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26 de mar. de 2020

Alphabeto

Lembro de certa ocasião, há anos, quando eu ainda era um jovem despreocupado e amando outro homem de maneira louca e incerta, estávamos no meu carro que ia cheio de bixas e lésbicas.

Era um modelo que à época se costumava designar como GLS acrônimo de Grand Luxo Super até onde sei. Outro carro que estava cheio de amigos nossos emparelhou com o meu e o motorista daquele comboio hétero disse: 'E esse Fiesta GLS?'

Levei alguns segundos para associar o GLS do carro com o GLS de Gays, Lésbicas e Simpatizantes que então, abarcava com folga todo os segmentos do mundo gay e então, caímos na risada. Talvez essa piada hoje não fosse motivo de riso e certamente não faria sentido ante a sigla LGBTQIA+ ou qualquer outra que estejamos usado para designar todos os matizes do movimento.

Tudo isso me veio quando li matéria de João Silvério Trevisan publicada na edição 33 da Revista Serrote onde ele questiona os limites e limitações da sopa de letrinhas que passamos a usar para identificar as identidades de gênero e orientações sexuais.

Tomando como base essa matéria (cujo conteúdo pode ser visto aqui) surge uma provocação: até que ponto a extensão alfabética para dar voz a sexualidades e identidades não normativas ajuda a dar voz ou pulveriza a luta pelos direitos?

Há aqui um paradoxo, penso eu.

Ao adicionarmos mais letras estamos efetivamente dando voz, espaço e reconhecimento a cada segmento que surge e necessita, obviamente, de representação, voz e lugar de fala e não deseja e nem deve, penso eu, delegar sua luta a outros segmentos que não entendem suas demandas ou realidade.

A questão da representatividade deve ser respeitada pois se antes convivíamos todos sob três letras, GLS ou qualquer outra designação usada de fora para catalogar e identificar os gays, fazíamos isso como parte da maioria gay cis que adotava tal sigla como suficiente para determinar nosso clã enquanto as demais identidades e sexualidades seguiam marginais e sobrevivendo das migalhas que o GLS ia conseguindo aos poucos.

Com o avanço da luta pelos direitos gays, outras sexualidades e identidades começaram a sair da sombra generalizante do movimento e passaram a demandar direitos mais específicos que atendessem suas necessidades e anseios, nada mais justo e com isso, o GLS ficou pequeno para acomodar tanta gente a passamos o LGBT, LGBTQ, LGBTQ, LGBTQIA, LGBTQIA+ e outros mais que soam como algum tipo de equação matemática impossível de ser solucionada.

O outro lado dessa moeda é a pulverização da luta pelos direitos e isolamento de grupos o que acaba gerando uma fragmentação do discurso e rachaduras muita vezes irreconciliáveis dentro do próprio movimento enquanto, do outro lado, do lado normativo, seguimos sendo vistos apenas como viados, bixas, sapatões e travestis, não se iludam que eles saibam diferenciar cada uma das letras da sigla que criamos para nós.

Com isso, a vantagem acaba ficando totalmente do lado oposto que tem maior facilidade em legislar contra nós já que seu discurso sim é unificado e não reconhece nossas divisões e sub-divisões. Pensando assim, a provocação/sugestão de Trevisan de encontrarmos alguma outra sigla, palavra ou denominação que seja capaz de abraçar e representar todos nós em cada uma de nossas sexualidades e identidades e que ainda seja capaz de aceitar adições futuras é algo a se pensar profundamente.

Inclusive o termo HOMOSSEXUAL que carrega em si um machismo derivado além de estar estritamente ligado ao sexo e não a identidade de gênero, deveríamos repensar essa palavra, aposentá-la e colocar as cabeças pensantes de todo o movimento, TODO MESMO, para encontrar ou criar alguma outra que seja mais real e afeta a todas as matizes que compõe nosso arco.

Da mesma forma, precisamos repensar a forma de militância de modo a manter as individualidades de cada célula mas unificar o discurso para fazer frente ao avanço conservador que nos devora cada dia com mais voracidade. Não seria a hora de colocarmos as 'diferenças' de lado e fazer uma frente única? Recriar essa sigla extensa que para os normativos não faz sentido algum saindo com algo que fosse mais direto e representasse a todos nós independente de qual letra pertençamos?

Posso incorrer num erro grosseiro aqui afinal, sou homem, gay, branco, cis então me foge completamente a realidade de luta de outras sexualidades e identidades. Talvez meu discurso seja uma utopia ou até mesmo uma ofensa aos mais radicais ou puristas mas, expresso estas opiniões despido de qualquer desejo de roubar a luta de quem quer que seja e imbuído do mais sincero desejo de que nos unamos para lutar contra um inimigo comum que está se aproveitando de nossas rachaduras para infiltrar seu discurso de ódio e nossa destruição.

