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8 de jan. de 2021

memórias de um verde desbotado

 


Lembro daquela festa, arrumamos tudo, idas e vindas levando enfeites, pessoas, bebidas. 


Lembro do posto de gasolina onde enchemos dezenas de bexigas pretas e brancas, o carro cheio delas, algumas fugiam de nós como fugíamos de nós mesmos e corríamos para pegá-las mas a nós, jamais alcançamos.

O carro lotado de bolas parecia algo saído de um circo, nós dois nos bancos da frente os palhaços, clichês de nós mesmos, rindo por fora e apáticos por dentro. Já não éramos fazia um tempo mas a cola que nos unia parecia indissolúvel ante promessas de separação e de mera amizade, esse tipo de lenda urbana que permeia os relacionamentos.

Cordiais, mantínhamos um bom relacionamento sem dar o espaço e o tempo necessários um ao outro para que os laços efetivamente se rompessem e pudéssemos quem sabe num futuro nos olharmos com ternura. Éramos jovens demais, ignorantes desses procedimentos pós-amorosos e de alguma forma cármica, incapazes de abrir mão um do outro ou ser, efetivamente, um do outro. No meio disso, achávamos tempo para sermos o que podíamos ser para nós mesmos e o sexo que brotava disso deixava um gosto amargo na alma depois do gozo.

Festa grande, estávamos animados e nem era nossa, de um amigo mas a tratamos como se fosse nossa. Você estava sozinho ou sem ninguém que representasse algum compromisso, eu estava iniciando algo com alguém que se não era você, o lembrava. Meio que o oposto do que eu (achava então) que queria mas ele tinha um real interesse em mim e eu começava a sentir o mesmo por ele, não tinha parâmetros para comparar, você fora o primeiro e mais marcante, não sabia como escolher algo diferente de você no mercado, o diferente me assustava.

Tudo quase pronto, as pessoas começavam a chegar e eu precisava ir buscar meu moço, ia me acompanhar na festa, estávamos bem e eu achava que ia me libertar daquela simbiose meio nefasta que vivíamos. Fui buscá-lo, de quebra, trouxe o DJ que daria som na festa, conhecido nosso, me perguntou sobre você, no carro, eu já com meu moço e uma amiga deste, disse que estava bem mas que não estávamos mais juntos, clima tenso, o moço sentiu o peso no ar, desconversamos. Eu queria gostar dele apesar das diferenças que, se não eram intransponíveis, eram para mim gritantes mas havia mesmo um afeto brotando e o nutri crente de que faria tremer as barragens, imaginarias ou não, que punha entre nós, sentia um gosto de futuro, promissor, dali podia sair algo bom e isso me animava.

Chegamos, a festa já ia alta, muita gente. Acomodamos o DJ e expliquei ao meu moço que estava ajudando nosso amigo e que por isso, não poderia assim aproveitar a festa com ele como desejava. Vocês já se conheciam pois, no dia em que ele me abordou, estávamos juntos num clube, juntos, mas separados, achávamos que podíamos viver assim próximos mas sem nos amar plenamente, queríamos a companhia um do outro mas não o amor, não fechávamos essa equação, quando tentávamos resolvê-la, nos noves fora, acabava a conta não fechando e o final, apesar de sermos par, era sempre ímpar.

Mas achei que era diferente, abria-se o caminho para a libertação e acreditava mesmo que acharíamos nossos caminhos separados mas ainda juntos. Quisera eu saber naquele tempo que maquiamos essas mentiras tão bem que nos parecem verdades, hoje, já não aceitaria essa imitação barata e poria tudo em pratos limpos pois teria antevisto a dor e sofrimento embutidos, escamoteados em nossas aparências de maturidade e amizade fraterna.

Meu moço dançava, eu e você trabalhávamos. A certa altura, você me acua num canto, eu acho mesmo que estava a lhe evitar a noite toda, receoso do ar faminto que captara em você, confuso por não saber se não me queria feliz com outro ou apenas não me queria feliz salvo na infelicidade que compartilhávamos amiúde.

‘Você está me evitando a noite toda...’ brotou a acusação de sua boca e olhos cabisbaixos.

Emudeci, neguei mas era incapaz de fixar meus olhos nos seus.

‘O que você quer com esse cara?’ soltou você seco.

Não sabia o que responder, olhei o chão.

‘O que você quer com esse cara? Ele não tem nada a ver com você, como você pode?’ veio você mais incisivo.

‘E você que o que de mim?’ bruto ‘Não sei, o que você espera? O que quer? Não estamos mais juntos e ele gosta de mim’

‘Gosta?’ respondeu você ‘Mesmo? E você gosta dele?’

