Mostrando postagens com marcador gay. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador gay. Mostrar todas as postagens

10 de mai. de 2022

quem tem medo das gays?

 


Um político reaça escroto, misógino, que não goza e não quer que outros gozem, fechou o MUSEU DA DIVERSIDADE.

Não vou citar nome pra não dar palanque para esse tipo de lixo mas, não é de surpreender afinal, no Brasil Pátria Amada de hoje, ser bixa ou qualquer outra letra que nos identifique é crime inafiançável e motivo para perseguição e humilhação.

Não que antes não fosse mas agora, com a chancela do miliciano e sua família, pode descer a lenha nas gays afinal, quer ser bixa vá ser no seu canto sem pedir direitos ou usar o dinheiro público para pouca vergonha como se as bixas não pagassem impostos também ou não fossem portadoras de RG e CPF.

O apagamento nosso é desde sempre e não restrito ao Brazil, todos sabemos porque sempre fomos jogados para a margem quando não simplesmente erradicados do mundo feito algum tipo de praga então, fechar um museu que fale de nossa história e memória não é novidade, a memória é heterossexual, religiosa e do bem, bixa não pode ter memória, só uma vaga lembrança, não precisa de museu porque bixa não te história, só doença e vergonha e ameaça as criancinhas com suas ideologias.

Mas vai ser difícil nos apagar porque sem nós, vocês não teriam muita coisa. Não teriam um senso de liberdade inovador, não teriam liberdade sexual, não teriam computadores, não teriam livros, não teriam arte, não teriam história, não gozariam porque a gente sabe você pai de família adora sair com as bixas para dar vazão aos seus desejos mais recônditos, não teriam humor, não teriam cores, não teriam palavras, não teriam feriado, não teriam moda, não teriam serviços essenciais porque sim, as bixas estão lá, não teriam modelos, não teriam graça, não teriam vida.

Vocês podem fechar o nosso museu mas JAMAIS fecharão a nossa MEMÓRIA!

PS: Mas de tudo isso, o que dói mais é saber que muitos de nós não valorizam e não reconhecem a nossa história então, procure conhecer! Se hoje temos alguns direitos é devido a gigantes que do alto de seus temores desafiaram o status quo para que estejamos onde estamos, eles estão aqui ainda, alguns, outros só pelos livros, estude sua história!)

27 de jul. de 2021

vamos ser viado pra sempre

 


Em plena ditadura velada, tempo de mito, tempo de milícia, de negações, de messias falso, de família tradicional que estupra mas não mata e acaba matando, de não te estupro porque não merece, de arte censurada, de pensamento tolhido e vigiado, vamos ser viado pra sempre.

E em cadeia nacional, em evento internacional, na cara da sociedade, samba, dança, vai até o chão, desfila porque pode e desfila porque quer, deixa o povo do golpe passado e com ódio e deixa eles xingarem porque na cortada você deixa o queixo deles partido, o queixo e a mente deles são de vidro, cheios de pó de tanto que ficaram sem usar, mortos pelo capitão e seus filhos que só entendem o que é gado, pasto e Brasil verde de ódio e amarelo de medo.

Sim, sejamos todos viados pra sempre e cada vez mais viados, fico pensando na cara do mito e do seu pessoal vendo você bela, phynna, afrontosa nem aí para os olhares que te cravam, para os que intimamente querem sua morte, que odeiam estar com uma bixa representando o país, que preferiam ver você longe ou morta, bixa morta é bixa boa, será que terão coragem de te receber na volta? Capaz! Afinal, pelo andar da carruagem, eles terão pedir arrego para as bixas porque não vai sobrar mais ninguém para estender a mão e a gente, do alto de nossa bixice vai dizer na egípcia NÃO!

Então vamos ser viados pra sempre, porque sendo bixas, você sendo bixa está sendo bixa por todos nós, por todas as bixas que não podem ser bixa porque se o fizerem, morrem. Por todas baixas que por serem bixas morrem, morreram e morrerão. Por todas as bixas que não podem ser porque ser é um crime quando o Estado assim o diz. Por todas as bixas que somos porque precisamos ser bixas para fazermos sentido, não saberíamos ser de outra forma porque ser bixa é ser algo mais, o ser hétero é tão limitado e limítrofe, tão pouco, tão menos, tão sem graça, ser bixa é ser vida, é estar vida, é estar aqui e dar vida para tanta morte.

Então vai lá, seja bixa e leva nossa bixice ao limite, opa, não, esquece, bixa não tem limite, leva a gente para qualquer outro lugar que vai além então....



11 de jan. de 2021

fobia homo 1




A intolerância travestida de ofensa, moral e bons costumes, vai mostrando suas garras proporcionalmente ao abalo do status quo onde viado bom é o que fica em seu gueto, quietinho e aparece apenas como alívio cômico estereotipado e pejorativo ou como prestador de serviços que essa parcela risível da sociedade entende como femininos, agregando um preconceito a outro tão ou mais pernicioso.

Quando a viadagem rompe os muros do gueto e resolve dar a cara a tapa, como lidar? Afinal, tínhamos lá nosso cantinho, não? Porque ameaçar a sociedade que tacitamente nos cedeu esse espaço onde podemos ser o que quisermos? Precisa casar? Ter filho? Aparecer na TV? Querer ser visto? Onde já sei viu! Ponha-se no seu lugar, bicha! Ninguém é obrigado a ver suas indecências em rede nacional, ruas e avenidas, que absurdo! Saudades do tempo em que esses viados sabiam seu lugar!

Esse lugar nunca existiu, foi imposto e abraçado por nós gays na absoluta falta e impossibilidade de podermos coabitar o mesmo espaço que a maioria hetero. Ainda que nocivo sob alguns aspectos, esse gueto construiu nossa identidade e ajudou um sem fim de viados (eu incluso) a sentir-se aceito, parte de algo e não isolado do e no mundo. Por anos vivemos assim dos restos e rebarbas atirados a nós feito esmola mas, o tempo é inexorável e com ele as mudanças que nenhuma força obscura pode deter ainda que possam (apenas) atrasar e obstruir sem fazer com que se diminua o ritmo da marcha posta em movimento por pessoas, situações e desejos muito além de sua ilusão de controle.

É do humano a aversão total a qualquer mudança, somos assim independente de credo, cor, orientação sexual, apetite, forma ou desejo. Somo criaturas do conforto, do padrão, do estável, do conhecido. Tudo que foge disto nos apavora, gela a espinha, traz calafrios e pânico e, como todo e qualquer animal acuado, partimos para o ataque esquecendo da claridade que nos foi agraciada por anos de evolução pelo simples fato de termos medo.

Estamos numa fase de transição, saímos do armário e não há mais volta. Ficar onde estamos, aceitando o pedaço que temos no latifúndio é aceitar mais uma esmola, um cala a boca e assim, só nos resta uma alternativa, ir em frente, adiante. Certo que muitos de nós pagarão preços diferentes por essa decisão, uns apenas algumas frases ou indiretas aqui e ali, outros com algum status ou posição, alguns com a pele e um naco de carne e tantos outros, menos afortunados, com a vida. Somos as bruxas na cidade onde todos gritam não lobo mas viado e as estacas estão atiçadas para arder nossa carne gay, exalando aos ares um aroma de purificação que, na verdade, irá empestear todos as narinas com o odor não de carne mas de consciências incineradas, a culpa vai aderir aos poros para nunca mais sair.

Por isso mesmo, ações de grandes empresas, mídia, entretenimento e outros tantos pela representatividade precisam existir cada vez mais, para fazer entender a esses imbecis parcos de discernimento que a ofensa maior reside no fato de agirem como fascistas sanguinários, reacionários estúpidos desejosos de um mundo moribundo apegando-se com unhas e dentes aos pedaços podres que ainda lhes restam. E inundam com seus latidos de ódio como se estivéssemos obrigando, forçando, agredindo, demandando algo que não fosse simples, singelo e de direito universal e igualitário, respeito. Quanto mais ações bem feitas e que valorizam o sentimento, o amor, o respeito, a união melhor ainda mais nos tempos em que vivemos.


Mas não, essa corja prefere agir como se fôssemos nós, gays, a ameaça maior aos seus filhos e família (instituição falida há séculos) e não a violência cotidiana que nos acossa. Não os desmandos dos governantes tentando fechar suas contas com nosso trabalho e dinheiro. Não é a sua crítica vazia a corrupção enquanto fura fila do mercado, no trânsito acelera para não deixar o pedestre passar ou o outro carro entrar, enquanto deixa o carrinho do mercado largado em qualquer lugar ou o arremessa em direção ao auto mais próximo (que não o seu), faz de conta que está no mais profundo sono enquanto o idoso fica em pé e se tem de lhe ceder o lugar, reclama. Não devolve o troco que veio a mais porque a obrigação era do outro ter feito a conta certa, paga pelo atestado fajuto para seu filho cabular aula ou para matar um dia no trabalho, acredita que passando o outro para trás, vai chegar na frente quando, nessa fábula, somos todos a tartaruga e o coelho já morreu faz tempo.

Não. Nada disse importa porque os gays estão tomando o poder, impondo sua ditadura, seu estilo de vida, seu modo, seu jeito goela abaixo da sociedade, esse é o problema. Geralmente quando não sabemos identificar o que está errado conosco e ao redor, buscamos um bode expiatório para aliviar nossa consciência desprovida de espelhos, agora somos nós gays o bode da vez. Quando e se lograrem acabar conosco, oro pela próxima camada social que escolherem até que, finalmente, sobrará apenas a vocês para balir e preencher o papel.

Quer boicotar algo? Boicote seu preconceito, sua ignorância, sua intolerância, seu medo. Boicote esse desejo que você não entende e não é seu, foi posto em sua mente e peito por pessoas de intenções nefastas e que desejam usar sua pele para cobrir o lobo que são.

Boicote tudo isso e adote uma postura mais humana e conciliadora. Ou acabará tendo de boicotar a vida quando menos esperar.

