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16 de nov. de 2021

harder. better. faster.

 



Ser gay pode ser maravilhoso na maioria da vezes (e realmente é), desfrutamos de uma liberdade ímpar quando comparados aos padrões normativos de relacionamentos sexuais e afetivos e possuímos uma visão de mundo única que nos permite lidar com as adversidades de uma forma, digamos, menos pesada do que a maioria das pessoas o que, se não é uma regra, é uma grande vantagem.

Somos livres (quase todos ao menos) dos ditames de moral e costumes que corroem a sociedade normativa até a medula e estamos sim remodelando como amar, transar, viver e conviver, é um movimento sem volta mesmo porque, ainda que ao nosso redor existam aqueles que desejam andar para trás ou nem mesmo andar, a evolução só tem uma direção e é para frente então, não adianta reclamar, melhor aceitar o novo porque ele sempre vem e o velho deve ser guardado feito doce memória onde esse novo nasceu.

Sinto orgulho de fazer parte de um tempo em que tantas coisas estão em cheque, questionadas, revistas, remodeladas, reposicionadas, atualizadas para refletir um hoje que não cabe mais em regras tão mortas e, modéstia parte, acho que consigo acompanhar até razoavelmente a velocidade de mudança, já fui um pensamento antigo e modelado pelos padrões em que fui criado assim como boa parte de nós o foi, não há culpa a ser atribuída ou dedo a ser apontado porque somos, além de criações de nós mesmos, produtos do meio no qual estamos inseridos então, se você consegue manter-se atualizado isso é uma vantagem imensa e não digo isso como algum tipo de febre incansável de busca pelo novo que o tempo vai construindo em nós conforme vamos saindo da curva mas como uma necessidade de manter-se dentro do mundo e não fechado em nossos mundos que é receita certa para morrer lentamente.

Mas, ao mesmo tempo, sinto que na comunidade gay (ao menos na masculina) esses ares de progresso parecem ter estacionado décadas atrás.

Explico.

Nós gays homens cis sempre batemos no peito e falamos que a liberdade sexual era a maior conquista, poder transar sem culpa, sem medo (até onde as DSTs permitem), sem neuras e sem ter de fazer análise depois deveria ser a grande herança dos homens gays mas, acaba sendo sua maior prisão e não digo isso de forma moralista ou para cancelar o sexo casual que nós, gays, conseguimos a um clique de distância.

Ao quebrarmos essas regras de acasalamento e remover a procriação deixando o prazer do gozo por ele conquistamos uma liberdade extrema que nos livrou do jugo social imposto pela cultura e religião, excomungados felizes que somos mas adentramos num purgatório cheio de divisões e subdivisões e códigos que nos fizeram perder a essência de sermos criaturas do gozo, do prazer e, porque não dizer, hedonistas.

Essa liberdade que tanto gritamos aos ventos se esvai quando os aplicativos de sexo possuem perfis tão complexos e excludentes que mais parecem bulas de medicação tarja preta, há tantas exceções e normas que uma coisa simples como o sexo torna-se trabalho de conclusão de curso, caso de estudo e o sexo casual vira sexo programado e regrado, se não encaixar nas regras não ocorrerá e não apenas neles mas na famosa noite gay esses mesmos comportamentos seguem existindo mesmo depois de tana luta e suor e lágrimas para conquistarmos a liberdade sexual.

São regras de vestir, olhar, comportar, falar, beber e gestual que implicam numa recusa imediata do outro, dá-se block visual pois se entende que aquele perfil não atende aos requisitos ou então, banimos o outro depois de procurar seu eu on-line e ver se realmente condiz com a realidade ou seja, o eu de carne e osso sempre perderá porque o eu digital é um padrão inatingível, perfeito e imaculado, não há carne, pau ou gozo que possa se comparar.

É triste ver que mesmo de depois de tanto tempo e tanta porrada seguimos numa cultura segregacionista, digitalizada para identificar padrões e descartar o não se encaixa neles ou não atende a um mínimo de requisitos que não se sabe de onde vieram ou quem os determinou. A vida e o sexo são coisas reais, não precisamos de regras para eles, deveria bastar apenas um papo, um olhar ou química para fazer acontecer e não likes, fotos, filtros e considerações sobre aparência.