Fiquei mudo, esperava que o chão me ajudasse a responder.

‘E você? Gosta dele? Sério mesmo?’ insistiu você.

‘Sim’ sussurrei.

‘Olha pra mim e repete isso que você falou’ disse você.

Vai chão, me ajuda!

‘Olha pra mim, porra! E repete isso que você falou, diz que não sente mais nada por mim’ e com as ultimas silabas saiu um choro honesto, sentido.

Antes que eu compartilhasse de suas lagrimas, sai esbaforido para encontrar meu moço. A festa seguiu, nos evitamos a noite toda mas de relance vi os copos e você em grande intimidade.

Chegava o fim da festa, pessoas indo embora e resolvo dar carona a você e outros amigos que moravam ali perto. Vamos, digo ao moço que volto logo, coisa de minutos, que me espere, ao sair, uma amiga nos vê e profetiza: ‘Não demora!’ com olhar de que sabia como se fecharia a noite. Saímos e um a um deixo todos em casa, você é a ultima entrega da noite.

Desço do carro, você está meio alto, digo até logo mas você me faz entrar, não queria, ou queria sem querer e dentro de sua garagem você me ataca, me aborda e eu ainda em abstinência de você não resisto e tenho uma recaída homérica, nos amamos com fome, desejo voraz, os beijos parecem tirar nacos de carne de nossos corpos, juramos amor, maldizemos a nós presos nesse moto perpetuo de desejo e necessidade absurda, gozamos avidamente e me sinto culpado.

Você entra em casa e eu no carro, volto para a festa muito tempo depois, encontro meu moço dormindo e minha amiga vidente que lê em minha face o que se passou, não tenho como negar, ela nos conhece bem demais para lhe escondermos o que somos.

5 de jan. de 2021

sobre amor, romantismo, relacionamentos, normatividade e outros

 


Pessoas são complexas e, por conseguinte, relacionamentos são complexos desde que o tempo é tempo, desde que passamos a conviver em sociedade ou, se você prefere, desde Adão e Eva tretaram e foram expulsos do Éden.

Todos os modelos de relacionamento são uma construção ou desconstrução social, uma convenção que se aceita ou questiona (condenar é coisa de fascistas, se você condena qualquer tipo de relacionamento, afeto, sexo ou amor, melhor ir lá fazer arminha com o messias) conforme o entendimento de cada um de nós sobre o que é adequado sendo esse tipo de ato em si, um reflexo da bagagem sócio-cultural-familiar-religiosa da qual viemos, uns conseguem ter uma abertura de pensamento e compreender e até mesmo abraçar novos modelos de relacionamento, outros não conseguem romper com essa bagagem e preferem seguir modelos mais tradicionais, normativos e baseados em conceitos e regras normativas que ditam costumes desde que o mundo resolveu ser gerido e não vivido.

Dizer quem está errado e quem está certo em aceitar, questionar, viver, não viver quaisquer tipos de relacionamento não cabe a nenhum de nós, só se você prefere usar a forma de amar alheia como instrumento de subjugar, humilhar e excluir quem ama e se relaciona diferente do normativo maximizando a diferença em nome de uma igualdade que nivela a todos por baixo.
Os modelos tradicionais de relacionamento seguem existindo, jamais deixarão de existir pois são a base e pilar da sociedade mundial (raras exceções) e um excelente método de controle social, moral, político e econômico. Não digo que sejam modelos falidos porque se o fossem, já teriam sido extintos há séculos, a evolução é lenta mas implacável e, com isso em mente, quem ousa contestar tais modelos normativos, os padrões, age em nome da evolução da espécie e é execrado porque representa o novo e, como diz a canção, o novo sempre vem.

Mas, isso não quer dizer que os novos modelos de relacionamento irão sepultar os tradicionais e instaurar algum tipo de 'ditadura orgástica', podem ficar tranquilos que ninguém vai propor uma reforma agrária sexual ou contestar heranças. O que os novos modelos de relacionamento contestam é a visão obsoleta e viciosa de que amar alguém significa emitir nota fiscal, certificado de compra e termo de garantia de felicidade eterna e não se enganem, eu já fui totalmente conservador em termos de relacionamentos, amor e sexo e hoje, cheguei num ponto em que demoli essas crenças e me libertei das amarras que a sociedade desde sempre me infligiu.

A monogamia é bela enquanto item romântico, valorizada nas artes e mídia como valor máximo de lealdade e dedicação de uma pessoa para com outra o que é uma falácia vendida como ouro para manter as pessoas felizes e unidas, pelo bem da sociedade e da tradição, essas coisas que só fazem a gente andar para trás.