5 de out. de 2020

vendo a banda passar

 



Já gostei muito de Ryan Murphy, as primeiras temporadas de AHS e ACS forma bem interessantes e confesso que FEUD me ganhou porque eu sou devoto das grandes divas do cinema mas depois, parece que ele ficou ganancioso e passou a produzir em quantidade e não em qualidade meio como a Netflix faz, solta uma baciada de séries e se ao menos duas delas emplacarem já vale e o resto cancelam.

Não há dúvida de que ele tem um papel essencial na representação e visibilidade de pessoas LGBTQIA+ pois suas produções tratam essas pessoas com dignidade e sem pudores da indústria mas, parece que no anseio de produzir o máximo possível ele acaba se esquecendo de outras coisas e, sua marca registrada, brindando o espectador com uma profusão de cores como se toda a escala Pantone tivesse explodido na tela.

Nesse caso, a homenagem feita a esse filme incrível dirigido por William Friedkin  em 1968 e baseado na peça homônima de Mart Crowley é uma excelente oportunidade para gerações mais novas conhecerem esse texto que pode até ter envelhecido mas não ficou datado mas tenho algumas reservas quanto ao novo filme mesmo Mart tendo participado do processo de confecção do roteiro antes de falecer em Março deste ano.

Primeiro que este é um texto teatral, forte, pesado, cheio de acidez e mordacidade, indiretas e ofensas verbais num jogo psicológico que lembra 'Quem tem medo de Virginia Woolf?', começa num ritmo leve e até descontraído mas aos poucos vira uma montanha russa de ressentimento, culpa, frustrações e jogos mentais tóxicos.

Se na primeira versão isso foi preservado e maximizado pela mão de Friedkin (que é um ótimo diretor de atores) além do jogo de iluminação que, no ápice do jogo mental deixa os personagens imersos numa semiescuridão opressiva e que só aumenta o desconforto e, por um elenco oriundo do teatro, nessa versão o texto foi diluído, ficou mais leve e a mão de Murphy se faz sentir na explosão de cores e opção por manter tudo claro e gritante numa clara alusão de que a homossexualidade não precisa ser escondida mas vista e vivida mas, isso acaba emprestando ao filme uma sensação de festa que saiu do controle ao invés de embate de sentimentos e culpas.

A inclusão de flash backs para ilustrar as memórias de cada personagem durante o jogo do telefone ajuda a diluir esse peso da versão anterior muito mais claustrofóbica e tensa e a opção por adicionar cenas finais que ilustram o possível desfecho de cada personagem acabam dando uma sensação de esperança que o texto original não tinha em absoluto. Optar por manter a trama nos anos 60 ao invés de trazê-la para a atualidade também foi acertada pois isso certamente seria um desastre, pode parecer que os assuntos tratados no filme sejam datados mas não são, estamos falando de um texto de um período em que ser gay era algo perigoso e fatal até e isso segue sendo verdade hoje em dia mesmo tanto tempo depois.

Quanto aos dramas de cada personagem, também seguem mais do que atuais desde o casal que enfrenta uma crise passando pelos gays frustrados e amargos que só conseguem algum tipo de satisfação destruindo quem conhecem, pelo gay afeminado que só é visto como piada, o gay negro que é forçado a lidar com mais de um preconceito, o gay que apenas é gay e um hetero que não sabe o que está fazendo ali ou até saiba mas se arrepende de estar.

Infelizmente, parece que no intuito de deixar o texto mais palatável talvez para as gerações mais novas, as atuações acabaram ficando perdidas e sempre com uma sensação de quase lá, se comparadas com as atuações do filme original chegam a ser sofríveis até vide a cena em que Michael se dá conta da merda que fez onde Jim Parsons falha miseravelmente em passar a emoção necessária para a cena.

Esse era um texto que merecia uma direção mais robusta, que espremesse os atores até sair sangue, não era para ser um filme colorido mas um filme denso que fizesse com que todos saíssem dele moídos como fez o primeiro. Infelizmente nada disso aconteceu e temos apenas uma homenagem singela e colorida que serve como caricatura de um texto magistral.

24 de jul. de 2020

para quem carrega um cobertor



dia dessas, veio uma lembrança de assalto, do nada, dessas que saem de algum lugar do cérebro que parece ter a única função de acomodar memórias ladras e soltá-las para nos pegar desprevenidos, pensando o que teria causado aquela recordação, incapazes de entender qual gatilho foi responsável como se fôssemos animais de laboratório que não conseguem ser condicionados.

quando comecei a arranhar a superfície de minha sexualidade, imberbe de vida e de idade, a primeira experiência foi com um amigo de escola. não sei quais caminhos ele seguiu pois nos perdemos nos meandros da vida, se abraçou sua sexualidade, a sublimou sob camadas de normatividade, passou por essa experiência incólume, não sei dizer e, às vezes, bate um desejo de saber-lo, ver como a vida o tratou, o conduziu e se aquilo que vivemos ainda lhe causa esses roubos de memória ocasionalmente.

foi o primeiro beijo (beijo apenas porque beijo não precisa ser guei, hétero, bi ou seja lá o que for, beijo é beijo, conjunção de bocas sedentas, nada além disso), a primeira masturbação, o primeiro sexo oral, aprendemos às cegas, colocamos os paus nas bocas e eles ficaram lá, flácidos, inertes, que fazer depois de por na boca? era uma época de inocências, lembro de colocar seu pau na boca e ter ficado esperando que algum milagre acontecesse, nos olhávamos como a esperar algum tipo de revelação mas nada aconteceu, fui correndo lavar a boca porque então, associava o pau com algo sujo, o pecado plantado, a ciência de que era errado ainda que quisesse ser certo. com o tempo, fomos descobrindo que o prazer não acontece caído do céu, há de ter certo trabalho assim como praticamente tudo na vida.

não diria que nos amamos pois éramos novos demais e amor era uma palavra estranha em nossas bocas ainda mais aquele amor que nos apavorava ante sua descoberta e em ser descoberto mas, acho que de alguma forma fomos importantes um para o outro. certo dia, estava em casa depois da escola e ele me liga (era tempo de telefone fixo). atendo e ele diz estar sozinho em casa, nossos encontros eram assim, nas frestas, nos espaços de tempo que tínhamos sós, encaixando nossos corpos entre minutos e segundos para caber um desejo que vazava, me troquei e fui para sua casa que ficava relativamente perto da minha.

chegando lá, toquei a campainha, ele atendeu, acho que pude ver um brilho em seus olhos mas hoje não sei dizer, podia ser apenas tesão. entramos e a ansiedade do momento era palpável em nossas peles, a casa era grande e estava vazia, ele me conduziu por cômodos decorados com uma sobriedade que apenas famílias antigas sabiam emprestar aos seus lares. chegamos na sala que estava a meia luz, lembro das cortinas meio cerradas e pelo espaço aberto entrava uma lâmina de sol leve caindo sobre o sofá e dividindo a sala em duas partes escuras e, naquele meio de luz solar, no chão sobre o tapete, estava um cobertor jogado no chão, talvez fosse uma daquelas tardes de outono ou inverno onde o sol tem de trabalhar dobrado para aquecer a gente.

nos deitamos no chão e nos cobrimos com o cobertor e ficamos ali, quietos a princípio mas depois nos beijamos. não lembro de houve sexo, tenho quase certeza que não, apenas ficamos ali nos beijando e acariciando, trocando peles, trocando desejos, trocando tesão, trocando olhares e acho que naquele momento nos amamos sem nos darmos conta disso.

não sei ao certo quanto tempo ficamos ali mas sei que é a primeira lembrança clara que tenho de estar no amor de outro homem. se tivesse de traçar meu caminho de volta até o momento em que tive certeza de que não apenas o sexo mas o amor de outro homem me completavam, acho que acabaria nesse momento, naquela sala, debaixo daquele cobertor, com aquele garoto que me olhava com uma estranheza sagaz e um desejo terno e com meu olhar incerto de não saber o que era aquilo.

queria que fosse possível a viagem temporal não para alterar passados ou conquistar futuros mas apenas para voltar àquele momento e ficar ali observando o nascimento de um amor que não sabia estar nascendo, olhar e apenas contemplar e talvez dizer ao garoto que fui que tudo bem, tudo ficaria muito bem.

10 de fev. de 2020

Onde os fracos não tem vez.

Já havia escrito aqui sobre os comentários do messias sobre as pessoas com HIV-AIDS e agora, esta outra notícia ecoa com esse discurso pronto deixado claro que a agenda neoliberal segue firme e forte seu caminho para desmontar a sociedade matando aqueles se encontram na sua base para deixar os mais abastados tranquilos e protegidos.

Não é a toa que o empresariado sente-se mais do que confortável em pedir a revisão dessa estabilidade dada a pessoas com HIV-AIDS já que elas representam um custo para eles e para o governo. Bolsonaro de forma explícita deu seu aval ao corroborar esse pensamento que já é um desejo antigo das elites econômicas do país.

Atualmente, as empresas não podem perguntar sobre sua sorologia em uma entrevista de emprego pois é considerado ato de preconceito já que pode levar o empregado a não contratar aquela pessoa pelo simples fato de que ela poderá ficar mais doente que outras não portadoras do vírus o que, em termos de lucros e cifras, é horrível para o empresário.

Igualmente, após a contratação o empregado não pode ser dispensado ou sofrer qualquer preconceito pela sua condição de soropositivo e esta lei proíbe que isso aconteça mas, os empresários alegam que isso pode mascarar pessoas mal intencionadas que usarão da doença para permanecer em seus empregos mesmo não apresentando o que se costuma chamar de performance adequada ou dentro do que se espera na empresa.

