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2 de jun. de 2020

Liga/Desliga

Quando apaguei a luz, senti algo morno escorrer pela nuca como se uma gota de chocolate quente escorresse da base do crânio espinha abaixo, lambendo os poros feito dedos melados.

Sacudi a cabeça levemente como para desfazer-me daquela sensação incômoda e fui deitar. A cama estava fria mas não gelada, acomodei-me entre os lençóis e aos poucos cheguei a um estado onde as temperaturas estavam iguais e não havia mais como dar ou receber calor.

Mudo, encarei o teto buscando alguma forma de ter respostas para perguntas que eu não sabia como fazer. Jurava ter ficado assim por horas mas quando olhei para o relógio na mesa de cabeceira, míseros dez minutos tinham corrido. Soltei um impropério qualquer e sentei-me na cama, os pés roçando o piso frio no escuro, o relógio mudando seus números devagar como se esperando que eu dormisse para poder fazer o mesmo.

A sensação de algo quente deslizando nuca abaixo voltou e, instintivamente, levei a mão direita até o local, talvez uma picada de algum inseto ou alguma alergia. Foi quando senti aquilo. Não estava lá antes, ao menos não me recordo de tê-lo sentido enquanto esfregava a cabeça durante o banho e era algo muito fora do comum para que não o tivesse notado.

Talvez houvesse batido a cabeça em algum lugar acidentalmente e não me recordasse e agora havia aquilo ali para me lembrar que sim me machucara mas, refazendo minha rotina mentalmente, não lembrei de nada e qualquer coisa que houvesse causado aquilo eu, de certo, não esqueceria.

Passei a mão novamente mas devagar, sentindo a forma, seu tamanho, textura e o tato não tinha como mentir mesmo que eu julgasse a impossibilidade daquilo. Não era um galo, nem uma espinha, nem mesmo um furúnculo; não era uma fratura, hérnia, concussão ou algo do tipo, aquilo era um interruptor, desses comuns onde ligamos ou desligamos um aparelho ou luz, um liga/desliga ordinario.

O interruptor parecia sair da base de meu crânio sendo que a chave em si apontava para cima agora, se essa era a posição liga ou desliga não tinha como saber e, receoso, removi a mão pousando-a sobre meu joelho.

Devo ter ficado assim alguns minutos, olhando para o relógio que seguia trocando seus números preguiçosamente e sem ter certeza do que estava acontecendo ou do que deveria fazer. Pensei em levantar, acender a luz, ir ao banheiro, lavar o rosto e quem sabe acordar pois só podia mesmo estar dormindo e tendo algum pesadelo absurdo mas, se fosse isso mesmo, eu tinha uma imaginação pouco fértil pois fora o interruptor na cabeça todo o resto exalava um ar de realidade incongruente com o mundo onírico, não que um interruptor na cabeça não o fosse.

Tomei coragem, levantei, acendi a luz do quarto e fui ao banheiro mas lá, não acendi a luz, a luz que vinha do quarto era suficiente para que eu abrisse a torneira e, com as mãos em concha, jogasse água no rosto. Fechei a torneira, o resto de água escorria vagarosamente pelo ralo, o redemoinho da água descendo rodava calmo, pequenos respingos de meu rosto molhado caíam na pia e faziam um barulho surdo.

Olhei para o espelho acima da pia e meu reflexo parecia meio borrado, não havia luz suficiente mas temia que ao acendê-la forçosamente teria de encarar o fato de que não estava sonhando. Ouvi um carro frear bruscamente na rua e alguém soltando algum tipo de maldição, se era mesmo um sonho era bem realista, eu deveria ter uma mente ímpar para o sonhar.

Tomado de coragem, acendi a luz do banheiro e fechei um pouco os olhos ante a claridade súbita. Não queria abri-los, fiz mais um esforço para despertar caso ainda fosse algum tipo de ilusão e abri os olhos aos poucos. 

Ali estava eu, rosto molhado, encarando meu reflexo também molhado, na verdade ele não estava, quem estava era eu, ele deveria estar seco afinal quem molhara o rosto fora eu e não ele, daquele lado ele deveria estar com sono e irritado por eu tê-lo feito acordar apenas para me olhar em horário tão estapafúrdio.

Abri o armário embutido no espelho e de lá saquei um espelho menor, de mão. Fechei o armário e voltei a me olhar. Com certo malabarismo, consegui alinhar o espelho de mão, minha nuca e o espelho no armário. Consegui ver o interruptor, estava mesmo lá, era branco, quase gelo e estava perfeitamente embutido em mim, não havia reentrâncias, não havia aquela capa de plástico que geralmente protege os interruptores, era como se ele houvesse simplesmente brotado do fundo de mim.

Comecei a pensar se não havia sido abduzido e passado por alguma experiência mas, o máximo de abdução que já me ocorrera fora quando eu resolvi largar tudo e passar um fim de semana numa praia distante o que não qualificava como abdução, eu sei, mas era a experiência mais próxima disso que me recordava. 

Talvez eu tivesse sido cobaia em algum experimento secreto mas novamente, o mais próximo disso que já vivera fora quando tentei participar de um grupo de pesquisas sobre novos refrigerantes e fui dispensado logo de cara porque não me encaixava no perfil que desejavam.

Abandonei as teorias de conspiração e resolvi que o melhor seria procurar ajuda profissional agora não sabia se seria um médico ou um eletricista. Na dúvida, optei pelo primeiro e se ele não desse jeito partiria para o segundo. Como a noite já ia larga, resolvi esperar até amanhecer, não queria sair correndo para um pronto-socorro onde seria alvo de escrutínio, preferia consultar um profissional que já conhecia e pensei se não deveria ser um psiquiatra, quem sabe não estava perdendo a razão e alucinando?