Falamos muito sobre a 'uberização' de nossa sociedade, a era do delivery e estamos realmente nela principalmente com os aplicativos de sexo e baladas dedicadas ao sexo casual e, veja bem, não quero pagar de moralista, acho válido e excelente que possamos ter todos os meios possíveis de encontrar alguém para sexo seja on-line ou em clubes de sexo, longe de mim querer impor regras para isso porque a maior liberdade que existe é poder gozar sem culpa e sem medo, apenas pelo prazer em si mas, o casual não precisa ser impessoal, descartável, somos todos humanos e temos sentimentos e necessidade de troca com outros para além de fluídos corporais.

Quando descartamos o outro apenas por não estar no perfil, porque a noite é jovem e você ainda pode conseguir algo melhor (aí no final dela bate a neura e você acaba ficando com qualquer um só para não ir embora no zero a zero), esse desuso do outro é um desuso de nós mesmos, estamos esvaziando o que há de melhor em nós e levando junto o que há de melhor no outro via tela de celular e corredores escuros de bares e clubes, não há nada ruim nisso como eu disse mas, essa troca pode ser bem mais gratificante do que alguns minutos e depois nunca mais.

Há um medo do permanente, o descartável é melhor porque não implica em laços ou responsabilidades e sempre existe o próximos perfil, essa cultura de figurinha repetida não fecha álbum deixa a todos nós como álbuns incompletos, estamos cultivando vazios e ficando cada vez mais arredios e imediatistas, precisamos do agora e do próximos, não queremos um agora prolongado porque ele demanda atenção e mais de 140 caracteres e ninguém quer ter tempo para isso, precisamos apenas do rápido porque ele atende a urgência que criamos para nós mesmos, estamos indo cada vez mais rápido e, nesse ritmo, chegaremos ao final antes do tempo, casados, exaustos, com a impressão de que vivemos muito e bem quando na verdade vivemos pouco e mal.... 

5 de jan. de 2021

sobre amor, romantismo, relacionamentos, normatividade e outros

 


Pessoas são complexas e, por conseguinte, relacionamentos são complexos desde que o tempo é tempo, desde que passamos a conviver em sociedade ou, se você prefere, desde Adão e Eva tretaram e foram expulsos do Éden.

Todos os modelos de relacionamento são uma construção ou desconstrução social, uma convenção que se aceita ou questiona (condenar é coisa de fascistas, se você condena qualquer tipo de relacionamento, afeto, sexo ou amor, melhor ir lá fazer arminha com o messias) conforme o entendimento de cada um de nós sobre o que é adequado sendo esse tipo de ato em si, um reflexo da bagagem sócio-cultural-familiar-religiosa da qual viemos, uns conseguem ter uma abertura de pensamento e compreender e até mesmo abraçar novos modelos de relacionamento, outros não conseguem romper com essa bagagem e preferem seguir modelos mais tradicionais, normativos e baseados em conceitos e regras normativas que ditam costumes desde que o mundo resolveu ser gerido e não vivido.

Dizer quem está errado e quem está certo em aceitar, questionar, viver, não viver quaisquer tipos de relacionamento não cabe a nenhum de nós, só se você prefere usar a forma de amar alheia como instrumento de subjugar, humilhar e excluir quem ama e se relaciona diferente do normativo maximizando a diferença em nome de uma igualdade que nivela a todos por baixo.
Os modelos tradicionais de relacionamento seguem existindo, jamais deixarão de existir pois são a base e pilar da sociedade mundial (raras exceções) e um excelente método de controle social, moral, político e econômico. Não digo que sejam modelos falidos porque se o fossem, já teriam sido extintos há séculos, a evolução é lenta mas implacável e, com isso em mente, quem ousa contestar tais modelos normativos, os padrões, age em nome da evolução da espécie e é execrado porque representa o novo e, como diz a canção, o novo sempre vem.