Obviamente que gente mal intencionada há em todo canto e não apenas pessoas com HIV-AIDS basta ver a quantidade de fraudes que pululam no INSS e muitas com vista grossa das autoridades. O que se está tramando é um mecanismo que permita dispensar essas pessoas que, devido a sua condição soropositiva, podem sim adoecer mais do que pessoas sem o vírus ainda que os atuais tratamentos, se seguidos corretamente, tornem isso virtualmente impossível e tudo isso porque custa caro para o empresário manter um funcionário nessas condições.

Isso abre uma brecha perturbadora pois os próximos da lista serão as mulheres grávidas, os portadores de doenças crônicas como diabetes e pressão alta e daí para dispensar PCD, LGBTQs, afrodescendentes ou qualquer outra minoria que não se encaixe no padrão empresarial é um pulo.

Está mais do que claro que a agenda neoliberal e conservadora de Bolsonaro avança a passos largos e não fossem outras instituições vigilantes, já estaríamos numa situação muito pior mas lembrem-se de que temos ainda três anos pela frente e que agora eles estão implantando forte sua agenda conservadora sem medo de machucar quem quer que seja e somos nós, as minorias, que eles tem mais gosto e vontade de machucar.

Mal sabem eles que estamos acostumados a apanhar feio de todos os lados e que se tem uma coisa que aprendemos bem foi lutar.

Cai dentro, Bolsonaro!

6 de fev. de 2020

As doenças que não tem cura

Como não bastasse conviver com a doença, toda a carga de preconceito, estigma e problemas que ela acarreta, as pessoas com HIV-AIDS ainda tem de enfrentar um governo que está fazendo de tudo para deixar com que morram sem qualquer ajuda ou apoio vide as declarações do ilustre messias recentemente.

Se dependesse exclusivamente dele, todas essas pessoas seriam deixadas a própria sorte afinal, HIV-AIDS é uma doença de bixa então elas que se cuidem e se virem para buscar tratamento. Tem grana? Ótimo! Não tem? Do governo é que não vai sair dinheiro para tratar essa doença que você mesmo causou com sua pouca vergonha e depravação.

O custo do tratamento de AIDS vem decaindo conforme a medicina encontra medicações mais eficientes e com cada vez menos efeitos colaterais, tratamentos como PReP, PEP e tudo isso aliado a políticas públicas, implantadas no governo do PT para felicidade dos conservadores, que entenderam o AIDS-HIV como problema de saúde pública e não privada, ajudaram milhões de pessoas a terem acesso ao tratamento e obter qualidade de vida, somos referência mundial em políticas e programas de combate e tratamento a doença resta saber até quando.

Esse discurso do messias não é surpresa afinal ele já deixou claro inúmeras vezes o asco que sente de pessoas LGBTQ e além disso, serve como cortina de fumaça para seu gado já que os problemas reais de seu (des)governo seguem aparecendo deixando-o irritadiço e contrariado.

O custo do tratamento de pessoas com AIDS-HIV é ínfimo se comparado ao custo da máquina pública e se comparado ao custo que o governo teria caso essas mesmas pessoas não pudessem ter acesso ao tratamento e começassem a adoecer vítimas das doenças oportunistas que advém se a AIDS-HIV não forem tratados desde cedo mas, na lógica bolsonarista essa conta não existe, pessoas com AIDS-HIV são um fardo para sociedade, um peso, uma despesa pois a doença que tem foi transmitida, em sua concepção torta, pelo sexo gay, são sujas e merecem morrer pois buscaram isso para elas mesmas.

Igualmente, a campanha da Pastora Damares que iniciou agora às vésperas do carnaval pregando abstinência sexual - jura? Antes do carnaval? - como forma de prevenir a gravidez precoce e a transmissão de DSTs funciona mais ou menos como falar para quem quer emagrecer que a melhor coisa é simplesmente parar de comer!

Segundo ela e seu chefe, o carnaval cheio de putaria, a gravidez precoce e as DSTs são tudo culpa dos governos do PT que implantou a bandalheira geral, ainda bem que sou PT, sou da bandalheira generalizada! Isso faz parte do projeto nefasto que eles tem para o país, em outros tempos, já teriam mandado fuzilar meia dúzia mas como pegaria mal, estão desmontando educação, cultura, arte, saúde e agora o nosso gozo, quer fuder? Não pode! Olha a Damares aí!

Pregar a abstinência sexual é um projeto político e não de saúde, não adianta dizer para um doente terminal NÃO MORRA, há que tratar da melhor forma possível mas, na lógica do governo, é preciso controlar o gozo das pessoas porque pessoas livres para transar e gozar como e com quem quiserem são perigosas, nada é mais ameaçador a um fascista que pessoas livres seja em qual sentido for.

Como eles não podem adotar medidas e políticas efetivas e eficazes contra a propagação de DSTs, a gravidez na adolescência e o aumento dos casos de HIV-AIDS entre os mais jovens que a cada ano só faz aumentar sem falar de forma aberta e clara sobre sexo, sexualidade e gênero, adotam a medida de implantar a castidade forçada pois ela traz consigo uma carga moral totalmente condizente com a filosofia do atual governo.

Para combater todas essas questões de forma real e eficaz é preciso implantar uma educação sexual que aborde os temas do sexo, sexualidade e afins de forma clara e direta principalmente aos mais jovens que estão inciando sua vida sexual. É preciso conscientizar, explicar, educar e não proibir, vocês acham mesmo que os jovens ou os mais velhos irão mesmo se abster de foder? Em que mundo esse pessoal vive?

Para finalizar, não basta combater as doenças que mencionei aqui, é preciso combater outras muito mais difíceis de erradicar, a ignorância e o preconceito essas sim doenças que matam muito mais que qualquer outra epidemia ou patologia mas infelizmente, creio que ainda estamos muito, mas muito distantes de obter qualquer tratamento que funcione contra elas e muito menos de uma cura.

5 de fev. de 2020

A homofobia nossa de cada dia

Imagino que todos estejam a par do crime que vitimou uma família no ABC Paulista recentemente, detalhes aqui.

Logo de cara, a filha do casal e sua namorada e/ou esposa foram presas como principais suspeitas e, pelo andar da carruagem, serão realmente indiciadas pelo crime que, até onde se sabe, foi cometido num misto de ganância, amor tóxico, relacionamento abusivo e sabe-se lá mais o que.

Não cabe a mim ou a ninguém fazer julgamento ou entender porque crime tão bárbaro - leia os detalhes na matéria no link acima - foi cometido e reduzir a um simples caso de homofobia já que, aparentemente, o pai não aceitava a orientação sexual da filha ou seu relacionamento com a namorada-esposa. Seria uma dedução simplista e tendenciosa para explicar algo que muito provavelmente tem raízes muito mais profundas.

O que mais me choca e preocupa são os comentários na matéria em questão e em outros lugares apontando a orientação sexual como causadora do crime numa profusão de 'opção sexual', 'homossexualismo' e toda gama de termos que a sociedade pensa saber usar com maestria nesses momentos.

Outros tantos, conservadores convictos, já bradam onde estaria a esquerda, a Lei Maria da Penha para essas moças? Logo vão aparecer dizendo que elas foram vítimas de homofobia e que se fosse o contrário, estariam já de punhos em riste clamando por justiça. E, para coroar tudo, alguns comentando que tal crime apenas comprova o desejo gay de acabar com a família, que se fossem pessoas 'normais' isso não aconteceria como se a orientação sexual fosse responsável por desvios de caráter ou sociopatia.

Em ocasiões como estas, em que crimes são cometidos por LGBTQs, a sociedade normativa que já tolera a contragosto gays, vê-se no direito absoluto de apontar a 'sexualidade deviante' como causa prima do crime afinal, gays não prezam pela família, são devassos, não tem religião, são pecadores e pessoas sem qualquer senso moral ou decência e, nos dias de hoje, numa lógica reversa bizarra, dizem que gays sempre usarão a homofobia como justificativa para um ato de violência que porventura venham a praticar o que é sim um ato de extrema homofobia.

Quando a violência é cometida por um membro da maioria normativa os brados por justiça são altos sem dúvida mas, quando o quesito LGBTQ é adicionado ao caso já passamos para o nível de queimar na fogueira afinal são pessoas com graves desvios de personalidade e sexuais. Essa associação faz todo sentido numa sociedade que ainda encara pessoas LGBTQ como ameaça ao status quo não por serem concretamente isso mas por representarem uma parcela da população que não aceita mais ser invisível e que está demandando respeito e visibilidade o que assusta a maioria.

É mais fácil aceitar que pedófilos e criminosos sejam gays porque já lhes é inerente um desvio do que aceitar que a orientação sexual não é fator determinante para moldar um criminoso mas pode, quando confrontada com preconceito, ódio, desprezo e humilhação, ajudar a formar essa personalidade torta juntado-se a outros problemas ou patologias não identificadas ou tratadas.

Como o crime foi cometido por duas pessoas LGBTQ, ocorre essa inversão de valores em que se passa a julgar o crime não pelo ato em si mas pela sexualidade da pessoa quando, no caso de um hétero ter cometido o mesmo crime, a sexualidade sequer seria mencionada como fator para o crime.

Quando héteros cometem crimes tão ou até mais horrendos contra pessoas LGBTQ os comentários não apontam a heterossexualidade como fator determinante para o crime, muito pelo contrário, a culpa é das bixas que não se dão ao respeito e novamente a culpa é de quem não tem a orientação sexual ou identidade de gênero normativa o que nos faz bater recordes de assassinatos de pessoas LGBTQ a cada ano.

Como se não bastasse isso, a cadeia de comentários pedindo PENA DE MORTE é impressionante, fico pensando se estas pessoas que pedem tal mecanismo tem a ciência de que num país como o nosso, com uma polícia inepta e despreparada, um sistema judiciário podre e onde fala a lei do dinheiro, a pena capital serviria apenas contra pobres, bixas, negros e qualquer outra minoria e até mesmo contra essas mesmas pessoas que a pedem pois uma vez implantada, não haverá distinção entre quem é bandido e quem é mocinho e, quando for ver, será tarde demais para voltar atrás.