Resolvi me acalmar, guardei o espelho de mão dentro do armário, apaguei a luz, deixei a torneira pingando e voltei ao quarto. Fiquei parado no meio dele, olhei ao redor para me certificar de que estava mesmo no meu quarto, a cama era a mesma como sempre fora, a TV era mesma e seguia sem funcionar como sempre estivera, a cômoda ao lado esquerdo da cama era a mesma, velha, carcomida e cujas gavetas prendiam em minhas peças de roupa mal acomodadas nelas.

A porta que dava para a sala/cozinha era a mesma com a mesma maçaneta que emperrava quando fazia muito frio e a janela que dava para a rua era também a mesma, a mesma trinca na parte superior do vidro parecendo uma teia que alguma aranha desistira de tecer e a veneziana onde faltavam algumas palhetas era também a mesma.

Tudo era igual salvo o interruptor na base da minha cabeça. Sentei-me na beirada da cama novamente, olhei para o relógio e acho que ele pegara no sono pois os números não mais mudavam. Teria de aguardar ainda algum tempo até raiar o dia poder ir ao médico, ficar com aquele botão ali certamente não me deixaria dormir.

Comecei então a pensar no que aconteceria se eu mexesse nele, se o ligasse (ou desligasse, não tinha como saber se na posição em que se encontrava era um ou outro). Pensando bem e com mais calma, seria uma vantagem possuir um botão de liga/desliga, pensem bem, na hora de dormir, adeus insônia basta desligar se bem que isso implica um problema, como fazer para despertar depois de desligado? Boa pergunta mas, como não sou eletricista ou engenheiro, passei para outras aplicações práticas (que implicavam o mesmo dilema, depois de desligado, como religar?).

Após algum tempo que não sei precisar pois o relógio ainda dormia, só acordaria de manhã é certo, resolvi que não custaria testar afinal, o botão estava ali e se ali estava era por uma razão mesmo não tendo sido pedido por mim ou oferecido como algum tipo de graça ou recompensa, pouco provável que uma ou outra fosse chegar na forma de um interruptor se bem que o milagre não escolhe forma, nós é não entendemos como ele vem.

Levei a mão até o botão e o senti novamente, estava lá, parado e quieto, hesitei e tirei a mão, e se ao mexer nele eu simplesmente deixasse de existir? Mas se assim fosse, porque eu teria aquele interruptor na cabeça? Minhas têmporas latejavam, era mais filosofia do que podia suportar, uma decisão se fazia necessária e, determinado, levei a mão de novo ao botão e buscando lá no fundo alguma prece ou algo que o valha, puxei o interruptor para baixo.

Quando apaguei a luz, senti algo morno escorrer pela nuca como se uma gota de chocolate quente escorresse da base do crânio espinha abaixo, lambendo os poros feito dedos melados...


29 de mai. de 2020

Vazando

Hoje acordei atrasado de um sonho sólido e me desfiz líquido no chuveiro enquanto batia uma e me esvai junto com a porra que íamos pelo ralo enquanto eu me escorava nos azulejos molhados com as mãos escorregando e o peito arfando e a água caindo na minha cabeça e correndo pelo pescoço braços tronco pernas pau e porra e fazendo um pequeno torvelinho no ralo que não dava vazão porque era muita água e muita porra e eu achei que estava me esvaindo em sêmen mas eu já tinha gozado então de onde saia aquela porra toda essa porra toda que todo dia é a mesma porra e que porra é essa que é sempre a mesma branca sem gosto sem cheiro sem cor ou branco são todas as cores não preto que é é mas porra que cor é todas as cores e porra que tem de ser a mesma porque não pode sair diferente pra gente poder ter algum gosto porra algum novo porra e eu tinha de tomar café e comer pão e fruta porque porra fibras e alimento é bom e tem de ser balanceado porra também (?) mas eu bato todo dia de manhã no chuveiro porque sempre acordo de um sonho sólido que eu queria que fosse líquido porque líquido se desfaz que nem eu aqui nesse chuveiro com a água e a porra ainda escorrendo meu deus estou vazando ou é porra que sai do chuveiro e água do meu pau ou essa porra toda está enchendo e o ralo não vai dar conta e vou morrer afogado num pequeno mar de água e porra grávido de mim mesmo e sem ter tomado o café da manhã que é a refeição mais importante do dia mas não do sonho aquele que eu sempre tenho sólido e me desfaço líquido quando tomo banho e já é assim faz um tempo mas hoje a água não para de cair e a porra não para de sair o chuveiro é um chafariz e meu pau também e minhas mãos vão escorregando pelos azulejos porque eu me sinto mole acho que vou desmaiar sem ter tomado o café da manhã o dia mais importante da refeição ou algo assim porra que vai saindo e água que vai caindo e vou caindo junto com água e porra e vamos caindo e o ralo vai nos engolindo porque o ralo também precisa tomar café da manhã que é a refeição mais dia do importante e vamos caindo no ralo

e sumindo

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28 de mai. de 2020

Elevado

Dia Quente Mormaço Suor Gruda Escorre Seca Debaixo do braço Dois estigmas Não Cristo Não Diabo Não Nada Só gente Seca Úmida Pegajosa Viscosa Velcro líquido Liquida Ação Morte em vida Se vê rima