Mas, isso não quer dizer que os novos modelos de relacionamento irão sepultar os tradicionais e instaurar algum tipo de 'ditadura orgástica', podem ficar tranquilos que ninguém vai propor uma reforma agrária sexual ou contestar heranças. O que os novos modelos de relacionamento contestam é a visão obsoleta e viciosa de que amar alguém significa emitir nota fiscal, certificado de compra e termo de garantia de felicidade eterna e não se enganem, eu já fui totalmente conservador em termos de relacionamentos, amor e sexo e hoje, cheguei num ponto em que demoli essas crenças e me libertei das amarras que a sociedade desde sempre me infligiu.

A monogamia é bela enquanto item romântico, valorizada nas artes e mídia como valor máximo de lealdade e dedicação de uma pessoa para com outra o que é uma falácia vendida como ouro para manter as pessoas felizes e unidas, pelo bem da sociedade e da tradição, essas coisas que só fazem a gente andar para trás.

O conceito de monogamia é uma construção social perpetuada pela religião e sociedade para manter, acima de tudo, poder e dinheiro dentro dos mesmos círculos assim como a pobreza e a miséria igualmente presas em seus respectivos círculos. Criou-se um conceito de lealdade e traição culpando sentimentos naturais humanos e chamando de pecado e outros nomes o amor e o sexo que sentimos por outras pessoas que não sejam as que elegemos para amar num determinado momento e que deveriam, pela regra, ser a mesma pessoas que amaremos e sexualizaremos até o fim do nosso tempo de vida.

Isso é tão tóxico e perverso que chega às vias do sadismos, fico pensando se as classes inventoras dessa regra não ficam rindo a toa de nós que insistimos em aplicar esse modelo enquanto eles mesmo devem seguir outros modelos amparados pelo poder socioeconômico que lhes dá liberdade e liberalidade absolutos.

Ao insistirmos num modelo que prende uma pessoa a outra por laços e convenções, estamos matando o que de primordial existe em nós, o desejo e ele é responsável por quase tudo que nossa raça construiu, pense como seria se todos os pensadores e cientistas não pudessem dar vazão aos seus desejos? E, antes que venham questionar que são coisas muito distintas, digo que não, o desejo humano é amplo e diverso demais e enclausurá-lo apenas na dimensão do sexo e do amor é de uma limitação mental imensa.

Há uma maldade ímpar em tolher o desejo e o amor uns dos outros demandando que somos suficientes para atender e fazer uns aos outros felizes, satisfeitos e plenos, com isso, passamos a jogar a responsabilidade da felicidade no colo alheio e, quando essa pessoa falha em cumprir o acordo porque é humanamente impossível que ela possa ser responsável por nos fazer felizes, chegamos a culpa, a frustração e acusações de traição e falta de lealdade e amor quando, na verdade, todos são culpados por uma desgraça generalizada a partir do momento em que nos julgamos incapazes de chamar a responsabilidade de sermos felizes para nós mesmos.

Demandar do outro uma lealdade e contrato afeto-sexual é matar o amor em seu berço porque é muito pouco provável (não digo impossível) que durante nosso tempo de vida apenas uma pessoas consiga suprir tudo o que desejamos, sonhamos, sentimos, sexualizamos ou seja o que for e assim, voltamos ao parágrafo anterior onde a responsabilidade é culpa do outro, não nossa.

Recolher e cingir o amor e sexo a um modelo fixo e preso é a razão de cada vez mais precisarmos de psiquiatras e ansiolíticos, terapeutas que nos ensinem a amar e relacionar uns com os outros porque não temos a capacidade de entender que somos complexos e diversos demais para abarcar o amor e o sexo com apenas uma pessoa o que não significa que cada uma das pessoas que amamos, transamos e nos relacionamos, seja o mesmo tempo ou uma de cada vez, tragam uma importância única ou algum tipo de lição, aprendizado seja ele para o bem ou para o mal nos fazendo crescer e encarar alguns fatos.

Não podemos ser donos uns dos outros, para isso já existe a religião e os governos, se não pudermos ter liberdade de amar e transar como e com quem desejarmos estamos fadados e ficar batendo boca nas redes sociais e seguir fazendo o jogo de quem fica lá de cima olhando a gente se demolir. Demandar uma posse de algo que deveria ser universal é um crime hediondo.

