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23 de set. de 2020

maria vai com as outras

 


maria não ia mas acabou indo, maria foi com as outras, queria ir, ficar é que não ia, maria foi, com as outras porque com as outras tudo bem, se fosse com ela não queria mas com as outras foi para a rua, noite fria, céu escuro, maria não queria céu claro mas também não precisava estar tão escuro, maria gosta de ir com as outras porque assim tem com quem conversar, fumar um cigarro, tomar uma cerveja, bater uma carreira, fumar um beque, maria com as outras está segura, de si, de tudo, de todos, na rua tem de ser com as outras, se for sozinha maria vai e pode não voltar.

maria na rua com as outras, o céu um breu tipo buraco no fundo da terra, lembrou do poço na casa onde morou criança, fundo, escuro, sem cor, diziam que lá viviam as crianças que não se comportavam, maria não ia com essas crianças, medo, respeito, os dois, maria só ia com quem a mãe deixava, quando não ia, a mãe ameaçava com o poço, sem falar palavra, só apontava e maria prometia que nunca mais ia com as outras.

maria com as outras ia bem, já tinha ido sozinha mas não gostou, teve homem que não quis lhe devolver, teve homem que não quis lhe pagar, teve homem que lhe bateu, sozinha não tinha como mas indo com as outras, ela contava e apontava e as amigas davam um jeito no homem, nunca mais voltava então maria sempre ia com as outras porque elas iam com ela, não de cara mas depois sim.

maria olhou de novo para o céu, escuro demais gente, nem estrela, nem lua, nem nada, a luz da rua só e olhe lá, os carros passando e ela com medo de olhar para dentro deles sem ter o céu como testemunha, as amigas ocupadas só olhavam quando ela pedia, lembrou da casa de novo, do homem da casa que devia ser o pai, ou não era, era homem, homem não é pai nem nada, é só homem e homem só quer ser homem e ela mulher, a mãe também mas o homem da casa queria ela e a mãe brigou mas o homem brigou mais forte e mãe se calou num sangue escuro que brotou do nada e o homem fez maria ir com ele, sem as outras, sem a mãe, sem ninguém, só eles e depois, maria não quis mais com ninguém e a mãe não queria mais ir com maria e nem lhe ameaçava com o poço e maria ficou sem ir por muito tempo até um dia ela não sangrou e a mãe não quis ir com ela e o homem da casa não quis ir também e ambos fizeram ela ir com outras porque ali não era casa de maria.

maria foi, sofreu, perdeu sangue e uma coisa que saiu de si, maria foi com as outras sem saber quem era, o poço de casa a lhe seguir na memória e aos poucos ficando esquecido porque poço sem fundo mesmo é a vida, é ir com as outras que não tem poço, não tem fundo, não tem onde ir a não ser com as outras. maria se achou com as outras, aos poucos, foi indo com elas e acabou ficando com as outras, teve dores, teve amores, teve sangue, teve briga mas ela nunca deixou de ir com as outras porque elas eram agora suas amigas, sua família, sem elas, maria não tinha para onde ir.

maria ficou ali vendo os carros passando, o céu um poço, em cima dela, de sua cabeça, aa rua iluminada amarela, fria, carros passando quentes, as outras indo e voltando e ela sem ir ainda, maria ia com as outras às vezes, quando chamavam mas não gostava, gostava de ir sozinha, de ir com as outras só quando não era trabalho ou quando era preciso para fazer a féria do dia.

maria olhava para o céu escuro demais, as outras chamavam sua atenção para os carros, olhar o céu é coisa de doido ou namorados e elas não eram nem um, nem outro, maria tinha de prestar atenção ou as outras não iam mais querer que ela fosse junto, atrapalhava.

maria sentiu o céu mais escuro ainda, disse a uma amiga que o céu estava muito escuro, demais da conta mas a amiga não lhe deu atenção. maria achou que o céu estava ficando cada vez mais escuro, como se isso fosse possível e que ele estava engolindo toda a luza da rua, as amigas fizeram cara de pouco caso, a luz da rua fraca iluminava mal e porcamente a calçada onde estavam, os carros passavam com farol baixo e elas iam.

maria estava assustada, queria ir embora mas as amigas não iam, ela iria sem as outras, as outras disseram que era melhor antes que ela estragasse a noite de todas mas ela teria de fazer dobrado na noite seguinte, maria disse que sim, que faria mas queria ir embora e foi, a noite um breu que nem o início do mundo conheceu.

noite seguinte maria não foi com as outras. perguntaram por maria mas ninguém lhe sabia o paradeiro. maria não foi com as outras, ficaram procurando por maria, nada, buscaram por maria, nada, maria tinha morrido, nada, maria tinha se ajeitado, nada, maria dera golpe, nada, maria não foi mais com as outras, ninguém soube mais de maria mas depois disso, todas as noites foram muito claras, quase dia, as outras achavam bom, noite de breu, de poço, nunca era bom sinal...

15 de jul. de 2020

o drama que eu não sei por em palavras

quando eu te beijei e você me beijou e nós nos beijamos naquele pântano onde beijo era flor deixamos de ser sapos para nos tornarmos homens. não príncipes que isso é coisa de sonho, inventado, placebo para deixar a mente nervosa cheia de fantasias de amor dormido, comido, sonhado entre copos de café desses que ficam o dia todo na garrafa térmica e pães dormidos.

fica comigo você disse.

por quanto tempo eu perguntei.

pra sempre você disse.

eu ri porque ali nada era para sempre e tudo era para sempre agora, momento, passa, piscou já foi. quando a gente é jovem, para sempre é muito tempo. quando somos adultos, para sempre pode ser uns meses ou anos. quando somos velhos, bem, quando somos velhos para sempre já não existe mais.

nos amamos na carne, ali, em pé, quem ama como nós aprende a amar em qualquer posição porque não há disposição que nos permita amar em outras posições e nossa posição é não abrir mão do amor mesmo quado ele se posiciona contra a gente.

saímos de lá cegos, surdos mas de mãos dadas, não fisicamente mas em pensamento, tem coisas que a mente faz melhor que o corpo eu acho. bebemos alguma coisa num boteco qualquer e eu queria ser mais articulado para ter convencido a mim mesmo de que eu amava, mas eu era coito interrompido, você sabia eu acho, já era mais do que eu, tinha certezas que para mim eram rascunhos, eu ainda tateava no escuro do desejo enquanto você já tinha encontrado as saídas.

nos despedimos. ou não. não lembro ao certo, talvez, não sei. sei que uma semana depois estávamos juntos de novo, ou quase porque eu cheguei no horário àquele pântano com cheiro de desinfetante barato e semente de homens e não te vi ou não queria te ver, ou não queria te encontrar, ou esperava que não viesse, ou torcia para que se atrasasse além de qualquer espera razoável e assim, eu poderia ir embora tranquilo ou menos nervoso.

dizem que o que gente pensa molda o mundo ao nosso redor. você não chegava, eu resolvi ir embora. aliviado mas triste. aliviado mas com raiva, aliviado mas puto. aliviado mas decepcionado. ali viado. e quando eu ia entrar na estação de metrô dou de cara contigo. contágio, letárgico, pandemia, epidermia, taxidermia de sentimentos, gelei e você com olhos dizendo achei que você não viria mas você veio e eu me atrasei e você ia embora e eu quase te perco mas olha que coisa que nos trombamos assim então era para ser e a gente vai ficar então.

sim. o universo tem bilhões de estrelas, galáxias, constelações e tudo mais. deveria estar mais ocupado criando e destruindo mundo, sugando estrelas e parindo mundo mas, ele parece ter mãos invisíveis, milhares delas, milhões talvez e às vezes, ele pressente que num planeta besta como o nosso, cheio de gente que não vale a poeira de um estrela, alguém precisa de um empurrão, de uma ajuda, de um incentivo e faz das suas.

fez de nós. depois desfez porque ele tem dessas também, não se importa muito com a gente e da mesma forma que nos junta, nos separa sem muito pesar. é assim que funciona. é assim que as coisas são. é assim que a gente é, deixa de ser, fica sendo e nunca é.

até hoje quando eu espero alguém que se atrasa, penso no que esse atraso pode me trazer e tenho vontade de atrasar os ponteiros só para ver se acontece de novo mas aí eu lembro que os ponteiros do relógio medem um tipo de tempo e que o universo mede outro tipo de tempo e que nesse meio tempo quem está perdendo tempo sou eu.

e eu fico então só lembrando desse dia quando o tempo deu certo para nós dois e esqueço do tempo até alguém me lembrar dele...


2 de jun. de 2020

Liga/Desliga

Quando apaguei a luz, senti algo morno escorrer pela nuca como se uma gota de chocolate quente escorresse da base do crânio espinha abaixo, lambendo os poros feito dedos melados.

Sacudi a cabeça levemente como para desfazer-me daquela sensação incômoda e fui deitar. A cama estava fria mas não gelada, acomodei-me entre os lençóis e aos poucos cheguei a um estado onde as temperaturas estavam iguais e não havia mais como dar ou receber calor.