O conceito de monogamia é uma construção social perpetuada pela religião e sociedade para manter, acima de tudo, poder e dinheiro dentro dos mesmos círculos assim como a pobreza e a miséria igualmente presas em seus respectivos círculos. Criou-se um conceito de lealdade e traição culpando sentimentos naturais humanos e chamando de pecado e outros nomes o amor e o sexo que sentimos por outras pessoas que não sejam as que elegemos para amar num determinado momento e que deveriam, pela regra, ser a mesma pessoas que amaremos e sexualizaremos até o fim do nosso tempo de vida.

Isso é tão tóxico e perverso que chega às vias do sadismos, fico pensando se as classes inventoras dessa regra não ficam rindo a toa de nós que insistimos em aplicar esse modelo enquanto eles mesmo devem seguir outros modelos amparados pelo poder socioeconômico que lhes dá liberdade e liberalidade absolutos.

Ao insistirmos num modelo que prende uma pessoa a outra por laços e convenções, estamos matando o que de primordial existe em nós, o desejo e ele é responsável por quase tudo que nossa raça construiu, pense como seria se todos os pensadores e cientistas não pudessem dar vazão aos seus desejos? E, antes que venham questionar que são coisas muito distintas, digo que não, o desejo humano é amplo e diverso demais e enclausurá-lo apenas na dimensão do sexo e do amor é de uma limitação mental imensa.

Há uma maldade ímpar em tolher o desejo e o amor uns dos outros demandando que somos suficientes para atender e fazer uns aos outros felizes, satisfeitos e plenos, com isso, passamos a jogar a responsabilidade da felicidade no colo alheio e, quando essa pessoa falha em cumprir o acordo porque é humanamente impossível que ela possa ser responsável por nos fazer felizes, chegamos a culpa, a frustração e acusações de traição e falta de lealdade e amor quando, na verdade, todos são culpados por uma desgraça generalizada a partir do momento em que nos julgamos incapazes de chamar a responsabilidade de sermos felizes para nós mesmos.

Demandar do outro uma lealdade e contrato afeto-sexual é matar o amor em seu berço porque é muito pouco provável (não digo impossível) que durante nosso tempo de vida apenas uma pessoas consiga suprir tudo o que desejamos, sonhamos, sentimos, sexualizamos ou seja o que for e assim, voltamos ao parágrafo anterior onde a responsabilidade é culpa do outro, não nossa.

Recolher e cingir o amor e sexo a um modelo fixo e preso é a razão de cada vez mais precisarmos de psiquiatras e ansiolíticos, terapeutas que nos ensinem a amar e relacionar uns com os outros porque não temos a capacidade de entender que somos complexos e diversos demais para abarcar o amor e o sexo com apenas uma pessoa o que não significa que cada uma das pessoas que amamos, transamos e nos relacionamos, seja o mesmo tempo ou uma de cada vez, tragam uma importância única ou algum tipo de lição, aprendizado seja ele para o bem ou para o mal nos fazendo crescer e encarar alguns fatos.

Não podemos ser donos uns dos outros, para isso já existe a religião e os governos, se não pudermos ter liberdade de amar e transar como e com quem desejarmos estamos fadados e ficar batendo boca nas redes sociais e seguir fazendo o jogo de quem fica lá de cima olhando a gente se demolir. Demandar uma posse de algo que deveria ser universal é um crime hediondo.

E não pense que atesto com isso tudo que os novos modelos de relacionamento são putaria apenas, coisa de gente promíscua e que não valoriza a si e ao outro. Ledo engano esse causado pela visão monocentrada do amor e do sexo, amar e desejar mais de uma pessoa não é isso, não quer dizer que faremos de nossos corpos e almas monumentos hedonistas do prazer mas apenas que reconhecemos a liberdade absoluta de nossos corpos e de nossos afetos, que não nos vemos como amos e senhores uns dos outros mas como iguais, com os mesmos medos, amores e desejos, com o mesmo tesão e necessidade de sermos livres para amar e transar da forma que nos parece melhor e, ao mesmo tempo, de escolhermos a pessoa ou pessoas com quem desejamos ter mais do que um simples flerte ou sexo casual.

Há uma confusão quando se fala de relacionamentos abertos, poliamorosos e afins, que são pessoas que vivem em orgia constante e nada poderia ser mais distante da verdade. Podemos nos atrair e interessar por outras pessoas, ao mesmo tempo, em tempos diferentes e até nem mesmo termos alguém fixo mas, quando temos, aquela pessoas acaba se tornando um centro de tudo que vivemos e a vida que construímos com ela é maior do que qualquer outra coisa que porventura venhamos a ter com outras pessoas, ou pode até ser parte de outra coisa maior que venhamos a ter, quem sabe?