Não valeria a pena baixarmos as armas que estamos apontando uns contra os outros e apontá-las contra esse inimigo peçonhento que nos ameaça?

6 de fev. de 2020

As doenças que não tem cura

Como não bastasse conviver com a doença, toda a carga de preconceito, estigma e problemas que ela acarreta, as pessoas com HIV-AIDS ainda tem de enfrentar um governo que está fazendo de tudo para deixar com que morram sem qualquer ajuda ou apoio vide as declarações do ilustre messias recentemente.

Se dependesse exclusivamente dele, todas essas pessoas seriam deixadas a própria sorte afinal, HIV-AIDS é uma doença de bixa então elas que se cuidem e se virem para buscar tratamento. Tem grana? Ótimo! Não tem? Do governo é que não vai sair dinheiro para tratar essa doença que você mesmo causou com sua pouca vergonha e depravação.

O custo do tratamento de AIDS vem decaindo conforme a medicina encontra medicações mais eficientes e com cada vez menos efeitos colaterais, tratamentos como PReP, PEP e tudo isso aliado a políticas públicas, implantadas no governo do PT para felicidade dos conservadores, que entenderam o AIDS-HIV como problema de saúde pública e não privada, ajudaram milhões de pessoas a terem acesso ao tratamento e obter qualidade de vida, somos referência mundial em políticas e programas de combate e tratamento a doença resta saber até quando.

Esse discurso do messias não é surpresa afinal ele já deixou claro inúmeras vezes o asco que sente de pessoas LGBTQ e além disso, serve como cortina de fumaça para seu gado já que os problemas reais de seu (des)governo seguem aparecendo deixando-o irritadiço e contrariado.

O custo do tratamento de pessoas com AIDS-HIV é ínfimo se comparado ao custo da máquina pública e se comparado ao custo que o governo teria caso essas mesmas pessoas não pudessem ter acesso ao tratamento e começassem a adoecer vítimas das doenças oportunistas que advém se a AIDS-HIV não forem tratados desde cedo mas, na lógica bolsonarista essa conta não existe, pessoas com AIDS-HIV são um fardo para sociedade, um peso, uma despesa pois a doença que tem foi transmitida, em sua concepção torta, pelo sexo gay, são sujas e merecem morrer pois buscaram isso para elas mesmas.

Igualmente, a campanha da Pastora Damares que iniciou agora às vésperas do carnaval pregando abstinência sexual - jura? Antes do carnaval? - como forma de prevenir a gravidez precoce e a transmissão de DSTs funciona mais ou menos como falar para quem quer emagrecer que a melhor coisa é simplesmente parar de comer!

Segundo ela e seu chefe, o carnaval cheio de putaria, a gravidez precoce e as DSTs são tudo culpa dos governos do PT que implantou a bandalheira geral, ainda bem que sou PT, sou da bandalheira generalizada! Isso faz parte do projeto nefasto que eles tem para o país, em outros tempos, já teriam mandado fuzilar meia dúzia mas como pegaria mal, estão desmontando educação, cultura, arte, saúde e agora o nosso gozo, quer fuder? Não pode! Olha a Damares aí!

Pregar a abstinência sexual é um projeto político e não de saúde, não adianta dizer para um doente terminal NÃO MORRA, há que tratar da melhor forma possível mas, na lógica do governo, é preciso controlar o gozo das pessoas porque pessoas livres para transar e gozar como e com quem quiserem são perigosas, nada é mais ameaçador a um fascista que pessoas livres seja em qual sentido for.

Como eles não podem adotar medidas e políticas efetivas e eficazes contra a propagação de DSTs, a gravidez na adolescência e o aumento dos casos de HIV-AIDS entre os mais jovens que a cada ano só faz aumentar sem falar de forma aberta e clara sobre sexo, sexualidade e gênero, adotam a medida de implantar a castidade forçada pois ela traz consigo uma carga moral totalmente condizente com a filosofia do atual governo.

Para combater todas essas questões de forma real e eficaz é preciso implantar uma educação sexual que aborde os temas do sexo, sexualidade e afins de forma clara e direta principalmente aos mais jovens que estão inciando sua vida sexual. É preciso conscientizar, explicar, educar e não proibir, vocês acham mesmo que os jovens ou os mais velhos irão mesmo se abster de foder? Em que mundo esse pessoal vive?