Mudo, encarei o teto buscando alguma forma de ter respostas para perguntas que eu não sabia como fazer. Jurava ter ficado assim por horas mas quando olhei para o relógio na mesa de cabeceira, míseros dez minutos tinham corrido. Soltei um impropério qualquer e sentei-me na cama, os pés roçando o piso frio no escuro, o relógio mudando seus números devagar como se esperando que eu dormisse para poder fazer o mesmo.

A sensação de algo quente deslizando nuca abaixo voltou e, instintivamente, levei a mão direita até o local, talvez uma picada de algum inseto ou alguma alergia. Foi quando senti aquilo. Não estava lá antes, ao menos não me recordo de tê-lo sentido enquanto esfregava a cabeça durante o banho e era algo muito fora do comum para que não o tivesse notado.

Talvez houvesse batido a cabeça em algum lugar acidentalmente e não me recordasse e agora havia aquilo ali para me lembrar que sim me machucara mas, refazendo minha rotina mentalmente, não lembrei de nada e qualquer coisa que houvesse causado aquilo eu, de certo, não esqueceria.

Passei a mão novamente mas devagar, sentindo a forma, seu tamanho, textura e o tato não tinha como mentir mesmo que eu julgasse a impossibilidade daquilo. Não era um galo, nem uma espinha, nem mesmo um furúnculo; não era uma fratura, hérnia, concussão ou algo do tipo, aquilo era um interruptor, desses comuns onde ligamos ou desligamos um aparelho ou luz, um liga/desliga ordinario.

O interruptor parecia sair da base de meu crânio sendo que a chave em si apontava para cima agora, se essa era a posição liga ou desliga não tinha como saber e, receoso, removi a mão pousando-a sobre meu joelho.

Devo ter ficado assim alguns minutos, olhando para o relógio que seguia trocando seus números preguiçosamente e sem ter certeza do que estava acontecendo ou do que deveria fazer. Pensei em levantar, acender a luz, ir ao banheiro, lavar o rosto e quem sabe acordar pois só podia mesmo estar dormindo e tendo algum pesadelo absurdo mas, se fosse isso mesmo, eu tinha uma imaginação pouco fértil pois fora o interruptor na cabeça todo o resto exalava um ar de realidade incongruente com o mundo onírico, não que um interruptor na cabeça não o fosse.

Tomei coragem, levantei, acendi a luz do quarto e fui ao banheiro mas lá, não acendi a luz, a luz que vinha do quarto era suficiente para que eu abrisse a torneira e, com as mãos em concha, jogasse água no rosto. Fechei a torneira, o resto de água escorria vagarosamente pelo ralo, o redemoinho da água descendo rodava calmo, pequenos respingos de meu rosto molhado caíam na pia e faziam um barulho surdo.

Olhei para o espelho acima da pia e meu reflexo parecia meio borrado, não havia luz suficiente mas temia que ao acendê-la forçosamente teria de encarar o fato de que não estava sonhando. Ouvi um carro frear bruscamente na rua e alguém soltando algum tipo de maldição, se era mesmo um sonho era bem realista, eu deveria ter uma mente ímpar para o sonhar.

Tomado de coragem, acendi a luz do banheiro e fechei um pouco os olhos ante a claridade súbita. Não queria abri-los, fiz mais um esforço para despertar caso ainda fosse algum tipo de ilusão e abri os olhos aos poucos. 

Ali estava eu, rosto molhado, encarando meu reflexo também molhado, na verdade ele não estava, quem estava era eu, ele deveria estar seco afinal quem molhara o rosto fora eu e não ele, daquele lado ele deveria estar com sono e irritado por eu tê-lo feito acordar apenas para me olhar em horário tão estapafúrdio.

Abri o armário embutido no espelho e de lá saquei um espelho menor, de mão. Fechei o armário e voltei a me olhar. Com certo malabarismo, consegui alinhar o espelho de mão, minha nuca e o espelho no armário. Consegui ver o interruptor, estava mesmo lá, era branco, quase gelo e estava perfeitamente embutido em mim, não havia reentrâncias, não havia aquela capa de plástico que geralmente protege os interruptores, era como se ele houvesse simplesmente brotado do fundo de mim.

Comecei a pensar se não havia sido abduzido e passado por alguma experiência mas, o máximo de abdução que já me ocorrera fora quando eu resolvi largar tudo e passar um fim de semana numa praia distante o que não qualificava como abdução, eu sei, mas era a experiência mais próxima disso que me recordava. 

Talvez eu tivesse sido cobaia em algum experimento secreto mas novamente, o mais próximo disso que já vivera fora quando tentei participar de um grupo de pesquisas sobre novos refrigerantes e fui dispensado logo de cara porque não me encaixava no perfil que desejavam.

Abandonei as teorias de conspiração e resolvi que o melhor seria procurar ajuda profissional agora não sabia se seria um médico ou um eletricista. Na dúvida, optei pelo primeiro e se ele não desse jeito partiria para o segundo. Como a noite já ia larga, resolvi esperar até amanhecer, não queria sair correndo para um pronto-socorro onde seria alvo de escrutínio, preferia consultar um profissional que já conhecia e pensei se não deveria ser um psiquiatra, quem sabe não estava perdendo a razão e alucinando?

Resolvi me acalmar, guardei o espelho de mão dentro do armário, apaguei a luz, deixei a torneira pingando e voltei ao quarto. Fiquei parado no meio dele, olhei ao redor para me certificar de que estava mesmo no meu quarto, a cama era a mesma como sempre fora, a TV era mesma e seguia sem funcionar como sempre estivera, a cômoda ao lado esquerdo da cama era a mesma, velha, carcomida e cujas gavetas prendiam em minhas peças de roupa mal acomodadas nelas.

A porta que dava para a sala/cozinha era a mesma com a mesma maçaneta que emperrava quando fazia muito frio e a janela que dava para a rua era também a mesma, a mesma trinca na parte superior do vidro parecendo uma teia que alguma aranha desistira de tecer e a veneziana onde faltavam algumas palhetas era também a mesma.

Tudo era igual salvo o interruptor na base da minha cabeça. Sentei-me na beirada da cama novamente, olhei para o relógio e acho que ele pegara no sono pois os números não mais mudavam. Teria de aguardar ainda algum tempo até raiar o dia poder ir ao médico, ficar com aquele botão ali certamente não me deixaria dormir.

Comecei então a pensar no que aconteceria se eu mexesse nele, se o ligasse (ou desligasse, não tinha como saber se na posição em que se encontrava era um ou outro). Pensando bem e com mais calma, seria uma vantagem possuir um botão de liga/desliga, pensem bem, na hora de dormir, adeus insônia basta desligar se bem que isso implica um problema, como fazer para despertar depois de desligado? Boa pergunta mas, como não sou eletricista ou engenheiro, passei para outras aplicações práticas (que implicavam o mesmo dilema, depois de desligado, como religar?).

Após algum tempo que não sei precisar pois o relógio ainda dormia, só acordaria de manhã é certo, resolvi que não custaria testar afinal, o botão estava ali e se ali estava era por uma razão mesmo não tendo sido pedido por mim ou oferecido como algum tipo de graça ou recompensa, pouco provável que uma ou outra fosse chegar na forma de um interruptor se bem que o milagre não escolhe forma, nós é não entendemos como ele vem.

Levei a mão até o botão e o senti novamente, estava lá, parado e quieto, hesitei e tirei a mão, e se ao mexer nele eu simplesmente deixasse de existir? Mas se assim fosse, porque eu teria aquele interruptor na cabeça? Minhas têmporas latejavam, era mais filosofia do que podia suportar, uma decisão se fazia necessária e, determinado, levei a mão de novo ao botão e buscando lá no fundo alguma prece ou algo que o valha, puxei o interruptor para baixo.

Quando apaguei a luz, senti algo morno escorrer pela nuca como se uma gota de chocolate quente escorresse da base do crânio espinha abaixo, lambendo os poros feito dedos melados...


