5 de out. de 2020
vendo a banda passar
25 de set. de 2020
doente é você, não eu
Quem é o doente? Quem precisa de tratamento? Quem precisa de internação?
Não eu que nasci viado e morrerei assim graças a todas as entidades que oxalá regem o universo e o nosso destino, se há reencarnação, peço para voltar ainda mais bixa, trixa, homossexual terrível e padecendo do mais alto grau de homossexualismo.
Melhor do que voltar hétero, conservador, pai de família, conservador, moralista, ministro da educação, bolsonarista ou da familícia 17, melhor do que ser crente e cristão, melhor do que ser temente a deus, melhor que ser da fé, melhor que ser desses que pregam o amor de deus e ódio de satanás, melhor do que ser parte da família torta brasileira.
Homossexualismo é uma doença lida, todos deveriam contrair, epidemia, pandemia, espalhar feito rastilho de glitter, de sexo, falta paudemia, falta epidermia, falta mais gozo, se todos pegassem homossexualismo seríamos maia felizes porque estaríamos preocupados em gozar, em ouvir a última música da Kylie, da Gaga, da Madonna e de todas as divas que lacram o caminho do normativo.
Estaríamos preocupado em escolher a roupa para ir na balada, em chamar os amigos pro esquenta, pra ir no Arouche, na Parada, na festa bapho que vai ser lendária, na sauna e cinemão onde os paus não tem nome mas todos dizem amém, em fazer piada com tudo e rir nos momentos mais tristes porque homossexualismo tem como sintoma uma alegria de ser e existir já que o mundo e a sociedade insistem em nos fazer chorar todo santo dia.
Estaríamos mais preocupados em ver a última temporada de RuPaul, em ver aquela série babado, em trocar informações e impressões e não fake news, em amar como se não houvesse amanhã porque para quem é gay o amanhã muitas vezes é algo inexistente ou tão incerto quanto os números da loteria, em trepar como se não houvesse amanhã porque o sexo liberta e alivia, se as pessoas que falam merda e apontam dedos trepassem mais teríamos um mundo melhor.
Então, vamos passar o homossexualismo para todo mundo, vamos infectar a todos, chamem a gente para pegar essa doença maravilhosa, chega de COVID, chega de doenças que matam, venham pegar homossexualismo com a gente, pega fácil, basta um beijo, um pega, se quiser garantir o contágio podemos fazer sexo, será um prazer, garantido! Vamos infectar o mundo com o homossexualismo, vamos deixar todos viados, trans, queer, gays, vamos tornar todos doentes de homossexualismo terminal, sem vacina, sem tratamento, sem internação, sem lockdown, sem quarentena, sem isolamento.
Porque estágio terminal de homossexualismo é ser vivo, ser gente, ser você.
Porque vacina para homossexualismo é viver sem preconceito, sem medo, sem ter de justificar quem somos ou como amamos.
Porque tratamento para homossexualismo é ser feliz, é gozar, é viver sem ter de satisfação aos outros.
Porque internação para homossexualismos é balada, bar e fervo.
Porque lockdown para homossexualismo é festa fechada com amigos queridos.
Porque quarentena para homossexualismo é maratonar a vida.
Porque isolamento para homossexualismo não existe, quem nos isola são vocês aí do outro lado.
4 de ago. de 2020
o que é igual nem sempre é justo
Você, sim você mesmo que corrobora esse discurso de extrema direita seja dos vivos ou dos já despachados para o outro lado, antes de liberar minha verbohomorragia sobre seus argumentos fascistas, alguns esclarecimentos que entendo serem mais do que aplicáveis batendo na mesma tecla e sim, porque batendo na mesma tecla há que se achar por fim sua afinação e fazer calar o descalabro cacofônico que esse discurso ódio insiste em marcar em nossa carne tenra e homossexual, essa mesma que você não aceita ou entende mas não consegue tirar da boca sedenta de sangue rosa.
Homossexualismo é o caralho: não se usa mais, tente Homossexualidade já que desde meados dos anos 90 ser gay não é mais (nunca foi) doença e isso pela OMS e todo aparato médico e científico que se preza restando apenas conceitos morais e religiosos mais vagos que plenário em feriado prolongado.
Minoria: entende-se por minoria uma parcela de um grupo ou população que não faz parte ou comunga das regras e/ou conceitos e preceitos ditados ou praticados pela maior parte desse mesmo grupo/população o qual, via de regra, denomina-se maioria. Considerando-se esse conceito equitativo então não vejo como a parte pode ditar o comportamento do todo quando o inverso pode e geralmente é praticado.
Opção: melhor buscar outro termo, que tal orientação já que está mais próximo do que somos posto que assim viemos ao mundo sem qualquer tipo de interruptor que permita ligar/desligar quem atiça nossos hormônios.
Ditadura gay: sério? Vamos pensar um pouco, nesse tipo de regime de exceção certa parcela do grupo impõe às demais as regras e isso resumindo de forma muito branda um tema muito complexo e, extrapolando para nós gays, se implantarmos esse tipo de regime garanto que a sua vida seria algo muito melhor mas, me foge por completo agora qualquer caso onde uma dita minoria tão ferrenhamente perseguida e hostilizada ter condições de um golpe de estado tão elaborado.