E não pense que atesto com isso tudo que os novos modelos de relacionamento são putaria apenas, coisa de gente promíscua e que não valoriza a si e ao outro. Ledo engano esse causado pela visão monocentrada do amor e do sexo, amar e desejar mais de uma pessoa não é isso, não quer dizer que faremos de nossos corpos e almas monumentos hedonistas do prazer mas apenas que reconhecemos a liberdade absoluta de nossos corpos e de nossos afetos, que não nos vemos como amos e senhores uns dos outros mas como iguais, com os mesmos medos, amores e desejos, com o mesmo tesão e necessidade de sermos livres para amar e transar da forma que nos parece melhor e, ao mesmo tempo, de escolhermos a pessoa ou pessoas com quem desejamos ter mais do que um simples flerte ou sexo casual.

Há uma confusão quando se fala de relacionamentos abertos, poliamorosos e afins, que são pessoas que vivem em orgia constante e nada poderia ser mais distante da verdade. Podemos nos atrair e interessar por outras pessoas, ao mesmo tempo, em tempos diferentes e até nem mesmo termos alguém fixo mas, quando temos, aquela pessoas acaba se tornando um centro de tudo que vivemos e a vida que construímos com ela é maior do que qualquer outra coisa que porventura venhamos a ter com outras pessoas, ou pode até ser parte de outra coisa maior que venhamos a ter, quem sabe?

Novos modelos de relacionamento não são o fim do relacionamento mas um passo em direção a evolução dele, não quer dizer que jogamos o amor e o respeito na lata do lixo, o oposto disso pois todos que eu conheço que seguem esse modelo (eu incluso) seguem em relacionamentos longevos e harmoniosos na medida do humanamente possível e não foi a abertura ou a liberdade sexual que pôs me risco a relação ou o amor, se isso aconteceu não foi culpa disso mas de causas já pré-existentes, como dizem, impérios não caem da noite para o dia, eles começas a ruir por dentro.

Acima de tudo, o importante é encontrar o modelo de relacionamento que funciona para você e para a pessoa ou pessoas que você quer ter a seu lado, o combinado não sai caro.

O que sai muito, mas muito caro, é ficar julgando e condenando uns aos outros, que eu saiba, ninguém sai ganhando com isso...

6 de fev. de 2020

As doenças que não tem cura

Como não bastasse conviver com a doença, toda a carga de preconceito, estigma e problemas que ela acarreta, as pessoas com HIV-AIDS ainda tem de enfrentar um governo que está fazendo de tudo para deixar com que morram sem qualquer ajuda ou apoio vide as declarações do ilustre messias recentemente.

Se dependesse exclusivamente dele, todas essas pessoas seriam deixadas a própria sorte afinal, HIV-AIDS é uma doença de bixa então elas que se cuidem e se virem para buscar tratamento. Tem grana? Ótimo! Não tem? Do governo é que não vai sair dinheiro para tratar essa doença que você mesmo causou com sua pouca vergonha e depravação.

O custo do tratamento de AIDS vem decaindo conforme a medicina encontra medicações mais eficientes e com cada vez menos efeitos colaterais, tratamentos como PReP, PEP e tudo isso aliado a políticas públicas, implantadas no governo do PT para felicidade dos conservadores, que entenderam o AIDS-HIV como problema de saúde pública e não privada, ajudaram milhões de pessoas a terem acesso ao tratamento e obter qualidade de vida, somos referência mundial em políticas e programas de combate e tratamento a doença resta saber até quando.

Esse discurso do messias não é surpresa afinal ele já deixou claro inúmeras vezes o asco que sente de pessoas LGBTQ e além disso, serve como cortina de fumaça para seu gado já que os problemas reais de seu (des)governo seguem aparecendo deixando-o irritadiço e contrariado.

O custo do tratamento de pessoas com AIDS-HIV é ínfimo se comparado ao custo da máquina pública e se comparado ao custo que o governo teria caso essas mesmas pessoas não pudessem ter acesso ao tratamento e começassem a adoecer vítimas das doenças oportunistas que advém se a AIDS-HIV não forem tratados desde cedo mas, na lógica bolsonarista essa conta não existe, pessoas com AIDS-HIV são um fardo para sociedade, um peso, uma despesa pois a doença que tem foi transmitida, em sua concepção torta, pelo sexo gay, são sujas e merecem morrer pois buscaram isso para elas mesmas.