29 de mai. de 2020

Vazando

Hoje acordei atrasado de um sonho sólido e me desfiz líquido no chuveiro enquanto batia uma e me esvai junto com a porra que íamos pelo ralo enquanto eu me escorava nos azulejos molhados com as mãos escorregando e o peito arfando e a água caindo na minha cabeça e correndo pelo pescoço braços tronco pernas pau e porra e fazendo um pequeno torvelinho no ralo que não dava vazão porque era muita água e muita porra e eu achei que estava me esvaindo em sêmen mas eu já tinha gozado então de onde saia aquela porra toda essa porra toda que todo dia é a mesma porra e que porra é essa que é sempre a mesma branca sem gosto sem cheiro sem cor ou branco são todas as cores não preto que é é mas porra que cor é todas as cores e porra que tem de ser a mesma porque não pode sair diferente pra gente poder ter algum gosto porra algum novo porra e eu tinha de tomar café e comer pão e fruta porque porra fibras e alimento é bom e tem de ser balanceado porra também (?) mas eu bato todo dia de manhã no chuveiro porque sempre acordo de um sonho sólido que eu queria que fosse líquido porque líquido se desfaz que nem eu aqui nesse chuveiro com a água e a porra ainda escorrendo meu deus estou vazando ou é porra que sai do chuveiro e água do meu pau ou essa porra toda está enchendo e o ralo não vai dar conta e vou morrer afogado num pequeno mar de água e porra grávido de mim mesmo e sem ter tomado o café da manhã que é a refeição mais importante do dia mas não do sonho aquele que eu sempre tenho sólido e me desfaço líquido quando tomo banho e já é assim faz um tempo mas hoje a água não para de cair e a porra não para de sair o chuveiro é um chafariz e meu pau também e minhas mãos vão escorregando pelos azulejos porque eu me sinto mole acho que vou desmaiar sem ter tomado o café da manhã o dia mais importante da refeição ou algo assim porra que vai saindo e água que vai caindo e vou caindo junto com água e porra e vamos caindo e o ralo vai nos engolindo porque o ralo também precisa tomar café da manhã que é a refeição mais dia do importante e vamos caindo no ralo

e sumindo

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28 de mai. de 2020

Elevado

Dia Quente Mormaço Suor Gruda Escorre Seca Debaixo do braço Dois estigmas Não Cristo Não Diabo Não Nada Só gente Seca Úmida Pegajosa Viscosa Velcro líquido Liquida Ação Morte em vida Se vê rima

Vai para a rua que vai para a o ponto que vai para o ônibus que vai para o aperto que vai para o cheiro de gente que vai para o ar estagnado que vai parar que vai descer que vai sair que pede licença que esbarra e xinga que sai amarrotado que vai para o ponto que volta para a rua que vai para o prédio que vai para a porta que gira e gira e gira e gira e vomita gente dentro e fora

Fila Elevador Imensa Gente atrás Gente Vai um por vez que é muita Gente que vai atrás Gente que vai indo que vai entrando Um por Um por Um por todos e Todos por nem um e vai a fila e Ele vai Indo Com a fila com o fluxo com aquela sangria de gente Com aquele rio de Morto por dentro Por fora também há mortos Por dentro há mais Por onde anda a vida e a Morte vai na fila Olhando cada um e Sentindo que chega a sua vez Entra no elevador Com mais gente Com mais morte Com mais ou menos Vai pedir o Andar da carruagem é lento Ele vai descer no Último andar que tem ali tem vista para cidade toda e sempre tem Gente que se aperta para chegar mais rápido mas o elevador Vai lento o dia ali andares que são meses ou anos e os Botões acendem e apagam enquanto as Pessoas esvaziam e são vazias e o elevador vai ficando Vazio é o que ele é Vazio é o que sente Vazio é o que ele quer mas o Elevador ainda está lá mas só com Ele que não chega no seu andar e as Luzes são brilhantes enquanto acendem e apagam e mostram Números que deveria ter pensando antes ontem semana passada e que deveriam estar no Relatório que o prédio come todos os dias quando ele e os Outros são quem? Alguém ou ninguém ou alguninguém mas Ele

Segue subindo no Elevador que vai mostrando as Luzes números quinze dezesseis dezessete dezoito dezenove Vinte desce porque não tem vinte e Um ar desespero porque vinte não para e o Elevador passa direto como se mais andares depois mas não tem Nenhum sentido e o elevador sobe e sobe e sobe e sobe e sobe e sobe e sobe e Sobre onde ele está? Já não sabe nem sobe ou vê qualquer coisa apenas sente que o elevador Sobe e sobe e sobe e sobe e sobe e sobe e sobe

Lá embaixo Gente olha para o Céu que tem azul e tem nuvens e tem Ele Elevador Elevado Num ponto que já não era mais possível dizer Quem o havia (e)levado?

25 de mai. de 2020

O umbigo do mundo

Acordei. Pelo menos acho. Deve ser. Ouvi buzinas e não costumo sonhar com buzinas, já sonhei com cornetas, línguas de sogra que eram línguas mesmo mas, buzinas, nunca. Então estava acordado.

O quarto abafava o ar que entrava pelas frestas da veneziana. Eu olhava para o teto tentando sincronizar o som das buzinas com as sombras que eram refletidas. Nunca fui bom nisso, aliás, nunca fui bom em sincronizar nada, nado mas totalmente sem sincronia aliás, faz tempo que não nado, nada, meio que cansei, qual o propósito de ir de um lado para outro num mar de azulejos que não leva a lugar algum? Água não deveria levar a gente para algum lugar? Ar não que não se pode sentir, salvo o vento mas ar mesmo, não.

Levantei. E senti algo estranho escorrendo na barriga, como um vazamento, daqueles de pia, sabe? Fio de água que nunca se consegue descobrir de onde brota. Mas no meu caso sim, era do meu umbigo. Olhei para ele e corria um riozinho fino, passei o dedo e levei ao nariz. Umbigo tem cheiro, um aroma peculiar, característico, nenhuma outra parte do corpo cheira igual, talvez frieiras mas ainda assim não tem o mesmo buquê do umbigo. É um cheiro azedo que é rançoso que é doce que é patê que é queijo que é leite talhado que é algo sei lá. Pode ser algum cheiro que fica do cordão, cheiro uterino, de mãe, talvez as mães cheirem assim por dentro.

O meu não tinha esse cheiro.

Senti cheiro de água do mar, peixe vivo, aves marinhas, pescador, cidade de litoral, colônia de pescadores, velhas almiscaradas sentadas em varandas de jacarandá ao por do sol, cachaça correndo balcões de madeira, peixo frito e purê. Estranhei. Deve ser algum resquício de sonho, ainda devo estar no limiar, só pode, ontem dormi com fome, ainda devo estar sonhando com isso, comida, é isso.

Mas não.

Fui ao banheiro. Luz acesa, buzinas ainda lá fora e o teto fora de ritmo. Olhei bem, no espelho, e o fio de água ainda lá, corria reto do umbigo, passava pelo púbis e descia meio torto pelo pau até gotejar minúsculo no prepúcio. Olhei com mais atenção e assustei. Abri a gaveta e procurei uma lupa, quem tem lupa no banheiro? Eu. Às vezes preciso procurar algo que cai no chão e hoje em dia tudo é tão pequeno, cai e eu não consigo encontrar sem uma lupa então tenho uma, eu derrubo muitas coisas, menos a lupa.

Aproximei a lente do umbigo quase numa auto-felação. Meus olhos, melhor, um deles que fixava na lente, abriu feito um buraco. Ao redor do meu umbigo havia uma cidade. Sim. Uma cidade, dessas onde as pessoas vivem, nascem, dormem e morrem, não necessariamente nessa ordem. 

Pequenas casas ao redor do buraco do meu umbigo que lhes servia de baía. A água que escorria era seu rio, pequenos barcos subiam e desciam por ela, descendo iam até o final do curso na cabeça do pau, subindo, caiam dentro do umbigo para sempre. Engraçado. Eu nunca senti nada, tinha navios dentro de mim e nunca senti nada, nem uma âncora, nem um naufrágio, nada mesmo.

Havia também uma igreja, bem no meio se bem que é complicado determinar onde fica o meio de um círculo e o umbigo é um mas, ela estava lá, no meio. E havia um mercado e um bar eu acho. E pessoas circulando pela cidade, caminhando, empurrando carrinhos de compras, só não vi carros mas acho que ouvi vozes. Pelo menos acho que eram vozes. Tentei apurar o ouvido para captar o que diziam mas as buzinas lá fora não deixavam. 

Ouvi a igreja badalar os sinos, baixinho, como se fosse um ruído de algo muito distante que nem mesmo poderia lhe atestar a veracidade. Vi as pessoas indo para lá, missa provavelmente, os navios seguiam indo e vindo, entrando e saindo do meu umbigo, estariam levando ou trazendo coisas? Não sei qual dessas hipóteses me amedrontava mais, e se levavam para fora algo que me fizesse falta depois? E se estavam trazendo para dentro, não poderia ser algo que me fizesse mal?

Sonho, só pode. Fechei os olhos com força. Contei até dez e os abri. Olhei para baixo, pela lupa mas lá estava a cidade, deveria procurar um médico mas qual? Um clínico? Mais certo um psiquiatra, doutor, há uma cidade vivendo no meu umbigo. Curvei-me ainda mais em contorcionismo para tentar, através da lupa, divisar mais algum detalhe da cidade e seus habitantes, fiz tanto esforço que minhas costas estalaram e, repentinamente, senti como se fosse um tatu daqueles que viram uma bola.

Fui meio que desfalecendo caindo dentro de mim, no umbigo, sem lupa, já não a tinha nas mãos. Fui caindo assim no umbigo que era meu mas da cidade também até dar de cara com o chão de pele que tinha pelos por árvores. Levantei-me, limpei as mãos e meu corpo nu, estava nu, isso não são modos de se apresentar numa cidade que vivia no meu umbigo, tudo bem, o umbigo era meu mas modos são modos e eu os tenho.

