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9 de mar. de 2020

O Carandiru nosso de cada dia

Creio que todos estejam a par do caso de Suzy, escrevi sobre ele aqui.

Numa reviravolta novelesca e que está alimentando a fábrica de ódio das redes sociais, o crime e sentença de Suzy vazaram numa clara infração de seus direitos constitucionais e sim, detentos ainda tem direitos mesmo que você torça o nariz para isso.

Quem vazou? Difícil saber, pode ser sido a própria Globo sedenta por mais números de audiência, Bolsonaristas cruzados imbuídos do dia 15/03 e que defendem o extermínio como solução para tudo ou até mesmo notícias falsas criadas para gerar ruído e confusão.

Partamos do pressuposto de que os fatos sejam reais e que Suzy tenha sido autora dos crimes horríveis que perpetrou e pelos quais está pagando, estão agora crucificando Dr. Drauzio apenas por ser o que todos nós deveríamos ser mas nunca somos, humanos. Ele é um MÉDICO, não é juiz nem advogado, não estava lá para entender porque ela cometeu os crimes que cometeu ou traçar um perfil dela enquanto criminosa, estava lá para mostra a realidade das pessoas trans encarceradas e sua luta pela sobrevivência e reintegração.

O crime de Suzy precisa ser entendido num contexto mais amplo considerando sua orientação sexual e identidade de gênero além de possíveis problemas psicológicos e psiquiátricos e sempre tendo em mente o trauma da família que sofreu uma perda irreparável. Associar seu crime a sua sexualidade é ratificar o discurso de ódio contra toda a população LGBTQIA+ da mesma forma que pregar que bandido bom é bandido morto, lembre que a Lei de Talião tem o péssimos hábito de acabar por deixar a todos nós em um país de cegos.

Seja como for que a informação tenha vazado, agora os cruzados do messias estão revestidos de seu ódio contra todos os criminosos e, obviamente, pregando a quem quiser ouvir que os gays são todos pedófilos, pervertidos e estupradores, Suzy lhes deu a munição que precisavam e está pagando outra sentença além da que já paga, a do tribunal virtual e neste, não há apelação ou recurso possível.

Muito provavelmente, toda a rede de apoio que se fez após a matéria do Fantástico irá se desfazer no ar com esse novo fato que veio a luz verdadeiro ou não porque Suzy já foi considerada culpada e condenada pelos juízes da internet e, se havia passado oito anos sem qualquer contato humano com o mundo exterior tenho quase certeza que passará o dobro disso isolada e repudiada.

Não estou defendendo bandido ou justificando seus crimes, se ela os cometeu há de pagar por eles como dita a lei mas fazer com que ela passe por outro julgamento onde ela nem mesmo pode se defender diz muito sobre nós como pessoas e como sociedade, fácil chutar cachorro morto. O uso descarado que a mídia social faz dessas pessoas como alimento das polarizações que vivemos faz bem apenas para nós que estamos livres e podemos nos odiar online todos os dias, o dia todo, para Suzy e outros encarcerados, a vida segue amargar como sempre foi só que pior pois agora as feridas que estavam quase fechando estão novamente abertas e não apenas de seu lado mas pelo lado da vítima também ou seja, estamos acabando com a vida de mais de uma pessoa a cada comentário.

Agora, pedir a cabeça ou o cancelamento de Drauzio é um absurdo sem tamanho e uma estratégia nojenta dos conservadores e Bolsonaristas abjetos que o estão usando como bode expiatório para sua agenda fascista seguir adiante. Drauzio nunca foi aos presídios tratar apenas detentos que cometeram ofensas leves, ele sempre tratou todos sem distinção pois seu juramento assim o diz, não importa se é um traficante, pedófilo, estuprador, assassino; se é rico, pobre, gay, trans, ou seja lá o que for, ele está la porque é um médico e um ser humano melhor do nós pois está dando ajuda e apoio a pessoas que não teriam isso em outro lugar independente de um julgamento abstrato de merecimento.

Drauzio está lá porque aqui de fora nós só lhes enviamos ódio, ressentimento, asco e esquecimento e lá dentro. eles só tem mais do mesmo e ninguém mais fará isso por eles mas, o tribunal das bestas online já condenou Drauzio porque esse tribunal não tem humanidade, só tem ódio. O júri online já proferiu sua sentença de que ele gosta de bandido, de que a Globo é um lixo (e estamos vendo vocês promovendo boicote e sem tirar o olho do BBB) e está promovendo bandido e pedófilo, como se Drauzio tivesse por obrigação cuidar apenas de quem é bom e, nesse caso, quem define quem é bom e quem é mau? Vocês com o teclado ou smartphone nas mãos?

Estamos vivendo esses tempos horrendos em que pessoas com atitudes humanas são execradas e aquelas que pregam o ódio, morte, preconceito e raiva são ovacionadas em pé. Em que um condenado não paga apenas uma pelo seu crime porque na internet ele não prescreve jamais. Em que o entendimento de uma situação se dá em cento e quarenta caracteres, sem contexto, sem bagagem, sem ver o quadro mais amplo. Em que as informações vazam conforme o benefício que podem causar ou o dano que possam infligir. Em que a veracidade dos fatos se dá pela quantidade e likes ou retweets e não pela análise profunda e reflexão. Em que jamais seremos perdoados enquanto houver wifi e um teclado por perto.