Vai para a rua que vai para a o ponto que vai para o ônibus que vai para o aperto que vai para o cheiro de gente que vai para o ar estagnado que vai parar que vai descer que vai sair que pede licença que esbarra e xinga que sai amarrotado que vai para o ponto que volta para a rua que vai para o prédio que vai para a porta que gira e gira e gira e gira e vomita gente dentro e fora

Fila Elevador Imensa Gente atrás Gente Vai um por vez que é muita Gente que vai atrás Gente que vai indo que vai entrando Um por Um por Um por todos e Todos por nem um e vai a fila e Ele vai Indo Com a fila com o fluxo com aquela sangria de gente Com aquele rio de Morto por dentro Por fora também há mortos Por dentro há mais Por onde anda a vida e a Morte vai na fila Olhando cada um e Sentindo que chega a sua vez Entra no elevador Com mais gente Com mais morte Com mais ou menos Vai pedir o Andar da carruagem é lento Ele vai descer no Último andar que tem ali tem vista para cidade toda e sempre tem Gente que se aperta para chegar mais rápido mas o elevador Vai lento o dia ali andares que são meses ou anos e os Botões acendem e apagam enquanto as Pessoas esvaziam e são vazias e o elevador vai ficando Vazio é o que ele é Vazio é o que sente Vazio é o que ele quer mas o Elevador ainda está lá mas só com Ele que não chega no seu andar e as Luzes são brilhantes enquanto acendem e apagam e mostram Números que deveria ter pensando antes ontem semana passada e que deveriam estar no Relatório que o prédio come todos os dias quando ele e os Outros são quem? Alguém ou ninguém ou alguninguém mas Ele

Segue subindo no Elevador que vai mostrando as Luzes números quinze dezesseis dezessete dezoito dezenove Vinte desce porque não tem vinte e Um ar desespero porque vinte não para e o Elevador passa direto como se mais andares depois mas não tem Nenhum sentido e o elevador sobe e sobe e sobe e sobe e sobe e sobe e sobe e Sobre onde ele está? Já não sabe nem sobe ou vê qualquer coisa apenas sente que o elevador Sobe e sobe e sobe e sobe e sobe e sobe e sobe

Lá embaixo Gente olha para o Céu que tem azul e tem nuvens e tem Ele Elevador Elevado Num ponto que já não era mais possível dizer Quem o havia (e)levado?

25 de mai. de 2020

O umbigo do mundo

Acordei. Pelo menos acho. Deve ser. Ouvi buzinas e não costumo sonhar com buzinas, já sonhei com cornetas, línguas de sogra que eram línguas mesmo mas, buzinas, nunca. Então estava acordado.

O quarto abafava o ar que entrava pelas frestas da veneziana. Eu olhava para o teto tentando sincronizar o som das buzinas com as sombras que eram refletidas. Nunca fui bom nisso, aliás, nunca fui bom em sincronizar nada, nado mas totalmente sem sincronia aliás, faz tempo que não nado, nada, meio que cansei, qual o propósito de ir de um lado para outro num mar de azulejos que não leva a lugar algum? Água não deveria levar a gente para algum lugar? Ar não que não se pode sentir, salvo o vento mas ar mesmo, não.

Levantei. E senti algo estranho escorrendo na barriga, como um vazamento, daqueles de pia, sabe? Fio de água que nunca se consegue descobrir de onde brota. Mas no meu caso sim, era do meu umbigo. Olhei para ele e corria um riozinho fino, passei o dedo e levei ao nariz. Umbigo tem cheiro, um aroma peculiar, característico, nenhuma outra parte do corpo cheira igual, talvez frieiras mas ainda assim não tem o mesmo buquê do umbigo. É um cheiro azedo que é rançoso que é doce que é patê que é queijo que é leite talhado que é algo sei lá. Pode ser algum cheiro que fica do cordão, cheiro uterino, de mãe, talvez as mães cheirem assim por dentro.

O meu não tinha esse cheiro.

Senti cheiro de água do mar, peixe vivo, aves marinhas, pescador, cidade de litoral, colônia de pescadores, velhas almiscaradas sentadas em varandas de jacarandá ao por do sol, cachaça correndo balcões de madeira, peixo frito e purê. Estranhei. Deve ser algum resquício de sonho, ainda devo estar no limiar, só pode, ontem dormi com fome, ainda devo estar sonhando com isso, comida, é isso.

Mas não.

Fui ao banheiro. Luz acesa, buzinas ainda lá fora e o teto fora de ritmo. Olhei bem, no espelho, e o fio de água ainda lá, corria reto do umbigo, passava pelo púbis e descia meio torto pelo pau até gotejar minúsculo no prepúcio. Olhei com mais atenção e assustei. Abri a gaveta e procurei uma lupa, quem tem lupa no banheiro? Eu. Às vezes preciso procurar algo que cai no chão e hoje em dia tudo é tão pequeno, cai e eu não consigo encontrar sem uma lupa então tenho uma, eu derrubo muitas coisas, menos a lupa.

Aproximei a lente do umbigo quase numa auto-felação. Meus olhos, melhor, um deles que fixava na lente, abriu feito um buraco. Ao redor do meu umbigo havia uma cidade. Sim. Uma cidade, dessas onde as pessoas vivem, nascem, dormem e morrem, não necessariamente nessa ordem. 

Pequenas casas ao redor do buraco do meu umbigo que lhes servia de baía. A água que escorria era seu rio, pequenos barcos subiam e desciam por ela, descendo iam até o final do curso na cabeça do pau, subindo, caiam dentro do umbigo para sempre. Engraçado. Eu nunca senti nada, tinha navios dentro de mim e nunca senti nada, nem uma âncora, nem um naufrágio, nada mesmo.

