fica mais evidente quando temos doenças graves como o coronavírus entre nós.

O coronavírus é patológico, o outro é sociológico.

3 de mar. de 2020

Contágio

O tecido social que nos cerca é algo tão frágil que não nos damos conta, vivemos escorados num conjunto de regras, normas, convenções e regras que estão apenas sugeridas em nosso inconsciente coletivo e que jogaremos ao chão ao menor indício de que teremos de lutar pela sobrevivência.

Acha que não?

Veja essa epidemia nova que se espalhou pelo mundo, por mais que as autoridades de saúde e governos locais e mundiais atestem que não há razão para pânico, as pessoas já começas a estocar alimentos, água, remédios e produtos como álcool em gel e máscaras simplesmente desapareceram das farmácias. Talvez justamente porque essas autoridades e governos pedem calma seja porque todos estamos apavorados afinal, desde quando governos e autoridades realmente informam a sociedade com fatos reais e verídicos? Partimos do pressuposto de que estão mentindo e de que a situação é bem pior do que reportam e que os pedidos de calma são para proteger os mais ricos e as elites.

Claro que uma epidemia como essa precisa de toda nossa atenção, precaução e atenção e prefiro crer que as autoridades e governos estão mesmo empenhados em conter o vírus, minimizar seu impacto e encontrar uma cura ou vacina o mais rapidamente quanto possível mas, o efeito cascata já se faz sentir ainda mais nos tempos de hoje quando as pessoas podem viajar mais e de forma mais rápida facilitando a disseminação da doença.

Eventos como esse sempre me deixam assustado pois é uma crença pessoal minha de que nosso fim não virá do céu ou alguma guerra sem fim mas de alguma doença terrível que vai dizimar com facilidade grande parte de nós e jogar nossa sociedade no lixo da história e no esgoto da civilização pois não há civilidade ou solidariedade que resista ao instinto de sobrevivência.

O maior estrago que uma epidemia dessas pode fazer é, além do custo em vidas obviamente, dizimar as estruturas sociais frágeis que nos unem basta ver como mercados e bolsas regiram ao vírus se espalhando pelo planeta e como as pessoas começaram a entrar em pânico por uma doença que nem é assim tão fatal.

São esses acontecimentos que metem medo em mim, que me fazem descrer de nosso raça e entender que somos animais acima de tudo, no frigir dos ovos é cada um por si e o mundo contra todos, não acho que esse vírus será nosso fim mas a cada nova epidemia que eclode passo a ter mais e mais certeza de que esse será nosso fim e de que aqueles que sobreviverem, estarão imersos num desses mundos pós-apocalípticos que o cinema vira e mexe nos apresenta.

Quem viver, verá.

lembranças aleatórias não relacionadas com a infância

Lembrança #10 Lembro de uma festa ou rave ou balada que eu ajudei um amigo a organizar num tipo de sítio eu acho. Estava separado do meu nam...