Igualmente, a campanha da Pastora Damares que iniciou agora às vésperas do carnaval pregando abstinência sexual - jura? Antes do carnaval? - como forma de prevenir a gravidez precoce e a transmissão de DSTs funciona mais ou menos como falar para quem quer emagrecer que a melhor coisa é simplesmente parar de comer!

Segundo ela e seu chefe, o carnaval cheio de putaria, a gravidez precoce e as DSTs são tudo culpa dos governos do PT que implantou a bandalheira geral, ainda bem que sou PT, sou da bandalheira generalizada! Isso faz parte do projeto nefasto que eles tem para o país, em outros tempos, já teriam mandado fuzilar meia dúzia mas como pegaria mal, estão desmontando educação, cultura, arte, saúde e agora o nosso gozo, quer fuder? Não pode! Olha a Damares aí!

Pregar a abstinência sexual é um projeto político e não de saúde, não adianta dizer para um doente terminal NÃO MORRA, há que tratar da melhor forma possível mas, na lógica do governo, é preciso controlar o gozo das pessoas porque pessoas livres para transar e gozar como e com quem quiserem são perigosas, nada é mais ameaçador a um fascista que pessoas livres seja em qual sentido for.

Como eles não podem adotar medidas e políticas efetivas e eficazes contra a propagação de DSTs, a gravidez na adolescência e o aumento dos casos de HIV-AIDS entre os mais jovens que a cada ano só faz aumentar sem falar de forma aberta e clara sobre sexo, sexualidade e gênero, adotam a medida de implantar a castidade forçada pois ela traz consigo uma carga moral totalmente condizente com a filosofia do atual governo.

Para combater todas essas questões de forma real e eficaz é preciso implantar uma educação sexual que aborde os temas do sexo, sexualidade e afins de forma clara e direta principalmente aos mais jovens que estão inciando sua vida sexual. É preciso conscientizar, explicar, educar e não proibir, vocês acham mesmo que os jovens ou os mais velhos irão mesmo se abster de foder? Em que mundo esse pessoal vive?

Para finalizar, não basta combater as doenças que mencionei aqui, é preciso combater outras muito mais difíceis de erradicar, a ignorância e o preconceito essas sim doenças que matam muito mais que qualquer outra epidemia ou patologia mas infelizmente, creio que ainda estamos muito, mas muito distantes de obter qualquer tratamento que funcione contra elas e muito menos de uma cura.

13 de jan. de 2020

Mono não é Estéreo

Em outros textos, refleti sobre novas formas de relacionamento e amor e, após ler esta entrevista de Manuel Lucas Matheu, estudioso do sexo e relacionamentos humanos, só passei a ter mais certeza do tipo de relacionamentos que desejo ter em vida (os pós vida não sei porque ainda não temos testemunhos que comprovem como são as coisas do lado de lá).

Fique claro que estas são as MINHAS opiniões e que relacionamentos são complexos e cabe a cada um de vocês encontrar o que funcione para si e para seu companheiro, companheira, companheires. Eu mesmo passei por um processo de desconstrução e ainda me encontro nele pois relacionamentos e o afeto humano não são coisas estáticas mas mutáveis.

Explico essa última frase.

A estagnação, a famigerada zona de conforto e a acomodação são 'patologias' que matam o humano e tudo que o cerca incluso os relacionamentos. Se você busca um relacionamento para ter segurança então sugiro que repense seus conceitos sobre relações humanas pois um relacionamento não é porto seguro de nada, o oposto disso.

Somos criaturas inquietas e termos adotado uma conduta sedentária desde que passamos a dominar as fontes de alimento e tecituras sociais não nos fez menos nômades, apenas trocamos o vagar físico pelo vagar emocional, em termos de sexo e amor seguimos tão nômades quanto nossos ancestrais sendo a diferença as amarras e convenções sociais que ainda tentam conter nosso desejo a uma esfera de socialmente aceito.