As pessoas me cercaram, outras seguiam para igreja ignorantes de minha chegada. O fato de estar nu não parecia incomodar ninguém, as pessoas foram me acolhendo e me tocando, como se já soubessem quem eu era e esperassem minha chegada. Apavorado, nu e dentro de mim mesmo perguntei.

Onde estou? Que lugar é esse, por favor?

As pessoas que me cercavam olharam entre si meio que atônitas, como se a minha pergunta fosse descabida ou até mesmo absurda e então, uma delas olhou-me nos olhos e disse.

Bem-vindo! Aqui é o umbigo do mundo!

20 de mai. de 2020

Eglantina e Damásio

Damásio conheceu Eglantina na padaria, fila do caixa. Ela, desconcertada, abraçava o saquinho de pães como se deles dependesse a vida e rogava ao caixa clemência pelos dez centavos que faltavam para inteirar a compra pois, em casa, era aguardada com a encomenda para poderem tomar o café.


O caixa balançava a cabeça de um lado para outro já insinuando lhe tomar o embrulho quando Damásio, imbuído de caridade súbita alimentada pela beleza da moça, esticou a mão e pousou a moeda faltante no balcão. Eglantina, pega de surpresa, virou-se num mesclado de gratidão e desconfiança e, quando ia mencionar não ser possível aceitar tal generosidade, Damásio simplesmente ergueu a mão direita enquanto com a esquerda segurava o saquinho com seus pães e maneou a cabeça.


Ela, sem jeito e vendo que o caixa já contabilizava os centavos, agradeceu com um gesto tímido e um sorriso discreto. Damásio aceitou aquilo com leve gosto e disse que aceitaria, como retribuição pelo gesto, que ela tomasse com ele em outra ocasião já que era aguardada em casa, um suco ou um refrigerante acrescentando que ela não o tomasse por um galanteador barato ou oportunista, que lhe desse o valor da moeda pelo prazer da companhia, nada disso, o gesto fora de coração e ela que não se sentisse na obrigação mas que lhe faria muito gosto isso faria.


Eglantina sorriu e Damásio se apaixonou ali por seus dentes alvos, a gengiva rosada parecendo um manjar de cerejas e disse-lhe a moça que sim, que poderiam sair dia desses para tomar um suco ou algo assim desde que respeitadas as horas pois em casa elas eram contadas à risca e ela não era de expor-se na rua com qualquer um.


Acertaram o encontro para dali a alguns dias e se foram pois a fila já ia grande e o caixa da padaria começava a reclamar que ali não era lugar de romances mas de pão quente ainda que ambos sejam um conforto para a alma.


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Damásio já ia com Eglantina há alguns meses, foram aí muitos sucos, refrescos, refrigerantes e, num dia em que ousaram mais, um coquetel de frutas levemente alcóolico. 


Ela lhe falava da família, dos pais que ainda labutavam para dar aos filhos alguma condição mais digna e de como ela, enquanto mais velha de três irmãos, fazia malabarismos para conciliar estudo e trabalho, tinha sonho de ser veterinária ou enfermeira, ainda não se decidira mas temia pelo aborto de tais ambições caso a situação em casa não melhorasse a curto prazo. Os dois irmãos mais jovens ainda estudavam apenas e ajudavam como podiam mas de concreto mesmo, apenas os rendimentos que ela e os pais punham na mesa.


Damásio lhe contou como viera do nada, tinha apenas a mãe, pai era algo que ele sabia apenas a palavra, nunca a pusera em alguém. Estudou muito até concluir o essencial que lhe garantisse alguma estabilidade e que pulou de emprego em emprego até finalmente acertar-se onde estava. Tinha planos de voltar aos livros e tomar um rumo melhor, quem sabe advogado ou algo que lhe permitisse abrir seu negócio, tomar conta do próprio nariz e, quem sabe, arranjar alguém que lhe esquentasse os pés nos dias mais frios e aceitasse com ele por umas crianças no mundo, algo que desse fé de que por ali havia ele passado.


Eglantina corou de leve quando Damásio disse isso pois, entrelinhas, havia clareza suficiente para entender que era a ela que o outro almejava ter em tal conta e destino e, ainda que houvessem roubado intimidades um do outro, guardava à distância arroubos mais efetivos temendo que ele apenas estivesse a lhe adoçar a boca com agrados para, ao final, roubar-lhe o mel e ir pousar em outras flores.


Damásio, que sentia a relutância de Eglantina ante alguns de seus avanços, assegurava como podia à moça que suas intenções eram das mais ilibadas e que se às vezes era afoito, era tão somente pelo amor que lhe dedicava, que ela se sentisse à vontade para pedir-lhe qualquer prova disso e ele a daria num átimo, com um sorriso no rosto.


Eglantina então resolveu pôr à prova tal dedicação. Sugeriu que já passava da hora d'ele ir conhecer sua família e acalmar os ânimos dos pais que já tinham dado fé do ar enamorado da filha. Se Damásio realmente a queria tanto, agendaria o dia e ele formalmente iria cortejar a moça, como se costuma fazer quando as intenções são boas e o sentimento puro.


Eglantina esperava recusa e hesitação, havia preparado coração e alma para tal desgosto a partir do qual poria data de validade ao namoro mas, Damásio não titubeou e disse-lhe que marcasse o dia, preferencialmente um fim de semana para não atrapalhar aos empregos de ambos, que ele fazia imenso gosto de pedir a mão da moça aos pais e ter deles a benção.


Segurando um choro autêntico, Eglantina concordou e disse que marcaria assim que possível, olhou a Damásio nos olhos e deles viu que o moço era sincero, pegou em sua mão e deu-lhe um leve beijo na face.


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Damásio chegou cedo, muito cedo mesmo. Incapaz de ficar dentro de casa com mãe a lhe benzer e pedir calma, resolvera sair e ir ter com a família de Eglantina mas, calculando mal o horário em horas ansiosas, chegara muito antes e, receoso de passar vexame ou colocar sua amada em situação delicada, ficou perambulando pela vizinhança da moça para consumir algumas horas.


Temeu que algum vizinho o julgasse mal intencionado e chamasse a polícia afinal, era um estranho, bem vestido vá lá, mas ainda um estranho zanzando num  bairro que não era o seu. Por fim, parou num boteco que encontrou nas proximidades e, sentando ao balcão, pediu ao rapaz do outro lado uma cachaça, apenas um dedo que não desejava chegar a casa dos sogros cheirando a álcool mas, ajudaria a lhe acalmar os nervos que ameaçavam sair pelos poros.


E se não o aprovassem? E se não gostassem dele? E se o pai julgasse que ele não tinha como manter a filha? E a mãe? Se ela enxergasse nela qualquer falha que pensasse inerente aos homens e, evitando que filha cometesse os mesmos erros, barrasse a união? Que dizer então dos irmãos, se estes lhe fizessem desfeitas ou provocações as quais teria de aguentar sorrindo, não ficaria também maculada sua intenção de desposar Eglantina? De certo que era com ela que pretendia casar-se mas, no casamento, leva-se de brinde não apenas quem se desposa mas todo um corolário de parentes a quem, se a opinião não conta, faz valer a palavra mal colocada quando lhes apetece.


Despertou com o barulho do copo sendo colocado no balcão. Bebeu a cachaça de um trago, pousou o copo sobre o balcão, jogou algumas moedas ao lado e perguntou ao rapaz onde ficava o banheiro ao que este lhe apontou os fundos do bar. Damásio foi até lá mas não entrou no reservado, apenas apoiou-se na pia que ficava antes da entrada do mesmo, abriu a torneira e colheu um pouco d'água, fez um bochecho, salpicou um pouco no rosto, cuspiu a água e com as mãos em concha, sentiu o hálito, por segurança, compraria alguma bala na saída.


Saindo do bar, olhou o relógio e deu-se por satisfeito. Se não era demasiado cedo também não estaria atrasado, sempre pensou que o segredo das coisas era saber o momento exato de chegar e sair dos lugares, muito cedo ou muito tarde pode ser a diferença entre sucesso ou fracasso, ajeitou-se foi lá tocar a campainha da casa de Eglantina.


Tocou apenas uma vez, não queria ser considerado inoportuno e campainhas são coisas que tiram a paciência de qualquer um; quando desatinam a berrar através dos dedos alheios, põe doidos os donos da casa que já atendem as visitas com um muxoxo de reprovação. Depois de alguns minutos, a porta foi aberta e ali estava Eglantina. 


Damásio achou que talvez fosse o sol do fim de tarde mas ela parecia radiante, não teve dúvidas, era a mulher que amava e estava ali para fazer disso oficial e firme, reconheceria isso em qualquer cartório, daria fé e testemunharia em qualquer tribunal, abnegaria da própria condição humana para fazer dela feliz e poder tê-la a seu lado mas, quando aquela luz fulgida se dissipou, pode notar que apenas seus olhos a enxergavam assim. Eglantina estava cabisbaixa e evitava olhar a Damásio nos olhos, parecia surpresa por vê-lo ali ante sua porta e até mesmo desejosa de que ele ali não estivesse.