Havia também uma igreja, bem no meio se bem que é complicado determinar onde fica o meio de um círculo e o umbigo é um mas, ela estava lá, no meio. E havia um mercado e um bar eu acho. E pessoas circulando pela cidade, caminhando, empurrando carrinhos de compras, só não vi carros mas acho que ouvi vozes. Pelo menos acho que eram vozes. Tentei apurar o ouvido para captar o que diziam mas as buzinas lá fora não deixavam. 

Ouvi a igreja badalar os sinos, baixinho, como se fosse um ruído de algo muito distante que nem mesmo poderia lhe atestar a veracidade. Vi as pessoas indo para lá, missa provavelmente, os navios seguiam indo e vindo, entrando e saindo do meu umbigo, estariam levando ou trazendo coisas? Não sei qual dessas hipóteses me amedrontava mais, e se levavam para fora algo que me fizesse falta depois? E se estavam trazendo para dentro, não poderia ser algo que me fizesse mal?

Sonho, só pode. Fechei os olhos com força. Contei até dez e os abri. Olhei para baixo, pela lupa mas lá estava a cidade, deveria procurar um médico mas qual? Um clínico? Mais certo um psiquiatra, doutor, há uma cidade vivendo no meu umbigo. Curvei-me ainda mais em contorcionismo para tentar, através da lupa, divisar mais algum detalhe da cidade e seus habitantes, fiz tanto esforço que minhas costas estalaram e, repentinamente, senti como se fosse um tatu daqueles que viram uma bola.

Fui meio que desfalecendo caindo dentro de mim, no umbigo, sem lupa, já não a tinha nas mãos. Fui caindo assim no umbigo que era meu mas da cidade também até dar de cara com o chão de pele que tinha pelos por árvores. Levantei-me, limpei as mãos e meu corpo nu, estava nu, isso não são modos de se apresentar numa cidade que vivia no meu umbigo, tudo bem, o umbigo era meu mas modos são modos e eu os tenho.

As pessoas me cercaram, outras seguiam para igreja ignorantes de minha chegada. O fato de estar nu não parecia incomodar ninguém, as pessoas foram me acolhendo e me tocando, como se já soubessem quem eu era e esperassem minha chegada. Apavorado, nu e dentro de mim mesmo perguntei.

Onde estou? Que lugar é esse, por favor?

As pessoas que me cercavam olharam entre si meio que atônitas, como se a minha pergunta fosse descabida ou até mesmo absurda e então, uma delas olhou-me nos olhos e disse.

Bem-vindo! Aqui é o umbigo do mundo!

4 de mai. de 2020

Quem fica com Jair?

Toca o telefone.

Alô?

Alô.

Quem fala?

Gostaria de falar com?

Humm, o velho está?

Ocupado, quer deixar recado?

Messias?

O próprio.

Ah! Não reconheci a voz, desculpe.

Estou com uma gripe, nada sério.

Certeza? Sabe como é, vindo muita gente doente lá de baixo.

Nada grave, já fiz o teste, e você é...

Ah! Não reconhece? Vai fazer de sonso?

....

Afff, deixa pra lá, sou eu, morte.

Ah! Também não reconheci sua voz, meio diferente.

Cansaço mesmo, nada demais, muito trabalho, o velho soltou essa praga e estou fazendo extra porque não está fácil dar conta mas, nem reclamo, a última vez que trabalhei assim foi quando? AIDS? A Espanhola? Enfim.

E que posso fazer por você?

Eita, está com pressa?

Não muita mas, como você mesma disse, tá corrido né, muita gente e não só aqui. Luci fica ligando o dia todo pra encher o saco, mudamos os sistemas e deu um pau fudido aqui, gente indo pro Luci quando deveria vir pra cá, é isso.

Nossa! Não vão colocar isso na minha conta, né? Só coleto! Não tenho nada que ver com isso não.

Fica tranquila, nada contigo, segue fazendo teu trabalho que o resto a gente acerta aqui mas já vou avisando que tu vai ralar ainda um tempo, aquelas tuas férias, do apocalipse, sabe? Então, já era, o velho mandou cancelar.

O que? Mas eu já tinha falado com ele, porra! Tudo certo, eu tinha reservado passagem e tudo mais! Porra, JC, assim vocês me fodem!

Lamento, o velho já decidiu. Se serve de consolo tá todo mundo aqui puto porque vai ter de fazer extra com essa pandemia e todo o esquema do fim do mundo vai atrasar. Luci tá por conta, disse que se não resolver vem aqui tirar satisfação com ele, quero só ver...

Olha, lá no Egito foi a mesma merda, eu tava de boa, ia tirar uns dias e deixar tudo com meus irmãos, eles iam quebrar o galho e tals mas aí teu pai veio com aquelas pragas e eu me fudi e agora isso de novo?

Pois, se quiser falar com ele, fica à vontade mas tu sabe como ele é. Já decidiu, igual aquela vez que eu desci, ele meteu na cabela que eu tinha de ir e não teve cristo que fizesse ele mudar de ideia e olha que eu tentei.

Enfim, paciência, liguei pra falar de outra coisa.

Diga.

Seguinte, Brasil.

De novo? Não aguento mais, meu! Todo dia gente ligando aqui pra falar dessa merda de país! Caralho! Luci liga aqui reclamando todo dia, TODO DIA, sabe o que é ouvir o Luci reclamar todo dia?

Enfim, não vou reclamar, só um pequeno problema.

Tá, fala logo.