Acho graça e tenho dó que, ao mesmo tempo que seja preciso se paramentar de teorias tão eugenistas disfarçadas de moralismo para embasar sua defesa de algo que é indefensável (e não digo que seja sua não aceitação ou entendimento de nosso 'modo de vida' já que posso entender que você não deseje ou consiga fazê-lo, tudo bem eu respeito como seu direito tanto quanto os que desejo para mim) mas, a discriminação velada de respeito ou justificativas pseudo-científicas chega a ser pior que a aberta e declarada, é o pior tipo de preconceito, o mais nefasto e mórbido pois come em silêncio e é porta certa para sorrateiramente formalizar e justificar ataques às minorias.
Outro detalhe importante e exposto acima, você que é hetero, caucasiano e goza das benesses da maioria pode achar graça ou mesmo um disparate esse discurso todo em cima de nossos direitos e como gasta-se muita saliva no tema enquanto propostas para melhorar a sua vida são deixadas de lado. Sua visão, sinto dizer, é por demais tacanha e limitada se assim pensa pois se há um único culpado pela penúria em que você alegadamente diz viver, esse culpado está no espelho mais próximo ao seu alcance e não no gay ao seu lado.
Para você a vida sempre foi mais simples ainda que você chore por mazelas que fariam um miserável corar. Você é a maioria, nunca precisou disfarçar nada além de algumas mentiras bestas aqui e acolá enquanto muitos de nós precisamos disfarçar a essência do que somos e sentimos, sabe o que é isso? Fingir ser o que não se é apenas para atender à maioria? As regras estavam e estão ao seu lado afinal você dita o que deve ser considerado como padrão forçando-nos a perseguir um ideal que não tem absolutamente nada a ver com nossas vidas. Assim, só posso sinceramente sentir pelo seu benefício social que é minguado ou pelas falhas do sistema que você, enquanto maioria, ajuda a manter onde e como está mas jamais venha esfregar na minha cara que os direitos que pleiteamos são o motivo pela situação em que você se encontra pois do pão que você sempre comeu temos nos alimentado há anos apenas das migalhas mofadas e inverter essa equação seria o mesmo que culpar os escravos e não o senhor pela situação em que se encontram.
Se desejamos estabelecer algum padrão esteja certo de que não é de comportamento ou modelo social já que tais modelos estão claramente falidos e foram implantados por você e sua maioria restando a nós apenas emular tais cenários e tentar como nos é possível reinventar essas convenções e isso, meu caro, assusta muito pois mostra a possibilidade da escolha independente de gênero ou orientação sexual e quando somos confrontados com as escolhas que poderíamos ter feito e não fizemos temos apenas o temor cego do desconhecido que é esse território. O único modelo que desejo implantar é o modelo onde eu possa ter os mesmos direitos que você e você pode retrucar que já temos esses direitos o que novamente sinto dizer é mentira deslavada pois enquanto eu não puder ser quem e como sou aberta e claramente, não às escusas ou longe dos olhos de todos, declarar meu amor e afeto de forma tão natural quanto o seu que prevalece há milênios em detrimento do meu legado às sombras, então não temos os mesmos direitos e há um abismo enorme entre nós o qual só faz aumentar com sua ignorância e medo.
Eu entendo seu temor e como amparar esse medo todo em teorias nefastas disfarçadas de intelectualidade lhe traz segurança e justificativa mas, se o intelecto serve ao bem com extrema facilidade (e na grande maioria dos casos como reza nossa História, tristemente) serve também ao mal e põe o lobo em sedas para que lhe toquemos a pele sem temer até que lhe vejamos os dentes e seja tarde demais para escapar ao bote.
Nesses casos, é mais fácil atacar a minoria que busca por seus direitos pixando sua luta como inconsequente e motivada a desviar o foco de outros pontos mais importantes e, de certa forma, concordo com você pois fomos jogados no olho da tormenta como bucha de canhão e de nós fizeram cavalo de batalha para expor apenas a bestialidade alheia, nada mais. Porém, que pensar de uma sociedade que não entende ou atende suas minorias? Seria melhor se os viados ficassem restritos a esquetes cômicos e pejorativos de televisão ou guetificados em áreas específicas? Mas, se fosse assim então não estaria você hoje ainda comprando e vendendo escravos no mercado municipal? Minoria boa é aquela que sabe comportar-se como tal, quando passamos a questionar e demandar de vocês maioria mais do que nos dão então somos o cão que morde a mão alimentadora só que o caminho, uma vez aberto, não tem volta, é fato!
Sei que você preferiria que nessa eleição outros assuntos tivessem vindo à baila para discussão e mais uma vez estou de acordo mas, prefiro pensar que se estamos discutindo ainda que porca e nojentamente assunto tão importante então estamos no caminho certo pois estamos discutindo não apenas os direitos que você sempre gozou e que nunca tivemos mas, penso, todo o conceito de sociedade que desejamos ser doravante e que será, tenho fé por seus filhos e os de todos nós, mais lá frente, um lugar menos agressivo e mais compreensivo para vivermos.