Sem saber ao certo o que falar ou fazer, Damásio mirou os céus como a buscar por aquela luz anterior que havia lhe dado tamanho vislumbre de um futuro promissor mas o momento se fora, pertencia a outro e agora, ele tentava decifrar aquela esfinge que ameaçava devorar sua alegria com sua tristeza. Questionou a Eglantina o motivo pelo qual se encontrava em tal estado de espírito mas a moça ficou muda. De dentro da casa vinha o som de risos e vozes, como se  a festa houvesse começado sem ele, ela e o amor dos dois, voltou a perguntar a moça que se passava e porque ela não o chamava a entrar, não estava ele ali para lhe provar que era sério e que suas intenções eram as mais elevadas? 


Ou ela demandaria alguma prova adicional? Que falasse qual era, ele a cumpriria à risca por mais estapafúrdia que fosse! Eglantina permanecia em silêncio, olhava para o chão e para ele apenas de relance, teria sido vítima de algum tipo de apoplexia? Damásio lembrou-se de uma tia que no dia do casamento, tomada por severa emoção, tinha sofrido algo assim e fora necessário adiar a cerimônia por meses até que os nervos da noiva voltassem ao normal.


Pegou Eglantina pelo braço e já começava a elevar o tom de voz quando o pai da moça apareceu por trás dela e a afastou com um gesto leve. Eglantina, sucumbindo à vontade paterna, encostou-se na sombra do homem e deixou escapar um suspiro leve. Damásio, sem entender nada, estendeu a mão ao sogro apresentando-se, um prazer estar ali e poder conhecer a família de sua pretendente mas, ficou com a mão planando pois a do pai da moça permanecia distante. 

Damásio, ciente de que todo pai zeloso sente ciúmes da filha e enxerga no homem que a corteja apenas o lobo que vem lhe comer as ovelhas, recolheu a mão e expressou sua preocupação com o estado de Eglantina, teria ela passado mal ou ocorrido algo inesperado? Se fosse o caso, ele, que não desejava meter-se em assuntos de família, poderia voltar quando fosse mais conveniente, não era problema algum.


Eglantina soçobrava ao fundo e seu pai, de soslaio, mandou que ela se retirasse e, olhando bem nos olhos de Damásio, disse-lhe que fosse embora, que não era bem vindo ali e que estava a atrapalhar uma festa de família para um primo que chegara a pouco de outro estado, que não voltasse a procurar a  moça pois ela estava mesmo era prometida a esse primo, um rapaz de posses e estudado, que poderia lhe dar uma vida decente e estável.


Damásio, pasmo, não sabia como retrucar tais afirmações, buscava por Eglantina por sobre os ombros do pai mas ela se fora para dentro. Por fim, sua boca ganhou vida e disse ao senhor que aquilo era um absurdo, que ele e Eglantina amavam-se e que ela o havia chamado para estar ali naquele dia para formalizar o compromisso, que ele poderia sim dar a ela uma vida decente, sem luxos, mas honesta, limpa e direita, era trabalhador e estudava, daria a ela uma vida melhor que sonhara para si mesmo.


Impávido, o pai da moça fez ouvidos moucos ante as alegações de Damásio, disse-lhe que a filha agira mal em ter prometido tais coisas que não lhe caberia o poder de cumprir e que ela sabia do compromisso assumido em família muito antes de ambos terem nascido. Ele, como pai, não poderia desgraçar assim o nome da filha e da família por um desconhecido, julgara que a paixão dos dois fosse algo ligeiro, que passaria como passam as chuvas da estação e que ele desconhecia o fato de que Damásio estaria ali naquela data para prestar seus respeitos e cortejar a Eglantina.


De dentro da casa ainda vinham risos e vozes altas, Damásio teve ímpetos de romper a cara do pai da moça, entra pela casa e raptar para si a amada, que a família lidasse ela com as promessas feitas ao primo abastado, sabia apenas de seu amor por Eglantina mas, a figura paterna à porta, parecendo intuir o rompante do pretendente enganado, fincou posição feito boi bravo, fechou a cara e ficaram ali em ameaça velada por alguns minutos.


Por fim, apelando para o amor que o moço parecia genuinamente sentir pela filha, pediu-lhe o pai abrandando o semblante que se ele realmente dedicava a ela tamanha afeição, iria dali embora e nunca mais a procuraria pois ela seria feliz com o primo. Que deixasse a moça usufruir de um futuro tranquilo e livre das mesquinharias que a vida de ambos tinha a eles reservado, pusesse de lado seu egoísmo e pensasse na felicidade dela e da família que seria desgraçada ante tamanha vergonha caso o compromisso não fosse honrado.


Desolado, Damásio cerrou os punhos, rangeu os dentes, deus as costas e partiu segurando um choro raivoso e sentido.


…......................................


O tempo é um curativo muito grande, tão grande que termina por cobrir quaisquer feridas que a vida venha a nos infligir. Acabamos esquecendo da ferida e quando tiramos o curativo ou alguém o faz por nós, em alguns casos não há mais nada, nem mesmo cicatriz que relembre o mal que foi feito mas, maioria das vezes, ao removermos o curativo, a ferida está lá, viva, respirando, pulsando e excretando seu conteúdo pestilento contido apenas por aquela fina camada de tempo e, exposta, volta a doer como fosse aberta naquele instante.


Assim era para Damásio. Seguiu sua vida escorado numa esperança de ver aquele equívoco desfeito, uma piada de mal gosto, certamente eram um família de brincalhões e lhe haviam pregado uma peça mas, os dias pariram semanas e estas meses que gestaram anos e Damásio assimilou que o curativo fora posto para sempre e deixou ele ali, quieto, haviam feito um trato de um não incomodar o outro.


Perdera entretanto parte do prazer em viver, trabalhava mas largou os estudos, não via razão em dedicar-se a algo para o futuro se este era apenas dele e não de Eglantina também. Só não largou o trabalho porque era dele que tirava o sustento e as doses de cachaça que bebia aos finais de semana. Para Damásio, a vida parecia um daqueles filmes onde os atores dublam sua própria voz por cima do som original, o som da voz não encaixa com o som ambiente e muito menos com o movimento dos lábios na tela.


Estava Damásio no bar num Sábado quando um amigo o avistou e foi sentar-se com ele. Logo após o fim de seu idílio, Damásio desfiava seu infortúnio a quem estivesse ali para ouvi-lo mas, com o tempo, tornara-se apenas uma pálida figura que respondia com sim, não ou apenas balançava a cabeça ante o que lhe diziam. 


O amigo ia ali discorrendo sobre as coisas da vida quando entre frases, Damásio jurou ter reconhecido o nome de Eglantina. Seguia o amigo falando de suas mazelas quando Damásio o interrompeu bruscamente perguntando se ele falara algo sobre Eglantina, o amigo desconversou, que não era nada demais e que ele nem deveria ter comentado com ele pois sabia de todo o ocorrido mas Damásio insistiu e como ameaçava alterar-se, confessou o amigo que Eglantina iria se casar dali a alguns dias com o tal primo, que soubera através de um amigo que namorava uma conhecida de Eglantina.


Damásio ficou mudo, olhou para o amigo que sentiu um calafrio lhe correr a espinha e então deu a Damásio todo o serviço sobre a cerimônia.



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Eglantina era festa, podia não ser sincera quanto a ela mas assim como Damásio usara bem seu curativo, assim ela o fizera e, com o passar do tempo, acabou por emprestar a si mesma uma sensação de plenitude e calma, não poderia chamar de amor pois este sentiu apenas uma vez mas, era um sentimento que muito disso se aproximava e lhe dava o acalanto necessário para seguir com seus dias.


Depois do sim proferido de forma honesta mas pouco convincente a quem se atentasse ao sentimento, encarava a vida diante de si como um pequeno mar de rosas e alguns espinhos mas, estava determinada a fazer deles o melhor que pudesse e nas noites mais frias, quando o calor do amor comprado houvesse já arrefecido, ela teria em seu íntimo as lembranças de Damásio para aninhar-se e tomar algumas baforadas de vida que lhe emprestassem ânimo para seguir por mais um dia.


Saindo pela nave, ela e o marido iam sorrindo aqui e ali e, em certo momento, ela desconfiou de que estava realmente sentido-se um pouco feliz e que talvez, um talvez pequeno mas ao qual se agarrou com unhas e dentes, pudesse ser ao menos um pouco feliz mesmo que durasse pouco, melhor que nada ter e se há lição que devemos aprender na vida é a de fazermos com as migalhas que ela nos dá o pão nosso de cada dia.


Quando finalmente saíram da igreja, aguardavam que o arroz viesse do alto lhes desejar boa fortuna mas, ao invés de arroz veio foi um gelo súbito que lhe saiu do peito e entalou na boca ao ver Damásio na frente dela e do esposo novo em folha. 