Novos modelos de relacionamento não são o fim do relacionamento mas um passo em direção a evolução dele, não quer dizer que jogamos o amor e o respeito na lata do lixo, o oposto disso pois todos que eu conheço que seguem esse modelo (eu incluso) seguem em relacionamentos longevos e harmoniosos na medida do humanamente possível e não foi a abertura ou a liberdade sexual que pôs me risco a relação ou o amor, se isso aconteceu não foi culpa disso mas de causas já pré-existentes, como dizem, impérios não caem da noite para o dia, eles começas a ruir por dentro.

Acima de tudo, o importante é encontrar o modelo de relacionamento que funciona para você e para a pessoa ou pessoas que você quer ter a seu lado, o combinado não sai caro.

O que sai muito, mas muito caro, é ficar julgando e condenando uns aos outros, que eu saiba, ninguém sai ganhando com isso...

15 de jan. de 2020

Se fiquei esperando meu amor passar...

Ontem comentei neste post sobre HIV-AIDS que meu primeiro namorado muito provavelmente morreu em decorrência de complicações decorridas da doença. Sua família, compreensivelmente, preferiu ignorar tal fato e não cabia a mim contestar essa decisão muito menos confirmar que tivéramos um relacionamento já que estava subentendido e, se alguém deveria ter falado sobre isso, seria ele e não eu.

Enfim. O que desejo aqui é contar um pouco dessa história, será um texto meio longo ainda que me atentando apenas aos fatos principais nos quase cinco anos que passamos juntos, anos de altos e baixos, anos que foram ótimos, que marcaram a ambos e que ainda carrego comigo mesmo depois de tanto tempo, uma lembrança doce de um tempo que se foi e que, apesar dos pesares, continuam com um gosto doce de passado sutil que abriu portas para nós dois e nos fez talvez pessoas menos piores.

O conheci no mais improvável dos locais, Cine Art Palácio ali no Largo do Paissandu outrora cinema de família mas, como tantos outros da região, tornado cine pornô ante a total decadência da região. Nos tocamos e beijamos ali entre aquele odor de suor e sexo, desinfetante barato e travestis flanando atrás de clientes que escapavam para gozar alguns minutos naquele lugar onde sempre era noite.

Lembro que ao final de nos saciarmos um no outro ele me perguntou 'fica comigo?' e eu respondi, meio no descaso, 'quanto tempo?' e ele 'pra sempre'. Mal sabia que aquele pra sempre duraria cinco anos e que o pra sempre, sempre acaba. Saímos de lá e combinamos de nos encontrar na próxima semana ali mesmo no cinema, era um tempo antes da internet, celulares, redes sociais, apps e conhecer alguém estava restrito aos meios físicos e convencionais, humanos, reais, estar online era estar presencialmente na frente da pessoa.

No dia combinado cheguei e esperei, esperei, esperei e esperei. Bolo. Furo. Idiota. Imbecil. Fui embora e quando entrava no metrô, o universo, esse brincalhão sacana, disse a que veio pois dei de cara com ele que me explicou ter atrasado pois a condução estava péssima naquele dia. Fomos para o cinema e ficamos novamente, conversamos, rimos, ali era nosso lugar porque não havia lugar para nós, eram outros tempos e lugares para LGBTQ ainda que existentes eram esconderijos apenas conhecidos pelos iniciados.

Lembro de termos saído algumas vezes, coisas bestas como beber algo ou comer um lanche, éramos adolescentes, incautos, não sabíamos como lidar com aquele desejo que aflorava em nós, apenas sabíamos que um saciaria o desejo do outro. Gostos em comum, coisas em comum, e algo que era amor mas a gente não sabia chamar assim começava a abrir suas portas e convidar a entrar.

Descobrimos uma boite LGBTQ que ficava nos jardins e decidimos ir, não sei se nossos pais sabiam, provavelmente sim mas já éramos maiores de idade e talvez eles achassem parte da construção masculina sair para a noite sem saber que a noite era nossa capa e manto protetor para fazer nosso amor.

Chegamos cedo, a boite estava fechada e ficamos sentados numas escadas em frente ao clube esperando que abrisse. Quando abriu, onde estava a coragem de entrar no lugar? Ficamos ensaiando por vários minutos como chegar, como entrar, que falar, não era comum, não sabíamos como ser gays, não entramos, medrosos fomos embora e vagamos pela Paulista parando nas bancas de jornal vendo revistas importadas e conversando e rindo e nos amando pelos olhos e roubando algum beijo aqui e ali, não haviam lâmpadas criminosas, se haviam estavam longe de nós.