A antesala de tudo isso é o preconceito enraizado e estrutural que vivemos dia a dia no país e que, infelizmente, com o atual governo, não arrefecerá já que ele passa o pano para racistas, homofóbicos e outros mais.

Enquanto essa parcela da sociedade - e nós mesmos - não entender que nossas 'diferenças' devem nos unir ao invés de nos separar estaremos eternamente a merce de fascistas e de comentários como esses nas matérias sobre esse crime terrível, julgando pessoas não pelos seus atos mas por suas individualidades e seguiremos numa sociedade onde sua inocência será ditada pela cor de sua pele, aparência, poder aquisitivo, moradia, orientação sexual ou identidade de gênero.

O horror nosso de cada dia.

30 de jan. de 2020

Saída



Tenho, com dois amigos, um podcast sobre literatura LGBTQ chamado ORGULHO CAST - disponível nas principais plataformas, ouve lá, não custa, você ouve coisa pior e até gosta que eu sei!

Gravamos quinzenalmente um episódio em que discutimos um livro previamente escolhido e lido por todos os três e sobre os assuntos e temas que o livro em si aborda e, no último episódio, falamos sobre sair do armário.

Tema delicado.

Todos temos opiniões muito pessoais sobre isso, sobre como e quando fazer, se é ou não preciso fazer e não foi diferente entre nós mas, pessoalmente, creio que essa saída do armário é de vital importância na construção da pessoa LGBTQ que você será.

Sair do armário é uma decisão muito delicada e pessoal, ninguém deve fazer isso por você e esses movimentos de OUTING em que pessoas são arrancadas de seus armários e tem sua sexualidade exposta são horrendos pois ninguém além de você deve saber quando e como fazer isso e mesmo se deseja fazê-lo, não cabe a mais ninguém.

Pode parecer algo fácil de fazer ainda mais se considerarmos que nos dias de hoje, assumir-se pode ser algo menos traumático do que, por exemplo, há quinze ou vinte anos mas, não se engane, ainda é um tema delicado e complexo ainda mais na atual estrutura conservadora da sociedade que está dificultando a vida das pessoas LGBTQ o máximo quanto for possível.

Há várias coisas a pesar na decisão de se assumir como família, amigos, trabalho, sociedade, tudo isso deve ser muito bem pensado e ponderado e, se for preciso, procure ajuda profissional pois às vezes não é um fardo fácil de se carregar sozinho, temos instituições, ONGs e profissionais capacitados para guiar você nesse caminho e ajudar a encontrar a melhor maneira de sair do armário.

Por mais que tenhamos muitos avanços nas questões de visibilidade, representação e direitos LGBTQ ainda somos um dos países que mais matam e discriminam pessoas LGBTQ e muitos de nós, ao dar esse passo tão importante na construção de sua identidade, perdem todo apoio familiar, de amigos e ficam em situação de extrema vulnerabilidade e fragilidade. São comuns ainda, infelizmente, os casos de pessoas LGBTQ que ao se assumirem são expulsas de casa e passam a viver em situação de rua ou são jogadas para a criminalidade ou prostituição porque não veem qualquer apoio vindo de onde quer que seja.

Mesmo assim, assumir-se, falar em alto e bom som que você é LGBTQ, é libertador, ninguém deve ter medo de falar abertamente sobre sua sexualidade, não é algo vergonhoso mas algo a ser celebrado, é parte de quem você é, te define e constrói sua identidade como pessoa.

Esse discurso de que não preciso falar, não desejo expor minha intimidade e coisa e tal é um armário dentro do armário, enquanto você não aprender a lidar com sua sexualidade de forma aberta, direta, não reprimida e naturalmente você seguirá saindo e entrando do armário vezes seguidas o que é um desperdício de vida e energia.

Não devemos ter medo de falar que somos gays, lésbicas, trans, travestis, não binários, seja o que for, precisamos é bater no peito e falar isso aos quatro ventos, não tenha vergonha de ser quem você é, quem estiver ao seu lado é que precisa aprender a lidar com isso, não você e essa a questão principal: antes de se assumir para outros, assuma-se para si, olhe no espelho e diga em alto e bom som EU SOU LGBTQ!

Sem se assumir para você não faz sentido assumir para outros porque você ainda não terá isso resolvido dentro de si, quando tiver, não esconda, não pense que isso deve ficar restrito ao pessoal, ao íntimo, isso é esconder quem você é e você é uma criatura LGBTQ linda e única que merece respeito e amor, não deve jamais ter vergonha de dizer abertamente quem é, essa vergonha pertence ao olhar do outro e esse olhar pouco tem a acrescentar senão julgamentos e opiniões que não irão mudar em nada sua vida ou sexualidade muito pelo contrário.

Ser LGBTQ é uma coisa maravilhosa, ser LGBTQ e poder falar isso em alto e bom som sem medo, sem culpa e com orgulho, não tem preço!

16 de jan. de 2020

Paquiderme

Um pequeno conto sobre calor, cidade e os elefantes no meio das salas.

Da cidade escorria um suor seco e frio, o sol burlava as nuvens do fim de dia e sambava seus raios através desses buracos no céu. Irritadas, as nuvens corriam para preencher essas brechas só para constatar que logo mais a frente outras tinham sido abertas numa brincadeira de cão e gato que passava despercebida pelo mundo cá embaixo.

Salvo eu aqui, observando tudo e apostando onde o sol malandro ia forçar a entrada, abrir as pernas das nuvens vestidas de hábito monástico jogando um pouco de luz sobre a cidade louca. 

Parecia que em cada um desses buracos de sol as pessoas iam, a qualquer momento, sair com mãos ao alto rogando ao astro que lhes dissesse o caminho a seguir, jogasse para longe as nuvens de suas vidas nubladas e lhes desse um alento muito alem do seu alcance enquanto corpo celeste, ocupado demais com danças astrais para dar conta de desejos terrenos e, de certa forma, ciumento de ter sido roubado de seu heliocentrismo, melhor deixar essa raça ao seu destino, deveria pensar.

Apoiava o queixo sobre as mãos cruzadas no parapeito da janela, sorvendo essa brincadeira com gosto, já estava ali há algum tempo, aguardando que um daqueles buracos-sol caísse sobre mim e, feito interrogatório, me forçasse a confessar os crimes indizíveis que carregava no peito até mesmo aqueles que não cometi ou tencionei cometer.

Podia ver outras janelas ali da minha, outros pecados, outros crimes, outros sexos, outros amores que mantinham seus segredos entre paredes e até mesmo dentro delas haveria outros segredos dentro de mais segredos. Lugares secretos, anseios não revelados, coisas não ditas, entaladas e que acabavam por emprestar às paredes um gosto amargo e cheiro fétido conforme o acúmulo de dissabores não compartilhados ia se tornando uma massa disforme de fel e rancor.

As paredes têm ouvidos, e nariz, e boca, e braços e pernas, e coração, e sangue, esquecemos disso e pomos por terra esse universo que deveria funcionar como porto tranquilo e seguro ficando num eterno cá e lá, melhor, nenhum dos dois vide que o mundo lá fora quer devorar até o tutano e, aqui dentro, nem devoramos nem o oposto disso restando uma letargia muda e ácida que vai corroendo todos os elefantes que pomos dentro de casa.

Um elefante, sim, incomoda muita gente. Dois então, muito mais. Que dizer de mim que tinha essa manada a dividir espaço comigo? Olhava a colcha de retalhos solar se espalhando, pondo para correr as nuvens bestas e então, caiu em mim uma dessas rodelas de luz e ficou. Talvez com medo dos meus elefantes não vieram nuvens tapar o buraco, parecia que minha janela era o palco da cidade; talvez todos já tivessem, quando vitimados pela luz esclarecedora, purgado seus erros e coubesse a mim cair, em grande estilo, o pano.

Pois bem, armado de luz, ergui o queixo de sobre minhas mãos, olhei para trás mirando cada elefante nos olhos e disse que o safári iria começar, era cada um por si e o sol era para quase todos. Comecei lembrando de quando nos conhecemos, aquela pista cheia de luz, som e fúria e nós ali dançando ao redor daquele fogo fátuo, sedentos de nós mesmos. Foi bom, consumamos tudo ali mesmo num canto mais escuro e minha língua foi seu sexo e seu sexo foi meu orgasmo e nosso gozo foi estridente e nossas bocas sem pudor e sem fim salivaram uma na outra todos os desejos e sonhos que nossas veias tinham guardado.

Os corações correram garganta acima e se bateram de frente Tum Tum Tum Tum Tum Tum Tum uníssono e num coro que ia acima da musica na pista. Bailaram as aortas, quase enfartam os miocárdios mas, segura, voltam eles para suas cavidades certos de que são um do outro mas a mente prega peças e desce a chibata no músculo cardíaco eriçado dizendo que está a mandar sangue demais para a cabeça de baixo deixando a de cima desprovida de poder colocar ordem nesse puteiro.

Corações aplacados e membros meia-bomba, melados de sexo, passamos ao que deveria ter sido o inicio e trocamos amenidades já que a intimidade fora sequestrada um do outro, sem resgate. Do clube ao café mais próximo, brecamos tudo que fosse mais fast no café da manhã e entre pães, doces e cafés, trocamos recheios de sonhos, coberturas de desejos, caramelizamos nosso amor, pão de Ló apaixonado, pão/pau - queijo/beijo.

Satisfeitos nos dois apetites, nos despedimos e trocamos números de telefone velados com a promessa de ligar e a incerteza de tal promessa fazer-se ato. Fomos embora, aguardar os minutos fazerem as horas, as horas dias e os dias nossa fome de ter-nos de novo mais do que a comida podia suprir. Em casa, mirava o telefone, os dedos tamborilando, dementes por se fazerem úteis e discar mas punha os danados a ferros e lhes dizia que você também tinha dedos e assim poderia fazer o mesmo esforço.