Seguinte, que a gente faz com o Jair?

Como assim?

O que a gente faz com ele, oras?

Como o que a gente faz? Faz o que estava combinado, porra! Ele morre vai pro Luci, ponto final!

Pois é, Luci disse que negativo, nada de mandar ele pra lá, disse que já tinha falado contigo pra falar pro velho que ele não quer o homem lá não.

Como não quer? E ele lá tem querer? Quem ele pensa que é?

Mas ele falou contigo ou não?

Não sei, acho que sim mas não lembro, esse porra liga todo dia pra reclamar de alguma coisa.

Ele disse que falou contigo e que tu ia ver isso do Jair ir pra vocês.

Aqui? Tá louca? Tu perdeu o juízo na peste negra? Jair? Aqui? Hahahahahaha.

Luci disse que se mandar ele pra lá da porta ele não passa e que se mandar ele com os filhos ele fecha o inferno e vaza.

O que? Luci fez o que? Comeu enxofre? Não pode, ele lá tem como fazer isso, tá pondo as asinhas pra fora, ele que se cuide que se me der os cinco minutos eu desço lá e acabo com essa palhaçada, que inferno!

Exatamente. Só liguei porque assim, tá perto da hora de buscar o Jair e eu preciso saber na porta de quem eu largo o infeliz ou tu quer que eu fique com ele a tiracolo por aí?

Não seria má ideia...

Não fode, Nazareno! Já basta eu ter de coletar e ser tratada feito merda, tu sabe o que já ouvi? O que eu já passei? E agora tu que me deixar com esse cara pendurado pra me dar nos nervos? Quer saber, fodam-se vocês, eu largo essa porra toda e eu quero ver quem vai lá pegar o povo, vocês que lutem!

Calma, calma! Calma no além! Não precisa ficar assim também.

Enfim, preciso saber o que eu faço com o Jair.

E os filhos?

Que filhos?

Os dele, porra!

Deixa eu ver aqui, hummm, não, só bem depois, pera, um deles não, vai logo depois mas os outros vai demorar ainda.

Deixa eu pensar, podia fazer um bem bolado com o Luci, sei lá dividir, um pouco pra ele e um pouco sei lá, pro limbo.

Bom, você veja aí o que vai fazer e me fale. Eu só preciso saber onde desovar as almas, mais nada.

Jair está pra sair quando?

Logo, eu tenho umas encomendas na frente mas ele não tarda.

Tá, vou falar com Luci, assim, se tiver de adiantar uns filhos, tem como?

Tu sabe que não, né? Não posso.

Só dessa vez, pra eu poder barganhar com Luci, senão ele vai reclamar.

Se teu velho autorizar, eu faço, dou um jeito aqui, troco alguns e acho que consigo espremer uns deles mas não todos, já aviso.

Beleza! Vou falar com o velho e te ligo de volta, pode ser?

Pode mas não demora! Jair tá meio que no jeito, se vocês ficarem de papo eu pego ele e largo em qualquer lugar e vocês que se virem pra achar depois.

Não seria má ideia...

Tu sabe que eu não posso.

Sim, só falei, de repente, ninguém te culparia, eu falo que tipo você estava muito cheia de coisa pra fazer, sabe como é.

Sei, depois a tonta aqui se fode. Negativo! Fale com o velho e com Luci e depois me liga pra dizer onde eu largo o Jair.

Tá, tá bom! Tentei né, me dá um tempo porque o velho anda de mau humor e Luci vai dar pulos quando eu falar para ele mas ele é de boa, a gente se entende. Mais alguma coisa?

Só fala pro velho que eu quero minhas férias, se ele vier de graça de novo eu mando tudo as favas e quero ver vocês darem conta, talkey?

Tudo bem! Eu falo com ele, pode deixar.

Então tá, vou lá que a pandemia chama, se eu fico cinco minutos fora já fica fila me esperando.

Vai lá, te ligo depois, se cuida!

Você também, um beijo.

Fim da ligação.

29 de abr. de 2020

Distopandêmico

Mais um dia.

Normal. Absolutamente. Normal.

Acordo com o despertador que toca todos os dias a mesma nota monocórdica e, em seguida, automaticamente começa a despejar as notícias que deveriam chamar-se velhicias já que são as mesmas de ontem, semana passada, mês passado e amanhã, semana que vem, mês e ano que vem.

Bom dia, cidadão! Estamos hoje no dia 11894 de nossa Quarentena. A quantidade de pessoas infectadas é 2.909.478.365,6 e a quantidade de mortos até o momento 12.899.765,87. O Governo está trabalhando arduamente para manter a pandemia sob controle, sua participação é muito importante!

Vou ao banheiro e aciono o temporizador, esta semana meu distrito pode usar até 8 minutos de água por unidade habitacional, o temporizador já foi atualizado com essa quantidade, tudo é automático, nós somos, aperto o botão e entro no chuveiro já com a escova de dentes, não há pia pois é um desperdício de água, fazemos tudo no chuveiro onde, agachado, os tubos sanitários se acoplam automaticamente para colher fezes e urina enquanto escovo os dentes. Não, não ha vaso sanitário ou qualquer coisa parecida, um gasto excessivo, desnecessário, os tubos fazem um trabalho muito melhor e usando quase nenhuma água.

O Governo informa que traidores da pátria foram presos e fuzilados na data de ontem. A operação foi um grande sucesso resultando na apreensão de alimentos orgânicos, carne e outros artigos que poderiam contaminar muitas pessoas e matar compatriotas. As autoridades seguem seu trabalho e você, cidadão, pode ajudar denunciando quaisquer atividades suspeitas.