Acabamos indo em outra boite, desvirginados ao mesmo tempo e daí começamos nossa incursão no meio gay, aprendemos a ser LGBTQ na marra, não havia referência nem modelos, não tinha Youtuber nem Influenciador, não tinha blog nem Instagram, tudo que aprendemos foi na carne, no osso, na prática, empíricos de nós mesmos e da vida que se descortinava.

Amar assim tão jovem é foda, você acha que o mundo vai acabar, que tudo vai romper como um raio que parte um tronco ao meio, a vontade de comer o mundo e regurgitar outro é enorme e nossa fome era tanta que acabamos nos fartando de forma errada de nós mesmos.

Não sabíamos amar de verdade, o que pensávamos ser amor era algo diferente para mim e para ele, normal que cometêssemos erros, éramos jovens e ser jovem foi feito para errar e pensar em arrumar depois, guardar como botão de emergência para ocasiões futuras.

Saíamos muito, bebemos muito, fomos a clubes, shows, raves, varamos noites em lugares onde as pessoas não faziam questão de saber quem éramos. O tempo passava e as diferenças entre nós iam aumentando e nós, ao invés de saber que elas são parte do jogo e que devem ser aceitas como parte do todo, usávamos a elas como cavalos de batalha para justificar os erros que cada um cometia, feito agressão planejada, descaso, desprezo, mau amor que você não sabia como tornar bom amor.

Passamos a ter uma relação daquelas nada saudáveis, idas e vindas, períodos sem nos falar e um tal de correr um atrás de outro feito um revezamento bizarro que nunca chegava ao final. Chegamos a nos interessar por outras pessoas mas, quando um de nós sabia disso, fazia uma aparição surpresa na vida do outro para descompensar tudo e fazer voltar aquele amor que achávamos ter tecendo juras de vai ser diferente apenas para desmanchar tais promessas na semana seguinte.

Foi tanto o que vivemos que seria preciso mais de um volume para dar conta, lembro de quase tudo, outras coisas são tênues que às vezes penso ter apenas imaginado, cinquenta anos em cinco, nossas vidas estavam tão emaranhadas que era meio difícil saber onde uma começava e a outra acabava, amiga nossa dizia que nossa ligação era de outro plano e que nossas histórias ainda viveriam outras vidas além desta.

Mas, como diriam alguns poetas e trovadores, tudo tem começo e se começa um dia acaba e assim foi conosco. Depois de anos de uso contínuo, o desgaste atingiu seu limite, não havia mais para onde espalhar a geleia de ressentimento que nos cobria, não era mais uma relação mas uma simbiose nociva e um de nós precisava encarar o fardo de purgar essa patologia e buscar ares mais saudáveis e, (in)felizmente, fui eu a tomar essa decisão e promover esse afastamento antes que nossas vidas se deteriorassem além de qualquer possibilidade de reabilitação.

O corte doeu, não houve curativo grande o suficiente para cobrir o corte mas, com o tempo, ele foi cicatrizando e curando e acabei encontrando o homem que realmente era o amor da minha vida e com quem estou casado há dezoito anos e que desejo passar até o ocaso de meus dias, com ele aprendi o que era amor de verdade não querendo dizer que o primeiro não me tenha ensinado nada, tempos distintos, momentos diferentes, pessoas idem.

O tempo passou com sempre passa, vamos esquecendo as coisas e as pessoas que não mais fazem parte de nossos dias, as guardamos em algum lugar secreto dentro de nós para aqueles momentos em que um aroma, uma música, um filme, um livro ou qualquer outra coisa fará com que lembremos dela de forma cálida deixando nosso semblante com aquele are de nostalgia singela que apenas quem viveu o suficiente sabe.

Chegou uma data festiva, aniversário de alguém da família dele penso eu ou algo assim, não me recordo bem. Já estávamos afastados há anos então mas eu seguia muito próximo de sua família que havia me aceito como se fosse deles. Fui. Foi bom, conversamos, rimos, o tempo passou rápido e fui embora leve com um sentimento de graça e felicidade por ainda poder desfrutar da amizade daquelas pessoas mesmo não sendo mais algo de relevante para uma delas.

Dias depois, a irmã dele me liga e diz que ele, que não havia visto no dia da festa e tão pouco perguntado porque não estava lá, ciente de que eu iria, havia se trocado e esperado minha visita como se fosse certo que eu fosse ao menos passar para vê-lo - ele morava na parte debaixo de um sobrado onde a irmã morava, ela residia na parte de cima e ele e outro irmão na parte debaixo que ficava abaixo do nível da rua.