Ficou lívida e olhou Damásio nos olhos, seu esposo olhou para ele e depois para ela esperando que alguém lhe desse alguma explicação, os convidados ficaram com as mãos presas dentro dos saquinhos de arroz, o suor frio cozinhando aos poucos os grãos, formando pequenos bolos de desconforto.


Como o marido lhe olhasse sisudo, Eglantina abriu a boca para pedir a Damásio que se fosse dali, que não viesse lhe arrancar o curativo que estava tão bem colocado mas, não teve tempo de completar a frase. Ouviu-se uma gritaria generalizada quando Damásio puxou sabe-se lá de onde uma faca longa e que  parecia ter o fio afiado o suficiente para cortar sentimentos, Eglantina arregalou os olhos e seu marido, temeroso de um tragédia iminente, pôs-se entre Damásio e a recém-casada.


Damásio deu um riso seco e escabroso, olhou ao redor, olhou para o marido depois para Eglantina e, de um golpe só, cravou em seu próprio peito a faca soltando um gemido que mais parecia um animal sendo abatido. 


Cambaleou e caiu de joelhos ante o casal, Eglantina fez menção de o acudir mas seu marido a deteve, Damásio então cravou ainda mais fundo a lâmina no peito e a foi torcendo, cada golpe um urro de dor que assombraria até os mais incrédulos, caiu para a frente escorando-se com uma das mãos no chão.


Eglantina lutava para ir lhe acudir mas seu marido novo em folha lhe tolhia os movimentos, o vestido agitava-se ao vento e o véu lhe cobria a face impedindo que enxergasse direito o que se passava com Damásio. Quando conseguiu finalmente tirá-lo da frente dos olhos, viu que Damásio voltara a ficar de joelhos, havia uma poça de sangue ao redor dele como a delimitar uma fronteira entre o amor que ele sentia e que ela imaginara.


Damásio tinha um dos braços soltos, lânguido e pendente e, ao final, a mão que segurava a faca vermelha do trabalho concluído. O outro braço ia estendido, moribundo mas rígido, esticado como algum tipo de régua e, ao final deste, a mão que amparava o coração que ainda pulsava.

18 de mai. de 2020

Pilar e José

José parou, respirou fundo, deixou a frase que acabara de descer ao papel respirar também. Respiraram quase em uníssono mas passados alguns segundos, José percebeu a frase em outro ritmo, distinto de seu peito arfante, exausto pela tarefa de parir àquela e todas as demais antes dela.

Olhou para a frase ali quieta, respirando feito recém-nascido, quis lhe fazer um afago mas ela fugiu, só não foi mais longe porque havia um ponto que lhe segurou os passos e José, calmo, pegou a frase pelas mãos e disse ser aquele o final, ela deveria descansar pois não haveria mais nada depois, que se entendesse com as anteriores e, se houvesse inveja por ser ela a derradeira, que resolvessem isso lá nos idos do texto pois ele, pai, não poderia fazer distinção entre elas.

Pilar! Gritou.

Pilar! Gritou de novo.

Pilar! Gritou de novo mais alto.

Eu, José! Queres o que? Veio de algum lugar da casa a resposta batendo pelos cômodos.

Terminei, vens aqui dar uma olhada! Disse aos gritos.

Mas homem, tem de ser agora? Respondeu ela.

Tem de ser agora que está fresca a tinta e tem de ser agora porque é igual pão, só serve quente, saído do forno, oras! Retrucou ele.

A ouviu arrastando-se pela casa, os passos de Pilar eram frases escritas nas paredes de cada cômodo junto com os dele, passos pontuados por longas pausas sem espaçamento, vírgulas que saltavam vidas, parágrafos que falavam muito e não diziam nada, diálogos que diziam muito quando não falavam nada, pontos aqui e ali para dar um pequeno fim a momentos quase inexistentes, parênteses para guardar segredos de fora e colchetes para guardar os de dentro, sílabas átonas em palavras tônicas e tônicos para nervos que de aço, tinham apenas o nome, as vontades sim eram de ferro.

Arre, homem! É sempre assim essa pressa quando acabas, há de ter meus olhos para garantir? Os seus não foram bons o suficiente? Disse ela por cima do ombro dele.

Teus olhos são mais frescos e tem mais retina, os meus servem a mim ao contrário, enxergam para dentro e me ajudam e tirar de lá o que preciso colocar no papel. Depois disso, preciso de outros olhos para ter certeza de que o fiz bem! Disse José enquanto via Pilar sentar-se a seu lado.

Sentou e bufou, como se houvesse deixado algo importante por fazer, pela metade.

Dá-me aqui, então! Disse ela estendendo a mão e flexionando os dedos.

José pegou um calhamaço de páginas e as pousou sobre sua mão estendida, como a presentear um santo com um ex-voto.

Está aí, vais ler tudo, certo? Tens de ler tudo ou não vai prestar que me dês sua opinião. Disse sem soltar as páginas na mão de Pilar, olhava direto em seus olhos esperando a promessa.

Mas já li tudo antes, homem! Sei bem onde parei, me basta ler até onde tu acabaste de escrever, terminaste de vez, não? Disse inquisitiva.

Sim, terminei! Mas não me serve meia opinião, se for para isso eu mando a meu editor, tua opinião, afinal, é a que mais prezo. E fez olhar de quem ameaça engatar um choro.

Sabes que sempre leio tudo, me custa dizer não a ti mesmo quando não mereces meu sim mas, olha isso homem - e apontou para o vergalhão de papel no meio do caminho entre as mãos de ambos. Seja sensato, ler tudo isso de novo é penitência e eu só vou me confessar de novo daqui a dois meses que de pecados já estamos à míngua faz é tempo.

Vai, vai! Disse ele liberando as folhas com um muxoxo. Podes ler desde onde paraste, não me fica mal, fico assim de jeito mas não quero que te molestes por algo tão pequeno.

Ah, mas vem tu agora com essas manhas? Disse ela batendo com as folhas na mesa. Faz favor, José, que de filhos já tivemos cá a nossa cota e agora aqui em casa de criança só tem a ti e já basta! Chega de brincar de ser guri e vamos é ser gente, não é?

Ele resmungou algo enquanto ela separava as folhas buscando o ponto onde havia parado.

Aqui, achei! É daqui para frente, te dedicaste neste hein? Olha isso! E apontou para a resma de papel espalhada sobre a mesa.

Ainda falta revisar tudo, sabes que não é assim disse mal-humorado e cruzando os braços.

Olha, se te faz gosto eu leio tudo de novo. Disse ela pousando a mão sobre os braços dele. José a olhou de lado e sorriu maroto, ela aquiesceu e começou a ler enquanto ele ficava a seu lado apenas estudando seu rosto atrás de sinais que entregassem se estava ou não lhe agradando a leitura.

Passaram-se vários minutos, talvez horas. José tinha uma relação estranha com o tempo, ao escrever sentia como se fossem horas mas, ao apurar o tempo, havia passado dias. Ao pedir a Pilar que lesse o que escrevera, lhe parecia que passavam minutos quando na verdade tinham sido horas.

Pilar terminou e pousou a última folha sobre a mesa com a face escrita para baixo, um passarinho pousou no parapeito da janela da sala onde estavam, olhou para dentro e levantou voo. Um caminhão passou na rua roncando alto seu motor. Uma porta bateu no vizinho e alguém reclamou. Um vento leve fez as folhas sobre a mesa levantarem um pouco. Um cachorro latiu ao longe e outros responderam ao chamado. Um chiado estranho surgiu do nada, como se um rádio estivesse fora de sintonia. Um bater de palmas chamando por um nome veio da rua e uma voz feminina cantava alguma canção muito antiga enquanto fazia as tarefas do dia.

E? Perguntou ele com olhar ansioso.

Pilar esfregou as mãos nos joelhos, olhou para ele e depois para a janela onde o pássaro já não mais estava.

Que queres que eu diga? Está bom, tu sabes escrever, me irrita essa mania de não usar quase pontos e vírgulas e os diálogos misturados ao resto, há que ser muito bom leitor para entender onde começa e acaba, mas tu tens a escrita em ti. Sentenciou.

Só isso? Mais nada? Não tens nada para comentar? Sobre a trama, personagens, nada? Vais me dizer isso só? Disse ele apontando para a pilha de papel na mesa.

E tu queres que eu diga o que? Não sou tua editora, homem! Toda vez é essa mesma pantomima, tu escreves, eu leio, tu reclamas que eu não dou opinião, tu escreves de novo, eu leio, digo as mesmas coisas e tu reclama de novo, assim estamos há anos, José. Tu gostas que eu leia parece que para me humilhar ou porque precisa dessa ladainha para depois pôr nos eixos as histórias que tu inventas! Finalizou o discurso batendo as mãos enfaticamente nas coxas.

Já sei o que preciso arrumar, está claro! Disse ele recolhendo os papéis de cima da mesa e arrumando-os.

Se está claro, então vou é passar um café que essa leitura toda me deu foi cansaço! E levantou-se enquanto ele seguia pondo lá os papéis em ordem.