Em seguida, a água fria cai em quatro jatos fortes enquanto de um orifício central escorre um fio de uma gosma branca que usamos para a assepsia geral. Tudo deve ser cronometrado, se nos perdemos em divagações podemos ficar sem banho ou sair dele sem tirar todo o líquido que faz a limpeza. O temporizador emite bipes agudos quando o tempo está por esgotar-se, geralmente aceleramos o processo para evitar não sermos capazes de terminar o banho, o meu já está apitando.

O Governo de sua excelência Jair IX segue trabalhando arduamente para combater não apenas a pandemia mas os inimigos do país. Faça sua parte! Economia é força, obediência é sabedoria, denunciar é amar!

Saio do banho e fico em frente aos jatos de ar quente para secar-me, não há toalhas, desperdício de tecido, os jatos duram exatos 17 segundos durante os quais devo colocar-me de frente e costas para que eles removam toda água. Nu, volto para o quarto-sala-cozinha-utilitário onde já me espera a roupa que usarei no dia. Não há necessidade de guardar roupas, elas são descartáveis e diariamente, recebemos por tubos pneumáticos as que usaremos, embaladas à vácuo, higienizadas e esterilizadas e que deverão ser descartadas ao final do dia na cremalheira central de cada prédio antes de regressar à minha unidade.

O Governo informa uma safra recorde de multi-grãos e sinteproteínas. Isso representa um ganho para nossa sociedade e uma possível solução da crise de abastecimento causada pela pandemia, as autoridade seguem trabalhando para que todos possamos ter o suficiente para viver bem. Lembrem-se: O que é muito para um, é pouco para todos. Economia é força!

O despertador toca novamente avisando que devo me apressar, já começo a me atrasar, não sei como está o tempo lá fora porque não há janelas, todo o ar que respiro vem através de tubos e encanamentos que filtram o ar algumas centenas de vezes até chegar aos meus pulmões. Não há brechas ou espaços nos cantos ou beiradas, tudo é vedado hermeticamente e selado para garantir um ambiente seguro e totalmente esterilizado.

O Governo de Jair IX informa que as celebrações online do aniversário de sua excelência serão transmitidas online no horário de 21:00 logo após os autos de aclamação. Não esqueçam de ouvir atentamente ao pronunciamento, sua atenção é compulsória e as penalidades previstas em lei serão aplicadas aos faltantes.

Apressado, tomo meu desjejum que também já está pronto. Todos os dias, um cardápio balanceado é entregue por um sistema de bandejas autômatas, preparado para atender às minhas necessidades nutricionais diárias, não podemos comprar alimentos, há risco de contaminação, os pratos são entregues em horários pré-determinados e concebidos por nutricionistas que conhecem a fundo o funcionamento do corpo humano e a melhor dieta para otimizar seu desempenho.

E agora, novos números da pandemia...

Já estou atrasado, o despertador informa junto com as mesmas notícias de sempre. Aperto um botão na parede e recebo os itens de segurança que usarei no dia: luvas isolantes, máscaras de tripla camada, óculos protetores, touca protetora e minha dose diária de antiretrovirais, não, não são uma cura, apenas um tratamento paliativo que pode evitar a contaminação ainda que, quase semanalmente, mudem as drogas ante alguma nova mutação do vírus, ele parece mudar mais rápido do que podemos criar novas drogas.

O Governo informa que encontra-se avançado o estudo de antiretrovirais de última geração que, segundo apontam as pesquisas, poderão derrotar o vírus definitivamente! Os testes em humanos devem iniciar dentro de alguns anos. Há esperança! O Governo é de fé!

Estou pronto. A porta sem maçanetas abre ante minha presença, só voltará a abrir quando eu regressar ao fim do dia para repetir todo o processo só que ao inverso, descartar as roupa e equipamentos de proteção, passar pela câmara de descontaminação antes de entrar em minha unidade completamente nu e, uma vez lá dentro, ir direto para o chuveiro. Depois, comer ouvir mais notícias no despertador e aguardar a hora de apagarem as luzes, economia, estamos em pandemia, os recursos são escassos, precisamos fazer sacrifícios. é assim, não podemos ser egoístas nesse momento.

O Governo do excelso Jair IX informa que a pandemia será derrotada com o apoio de todos. Cada um de nós deve fazer sua parte! Acreditem! Nosso país é forte, é unido, somos um povo determinado e os sacrifícios que pedimos a todos são os mesmos que nossos governantes fazem de bom grado! Pátria amada! Somos seus filhos e de nosso líder Jair IX!

21 de abr. de 2020

O povo sem rumo


O povo sem rumo vivia no país sem nome.

Era um pais muito engraçado, não tinha fronteira, não tinha espaço. Ninguém sabia morar ali porque o país não era nação e o povo sem rumo vagava de um lado para outro sem saber ao certo o que faziam, onde iam ou porque estavam ali.

Não havia cidades, estados ou qualquer outra coisa, alguns lembravam de que isso existira um dia mas eram apenas o mais velhos, sobreviventes de tempos difíceis e, conforme morriam, com eles era enterrada essa ideia absurda de que, um dia, aquilo fora um país.

Ninguém acreditava muito nisso, principalmente os mais jovens, achavam que eram histórias senis contadas a beira do fogo para distrair crianças e pregar sustos mas, eventualmente, eles encontravam durante suas andanças, coisas que os idosos chamavam livros e que apenas estes sabiam interpretar. Lá, diziam eles, estavam as provas de que sim, um dia aquilo fora um país mas como apenas eles entendiam o que diziam os tais livros, julgavam que fosse coisa de velhos e não lhes davam atenção.