Aquilo reabriu feridas antigas e partiu meu coração já cicatrizado. Não havia ido com o intuito de vê-lo, já havia superado aquela história e não tínhamos mais nada a dizer um ao outro. O mal estar apenas piorou quando ele me disse que ele andava bem doente, tivera depressão e estava com algum tipo de infecção respiratória, aquilo me arrebatou e me fez chorar, dentro de mim revi aquele moço que me cativara, que quase perdi por que a condução atrasara e o amor que sentia por ele voltou não feito paixão mas como um presente que guardamos para abrir nos momentos em que precisamos nos recordar de algo bom.

Disse a ela que no fim de semana seguinte eu iria vê-lo, que ela por favor o avisasse. Contei ao meu marido - namorado então - o que se passara e que sentia que deveria ir vê-lo e ele disse que iria comigo.

No dia marcado, de coração na mão e garganta árida fui lá, cheguei e sua irmã me recebeu dizendo que ele me esperava. Desci as escadas em direção a sua casa com o coração engalfinhado com uma sensação de aperto e desespero, se por um lado eu queria realmente revê-lo, por outro eu queria enterrar tudo aquilo e não queria voltar a viver nada do que tínhamos vivido, era tudo passado mas por esse mesmo passado eu senti que devia estar ali para pacificar tudo aquilo que havíamos vivido.

O encontro foi breve mas bom, ele estava abatido realmente mas bem até onde pude ver. Nos falamos sem tocar em assuntos do passado, apresentei meu amor e talvez tenha sido o ponto final daquela história toda entre nós, ele intuiu que eu estava bem e amando e eu estava ali para lhe dizer que eu sempre o amaria pois minha vida iniciou com a dele e isso não era pouca coisa.

Ele nos contou que estava fazendo alguns trabalhos manuais e que precisava de materiais, me prontifiquei a levá-lo para comprar na semana seguinte com anuência do meu marido. Combinamos e em seguida me despedi prometendo voltar como combinado. Lembro de ter saído de lá leve, com um sentimento de dever cumprido e apaziguado e acho que ele também deve ter ficado assim, talvez pudéssemos erguer algum tipo de amizade dos escombros que sobraram de nosso amor.

Na semana seguinte quando deveria ir buscá-lo, um dia antes sendo preciso, recebo um telefonema. Do outro lado da linha um primo dele me diz que ele tivera um mal estar súbito e fora levado ao hospital e que infelizmente não resistira e morrera. Sua irmã me disse que ao ser levado de casa pelo resgate repetia seguidas vezes 'Avisem o Alexandre!'.

Talvez soubesse que não retornaria, talvez apenas desejasse me ver mais uma vez antes de partir, talvez fosse apenas desespero, não sei. O que sei é que nos vimos uma última vez antes dele ir e que foi o suficiente para que nos perdoássemos e demonstrássemos que havíamos nos amado e que de alguma forma ainda nos amávamos.

Há quem acredite em coincidências, destino e coisa e tal, eu não sei dizer. Às vezes penso que ele aguardava apenas esse ultimo encontro para poder ter seu descanso de alma tranquila e deixar a mim de consciência apaziguada, uma amiga minha acredita que nossas vidas estão entrelaçadas e que ainda nos veremos em outros planos e vidas, não sei também, quem sabe afinal?

O que acho saber é o fato de que vivemos intensamente um momento único e mágico e por mais dolorosas que algumas lembranças possam ser, o que resta mesmo são as coisas doces e o amor que tivemos um pelo outro, pode não ter sido ideal, pode não ter sido correto ou o amor que esperávamos mas foi o melhor amor que conseguimos nos dar quando a vida parecia não ter nenhum amor reservado para  nós.

7 de jan. de 2020

O menino que falava em letras

O menino nasceu mudo, não por alguma falha congênita ou capricho de alguma entidade divina, apenas porque nasceu sem voz e o choro primevo que anunciou sua chegada ao mundo não consistia linguagem antes pavor pela expulsão compulsória do útero protetor.

Os meses após foram de expectativa, pais são criaturas ansiosas e antecipavam as sílabas como se fossem algum tipo de sorte grande, o menino balbuciava algumas coisas, dialeto que apenas as crianças ainda intocadas pelo vírus da linguagem humana entendem, mas papai ou mamãe não vinham, pareciam perdidos em algum lugar dentro daquela compacta massa de gente.

Aflitos, levaram o menino ao pediatra, exames, testes, esperavam o pior, menino quebrado, com falha, de quem fora a culpa difícil dizer já que genes não carregam RG mas já se olhavam de rabo de olho forjando teses para apontar os dedos. O pediatra trouxe calma, apaziguou a família, o menino nada tinha de errado, eram os pais que precisavam de se tratar, a criança faria tudo no seu tempo certo, não eram máquinas, eles que tivessem lá paciência e deixassem o menino seguir seu ritmo.