Foi para a cozinha, os passos remoendo cada palavra que sempre trocavam quando tinham aquele tipo de discussão. Passou o café, junto com o pó foi lá um pouco de tristeza e miudezas de uma vida de casal que, se não estava morta, ainda tinha algo sensível a se embrenhar em algum canto daquelas palavras que ele não escrevia e que ela não lia.

Queres, café? Gritou da cozinha.

Não houve resposta, de certo ele estava já a reescrever, pensou. Tomou lá seu café e depois colocou a xícara na pia, não se lavava nada ali na hora pois coisas lavadas limpam as ideias, há que deixar a sujeira assentar e depois ver se não surge dali nada interessante.

Foi-se para o quarto, sentou-se na cama e ficou ali a observar o teto e ver a luz do dia aos poucos fugindo pelas frestas da janela meio aberta. Já sentia o sono, mesmo após o café, lhe desarmando e ganhando espaço em sua corrente sanguínea, os olhos pesavam como se fossem feitos de mármore e a respiração ia arfando mais funda preparando o corpo para entregar-se ao dormir.

Já ia fechando a porta do mundo, em vigília, quando veio o grito.

Pilar!

15 de mai. de 2020

Telefonema às duas da manhã

Telefonema às duas da manhã.

Toca. Toca. Toca. Sai da toca do sono aos poucos, filhote de algum mamífero, arrastando o corpo frágil para fora da Toca Toca Toca. Abre olhos, escuro, medo que dá, medo que deu, medo. Toca Toca Toca. Procura o telefone Toca Toca Toca.

A  sono l muito ô muito sono.

Mudo, vasto mudo que se me chamasse mudo como seria se fosse mudo?

Alô - sem sono. Acordou. Já não filhote. Adulto, com raiva pelo sono cortado.

Alô - do outro lado. Voz conhecida, sintoma de sonho, talvez.

Pois não? - raiva do sono, oito horas por noite, mal havia dormido uma.

Ruídos. Migalhas do outro lado da linha. Comiam. Bolachas talvez. Biscoitos. Bolacha ou Biscoito? Regionalismos estão sujeitos ao onírico?

Quem é? - diz o sono cortado, quer dormir, todos queremos, há de se resolver isso logo.

Sou eu - outro lado, mesma voz.

Eu? Eu quem? Vou desligar, são duas da manhã! - reclama o raivoso do sono.

Eu sei. Estou ligando para te avisar - a voz, a mesma, conhecida, de quem?

Olha aqui, amigo, vai te catar! Duas da manhã! Que trote é esse? - há limites, há que respeitar. Ligar para passar trotes durante o dia vá lá que se perdoa mas, de madrugada?

Não é trote. Liguei para avisar, sou eu - insiste a voz que ainda lhe foge.

Eu quem? Vou desligar, lamento - cansa, discutir às duas da manhã, cansa.

Desculpe. Me apresentei errado, sou eu mas quis dizer que sou você, quer dizer, eu sou você, somos nós - a voz lhe parecia bem conhecida, piada essa, era assim que soava? Não, tinha voz mais bonita que isso, madrugada ingrata.

Que palhaçada é essa? É você, Artur? - o amigo brincalhão - Se é você eu te capo amanhã seu puto!

Não. Sou você, quer dizer, eu, quer dizer, só preciso avisar mais nada e amanhã já é hoje ou você está falando do dia depois porque, duas da manhã, entende? - voz cansada, mesmos tons, forma de puxar as sílabas, Artur estava caprichando.

Tá, Artur, tá. Desembucha logo que eu quero voltar a dormir, que tu quer avisar? - resignação, cansaço, são a mesma coisa? Ou estágios diferentes de uma letargia?

Já lhe disse, me disse, disse, enfim, não sou Artur! Sou nós. - um pouco de irritação, aquele tique vocal que lhe afligia quando irritado.

Tá bom, tá bom! E qual é o aviso? Pode dizer logo pra eu, você, a gente voltar a dormir - brincadeira tem hora, tem hora? Duas da manhã. Hora de brincar? De dormir? De brincar no dormir?

Não beba o leite - a voz dele, do outro, deles.

Oi? - Artur, ah, Artur, se lhe pego depois vai ficar só Tur porque Ar não vai ter mais.

Não / Beba / O / Leite - palavra por palavra.

Hum, ok, não beber o leite, só isso? Mais alguma coisa? - hora de brincar assim? Haja paciência.

Não beba. Eu, você, quer dizer, a gente, não beba! Por favor! - a voz quase lágrima, mesmo tom quando ele ficava choroso.

Tá bom, sem leite, prometo! Mais alguma coisa? - leite, coisa de vacas, sonham as vacas? Dormem? Fazem leite sonhando?

Não, apenas isso - voz cansada, a do outro, a dele, a deles, de todos, duas da manhã.

Ok! Boa noite então - desliga que duas da manhã já passara, aquele pedaço de tempo não seria recuperado, perdeu-se, ficou em algum lugar.

Toca Toca Toca.

Não o telefone, despertador. Acorda, sono ruim, sonhos, leite e vacas, elas dizendo que o leite bom deve ser quente, leite frio causa azia, má secreção, pedem que o leite seja santo, ordenhado com respeito e perguntam se o leite dos homens tem o mesmo gosto, quem sabe? Ordenhar um homem sempre foi tarefa meio inútil.

Água no rosto, bochecho tira o gosto de sonho da boca, cospe as vacas e seu leite na pia, escoam pelo ralo com aquele gosto de manhã regurgitada. Cozinha, café na máquina, pão na chapa, fruta cortada no meio que inteira não tem como entrar, tudo deveria ser ao meio, mais fácil para entrar.

Pega o leite na geladeira, cheira. Está fresco, as vacas trabalharam bem. Como faziam para gozar o leite nas caixas? Mira? Prática? Enche a xícara, o café quase pronto. Bebe o leite, depois beberia o café, café com leite é bom, leite antes do café, pode? A ordem da ordenha altera o desjejum?

Engasga, tosse, arfa, perde fôlego, tosse de novo, um esgar puxa a boca, bate no peito, tosse de novo, preso no peito, ar sem ar, regurgita uma saliva meio pálida, puxa o ar, não vem, tosse de novo, um ruído primal vem do seu âmago, macacos escondidos nos genes acordam quando a vida corre perigo, cai, tenta erguer, segura a cadeira, sente os olhos saltando, o ar que não existe, a tosse que trava a traqueia, a baba que começa a escorrer pelo nariz, os ouvidos fazendo zum zum zum, luzes que espocam nos olhos, quer gritar, não sai, um mugido estranho sai, quase um grito mas não, arfa, a língua fugindo para trás da boca, o ar não é mais ar, a massa que lhe tapa a garganta, leite, saliva, ranho, cuspe, morte lactosa, veio lhe ordenhar a vida, cai no chão, contorce feito uma salamandra epilética, arfa, arfa, arfa, o leite, o leite, duas da manhã, eu, ele, nós nos avisamos.

Um último suspiro, sai quieto da boca, foge e se mistura ao ar que existe sim mas fora dele. A caixa de leite, vazando seu líquido branco pelo chão, a lhe molhar os cabelos.

8 de mai. de 2020

Um dia sem héteros

Seis e cinqüenta e oito


Repita!


Seis e cinqüenta e oito!


O governo anuncia que não reduzirá a taxa básica de juros além do que já foi reduzido e, segundo o Ministro da Fazenda, qualquer medida nesse sentido pode comprometer seriamente a meta de crescimento prevista para este ano que ficará em torno do seu marido, de mãos certeiras quase rudes, devorando os pensamentos que se embaralham em sua mente, lhe pegando com força, suas pernas abrindo caminho por entre as suas coxas até que seu membro rijo encoste a fronte em seu sexo já úmido e então, a cotação do Euro sobe para R$ 6,35 e o saldo da balança comercial está totalmente a favor de que ele goze dentro.


Sete horas


Repita!


Sete horas!


De olhos semicerrados, tateia o outro lado da cama buscando o corpo do parceiro, não está. A mão corre pelo lençol liso, não desfeito, incólume, inocente. Entre a previsão do tempo e notícias sobre um congestionamento olímpico na cidade, seus dedos vão despertando e transmitindo ao resto do corpo o acordar lento, indesejado, o sono luta com véus e areia mas vai, aos poucos, perdendo terreno e vendo seus domínios oníricos serem substituídos por pedaços de realidade.


Sete e oito!


Repita!


Sete e oito!


Abriu finalmente os olhos, deu de cara com o travesseiro dele, formato intocado, uma busca ou resgate de algum recado deixado na noite anterior, indicando que não pernoitaria ali mas, se houve, seus neurônios dormentes ainda não se apercebem do fato. 