Nesse balé de tolos ficamos por algum tempo, aposta estúpida, sem ganhadores, premio que se acumulava agitando as mãos para ser resgatado e nós dois fazendo pouco dele, como que a deixar para outros que precisassem mais, como se nós mesmos não o desejássemos mais que o ar a nossa volta. E veio o toque do aparelho, agora já não sei quem correu para resgatar o premio, só sei que nos falamos e resolvemos que o melhor a fazer era dividi-lo uma vez que ambos o desejavam na carne.

Fizemos assim e fomos gastando essa loteria acumulada a dois, cegos do amor que nos fora sorteado, incautos, investidores de primeira viagem. De começo, achamos que aplicáramos nosso amor em investimentos cujo rendimento seria liquido e certo, nossa felicidade era por conta, tínhamos a nós e isso era uma linha de credito sem fim, inesgotável e cada vez que parecia a nós que os rendimentos não eram assim lá o que esperávamos, bastava fazer um empréstimo pessoal de nós mesmos, com juros de amante para amante e prazo a perder de vista para vermos renovado o credito amoroso que julgávamos ter.

Mas, os dias foram caindo da folhinha como folhas outonais e, quando a ultima caiu e, pelada, a árvore não tinha mais sombra ou frutos para ofertar, tentamos mais credito no banco afetivo para adubar a árvore seca e, para nossa surpresa, tivemos o investimento negado. Pasmos, ficamos sem ação, vasculhamos por economias porém, mais cigarras que formigas, estávamos com os bolsos só nos forros e a chuva se armando sob nossas cabeças.

Esgotados os meios, passamos aos fins e como cada um de nós tinha sua parcela de culpa no malfadado empreendimento só que, ao invés de assumirmos nossas parcelas de infelicidade e péssima administração, preferimos por os dedos em riste um nas fuças do outro negando culpa conjunta, pondo a conta apenas na nota de um só. Tentando salvar algo dessa quebra geral, saqueamos tudo, não deixamos nada ao amor que, na verdade, ainda tinha seu peso em ouro e podia ser usado como moeda de troca para reconstruirmos.

Finalmente, sem ter mais o que raspar do fundo do cofre, raspamos nós mesmos na carne até sangrar e quando vimos a cor dos ossos e os dentes agressivos se abrindo sobre eles, julgamos melhor assumir a falência, cerrar as portas e buscar novos sócios, outros empreendimentos. Nesse litígio, não havia muito que repartir, havia sobrado apenas culpas, remorsos e acusações suspensas no ar, frases presas no vácuo, sentimentos soltos no tempo e um vazio imenso que de tão grande não era mais vazio, tinha consistência e podia ser tocado.

Fomos, simples assim. E os dias voltaram a contar no calendário, lentamente, um a um e nossas vidas foram se remendando da melhor forma possível e nossos bolsos foram se enchendo aos poucos, com trocados de inicio e, algumas vezes, com notas e até quantias vultosas mas que paravam em nossos bolsos assim como o ar para nos pulmões.

E então, dado o tempo certo, nossos nomes já não estavam mais sujos, caducaram nossos débitos, podíamos amar de novo, as consultas aos órgãos de proteção ao credito afetivo davam como negativas e, numa dessas, nos redescobrimos com capital suficiente para amadurecer a ideia e ideal de termos nosso negocio próprio de forma definitiva, desprovidos e demovidos dos sonhos acelerados do inicio, das ilusões de destino e cientes de nossos medos e capacidades de entender um no outro o alimento do desejo comum, cheios agora de sonhos maduros, tangíveis em seu sonhar duo, retos e certeiros em nosso caminho de pouquíssimas curvas salvo as de nossos corpos não desconhecidos a nós e assim, sem grandes surpresas cartografadas mas emprestando às línguas um gosto conhecido mas retemperado com novo animo e sede de amar, viver e sermos.

Negocio fechado! No dia em que assinaríamos nosso contrato, selaríamos nosso compromisso de sermos o banco central um do outro, fiquei com a caneta na mão, esperando ver no outro lado da linha tracejada seu nome correr para o meu. Roubado por um destino traíra, saqueado por uma tragédia que de grega não tinha sequer o nome, assaltado por outros que levaram o cobre e, de quebra, você para não mais. Dos olhos, correram lagrimas lépidas, escoram face abaixo, deram voltas no pescoço, empoçaram na espádua, caíram para o braço e em torvelinhos correram sua extensão, lamberam-me os dedos e abraçaram a caneta até que, em pequeninas gotas, caíram sobre o espaço em branco onde deveria estar seu nome.

Foi então que chegaram esses elefantes, todos de uma vez, talvez já estivessem lá, disfarçados de mobília e não os tivesse notado, não sei. Começaram a abanar suas trombas para mim e me dizer coisas que só os elefantes dizem. Delicados, porém, transitavam pelo apartamento sem quebrar nada exceto meu coração e corpo e então, olhando pela janela, aguardei esses restos de sol para poder municiar-me e lhes por fim. Espera meio longa, às vezes faltava sol, às vezes os elefantes se escondiam tão bem que não era possível achá-los, às vezes eu me sentia o elefante.

Mas não hoje, era dia de acertar as contas e com a janela e a mim mesmo sob aquele circulo solar, fui executando um a um dos paquidermes, sem dó, seus protestos me eram surdos, tombaram todos e quando restou apenas um, este me olhava nos olhos, um olhar atemporal, a tromba inerte e a respiração mal um sopro. Nos olhamos por instantes sem contar, impassíveis, os últimos habitantes duelando naquela nesga de sol. E então, no fundo dos olhos mortos do bicho, vi o que precisava ver, senti, intui e, usando minha ultima bala de sol e já antevendo as nuvens que vinham a galope tapar minha artilharia, abracei o elefante e com ele me joguei nos raios do sol.

15 de jan. de 2020

Se fiquei esperando meu amor passar...

Ontem comentei neste post sobre HIV-AIDS que meu primeiro namorado muito provavelmente morreu em decorrência de complicações decorridas da doença. Sua família, compreensivelmente, preferiu ignorar tal fato e não cabia a mim contestar essa decisão muito menos confirmar que tivéramos um relacionamento já que estava subentendido e, se alguém deveria ter falado sobre isso, seria ele e não eu.

Enfim. O que desejo aqui é contar um pouco dessa história, será um texto meio longo ainda que me atentando apenas aos fatos principais nos quase cinco anos que passamos juntos, anos de altos e baixos, anos que foram ótimos, que marcaram a ambos e que ainda carrego comigo mesmo depois de tanto tempo, uma lembrança doce de um tempo que se foi e que, apesar dos pesares, continuam com um gosto doce de passado sutil que abriu portas para nós dois e nos fez talvez pessoas menos piores.

O conheci no mais improvável dos locais, Cine Art Palácio ali no Largo do Paissandu outrora cinema de família mas, como tantos outros da região, tornado cine pornô ante a total decadência da região. Nos tocamos e beijamos ali entre aquele odor de suor e sexo, desinfetante barato e travestis flanando atrás de clientes que escapavam para gozar alguns minutos naquele lugar onde sempre era noite.

Lembro que ao final de nos saciarmos um no outro ele me perguntou 'fica comigo?' e eu respondi, meio no descaso, 'quanto tempo?' e ele 'pra sempre'. Mal sabia que aquele pra sempre duraria cinco anos e que o pra sempre, sempre acaba. Saímos de lá e combinamos de nos encontrar na próxima semana ali mesmo no cinema, era um tempo antes da internet, celulares, redes sociais, apps e conhecer alguém estava restrito aos meios físicos e convencionais, humanos, reais, estar online era estar presencialmente na frente da pessoa.

No dia combinado cheguei e esperei, esperei, esperei e esperei. Bolo. Furo. Idiota. Imbecil. Fui embora e quando entrava no metrô, o universo, esse brincalhão sacana, disse a que veio pois dei de cara com ele que me explicou ter atrasado pois a condução estava péssima naquele dia. Fomos para o cinema e ficamos novamente, conversamos, rimos, ali era nosso lugar porque não havia lugar para nós, eram outros tempos e lugares para LGBTQ ainda que existentes eram esconderijos apenas conhecidos pelos iniciados.

Lembro de termos saído algumas vezes, coisas bestas como beber algo ou comer um lanche, éramos adolescentes, incautos, não sabíamos como lidar com aquele desejo que aflorava em nós, apenas sabíamos que um saciaria o desejo do outro. Gostos em comum, coisas em comum, e algo que era amor mas a gente não sabia chamar assim começava a abrir suas portas e convidar a entrar.

Descobrimos uma boite LGBTQ que ficava nos jardins e decidimos ir, não sei se nossos pais sabiam, provavelmente sim mas já éramos maiores de idade e talvez eles achassem parte da construção masculina sair para a noite sem saber que a noite era nossa capa e manto protetor para fazer nosso amor.

Chegamos cedo, a boite estava fechada e ficamos sentados numas escadas em frente ao clube esperando que abrisse. Quando abriu, onde estava a coragem de entrar no lugar? Ficamos ensaiando por vários minutos como chegar, como entrar, que falar, não era comum, não sabíamos como ser gays, não entramos, medrosos fomos embora e vagamos pela Paulista parando nas bancas de jornal vendo revistas importadas e conversando e rindo e nos amando pelos olhos e roubando algum beijo aqui e ali, não haviam lâmpadas criminosas, se haviam estavam longe de nós.

Acabamos indo em outra boite, desvirginados ao mesmo tempo e daí começamos nossa incursão no meio gay, aprendemos a ser LGBTQ na marra, não havia referência nem modelos, não tinha Youtuber nem Influenciador, não tinha blog nem Instagram, tudo que aprendemos foi na carne, no osso, na prática, empíricos de nós mesmos e da vida que se descortinava.

Amar assim tão jovem é foda, você acha que o mundo vai acabar, que tudo vai romper como um raio que parte um tronco ao meio, a vontade de comer o mundo e regurgitar outro é enorme e nossa fome era tanta que acabamos nos fartando de forma errada de nós mesmos.