Assim foi. Passava o tempo e o menino apenas balbuciava algumas sílabas que aos pais soavam estranhas, em línguas mas pareciam totalmente razoáveis ao menino. No intento de fomentar a fala e assumindo que esta poderia ser instigada pela escrita o que, convenhamos, seria algo como perguntar quem veio antes, o ovo ou a galinha, lhe deram um conjunto de cubos letrados perfazendo o alfabeto inteiro.

O menino então transmutou-se. Ante as letras coloridas gravadas nos cubos de madeira do nada passou a compor palavras, papai, mamãe, cachorro, vovó, vovô, muitas vezes com erros de grafia mas as crianças estão isentas das normas cultas, ainda bem, pena que adultas esquecem disso.

Os pais seguiam ansiando pela vocalização, a palavra falada tem peso, força, forma e foco, a palavra falada é desencanto mas encanta as criaturas vocais, o menino seguia apenas balbuciando coisas e já fazia praticamente toda sua comunicação via os cubos. Vendo que mesmo mudo o menino seguia crescendo com saúde e, até onde lhes era permitido entender pela ausência de som, com seu intelecto preservado e faminto, resolveram deixar a medicina de lado e, após bençãos e simpatias darem igualmente em nada, abraçaram que seu filho era assim e que o mundo não carecia de mais gente falando.

O tempo passa. O menino foi para a escola, ler e escrever para ele foi algo tão simples quanto andar e respirar, lidar com outras crianças nem tanto pois seu mutismo era frequentemente causa de choro e brigas. Crianças são assim, há um tipo de maldade único nelas e que às vezes parece mais vil do que a maldade humana que permeia o mundo adulto, talvez por não possuírem ainda um sentido de bem e de mal, por não terem ainda uma consciência totalmente resolvida ou talvez por serem apenas más sem qualquer medo disso.

O menino depois de aprender a escrever passou a comunicar-se com o mundo dessa forma, em seus momentos de solidão arriscou algumas palavras mas elas lhe pareciam ecos horrendos sem sentido, brutas, ásperas, incapazes de traduzir com a profundidade necessária o que sentia. A voz lhe soava algo abominável, pensava em como era possível que as pessoas se comunicassem falando, usando recurso tão grosseiro e alto quando a escrita podia dar conta de tudo e ainda deixar ao interlocutor alguma chance de entender como quisesse a mensagem dada.

Os pais, já conformados, viam o menino crescer e tomara vida pelas mãos sem dar palavra, sua escrita comunicava os momentos de amor, raiva, tristeza, ódio, decepção, alegria, tudo de forma tão reveladora e intensa que as palavras dispensavam qualquer oralidade, conseguia fazer-se entender de forma que poucos falantes conseguiam ou até mais.

O menino cresceu, fez-se homem e foi ganhar seu mundo. Deixou os pais falantes chorando mas resignados pois não se cria um filho para que ele seja apenas a palavra dos pais mas o verbo no mundo.

Certo de sua sina, foi escrever, falar não lhe apetecia, escrever era apenas necessário, por onde ia e com quem tratava usava apenas um pequeno bloco para comunicar-se, alguns o tomavam por doido, outros portador de algum tipo de deficiência mas todos, ao lerem o que ele escrevia, eram tomadas pela surpresa ante tamanha clareza de pensamento e capacidade de expressar na escrita seus sentimentos e o de outros.

E assim, o menino já homem foi ser escritor pois era a única saída para quem tem na palavra seu meio de vida e fala, falar é a involução da alma pois a alma está dentro em algum lugar inexplorado e que apenas a escrita tem acesso e sabe como entender e expressar. A fala é um anacronismo, um resquício de uma evolução errada, nada mais.

Quando lançou seu primeiro livro, o menino-homem estava feliz, exaltado em ter conseguido colocar seus sentimentos em um tomo e poder compartilhar com todos tudo aquilo que ele sempre sentira. Mandou um exemplar aos pais que responderam com uma carta emocionada, ele percebia a fraqueza da escrita deles mas o carinho que lhes nutria suplantava seu preciosismo com a escrita que, para ele, era algo mais importante do que o ar que lhe fazia vibrar as cordas vocais aposentadas.

Mas o mundo oral é pérfido, as palavras faladas são distorcidas e recebem camadas de sentimentos que não deveriam estar lá e, ao invés de ter sua mensagem entendida, o menino-homem foi chamado de insensível, cruel, mórbido, ridículo e outros adjetivos orais e escritos que ele não soube entender já que apenas havia escrito sentimentos em sua forma mais pura, seria possível que ninguém estava preparado para isso?