Somos tão diferentes da pessoa que fomos ontem quanto da pessoa que seremos amanhã ou da que seremos daqui a cinco minutos, ser humano é ser mutante e evoluir e, assim sendo, um relacionamento precisa evoluir igualmente ou estará fadado ao erro e a causar angústia e frustração a quem estiver nele envolvido.

Achar que seremos felizes para sempre é uma crença horrenda que nos faz buscar cada vez mais por uma felicidade utópica romantizada e vendida como ideal de vida sendo que jamais a conseguiremos e passaremos a preencher o vazio que surge dessa busca inútil com coisas como bens materiais, drogas lícitas ou não e toda e qualquer coisa que ajude a encarar o fato de que tal modelo inexiste fora das percepções e capacidades individuais.

A monogamia é uma construção social que tem suas fundações em noções de moral e tradição elaboradas única e exclusivamente para manter a todos nós em rédeas curtas e, fim principal, a distribuição de riqueza e poder limitada às classes dominantes perpetuando seu domínio e status quo.

É humanamente impossível que sejamos suficientes, no conceito de monogamia, para suprir as necessidades, anseios, desejos, amor, expectativas e porque não fetiches e taras uns dos outros. Na construção monogâmica jogamos esse peso todo nas costas do outro demandando dessa pessoa que seja capaz de suprir tudo isso quando ela mesma faz igual conosco, nesse jogo não há ganhadores pois essa expectativa de locupletação é impossível e, ao final, teremos pessoas infelizes e tão frustradas que acabarão por odiarem-se de forma visceral pelo simples fato de não terem correspondido às expectativas que deveriam ser da responsabilidade individual e não atribuídas aos outros.

Acredito mesmo que durante nosso tempo de vida amaremos mais de uma pessoa seja em tempos diferentes ou ao mesmo tempo e que essas pessoas atenderão a diferentes necessidades nossas de formas diferentes perfazendo o conjunto da obra algo tão próximo quanto possível do que sonhamos ser a felicidade que desejamos.

Algumas pessoas podem ser apenas um dia, horas ou minutos, outras meses, anos, décadas mas cabe a nós e a elas entender o que podemos fazer uns pelos outros para tornar a vida menos miserável e mais agradável e ter a noção de que o amor romântico perpetuado pela arte, mídia e convenções sociais é uma posse terrível que remete aos piores modelos escravocratas.

Denominar-se dono e senhor da felicidade e prazer alheios é um ato sórdido de dominação colonial e reflexo de milênios de regras religiosas e morais caducas que se recusam a evoluir mesmo ante mudanças radicais no tecido dos relacionamentos humanos e, a onda conservadora que vivemos é um ato desesperado para conter essa mudança que, sinto dizer aos moralistas de plantão, não arrefecerá.

O amor e o desejo não podem ter donos, não é saudável que nos consideremos amos e senhores dos corpos e almas e corações uns dos outros quando apenas nós mesmos temos tal autoridade. Essa noção de que somos apenas um para o outro é um sonho distorcido pois o olhar e o sentimento não conhecem barreiras ou regras, vão onde querem e desejam quem quiser e quando isso bate de frente com a imposição monogâmica de unidade geramos o conceito de traição e condenamos o traidor como se houvesse cometido um crime hediondo quando houve apenas sexo, desejo ou amor e qual desses itens pode ser considerado de posse de algum de nós?

Pode parecer que atesto a desfeitura de todos os tecidos sociais e modelos de relacionamento mas não, relacionamentos saudáveis são baseados em respeito, diálogo e companheirismo, o amor romântico surge no começo mas, com o passar do tempo, ele se transmuta em algo maior que transcende as barreiras convencionais e torna-se algo que nos acalenta e alimenta enquanto seguimos pela vida buscando o que nos faz felizes.

Talvez soe paradoxal mas o amor que aprendi a acreditar não é um amor de posse mas um livre que lhe permite ser feliz com a pessoa ou pessoas que você ama seja em qual momento for e creio mesmo que nós LGBTQs temos por obrigação reinventar os relacionamentos ditos padrão já que não refletem as necessidades ou anseios nossos mas são uma herança modorrenta de uma sociedade machista, patriarcal, normativa e zelosa da tradição, família e propriedade.