O Carandiru nosso de cada dia.

5 de fev. de 2020

A homofobia nossa de cada dia

Imagino que todos estejam a par do crime que vitimou uma família no ABC Paulista recentemente, detalhes aqui.

Logo de cara, a filha do casal e sua namorada e/ou esposa foram presas como principais suspeitas e, pelo andar da carruagem, serão realmente indiciadas pelo crime que, até onde se sabe, foi cometido num misto de ganância, amor tóxico, relacionamento abusivo e sabe-se lá mais o que.

Não cabe a mim ou a ninguém fazer julgamento ou entender porque crime tão bárbaro - leia os detalhes na matéria no link acima - foi cometido e reduzir a um simples caso de homofobia já que, aparentemente, o pai não aceitava a orientação sexual da filha ou seu relacionamento com a namorada-esposa. Seria uma dedução simplista e tendenciosa para explicar algo que muito provavelmente tem raízes muito mais profundas.

O que mais me choca e preocupa são os comentários na matéria em questão e em outros lugares apontando a orientação sexual como causadora do crime numa profusão de 'opção sexual', 'homossexualismo' e toda gama de termos que a sociedade pensa saber usar com maestria nesses momentos.

Outros tantos, conservadores convictos, já bradam onde estaria a esquerda, a Lei Maria da Penha para essas moças? Logo vão aparecer dizendo que elas foram vítimas de homofobia e que se fosse o contrário, estariam já de punhos em riste clamando por justiça. E, para coroar tudo, alguns comentando que tal crime apenas comprova o desejo gay de acabar com a família, que se fossem pessoas 'normais' isso não aconteceria como se a orientação sexual fosse responsável por desvios de caráter ou sociopatia.

Em ocasiões como estas, em que crimes são cometidos por LGBTQs, a sociedade normativa que já tolera a contragosto gays, vê-se no direito absoluto de apontar a 'sexualidade deviante' como causa prima do crime afinal, gays não prezam pela família, são devassos, não tem religião, são pecadores e pessoas sem qualquer senso moral ou decência e, nos dias de hoje, numa lógica reversa bizarra, dizem que gays sempre usarão a homofobia como justificativa para um ato de violência que porventura venham a praticar o que é sim um ato de extrema homofobia.

Quando a violência é cometida por um membro da maioria normativa os brados por justiça são altos sem dúvida mas, quando o quesito LGBTQ é adicionado ao caso já passamos para o nível de queimar na fogueira afinal são pessoas com graves desvios de personalidade e sexuais. Essa associação faz todo sentido numa sociedade que ainda encara pessoas LGBTQ como ameaça ao status quo não por serem concretamente isso mas por representarem uma parcela da população que não aceita mais ser invisível e que está demandando respeito e visibilidade o que assusta a maioria.

É mais fácil aceitar que pedófilos e criminosos sejam gays porque já lhes é inerente um desvio do que aceitar que a orientação sexual não é fator determinante para moldar um criminoso mas pode, quando confrontada com preconceito, ódio, desprezo e humilhação, ajudar a formar essa personalidade torta juntado-se a outros problemas ou patologias não identificadas ou tratadas.

Como o crime foi cometido por duas pessoas LGBTQ, ocorre essa inversão de valores em que se passa a julgar o crime não pelo ato em si mas pela sexualidade da pessoa quando, no caso de um hétero ter cometido o mesmo crime, a sexualidade sequer seria mencionada como fator para o crime.

Quando héteros cometem crimes tão ou até mais horrendos contra pessoas LGBTQ os comentários não apontam a heterossexualidade como fator determinante para o crime, muito pelo contrário, a culpa é das bixas que não se dão ao respeito e novamente a culpa é de quem não tem a orientação sexual ou identidade de gênero normativa o que nos faz bater recordes de assassinatos de pessoas LGBTQ a cada ano.

Como se não bastasse isso, a cadeia de comentários pedindo PENA DE MORTE é impressionante, fico pensando se estas pessoas que pedem tal mecanismo tem a ciência de que num país como o nosso, com uma polícia inepta e despreparada, um sistema judiciário podre e onde fala a lei do dinheiro, a pena capital serviria apenas contra pobres, bixas, negros e qualquer outra minoria e até mesmo contra essas mesmas pessoas que a pedem pois uma vez implantada, não haverá distinção entre quem é bandido e quem é mocinho e, quando for ver, será tarde demais para voltar atrás.

A antesala de tudo isso é o preconceito enraizado e estrutural que vivemos dia a dia no país e que, infelizmente, com o atual governo, não arrefecerá já que ele passa o pano para racistas, homofóbicos e outros mais.

Enquanto essa parcela da sociedade - e nós mesmos - não entender que nossas 'diferenças' devem nos unir ao invés de nos separar estaremos eternamente a merce de fascistas e de comentários como esses nas matérias sobre esse crime terrível, julgando pessoas não pelos seus atos mas por suas individualidades e seguiremos numa sociedade onde sua inocência será ditada pela cor de sua pele, aparência, poder aquisitivo, moradia, orientação sexual ou identidade de gênero.

O horror nosso de cada dia.

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