Entristecido e decepcionado, foi perdendo a vontade de escrever, encontrando a cada dia menos e menos desejo de contato com o papel, a escrita foi enferrujando e tornando-se algo incômodo, um cancro que era atacado pelo oral toda vez que ele aina tentava dizer algo e assim, aos poucos, a escrita foi morrendo dentro dele.

Até que um dia ela simplesmente sumiu e ele, incapaz de se comunicar, viu-se forçado a abrir a boca e buscar dentro de si o som que nunca usara ou ouvira, a palavra morta que não queria mais viver. Abriu a boca um dia e num arrepio que rachou concretos e trincou vidraças soltou um gutural AHHHHHHHHHHHH.

Dedicado ao aniversariante do dia meu amigo Roberto Muniz Dias.

18 de dez. de 2019

Mas o ódio cega...

Diga-me com quem andas e te direis quem és, diz o ditado.

Só que nessa de dizer quem somos baseado com quem andamos tem muita coisa no meio e não necessariamente as pessoas com quem andamos são um reflexo fiel do que somos porque às vezes, podemos andar com as pessoas erradas por entender que são as certas até que abrimos os olhos e nos damos conta do erro cometido.

Isso definiu quem somos?

Num primeiro momento, confesso que minha reação à agressão sofrida por Karol Eller foi a da maioria leia-se TOME! BEM FEITO! Você é lésbica e vai lá apoiar o messias, fazer arminha, dizer que não há homofobia que é tudo vitimismo, que a comunidade LGBTQ não te representa e coisa e tal, deu no que deu.

Depois, caí em mim e disse não, não pode, estou errado!

Explico - lembrando que esta é a minha opinião, você é e deve sempre ser livre para tirar as suas.

Karol é lésbica e portanto faz parte do L de LGBTQIA+, quando dizemos  BEM FEITO, ELA QUE LUTE e coisas do tipo estamos assumindo o papel do opressor e dando a ele mais munição para nos atacar pois se nós que deveríamos acolhê-la, apoiar e tentar fazer com que ela veja o engano em que havia incorrido ao andar com quem lhe tratava realmente como massa de manobra, a renegamos e dizemos que vá pedir ajuda em outro lugar então o outro lado vai, com propriedade, nos apontar como intolerantes, radicais, preconceituosos e até espalhar boatos de que os agressores foram da esquerda rábida e de outros gays ressentidos da traição de alguém da comunidade.

Percebem como apenas fizemos o jogo deles e saímos mais fragilizados do evento? Quem deveria ser apontado como vilão sai como herói e vice-versa e a rachadura em nosso telhado fez apenas aumentar.

Ela traiu o movimento? Que é traição, meus amores? Ela ou qualquer um de nós é obrigado e concordar com tudo que a militância faz ou diz e digo isso de forma generalizada, ser militante é acima de tudo cobrar não apenas das autoridades e sociedade civil nossos direitos mas apontar onde a militância falha ou age de forma equivocada, aceitar tudo que a militância diz sem questionar nos torna tão ou mais cegos que as pessoas que condenamos do outro lado e, novamente, não estou desmerecendo a militância que ela é essencial e de vital importância para nossa comunidade mas ela não pode nos cegar ao ponto de não sabermos diferenciar erros de acertos, a militância não está acima do bem e do mal.

Quando 'comemoramos' a agressão passamos a ter tanta culpa quanto o agressor e aí fica meio difícil de diferenciar quem é quem, não acham? Qualquer ataque homofóbico deve ser condenado independente de quem seja, se não tivermos esse sentimento de unidade e coesão estamos fadados a morrer como pessoas e movimento enquanto o opressor fica cada vez mais forte, julgar que essa agressão é a lei do retorno é apenas confirmar que esse retorno, ao rirmos de Karol, estará nos esperando na esquina e passaremos o resto de nossas vidas nesse ciclo sem fim, não estaria na hora ou até mesmo passada a hora entendermos que precisamos de UNIÃO e não de SEPARAÇÃO?

Eu realmente espero que ela tenha caído em si e entendido que as pessoas que ela apoia são as mesmas que endossam e incentivam agressões como a que sofreu, que a LGBTQfobia mata mais do que conflitos armados ao redor do globo e que vitimismo é um conceito usado pelo opressor para estrangular qualquer luta por igualidade e representatividade.

Enquanto não entendermos que agredir um membro de nossa comunidade é agredir todos estaremos ainda caminhando para o fracasso a passos largos e dando mais espaço para aqueles que nos querem cada vez menos presentes para não dizer mortos.

lembranças aleatórias não relacionadas com a infância

Lembrança #10 Lembro de uma festa ou rave ou balada que eu ajudei um amigo a organizar num tipo de sítio eu acho. Estava separado do meu nam...