A monogamia foi a invenção mais perniciosa que a sociedade humana inventou e acredito que estamos começando a aprender como nos curarmos dela mesmo tendo ao nosso redor críticos e ofensores e até mesmo parte da comunidade científica que, algumas vezes, alega que a monogamia é a única via de contenção de DSTs e outras mazelas do corpo e da mente (parcela da ciência que anda de mãos dadas com os crentes e conservadores de plantão).

Se até o som é estéreo, porque nós deveríamos ser mono?

11 de dez. de 2019

Aberto/ Fechado

Antes de começar o texto creio ser de bom tom informar que não tenho a receita para um relacionamento perfeito seja lá o que isso for. A perfeição é um conceito imune ao humano e nociva enquanto padrão já que é excludente de qualquer normalidade que exista implicando em si e em nós conceitos intangíveis e inatingíveis.

Sábado passado estávamos numa mesa de bar, local predileto de filósofos, amantes, bêbados obviamente e tudo isso junto e misturado porque é no bar que nasce a vida e no bar ela acaba quando voltamos para matar a ressaca de antes ou as memórias de sempre.

Enfim. Estávamos. Hidratados com aquele néctar dos deuses e alambiques e adegas e vinhas e por aí vai quando o assunto descamba para monogamia, relacionamentos abertos e suas variações. Acho que, imbuído de álcool, talvez tenha feito uma palestra não desejada mas não menos honesta ou coerente.

Explico, pode ser que leias abaixo cousas que não lhe agradem, lamento e eu realmente não dou a mínima.

Há que esclarecer que amor é amor e sexo é sexo. Sim. Não faça cara de espanto ou venha com aquela frase de que sexo sem amor não existe ou essas invencionices, ambos existem em dimensões totalmente distintas mas intercomunicáveis quando necessário.

O conceito de que o sexo só pode existir com amor foi a invenção e convenção social, moral e judaico-cristã mais absurda que já existiu e que serve apenas para manter a todos com medo do pecado cristão, na rédea para que a sociedade não se transforme numa suruba sem fim e sem freios e sem dono - não que ele não o seja mas sem o sexo, infelizmente - e principalmente, resguardar o dinheiro e posses das grandes famílias tradicionais do poder, o poder em si, a empresa católica rica e funcionando com base na culpa incutida no sexo sujo e tudo isso funcionando de modo a perpetuar o status quo e estruturas sociais vigentes.

Some na equação o conceito de amor romântico idealizado pela arte e reforçado pelos preceitos religiosos de que deve ser e estar acima da carne, esse amor romântico é colocado num patamar de divindade no qual todos nós sacrificamos a vida toda na busca por algo que jamais será alcançado pois é impossível e assim, seguimos em seu encalço acostumando-nos a simulacros de amor com ou sem sexo para encher o vazio que nunca será preenchido.

Transmitimos isso de geração para geração e mais gente passa a vida acreditando que amor deve ser buscado sempre e o sexo deve ser evitado quando possível e que só pode existir em sua plenitude quando acompanhado do primeiro e, se você for mulher, tanto pior pois o amor é uma herança que jamais lhe será concedida e o sexo deve permanecer como prerrogativa do macho que lhe mantém, ao homem é concedido separar amor e sexo pois se espera dele que espalhe sua semente em tantos vasos quanto for possível mas a mulher, esta deve ser apenas do amor e o sexo deve ser sepultado e velado se ela se torna a mais santa da criaturas, mãe.

Esses são modelos de relacionamento e conceitos heteronormativos que nós gays emulamos à perfeição porque até bem pouco tempo - em termos de história - não tínhamos outros ou sequer sonhávamos em construir algo diferente.

Mas, vejo com alegria que estamos contestando tudo isso e criando novos modelos de relacionamentos e amores e sexos totalmente destoantes dos vigentes e, salvo aconteça alguma tragédia e nos tornemos uma teocracia, creio que teremos gentes mais livres e libertas do jugo da moral cristã e aptas a amar da forma que lhes for mais conveniente e quem lhes apetecer.

Mas você não crê no amor? Ouço a pergunta desse lado aí.

Sim. Muito. Demais. Incondicionalmente e piamente.