26 de mar. de 2020
Alphabeto
Era um modelo que à época se costumava designar como GLS acrônimo de Grand Luxo Super até onde sei. Outro carro que estava cheio de amigos nossos emparelhou com o meu e o motorista daquele comboio hétero disse: 'E esse Fiesta GLS?'
Levei alguns segundos para associar o GLS do carro com o GLS de Gays, Lésbicas e Simpatizantes que então, abarcava com folga todo os segmentos do mundo gay e então, caímos na risada. Talvez essa piada hoje não fosse motivo de riso e certamente não faria sentido ante a sigla LGBTQIA+ ou qualquer outra que estejamos usado para designar todos os matizes do movimento.
Tudo isso me veio quando li matéria de João Silvério Trevisan publicada na edição 33 da Revista Serrote onde ele questiona os limites e limitações da sopa de letrinhas que passamos a usar para identificar as identidades de gênero e orientações sexuais.
Tomando como base essa matéria (cujo conteúdo pode ser visto aqui) surge uma provocação: até que ponto a extensão alfabética para dar voz a sexualidades e identidades não normativas ajuda a dar voz ou pulveriza a luta pelos direitos?
Há aqui um paradoxo, penso eu.
Ao adicionarmos mais letras estamos efetivamente dando voz, espaço e reconhecimento a cada segmento que surge e necessita, obviamente, de representação, voz e lugar de fala e não deseja e nem deve, penso eu, delegar sua luta a outros segmentos que não entendem suas demandas ou realidade.
A questão da representatividade deve ser respeitada pois se antes convivíamos todos sob três letras, GLS ou qualquer outra designação usada de fora para catalogar e identificar os gays, fazíamos isso como parte da maioria gay cis que adotava tal sigla como suficiente para determinar nosso clã enquanto as demais identidades e sexualidades seguiam marginais e sobrevivendo das migalhas que o GLS ia conseguindo aos poucos.
Com o avanço da luta pelos direitos gays, outras sexualidades e identidades começaram a sair da sombra generalizante do movimento e passaram a demandar direitos mais específicos que atendessem suas necessidades e anseios, nada mais justo e com isso, o GLS ficou pequeno para acomodar tanta gente a passamos o LGBT, LGBTQ, LGBTQ, LGBTQIA, LGBTQIA+ e outros mais que soam como algum tipo de equação matemática impossível de ser solucionada.
O outro lado dessa moeda é a pulverização da luta pelos direitos e isolamento de grupos o que acaba gerando uma fragmentação do discurso e rachaduras muita vezes irreconciliáveis dentro do próprio movimento enquanto, do outro lado, do lado normativo, seguimos sendo vistos apenas como viados, bixas, sapatões e travestis, não se iludam que eles saibam diferenciar cada uma das letras da sigla que criamos para nós.
Com isso, a vantagem acaba ficando totalmente do lado oposto que tem maior facilidade em legislar contra nós já que seu discurso sim é unificado e não reconhece nossas divisões e sub-divisões. Pensando assim, a provocação/sugestão de Trevisan de encontrarmos alguma outra sigla, palavra ou denominação que seja capaz de abraçar e representar todos nós em cada uma de nossas sexualidades e identidades e que ainda seja capaz de aceitar adições futuras é algo a se pensar profundamente.
Inclusive o termo HOMOSSEXUAL que carrega em si um machismo derivado além de estar estritamente ligado ao sexo e não a identidade de gênero, deveríamos repensar essa palavra, aposentá-la e colocar as cabeças pensantes de todo o movimento, TODO MESMO, para encontrar ou criar alguma outra que seja mais real e afeta a todas as matizes que compõe nosso arco.
Da mesma forma, precisamos repensar a forma de militância de modo a manter as individualidades de cada célula mas unificar o discurso para fazer frente ao avanço conservador que nos devora cada dia com mais voracidade. Não seria a hora de colocarmos as 'diferenças' de lado e fazer uma frente única? Recriar essa sigla extensa que para os normativos não faz sentido algum saindo com algo que fosse mais direto e representasse a todos nós independente de qual letra pertençamos?
Posso incorrer num erro grosseiro aqui afinal, sou homem, gay, branco, cis então me foge completamente a realidade de luta de outras sexualidades e identidades. Talvez meu discurso seja uma utopia ou até mesmo uma ofensa aos mais radicais ou puristas mas, expresso estas opiniões despido de qualquer desejo de roubar a luta de quem quer que seja e imbuído do mais sincero desejo de que nos unamos para lutar contra um inimigo comum que está se aproveitando de nossas rachaduras para infiltrar seu discurso de ódio e nossa destruição.
Não valeria a pena baixarmos as armas que estamos apontando uns contra os outros e apontá-las contra esse inimigo peçonhento que nos ameaça?
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