Não sabíamos amar de verdade, o que pensávamos ser amor era algo diferente para mim e para ele, normal que cometêssemos erros, éramos jovens e ser jovem foi feito para errar e pensar em arrumar depois, guardar como botão de emergência para ocasiões futuras.

Saíamos muito, bebemos muito, fomos a clubes, shows, raves, varamos noites em lugares onde as pessoas não faziam questão de saber quem éramos. O tempo passava e as diferenças entre nós iam aumentando e nós, ao invés de saber que elas são parte do jogo e que devem ser aceitas como parte do todo, usávamos a elas como cavalos de batalha para justificar os erros que cada um cometia, feito agressão planejada, descaso, desprezo, mau amor que você não sabia como tornar bom amor.

Passamos a ter uma relação daquelas nada saudáveis, idas e vindas, períodos sem nos falar e um tal de correr um atrás de outro feito um revezamento bizarro que nunca chegava ao final. Chegamos a nos interessar por outras pessoas mas, quando um de nós sabia disso, fazia uma aparição surpresa na vida do outro para descompensar tudo e fazer voltar aquele amor que achávamos ter tecendo juras de vai ser diferente apenas para desmanchar tais promessas na semana seguinte.

Foi tanto o que vivemos que seria preciso mais de um volume para dar conta, lembro de quase tudo, outras coisas são tênues que às vezes penso ter apenas imaginado, cinquenta anos em cinco, nossas vidas estavam tão emaranhadas que era meio difícil saber onde uma começava e a outra acabava, amiga nossa dizia que nossa ligação era de outro plano e que nossas histórias ainda viveriam outras vidas além desta.

Mas, como diriam alguns poetas e trovadores, tudo tem começo e se começa um dia acaba e assim foi conosco. Depois de anos de uso contínuo, o desgaste atingiu seu limite, não havia mais para onde espalhar a geleia de ressentimento que nos cobria, não era mais uma relação mas uma simbiose nociva e um de nós precisava encarar o fardo de purgar essa patologia e buscar ares mais saudáveis e, (in)felizmente, fui eu a tomar essa decisão e promover esse afastamento antes que nossas vidas se deteriorassem além de qualquer possibilidade de reabilitação.

O corte doeu, não houve curativo grande o suficiente para cobrir o corte mas, com o tempo, ele foi cicatrizando e curando e acabei encontrando o homem que realmente era o amor da minha vida e com quem estou casado há dezoito anos e que desejo passar até o ocaso de meus dias, com ele aprendi o que era amor de verdade não querendo dizer que o primeiro não me tenha ensinado nada, tempos distintos, momentos diferentes, pessoas idem.

O tempo passou com sempre passa, vamos esquecendo as coisas e as pessoas que não mais fazem parte de nossos dias, as guardamos em algum lugar secreto dentro de nós para aqueles momentos em que um aroma, uma música, um filme, um livro ou qualquer outra coisa fará com que lembremos dela de forma cálida deixando nosso semblante com aquele are de nostalgia singela que apenas quem viveu o suficiente sabe.

Chegou uma data festiva, aniversário de alguém da família dele penso eu ou algo assim, não me recordo bem. Já estávamos afastados há anos então mas eu seguia muito próximo de sua família que havia me aceito como se fosse deles. Fui. Foi bom, conversamos, rimos, o tempo passou rápido e fui embora leve com um sentimento de graça e felicidade por ainda poder desfrutar da amizade daquelas pessoas mesmo não sendo mais algo de relevante para uma delas.

Dias depois, a irmã dele me liga e diz que ele, que não havia visto no dia da festa e tão pouco perguntado porque não estava lá, ciente de que eu iria, havia se trocado e esperado minha visita como se fosse certo que eu fosse ao menos passar para vê-lo - ele morava na parte debaixo de um sobrado onde a irmã morava, ela residia na parte de cima e ele e outro irmão na parte debaixo que ficava abaixo do nível da rua.

Aquilo reabriu feridas antigas e partiu meu coração já cicatrizado. Não havia ido com o intuito de vê-lo, já havia superado aquela história e não tínhamos mais nada a dizer um ao outro. O mal estar apenas piorou quando ele me disse que ele andava bem doente, tivera depressão e estava com algum tipo de infecção respiratória, aquilo me arrebatou e me fez chorar, dentro de mim revi aquele moço que me cativara, que quase perdi por que a condução atrasara e o amor que sentia por ele voltou não feito paixão mas como um presente que guardamos para abrir nos momentos em que precisamos nos recordar de algo bom.

Disse a ela que no fim de semana seguinte eu iria vê-lo, que ela por favor o avisasse. Contei ao meu marido - namorado então - o que se passara e que sentia que deveria ir vê-lo e ele disse que iria comigo.

No dia marcado, de coração na mão e garganta árida fui lá, cheguei e sua irmã me recebeu dizendo que ele me esperava. Desci as escadas em direção a sua casa com o coração engalfinhado com uma sensação de aperto e desespero, se por um lado eu queria realmente revê-lo, por outro eu queria enterrar tudo aquilo e não queria voltar a viver nada do que tínhamos vivido, era tudo passado mas por esse mesmo passado eu senti que devia estar ali para pacificar tudo aquilo que havíamos vivido.

O encontro foi breve mas bom, ele estava abatido realmente mas bem até onde pude ver. Nos falamos sem tocar em assuntos do passado, apresentei meu amor e talvez tenha sido o ponto final daquela história toda entre nós, ele intuiu que eu estava bem e amando e eu estava ali para lhe dizer que eu sempre o amaria pois minha vida iniciou com a dele e isso não era pouca coisa.

Ele nos contou que estava fazendo alguns trabalhos manuais e que precisava de materiais, me prontifiquei a levá-lo para comprar na semana seguinte com anuência do meu marido. Combinamos e em seguida me despedi prometendo voltar como combinado. Lembro de ter saído de lá leve, com um sentimento de dever cumprido e apaziguado e acho que ele também deve ter ficado assim, talvez pudéssemos erguer algum tipo de amizade dos escombros que sobraram de nosso amor.

Na semana seguinte quando deveria ir buscá-lo, um dia antes sendo preciso, recebo um telefonema. Do outro lado da linha um primo dele me diz que ele tivera um mal estar súbito e fora levado ao hospital e que infelizmente não resistira e morrera. Sua irmã me disse que ao ser levado de casa pelo resgate repetia seguidas vezes 'Avisem o Alexandre!'.

Talvez soubesse que não retornaria, talvez apenas desejasse me ver mais uma vez antes de partir, talvez fosse apenas desespero, não sei. O que sei é que nos vimos uma última vez antes dele ir e que foi o suficiente para que nos perdoássemos e demonstrássemos que havíamos nos amado e que de alguma forma ainda nos amávamos.

Há quem acredite em coincidências, destino e coisa e tal, eu não sei dizer. Às vezes penso que ele aguardava apenas esse ultimo encontro para poder ter seu descanso de alma tranquila e deixar a mim de consciência apaziguada, uma amiga minha acredita que nossas vidas estão entrelaçadas e que ainda nos veremos em outros planos e vidas, não sei também, quem sabe afinal?

O que acho saber é o fato de que vivemos intensamente um momento único e mágico e por mais dolorosas que algumas lembranças possam ser, o que resta mesmo são as coisas doces e o amor que tivemos um pelo outro, pode não ter sido ideal, pode não ter sido correto ou o amor que esperávamos mas foi o melhor amor que conseguimos nos dar quando a vida parecia não ter nenhum amor reservado para  nós.

8 de jan. de 2020

E o ódio ainda cega...

Escrevi aqui sobre aquele incidente da Karol Eller o qual acabou por se mostrar bem diferente dos fatos reportados pela 'Youtuber'.

Claro, é revoltante uma figura que pertence ao universo LGBTQ - e não adianta renegar, ela é sim parte do L do LGBTQ, desejar que ela não seja ou que seja expulsa da comunidade é um ato homofóbico sim - usar a homofobia que a duras penas foi criminalizada como saída para tal situação mas, como só podemos nos fiar no que diz a mídia e a polícia, prefiro ainda lhe conceder o benefício da dúvida.

Mesmo que tenha sido ela a iniciar o enrosco todo e que, em assim sendo, tenha automaticamente perdido a razão, não posso deixar de pensar que em algum momento o cociente homofobia veio somar no calor da discussão o que merece nosso mais forte repúdio.

No pior cenário, temos uma mulher lésbica, aparentemente conservadora, apoiadora do messias e crítica do movimento LGBTQ e sua militância, crente do conceito de vitimismo e mimimi e que, ao se defrontar com uma situação adversa e potencialmente danosa e perigosa a si, resolveu alegar homofobia como se houvesse criado repentinamente uma consciência LGBTQ apenas por que lhe era, então, conveniente.

Isso no pior cenário porque mesmo sendo ela tudo isso que mencionei, não teria então direito de alegar ter sido vítima de homofobia? Ou a criminalização serve apenas para ativistas e gays de esquerda? Se é assim então há algo de muito errado conosco porque não podemos exigir que tal direito seja aplicado apenas para os gays deste lado de cá, alijar os gays de direita desses direitos é agir como os héteros e praticar a homofobia também.

O que devemos fazer é tentar entender porque pessoas LGBTQ não conseguem se encaixar ou encontrar uma voz na comunidade e trazer essas pessoas para nosso lado criando vozes que dialoguem com elas, não afastá-las e execrá-las.

Se existem gays de direita e conservadores o problema não é que eles estão aí mas que nós, enquanto comunidade e voz de uma parcela da sociedade, falhamos em abrir os olhos dessas pessoas que acabaram, consciente ou inconscientemente abraçando o 'inimigo' pois ele soube dialogar e dizer o que elas queriam ouvir.