Barulho de chaves na porta e a associação das chaves a ele, aquela hora? Não era dada aos ciúmes comuns, era já uma mulher adulta e segura de si e ainda que o homem que morava ali e que chamava de amor, amante e até marido às vezes pudesse quiçá dar seus pulos aqui e ali, havia desde o início acordo tácito entre eles de que o longe dos olhos era sim distante léguas do coração e que se essa distância um dia diminuísse que ao menos houvesse entre eles dignidade suficiente para assumir um ante o outro o fato e dar seguimento da melhor forma possível às vidas machucadas mas não incuráveis.


Não era ele, sabia pelo girar das chaves e em seguida pelos barulhos na cozinha, era a empregada. Levantou-se por fim, foi ao banheiro para suas abluções matinais e foi dar com a empregada já no preparo do desjejum. Depois de um bom dia formal entre elas, sentou-se e sacou o controle da TV sintonizando em seguida no telejornal para inteirar-se das tragédias diárias enquanto a diarista espremia laranjas frescas.


‘Hoje está um caos’ comenta a empregada ‘acho que foi greve de ônibus porque pra chegar aqui foi um sufoco, parece que o metrô também, esse povo não quer é trabalhar...’


Anuindo com a cabeça, tentava ouvir o que o telejornal averbava. Realmente havia se instaurado um caos na cidade com vários serviços sem funcionar mas, não se falava de greve ou coisa assim, era como se parte dos trabalhadores tivessem resolvido da noite para o dia simplesmente renegar sua funções e ir aproveitar a vida ou o que restava dela entre os dias mortos do calendário.


Bebericava o suco fresco enquanto a doméstica preparava torradas e fervia o leite. O noticiário buscava analistas e formadores de opinião e até mesmo os apresentadores informavam que estavam ali emergencialmente uma vez que os colegas apresentadores dos vespertinos não haviam aparecido ou sequer informado sobre sua ausência.


Trata-se de um problema social


Não concordo, creio que é uma movimentação sindical orquestrada para desestabilizar o governo.


Mas em que sentido? Não se pode traçar um perfil do profissional que simplesmente não foi trabalhar, e se há mais casos que não sabemos?


Como assim? Está claro que é um plano da oposição para botar pânico na população, estamos em ano de eleição afinal.


Sim mas, o que digo é que não temos até o momento nenhum sindicato ou representante dos mesmos assumindo que se trata de um movimento, eles mesmos estão sem saber a causa disso tudo, me parece mais um caso desses de abdução ou essas coisas de fim dos tempos.


Oras, mas isso é coisa de teoria da conspiração, estou certo de que se pararmos e analisarmos na luz fria dos fatos vamos encontrar um padrão e uma razão para isso.


Mas e os relatos que começam a chegar de pessoas que foram comprar pão e não voltaram, e de pessoas que foram dormir juntas e acordaram sozinhas? Não estaríamos frente a algum tipo de fenômeno inédito?


Veja, enveredar por esse caminho é algo que irá apenas gerar mais pânico e dúvida na população. O governador acaba de agendar uma coletiva para logo mais para divulgar um plano de ação, estou certo de que se trata de algum tipo de embuste político!


TRIM TRIM TRIM - TRIM TRIM TRIM - TRIM TRIM TRIM


Atende o celular a doméstica e ela, educadamente, abaixa o volume da TV mesmo porque era um debate que começava a lhe tirar o apetite da refeição que mais lhe agradava no dia. Levantou-se e foi a sala pegar o jornal colocando antes a TV no mudo. Quando voltou, a mulher estava pálida, escorando-se na pia a cozinha, aproximou-se dela e perguntou o que se passava, estava tudo bem?


‘Meu marido’ respondeu num fio de voz ‘saiu para o trabalho antes de mim mas me ligaram de lá perguntando sobre ele porque lá não chegou...’ assustou-se e se o seu marido não chegasse também? Esforçou-se por lembrar a noite anterior, estava com amigas quando ele ligou entre a quarta ou quinta garrafa de vinho dizendo que chegaria bem mais tarde ou talvez pela manhã, assuntos de trabalho, ela já estava acostumada. Liberou a diarista para que fosse atrás do paradeiro do marido, desejou-lhe sorte e que se precisasse de algo não hesitasse em lhe chamar, alívio burguês.


Voltou-se para a TV e lhe restituiu a voz, o debate prosseguia, em alguns canais com elucubrações mirabolantes, outros histriônicos e outros ainda panfletários e nada de seu marido dar a porta de casa. Olhou para o relógio, marcava quase oito, sacou do celular e ligou para o numero dele.


Após o sinal, deixe seu recado.


Ele costumava de fato dormir no escritório vez ou outra quando havia trabalhos urgentes mas, preocupava-se agora com essa onda de pessoas desaparecidas. Sintonizou um canal que lhe pareceu mais com os pés no chão.


Não se pode, neste momento, traçar um perfil mas o fato é que, de acordo com as informações que nos chegam, os desaparecidos não seguem um perfil específico, são homens mulheres, crianças, de todas as idades, raças, classes sociais e perfis profissionais, desde padeiros a pilotos de avião e mesmo na sede do governo, votações importantes tiveram de ser adiadas pois alguns políticos também sumiram.


E se fosse aquela coisa dos maias? E se fosse aquela coisa da bíblia? E se fosse algo como uma invasão? E se fosse algo de sua cabeça apenas e ela ainda estivesse na cama sonhando fazendo amor com o mestre dos sonhos e ele fosse seu marido e ela mortal estivesse presa numa piada dele?


Foi trocando de canal, um após outro apenas tergiversando sobre o ’arrebatamento’, alguns de joelhos a clamar aos céus a piedade que não mereciam, outros conclamando os demais a prepararem-se para o julgamento sem juízes, alguns ainda a acusar o governo e outros fazendo pouco, como se fosse algo não digno de nota e que deveríamos seguir adiante, se esses sumidos não queriam mais fazer parte do cotidiano da humanidade, que assim fosse.


E num desses canais, ela pareceu achar algum senso entre análises disparatadas e teorias absurdas, um representante de um movimento que não sabia identificar bradava aos ventos que não era chegada a Era de Aquário mas a Era do Arco-Íris.


O senhor então afirma que todos os desaparecidos são então heterossexuais e que apenas os gays, os homossexuais não sumiram?


Isso mesmo! É o sonho gay tornando-se realidade! É a natureza, a evolução das espécies fazendo seu trabalho! Todos sabem que nós gays somos o próximo passo evolutivo de nossa raça, que os dias heterossexuais estavam contados. Era meramente uma questão de tempo até que a natureza se encarregasse de dar o passo evolutivo definitivo! A procriação é algo supervalorizado e pode ser feito em laboratório, o sexo e sociedade heteronormativos não são mais, viva a sociedade nova e do amor verdadeiro!


Mas como o senhor pode ter certeza de que apenas os heterossexuais sumiram? De que apenas os gays foram poupados desse fenômeno?


Estou aqui falando com você, não? E sou gay,não sumi e meus amigos e amigas aqui atrás de mim também! Quer prova mais clara? E tenho fontes seguras que me garantem que a única coisa em comum entre todos que sumiram é o fato de serem notórios heterossexuais!


Mas a que o senhor atribui esse desaparecimento repentino dessas pessoas? Seria um ato de Deus?


Deus? Quem é ele? Onde ele estava quando os gays eram massacrados no holocausto ou nas ruas dessa cidade suja e preconceituosa? Não, minha querida, não foi ele que mexeu seu dedo e finalmente pôs a nós, gays, no lugar de direito na cadeia evolutiva, ele joga seus dados em outros mundos, aqui, foi uma simples e correta seleção natural o que, por sinal, me diz que você é gay afinal está aqui me entrevistando, não é?


Ah, eh, voltamos ao estúdio com você...


E havia então apenas silêncio, em todos os canais, nas ruas, nos ônibus, nos trens, no metrô, nos aeroportos, no senado, nas casas, nos países, nos carros, em toda a parte. Um silêncio tão alto que se poderia ouvir do espaço e as igrejas começaram a ruir e os santos racharam seus pés de barro e os pastores largaram tudo para poder viver livremente e os que pregavam contra os gays sumiram não como os héteros mas enfiaram-se em algum buraco fétido e escuro para penitenciar-se por sua vergonha e cruzada contra os seus.


E as pessoas descansaram seus dedos em riste e passaram a viver mais suas vidas, e os skinheads compraram vestidos e perucas e maquiagem, skindrags, e os trabalhadores podiam dizer eu te amo entre máquinas e papéis a serem assinados e ela então descobriu que não havia sumido e ouviu as chaves na porta e depois o viu entrar, olharam-se pasmos por instantes e então lágrimas de raiva vieram aos olhos transmutadas depois em lágrimas de compreensão, aceitação, alegria pela fantasia imposta estar rasgada no chão, em farrapos.


E se abraçaram, arrumaram suas malas, se beijaram no rosto e foram cada um seguir com suas vidas com seus respectivos amores.


lembranças aleatórias não relacionadas com a infância

Lembrança #10 Lembro de uma festa ou rave ou balada que eu ajudei um amigo a organizar num tipo de sítio eu acho. Estava separado do meu nam...