Para finalizar, não basta combater as doenças que mencionei aqui, é preciso combater outras muito mais difíceis de erradicar, a ignorância e o preconceito essas sim doenças que matam muito mais que qualquer outra epidemia ou patologia mas infelizmente, creio que ainda estamos muito, mas muito distantes de obter qualquer tratamento que funcione contra elas e muito menos de uma cura.

30 de jan. de 2020

Saída



Tenho, com dois amigos, um podcast sobre literatura LGBTQ chamado ORGULHO CAST - disponível nas principais plataformas, ouve lá, não custa, você ouve coisa pior e até gosta que eu sei!

Gravamos quinzenalmente um episódio em que discutimos um livro previamente escolhido e lido por todos os três e sobre os assuntos e temas que o livro em si aborda e, no último episódio, falamos sobre sair do armário.

Tema delicado.

Todos temos opiniões muito pessoais sobre isso, sobre como e quando fazer, se é ou não preciso fazer e não foi diferente entre nós mas, pessoalmente, creio que essa saída do armário é de vital importância na construção da pessoa LGBTQ que você será.

Sair do armário é uma decisão muito delicada e pessoal, ninguém deve fazer isso por você e esses movimentos de OUTING em que pessoas são arrancadas de seus armários e tem sua sexualidade exposta são horrendos pois ninguém além de você deve saber quando e como fazer isso e mesmo se deseja fazê-lo, não cabe a mais ninguém.

Pode parecer algo fácil de fazer ainda mais se considerarmos que nos dias de hoje, assumir-se pode ser algo menos traumático do que, por exemplo, há quinze ou vinte anos mas, não se engane, ainda é um tema delicado e complexo ainda mais na atual estrutura conservadora da sociedade que está dificultando a vida das pessoas LGBTQ o máximo quanto for possível.

Há várias coisas a pesar na decisão de se assumir como família, amigos, trabalho, sociedade, tudo isso deve ser muito bem pensado e ponderado e, se for preciso, procure ajuda profissional pois às vezes não é um fardo fácil de se carregar sozinho, temos instituições, ONGs e profissionais capacitados para guiar você nesse caminho e ajudar a encontrar a melhor maneira de sair do armário.

Por mais que tenhamos muitos avanços nas questões de visibilidade, representação e direitos LGBTQ ainda somos um dos países que mais matam e discriminam pessoas LGBTQ e muitos de nós, ao dar esse passo tão importante na construção de sua identidade, perdem todo apoio familiar, de amigos e ficam em situação de extrema vulnerabilidade e fragilidade. São comuns ainda, infelizmente, os casos de pessoas LGBTQ que ao se assumirem são expulsas de casa e passam a viver em situação de rua ou são jogadas para a criminalidade ou prostituição porque não veem qualquer apoio vindo de onde quer que seja.

Mesmo assim, assumir-se, falar em alto e bom som que você é LGBTQ, é libertador, ninguém deve ter medo de falar abertamente sobre sua sexualidade, não é algo vergonhoso mas algo a ser celebrado, é parte de quem você é, te define e constrói sua identidade como pessoa.

Esse discurso de que não preciso falar, não desejo expor minha intimidade e coisa e tal é um armário dentro do armário, enquanto você não aprender a lidar com sua sexualidade de forma aberta, direta, não reprimida e naturalmente você seguirá saindo e entrando do armário vezes seguidas o que é um desperdício de vida e energia.

Não devemos ter medo de falar que somos gays, lésbicas, trans, travestis, não binários, seja o que for, precisamos é bater no peito e falar isso aos quatro ventos, não tenha vergonha de ser quem você é, quem estiver ao seu lado é que precisa aprender a lidar com isso, não você e essa a questão principal: antes de se assumir para outros, assuma-se para si, olhe no espelho e diga em alto e bom som EU SOU LGBTQ!

Sem se assumir para você não faz sentido assumir para outros porque você ainda não terá isso resolvido dentro de si, quando tiver, não esconda, não pense que isso deve ficar restrito ao pessoal, ao íntimo, isso é esconder quem você é e você é uma criatura LGBTQ linda e única que merece respeito e amor, não deve jamais ter vergonha de dizer abertamente quem é, essa vergonha pertence ao olhar do outro e esse olhar pouco tem a acrescentar senão julgamentos e opiniões que não irão mudar em nada sua vida ou sexualidade muito pelo contrário.

Ser LGBTQ é uma coisa maravilhosa, ser LGBTQ e poder falar isso em alto e bom som sem medo, sem culpa e com orgulho, não tem preço!

lembranças aleatórias não relacionadas com a infância

Lembrança #10 Lembro de uma festa ou rave ou balada que eu ajudei um amigo a organizar num tipo de sítio eu acho. Estava separado do meu nam...