Acho compreensível que existam gays de direita e que repudiem a militância e tudo mais, não adianta fazermos cara feia e achar que eles não existem ou tem graves problemas mentais, ao considerarmos essas pessoas como traidoras ou não dignas da luta LGBTQ as estamos empurrando cada vez mais para os braços do outro lado e enfraquecendo o nosso que posa de intolerante municiando a sociedade hétero com argumentos que não conseguimos refutar.

Eu espero que Karol tenha entendido onde errou e que todo esse caso tenha ajudado a abrir seus olhos mas, se ela ainda seguir convicta de suas posições não cabe a nós fechar as portas a ela mas sim mostrar que estaremos sempre com elas abertas para aceitá-la.

18 de dez. de 2019

Mas o ódio cega...

Diga-me com quem andas e te direis quem és, diz o ditado.

Só que nessa de dizer quem somos baseado com quem andamos tem muita coisa no meio e não necessariamente as pessoas com quem andamos são um reflexo fiel do que somos porque às vezes, podemos andar com as pessoas erradas por entender que são as certas até que abrimos os olhos e nos damos conta do erro cometido.

Isso definiu quem somos?

Num primeiro momento, confesso que minha reação à agressão sofrida por Karol Eller foi a da maioria leia-se TOME! BEM FEITO! Você é lésbica e vai lá apoiar o messias, fazer arminha, dizer que não há homofobia que é tudo vitimismo, que a comunidade LGBTQ não te representa e coisa e tal, deu no que deu.

Depois, caí em mim e disse não, não pode, estou errado!

Explico - lembrando que esta é a minha opinião, você é e deve sempre ser livre para tirar as suas.

Karol é lésbica e portanto faz parte do L de LGBTQIA+, quando dizemos  BEM FEITO, ELA QUE LUTE e coisas do tipo estamos assumindo o papel do opressor e dando a ele mais munição para nos atacar pois se nós que deveríamos acolhê-la, apoiar e tentar fazer com que ela veja o engano em que havia incorrido ao andar com quem lhe tratava realmente como massa de manobra, a renegamos e dizemos que vá pedir ajuda em outro lugar então o outro lado vai, com propriedade, nos apontar como intolerantes, radicais, preconceituosos e até espalhar boatos de que os agressores foram da esquerda rábida e de outros gays ressentidos da traição de alguém da comunidade.

Percebem como apenas fizemos o jogo deles e saímos mais fragilizados do evento? Quem deveria ser apontado como vilão sai como herói e vice-versa e a rachadura em nosso telhado fez apenas aumentar.

Ela traiu o movimento? Que é traição, meus amores? Ela ou qualquer um de nós é obrigado e concordar com tudo que a militância faz ou diz e digo isso de forma generalizada, ser militante é acima de tudo cobrar não apenas das autoridades e sociedade civil nossos direitos mas apontar onde a militância falha ou age de forma equivocada, aceitar tudo que a militância diz sem questionar nos torna tão ou mais cegos que as pessoas que condenamos do outro lado e, novamente, não estou desmerecendo a militância que ela é essencial e de vital importância para nossa comunidade mas ela não pode nos cegar ao ponto de não sabermos diferenciar erros de acertos, a militância não está acima do bem e do mal.

Quando 'comemoramos' a agressão passamos a ter tanta culpa quanto o agressor e aí fica meio difícil de diferenciar quem é quem, não acham? Qualquer ataque homofóbico deve ser condenado independente de quem seja, se não tivermos esse sentimento de unidade e coesão estamos fadados a morrer como pessoas e movimento enquanto o opressor fica cada vez mais forte, julgar que essa agressão é a lei do retorno é apenas confirmar que esse retorno, ao rirmos de Karol, estará nos esperando na esquina e passaremos o resto de nossas vidas nesse ciclo sem fim, não estaria na hora ou até mesmo passada a hora entendermos que precisamos de UNIÃO e não de SEPARAÇÃO?

Eu realmente espero que ela tenha caído em si e entendido que as pessoas que ela apoia são as mesmas que endossam e incentivam agressões como a que sofreu, que a LGBTQfobia mata mais do que conflitos armados ao redor do globo e que vitimismo é um conceito usado pelo opressor para estrangular qualquer luta por igualidade e representatividade.

Enquanto não entendermos que agredir um membro de nossa comunidade é agredir todos estaremos ainda caminhando para o fracasso a passos largos e dando mais espaço para aqueles que nos querem cada vez menos presentes para não dizer mortos.

11 de dez. de 2019

Aberto/ Fechado

Antes de começar o texto creio ser de bom tom informar que não tenho a receita para um relacionamento perfeito seja lá o que isso for. A perfeição é um conceito imune ao humano e nociva enquanto padrão já que é excludente de qualquer normalidade que exista implicando em si e em nós conceitos intangíveis e inatingíveis.

Sábado passado estávamos numa mesa de bar, local predileto de filósofos, amantes, bêbados obviamente e tudo isso junto e misturado porque é no bar que nasce a vida e no bar ela acaba quando voltamos para matar a ressaca de antes ou as memórias de sempre.

Enfim. Estávamos. Hidratados com aquele néctar dos deuses e alambiques e adegas e vinhas e por aí vai quando o assunto descamba para monogamia, relacionamentos abertos e suas variações. Acho que, imbuído de álcool, talvez tenha feito uma palestra não desejada mas não menos honesta ou coerente.

Explico, pode ser que leias abaixo cousas que não lhe agradem, lamento e eu realmente não dou a mínima.

Há que esclarecer que amor é amor e sexo é sexo. Sim. Não faça cara de espanto ou venha com aquela frase de que sexo sem amor não existe ou essas invencionices, ambos existem em dimensões totalmente distintas mas intercomunicáveis quando necessário.

O conceito de que o sexo só pode existir com amor foi a invenção e convenção social, moral e judaico-cristã mais absurda que já existiu e que serve apenas para manter a todos com medo do pecado cristão, na rédea para que a sociedade não se transforme numa suruba sem fim e sem freios e sem dono - não que ele não o seja mas sem o sexo, infelizmente - e principalmente, resguardar o dinheiro e posses das grandes famílias tradicionais do poder, o poder em si, a empresa católica rica e funcionando com base na culpa incutida no sexo sujo e tudo isso funcionando de modo a perpetuar o status quo e estruturas sociais vigentes.

Some na equação o conceito de amor romântico idealizado pela arte e reforçado pelos preceitos religiosos de que deve ser e estar acima da carne, esse amor romântico é colocado num patamar de divindade no qual todos nós sacrificamos a vida toda na busca por algo que jamais será alcançado pois é impossível e assim, seguimos em seu encalço acostumando-nos a simulacros de amor com ou sem sexo para encher o vazio que nunca será preenchido.

Transmitimos isso de geração para geração e mais gente passa a vida acreditando que amor deve ser buscado sempre e o sexo deve ser evitado quando possível e que só pode existir em sua plenitude quando acompanhado do primeiro e, se você for mulher, tanto pior pois o amor é uma herança que jamais lhe será concedida e o sexo deve permanecer como prerrogativa do macho que lhe mantém, ao homem é concedido separar amor e sexo pois se espera dele que espalhe sua semente em tantos vasos quanto for possível mas a mulher, esta deve ser apenas do amor e o sexo deve ser sepultado e velado se ela se torna a mais santa da criaturas, mãe.

Esses são modelos de relacionamento e conceitos heteronormativos que nós gays emulamos à perfeição porque até bem pouco tempo - em termos de história - não tínhamos outros ou sequer sonhávamos em construir algo diferente.

Mas, vejo com alegria que estamos contestando tudo isso e criando novos modelos de relacionamentos e amores e sexos totalmente destoantes dos vigentes e, salvo aconteça alguma tragédia e nos tornemos uma teocracia, creio que teremos gentes mais livres e libertas do jugo da moral cristã e aptas a amar da forma que lhes for mais conveniente e quem lhes apetecer.

Mas você não crê no amor? Ouço a pergunta desse lado aí.

Sim. Muito. Demais. Incondicionalmente e piamente.

Acredito no amor e acredito que sexo com alguém que amamos é uma das coisas mais próximas da divindade que existe mas o amor que acredito não escraviza, não é dono de ninguém, não exige nem demanda, não impõe, não fere ou agride.

Quando dizemos EU TE AMO devemos dizer apenas isso, que a pessoa tem uma importância enorme em nossa vida e que ela precisa estar conosco, ao lado, sempre, porque sua presença nos faz bem, é desejada e querida e não que ela é nossa ou nos pertence. Não pertencemos a ninguém que não seja nós mesmos, deixar-se ser de outro é abrir mão de si e de tudo que você pode um dia vir a ser na vida, jogar essa responsabilidade nas mãos de outra pessoa é caminho certo para o desastre pois com o tempo você olhará a culpa que é sua instalada naquela pessoa em que você investiu tanto.

Não podemos possuir ninguém mas podemos amar a todos, atribuir para si que o amor deve ser mutuamente exclusivo é podar as asas de uma ave rara e condená-la a rastejar, desastre na certa. Você se sente capaz de suprir a tudo que a outra pessoa necessita quando muitas vezes nem mesmo ela ou você sabe o que precisa ou quer? É arrogância pura exigir exclusividade e monogamia, é posse, é morte, é egoísta e não é amor.

E o sexo?

Ah! O sexo é apenas sexo gente, eu e vocês somos ANIMAIS, o sexo faz parte de nossas vidas e foi criado para dar prazer, a reprodução é um efeito colateral. Sexo com amor é bom? Claro que é, o melhor mas não significa que o sexo pelo sexo, o tesão, querer gozar, carne, luxúria e tais não sejam coisas boas.

Estamos há séculos sujando o bom nome do sexo, demonizando, perseguindo e tudo porque pessoas sexualmente livres são perigosas porque tem ciência de seus corpos e que o prazer não está nas mãos de outras mas em suas próprias e isso é muito perigoso.

Mas você sempre teve esse tipo de pensamento?