Acredito no amor e acredito que sexo com alguém que amamos é uma das coisas mais próximas da divindade que existe mas o amor que acredito não escraviza, não é dono de ninguém, não exige nem demanda, não impõe, não fere ou agride.

Quando dizemos EU TE AMO devemos dizer apenas isso, que a pessoa tem uma importância enorme em nossa vida e que ela precisa estar conosco, ao lado, sempre, porque sua presença nos faz bem, é desejada e querida e não que ela é nossa ou nos pertence. Não pertencemos a ninguém que não seja nós mesmos, deixar-se ser de outro é abrir mão de si e de tudo que você pode um dia vir a ser na vida, jogar essa responsabilidade nas mãos de outra pessoa é caminho certo para o desastre pois com o tempo você olhará a culpa que é sua instalada naquela pessoa em que você investiu tanto.

Não podemos possuir ninguém mas podemos amar a todos, atribuir para si que o amor deve ser mutuamente exclusivo é podar as asas de uma ave rara e condená-la a rastejar, desastre na certa. Você se sente capaz de suprir a tudo que a outra pessoa necessita quando muitas vezes nem mesmo ela ou você sabe o que precisa ou quer? É arrogância pura exigir exclusividade e monogamia, é posse, é morte, é egoísta e não é amor.

E o sexo?

Ah! O sexo é apenas sexo gente, eu e vocês somos ANIMAIS, o sexo faz parte de nossas vidas e foi criado para dar prazer, a reprodução é um efeito colateral. Sexo com amor é bom? Claro que é, o melhor mas não significa que o sexo pelo sexo, o tesão, querer gozar, carne, luxúria e tais não sejam coisas boas.

Estamos há séculos sujando o bom nome do sexo, demonizando, perseguindo e tudo porque pessoas sexualmente livres são perigosas porque tem ciência de seus corpos e que o prazer não está nas mãos de outras mas em suas próprias e isso é muito perigoso.

Mas você sempre teve esse tipo de pensamento?

Não, adquiri essa consciência com o passar dos anos, amadurecendo e fazendo muita merda, brigando por razões fúteis e exigindo coisas que eu mesmo era incapaz de oferecer, mentindo, usando de subterfúgios e desculpas, um fardo que cobra seu preço pesado mas, consegui me livrar disso e quando o fiz descobri que era possível ser feliz sem atender expectativas que nunca foram as minhas mas dos outros e da sociedade.

Mas você é casado..

Sim. 17 anos. Não me vejo sem meu marido e ambos evoluímos muito em nosso relacionamento. Foi fácil? Não. Mas também não foi impossível bastou diálogo, respeito, honestidade e muito amor, essas coisas que vivemos falando para os outros mas nunca usamos em nós mesmos, não é?

Hoje quero alguém do meu lado que me deseje feliz e bem, que saiba que eu compartilho com ele uma vida que não compartilho com qualquer outra pessoa e que só consigo ver sentido em minha vida se ele estiver comigo mas, isso não significa que ele me pertence e vice-versa, não quero ser dono de ninguém e não quero que ninguém seja meu dono, não tenho nota fiscal, não fui tirado de uma loja.

Acredito piamente que relacionamentos abertos, poliamorosos ou outros são muito mais saudáveis o que não quer dizer que condene os relacionamentos ditos tradicionais, cada um de nós deve fazer o que julga melhor para si e se um casal encontra seu jeito de fazer as coisas funcionarem então está tudo bem!

Ninguém detém fórmula nenhuma e esses programas e livros de casais que pregam métodos e conselhos para fortaleces casamentos e afins são arapucas, cuidado! Apenas você sabe o que vai lhe fazer feliz, bem, o tipo de amor e de sexo que você quer, não deixo ninguém lhe dizer o contrário.

Amor é sexo e sexo é amor, às vezes eles vem juntos, às vezes separados, às vezes nem vem, às vezes não sabemos se é um ou outro mas se você souber como quer que eles venham vai ser muito mais fácil reconhecer quando chegarem.

lembranças aleatórias não relacionadas com a infância

Lembrança #10 Lembro de uma festa ou rave ou balada que eu ajudei um amigo a organizar num tipo de sítio eu acho. Estava separado do meu nam...