A vida do povo sem rumo era muito simples, eles simplesmente se fixavam num lugar até esgotar tudo que ele tivesse a oferecer movendo-se, em seguida, para outro que pudesse lhes fornecer sustento e assim por diante. Grupos errantes se cruzavam pelo país, às vezes pacificamente, às vezes nem tanto, principalmente quando grupos identificavam coisas que necessitavam ou cobiçavam, desde alimentos, roupas ou até mesmo pessoas e então, lutavam, muitas vezes até a morte ou submissão do grupo perdedor.

Os anciões lembravam de tempos em que tudo era fácil de conseguir, havia fartura e não era preciso brigar por nada, diziam aos seus que tudo se resolvia com um tipo de papel ou plástico que tinha valor e que podia ser trocado por comida, casa e até mesmo gente. Obviamente, ninguém acreditava, seguiam rindo e dizendo ser coisa de gente velha, contos para entreter as pessoas em noites mais frias e escuras.

O povo sem rumo às vezes encontrava prédios antigos, já meio combalidos e tomados por mato ou até mesmo florestas mas se recusavam a entrar e habitá-los, havia uma superstição comum a todos os grupos de que tais edifícios eram assombrados por fantasmas do tempo de antes, quando todos viviam numa coisa que alguns ainda chamavam de sociedade e que, segundo a mística dos grupos, fora a razão do povo ter ficado sem rumo e do país ter perdido seu nome.

O povo sem rumo seguia vários deuses, cada grupo na verdade possuía suas próprias divindades e não eram poucas as ocasiões em que grupos se digladiavam por conta de suas crenças. Os anciões diziam que também era assim antes e que muita guerra fora travada antes do país deixar de ser país, tudo por causa de deuses diferentes e lamentavam que o povo ainda brigasse por conta disso mas, nada podiam fazer, ninguém ouvia seus lamentos.

O povo sem rumo não tinha em seus grupos líderes, às vezes uma pessoa parecia assumir tal papel mas quase ninguém lhe dava atenção, agiam em bando, como algum tipo de consciência coletiva. Quando algum líder se destacava ou um novo grupo era criado como algum tipo de coletividade afinada com o comportamento de um líder, matava-se o líder pelo bem comum, era um consenso que lideranças eram ruins e que apenas o grupo podia tomar decisões por si e matar um líder era aceito sem reservas.

Os anciões diziam que isso também era devido ao que acontecera antes, nos tempos que ninguém mais se recordava exceto eles. Diziam que antes do povo ficar sem rumo e do país perder seu nome, houve uma grande luta, em todos os lugares do país sem nome, provocada por um líder que alguns chamavam de 'O Capitão' e que parecia ter exercido algum tipo de poder sobre muitos grupos.

Ninguém nem mesmo os anciões sabem ao certo o que aconteceu ao Capitão, uns dizem que morreu pelas mãos de seu grupo, outros que fugiu do país antes que ele perdesse seu nome levando toda sua família consigo, há quem diga que ele ainda vaga pelo país feito um messias pregando sobre tempos que jamais voltarão. Todos riam dessas histórias e pediam aos velhos que parassem de falar bobagens. Os anciões calavam e ficavam ensimesmados, uns choravam, diziam lamentar pelo que tinha acontecido com o povo e com o país cujo nome nem eles lembravam mais.

O povo sem rumo foi vivendo assim no país sem nome até o dia em que o último ancião morreu e com ele, a última lembrança dos tempos de antes. Ninguém chorou a morte do último ancião, ninguém se comoveu, ninguém deu atenção, era dos anciões morrer, não se esperava outra coisa deles além de histórias para entreter o grupo. Enterraram o ancião em um canto qualquer do país sem nome e seguiram sem rumo como sempre haviam feito.

Há uma lenda entretanto que sobreviveu e que alguns passaram adiante incorporando às crenças do povo sem rumo. Dizem que o último ancião, em seu leito de morte, balbuciou um nome que ninguém conhecia ou jamais ouvira mas que estranhamente soava familiar, feito algo que é sussurrado através de um sonho.

Ninguém sabia o que significava a palavra que o ancião proferira com seu último suspiro e, dizem alguns, que parecia sorrir quando disse com seu último fôlego a palavra 'Brasil'.

7 de jan. de 2020

O menino que falava em letras

O menino nasceu mudo, não por alguma falha congênita ou capricho de alguma entidade divina, apenas porque nasceu sem voz e o choro primevo que anunciou sua chegada ao mundo não consistia linguagem antes pavor pela expulsão compulsória do útero protetor.

Os meses após foram de expectativa, pais são criaturas ansiosas e antecipavam as sílabas como se fossem algum tipo de sorte grande, o menino balbuciava algumas coisas, dialeto que apenas as crianças ainda intocadas pelo vírus da linguagem humana entendem, mas papai ou mamãe não vinham, pareciam perdidos em algum lugar dentro daquela compacta massa de gente.

Aflitos, levaram o menino ao pediatra, exames, testes, esperavam o pior, menino quebrado, com falha, de quem fora a culpa difícil dizer já que genes não carregam RG mas já se olhavam de rabo de olho forjando teses para apontar os dedos. O pediatra trouxe calma, apaziguou a família, o menino nada tinha de errado, eram os pais que precisavam de se tratar, a criança faria tudo no seu tempo certo, não eram máquinas, eles que tivessem lá paciência e deixassem o menino seguir seu ritmo.