Não, adquiri essa consciência com o passar dos anos, amadurecendo e fazendo muita merda, brigando por razões fúteis e exigindo coisas que eu mesmo era incapaz de oferecer, mentindo, usando de subterfúgios e desculpas, um fardo que cobra seu preço pesado mas, consegui me livrar disso e quando o fiz descobri que era possível ser feliz sem atender expectativas que nunca foram as minhas mas dos outros e da sociedade.

Mas você é casado..

Sim. 17 anos. Não me vejo sem meu marido e ambos evoluímos muito em nosso relacionamento. Foi fácil? Não. Mas também não foi impossível bastou diálogo, respeito, honestidade e muito amor, essas coisas que vivemos falando para os outros mas nunca usamos em nós mesmos, não é?

Hoje quero alguém do meu lado que me deseje feliz e bem, que saiba que eu compartilho com ele uma vida que não compartilho com qualquer outra pessoa e que só consigo ver sentido em minha vida se ele estiver comigo mas, isso não significa que ele me pertence e vice-versa, não quero ser dono de ninguém e não quero que ninguém seja meu dono, não tenho nota fiscal, não fui tirado de uma loja.

Acredito piamente que relacionamentos abertos, poliamorosos ou outros são muito mais saudáveis o que não quer dizer que condene os relacionamentos ditos tradicionais, cada um de nós deve fazer o que julga melhor para si e se um casal encontra seu jeito de fazer as coisas funcionarem então está tudo bem!

Ninguém detém fórmula nenhuma e esses programas e livros de casais que pregam métodos e conselhos para fortaleces casamentos e afins são arapucas, cuidado! Apenas você sabe o que vai lhe fazer feliz, bem, o tipo de amor e de sexo que você quer, não deixo ninguém lhe dizer o contrário.

Amor é sexo e sexo é amor, às vezes eles vem juntos, às vezes separados, às vezes nem vem, às vezes não sabemos se é um ou outro mas se você souber como quer que eles venham vai ser muito mais fácil reconhecer quando chegarem.

21 de set. de 2011

ralo abaixo

A revista Piauí deste mês trouxe uma matéria sobre Silas Malafaia, a encarnação do demo para nós viados, nosso Hitler particular, calvário e nêmesis.

Sim, tudo isso mas ainda assim, eu defendo seu santo direito de falar que não gosta, não aprova e condena a viadagem, gays, dar o cu e chupar rola. Sou capaz de dar um braço meu para que ele possa ter assegurado seu direito de falar o que pensa, acredita, esteja ou não embasado em provas irrefutáveis, sejam elas científicas, cientologíficas, de fé, de fato ou imaginárias.

Já disse antes que não quero nenhum direito assegurado nos escombros dos de outros, perde a graça, o valor e a importância; de xiita, já basta esse povo que nos deseja ver a anos-luz de distância. Na verdade, na improbabilidade dos 'evengélicos' em peitar causas e combates de peso, seja por falta de amparo ou despreparo e falta de articulação política mais eficaz posto que, entre 'eles', há mais sub-divisões, cismas e vertentes que dentro da própria política fato pelo qual, penso, ainda não se elegeu um presidente 'crente', enfim,  nesse balaio, ao invés de comprar brigas reais e que possam mesmo fazer algo de diferente pelo país e sociedade, esses 'religiosos' massacram os gays, ponta de lança sempre em riste para nos cutucar e sangrar porque não se espera que nós realmente revidemos e, como somos sim minoria desamparada do Livro, sofremos o efeito capacho.

Malham a nós para tirar os olhos do que realmente faz conta e interessa, não há agenda salvo uma falsa missão de resguardar e salvar a família de nós que vamos comer as criancinhas no café, almoço, janta e ceia. Não vejo o mesmo empenho em combater os afro-brasileiros (não prego aqui que se deva, fique claro!), porque será? Porque ainda bem temos leis que se aplicam contra esse tipo de barbárie mas, nas sacristias, penso se eles não soltam termos pejorativos e ofensas raciais, quem aposta o oposto?

Não vejo também empenho dos 'crentes' em debater assuntos como reformas políticas, sociais, agrárias ou diminuição da jornada de trabalho (representaria, indiretamente, uma redução no dízimo?Não sei), só vejo tudo contra os viados, como se carregássemos nas costas todos os males que afligem a sociedade. Não questiono quem segue, doa seus ganhos, total ou parcialmente à igreja que segue, acho que se é da fé da pessoa e ela se sente bem, que o faça mas, será que também nós viados, por não termos assim, de forma geral, uma boa relação com as igrejas e afins, não estamos de fora do circuito de doações e, fato sabido, somos conhecidos por termos mais recursos financeiros? Não haveria um interesse em converter esse bando de bichas em fiéis que doariam sem pestanejar?

E se a fé deve, antes de tudo, propagar amor, porque se insiste em fazer o oposto? O ódio? Simplesmente porque o Livro assim o diz? Mas esse mesmo Livro não pode ser interpretado de várias formas? Não é essa a causa da proliferação 'gremlinistica' de igrejas? Então porque focar apenas no ódio? No ataque? Faz bem a católica que, comendo óstias, vê o embate e vai levar pra casa o saldo remanescente.

No mínimo, deveria have o que falta em toneladas, respeito. Malafaia, meu velho, pode não gostar das bichas, viu? Pode pregar contra e esfolar os 'gatos' que quiser mas, vamos manter o respeito? Não precisa se referir a nós, na entrevista, como bichas, viados, bicharada e nos tratar como o estereótipo que se espera de nós. Também acho que, de nosso lado, temos xiitas e que não sabem como lutar pelos nossos direitos mas, se você nos trata assim, de forma baixa e sem a deferência que um ser humano merece, como podemos dialogar ou mesmo não dialogar mas tentar uma convivência menos agressiva? Isso é fé?

Pode nos condenar em seus templos e cultos, pode ser contra, eu mesmo assino aqui por você mas, que tal nos tratar com um mínimo de respeito? De civilidade? De humanidade? Ainda mais quando alvo de uma matéria em uma revista (que poucos vão ler, fato)?

Fico triste pois se há fato mais certo do que sua fé é que o mundo dá voltas e a bicha que você denigre hoje pode ser a mão salvadora de amanhã, e daí? Como faz?

17 de ago. de 2011

breeder

Acho graça esse fuzuê todo sobre Dia do Orgulho Hetero, mais um factóide fabricado para desmoralizar, desmerecer, achincalhar e fazer chorar nós, viados e nossa suposta militância.

Meu saco na lua pra isso, cansei, cada peido que os que são contra nós dão e 'nossos defensores' fazem um alarde tão grande que a coisa fica mesmo mais ferrenha e com ares de razão, quer fazer o DOH, que faça! Oras, porque não? Deixa, vamos discutir coisas mais importantes? Move on?

Cansei desse lance de beijo noveleiro, série, mini-série ou seu lá, de novo um auê tão grande pra nada, apenas para as emissoras engordarem seu IBOPE com a polêmica e, como sabido, tirar da boca o doce na última hora. Não gosto de novela, sem intelectualismos ou demagogias, simplesmente não desce, não tenho saco, não gosto, acho chato, porre total e nem mesmo a presença de gays, bem retratados ou não me animaria a tomar isso como hábito, nem é e, assim, toda essa polêmica passou pra mim meio que de lado, desapercebida e achei foi bom porque eram só ânimos inflamados, tão inflamados que infeccionou, gangrenou o assunto, morreu, próximo, please! Chega!

Tem de ser assim na base do Darwin sabe, mais pelo natural que pela sobrevivência do mais apto pois então só teríamos nós mesmo no mundo, pensamento gay absolutista, gay power, pink force, super edy. Vai no muque e ninguém quer saber e se fazem que querem é só pra gente calar a boca e virar o disco porque, sério, nem a gente aguenta mais esse mimimi.

Agora, esse DHO, hein? Pois é, vai lá, aprova e faz, marcha, festa e afins. Vai ter rifa de buceta? Jogo de graça nos estádios? Breja liberadas nos botecos? E as rachas? Não podem ter o DOB - Dia do Orgulho da Buceta? E por aí vai, né?

Onde aperta o botão pra descer? Será que o movimento negro passou por essas mesmas palhaçadas ou a culpa, o fardo escravagista fez com que a supremacia ariana freasse seu ímpeto? Alguém lembra de que, meio por baixo assim, houve um zum zum zum de Dia do Orgulha Branco? Heresia, hein? E de certo que era.

Como é esse DOH, dia de hetero é todo dia, toda noite, toda hora. Hetero não precisa fingir, omitir, esconder, disfarçar. Hetero não é alvo de olhares de viés, nem de olhares rábicos, desvacinados, afã de ver sangue rosa no chão. Hetero é todo dia, tudo bem, faz o que quer, como quem quer, fode quem quer e ainda leva tapinha nas costas, parabéns, meu filho! Assim que se faz!

Hetero pode coçar o saco, peidar, fazer jus aos estereótipos que se esperam deles, pode sim, tudo e mais um pouco, não tem hora pra nada, tem hora pra tudo. Hetero tem Deus, os apóstolos, bíblia, lei e tudo mais lhe dando suporte e apoio. Hetero tem mais, é mais, hetero é assim todo dia.

Hetero acorda e a vida é assim sorrisos afinal, ele é hetero, não tem os dez dedos lhe apontando na cara. Hetero é sussa, beleza, tranquilo, a sociedade platinada, plastificada lhe dá boas vindas. Hetero é cult, bom, é 'in'.

Hetero, você tem certeza de que nesse mundo do qual imploramos, sim imploramos migalhas como casar, amar livres, existir apenas, você precisa mesmo de UM dia para mostrar que tem esse tal de orgulho?

30 de jun. de 2011

as fotos (III)

Bom, fechando a trilogia, temos fotos. Estão todas no FB, basta ir no meu álbum mas, escolhi as que me são mais caras.

enjoy!












lembranças aleatórias não relacionadas com a infância

Lembrança #10 Lembro de uma festa ou rave ou balada que eu ajudei um amigo a organizar num tipo de sítio eu acho. Estava separado do meu nam...