Assim foi. Passava o tempo e o menino apenas balbuciava algumas sílabas que aos pais soavam estranhas, em línguas mas pareciam totalmente razoáveis ao menino. No intento de fomentar a fala e assumindo que esta poderia ser instigada pela escrita o que, convenhamos, seria algo como perguntar quem veio antes, o ovo ou a galinha, lhe deram um conjunto de cubos letrados perfazendo o alfabeto inteiro.

O menino então transmutou-se. Ante as letras coloridas gravadas nos cubos de madeira do nada passou a compor palavras, papai, mamãe, cachorro, vovó, vovô, muitas vezes com erros de grafia mas as crianças estão isentas das normas cultas, ainda bem, pena que adultas esquecem disso.

Os pais seguiam ansiando pela vocalização, a palavra falada tem peso, força, forma e foco, a palavra falada é desencanto mas encanta as criaturas vocais, o menino seguia apenas balbuciando coisas e já fazia praticamente toda sua comunicação via os cubos. Vendo que mesmo mudo o menino seguia crescendo com saúde e, até onde lhes era permitido entender pela ausência de som, com seu intelecto preservado e faminto, resolveram deixar a medicina de lado e, após bençãos e simpatias darem igualmente em nada, abraçaram que seu filho era assim e que o mundo não carecia de mais gente falando.

O tempo passa. O menino foi para a escola, ler e escrever para ele foi algo tão simples quanto andar e respirar, lidar com outras crianças nem tanto pois seu mutismo era frequentemente causa de choro e brigas. Crianças são assim, há um tipo de maldade único nelas e que às vezes parece mais vil do que a maldade humana que permeia o mundo adulto, talvez por não possuírem ainda um sentido de bem e de mal, por não terem ainda uma consciência totalmente resolvida ou talvez por serem apenas más sem qualquer medo disso.

O menino depois de aprender a escrever passou a comunicar-se com o mundo dessa forma, em seus momentos de solidão arriscou algumas palavras mas elas lhe pareciam ecos horrendos sem sentido, brutas, ásperas, incapazes de traduzir com a profundidade necessária o que sentia. A voz lhe soava algo abominável, pensava em como era possível que as pessoas se comunicassem falando, usando recurso tão grosseiro e alto quando a escrita podia dar conta de tudo e ainda deixar ao interlocutor alguma chance de entender como quisesse a mensagem dada.

Os pais, já conformados, viam o menino crescer e tomara vida pelas mãos sem dar palavra, sua escrita comunicava os momentos de amor, raiva, tristeza, ódio, decepção, alegria, tudo de forma tão reveladora e intensa que as palavras dispensavam qualquer oralidade, conseguia fazer-se entender de forma que poucos falantes conseguiam ou até mais.

O menino cresceu, fez-se homem e foi ganhar seu mundo. Deixou os pais falantes chorando mas resignados pois não se cria um filho para que ele seja apenas a palavra dos pais mas o verbo no mundo.

Certo de sua sina, foi escrever, falar não lhe apetecia, escrever era apenas necessário, por onde ia e com quem tratava usava apenas um pequeno bloco para comunicar-se, alguns o tomavam por doido, outros portador de algum tipo de deficiência mas todos, ao lerem o que ele escrevia, eram tomadas pela surpresa ante tamanha clareza de pensamento e capacidade de expressar na escrita seus sentimentos e o de outros.

E assim, o menino já homem foi ser escritor pois era a única saída para quem tem na palavra seu meio de vida e fala, falar é a involução da alma pois a alma está dentro em algum lugar inexplorado e que apenas a escrita tem acesso e sabe como entender e expressar. A fala é um anacronismo, um resquício de uma evolução errada, nada mais.

Quando lançou seu primeiro livro, o menino-homem estava feliz, exaltado em ter conseguido colocar seus sentimentos em um tomo e poder compartilhar com todos tudo aquilo que ele sempre sentira. Mandou um exemplar aos pais que responderam com uma carta emocionada, ele percebia a fraqueza da escrita deles mas o carinho que lhes nutria suplantava seu preciosismo com a escrita que, para ele, era algo mais importante do que o ar que lhe fazia vibrar as cordas vocais aposentadas.

Mas o mundo oral é pérfido, as palavras faladas são distorcidas e recebem camadas de sentimentos que não deveriam estar lá e, ao invés de ter sua mensagem entendida, o menino-homem foi chamado de insensível, cruel, mórbido, ridículo e outros adjetivos orais e escritos que ele não soube entender já que apenas havia escrito sentimentos em sua forma mais pura, seria possível que ninguém estava preparado para isso?

Entristecido e decepcionado, foi perdendo a vontade de escrever, encontrando a cada dia menos e menos desejo de contato com o papel, a escrita foi enferrujando e tornando-se algo incômodo, um cancro que era atacado pelo oral toda vez que ele aina tentava dizer algo e assim, aos poucos, a escrita foi morrendo dentro dele.

Até que um dia ela simplesmente sumiu e ele, incapaz de se comunicar, viu-se forçado a abrir a boca e buscar dentro de si o som que nunca usara ou ouvira, a palavra morta que não queria mais viver. Abriu a boca um dia e num arrepio que rachou concretos e trincou vidraças soltou um gutural AHHHHHHHHHHHH.

Dedicado ao aniversariante do dia meu amigo Roberto Muniz Dias.

lembranças aleatórias não relacionadas com a infância

Lembrança #10 Lembro de uma festa ou rave ou balada que eu ajudei um amigo a organizar num tipo de sítio eu acho. Estava separado do meu nam...