Mostrando postagens com marcador sociedade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador sociedade. Mostrar todas as postagens

7 de jan. de 2021

a liberdade e suas fronteiras

 


Conviver em sociedade é para os fortes.

Ainda mais em tempos como estes quando todos acham que tem direito a tudo e não devem nada, a individualidade e hedonismo promovidos pela vida on-line confundem as fronteiras da vida real e as pessoas acabam achando que suas vidas-casas são extensão de seus feeds e páginas e que as podem simplesmente bloquear desafetos e quem não aceita suas ações sem culpa e seguir fazendo o que bem entendem.

Adicionemos uma geração que veio de lares onde limites e NÃO eram coisas raras ou inexistentes e uma pandemia que forçou todos e obrigatoriamente exercer um convívio que não estavam habituados e a receita para o desastre está completa. Com a rotina carregada de trabalho, estudo e diversão, pouco contato tínhamos com as pessoas com quem dividimos espaços comuns, principalmente me prédios e condomínios. A pandemia forçou essa convivência indireta e abriu feridas que dificilmente uma vacina irá fechar.

Há uma noção escrota de liberdade amparada pelo conceito pré-existente e reforçado pelo Bolsonarismo de que, se estou pagando, posso fazer o que bem entender vide a quantidade de casos de Bolsonaristas que bradam aos quatro ventos seus direitos de pagantes ofendendo e humilhando sem culpa para depois meter um atestado de distúrbios emocionais, lamento, falta de caráter não é doença, é falta de caráter e só.

Passei por algo assim onde moro. Morador ou moradores de um andar faziam reuniões que se estendiam até altas horas da madrugada com música e conversas animadas, janelas abertas como se somente eles morassem no prédio.

Reclamei uma vez ao síndico e mesmo assim voltou a acontecer.

Reclamei novamente e dessa vez fui um pouco mais incisivo, quem me conhece sabe bem como, e comentei que se ele não resolvesse o caso, eu mesmo resolveria só que não seria legal para ninguém porque eu ia meter o louco e tacar fogo nessa porra.

Aparentemente, o morador recalcitrante foi enquadrado e dia desses, pegando o elevador com o síndico:

Tudo bem?

Tudo bem!

Como foi de fim de ano?

Bem, em casa, não dava pra sair e você?

Em casa também, não saímos, ficamos quietos.

Pois é, o morador do NN não teve mais nada né?

Olha, se teve, eu não ouvi, se não viajou..

Viajou mas voltou, passou as festas aqui, não teve barulho né?

Eu não ouvi, se tivesse ouvido você seria o primeiro a saber.

Pois é, falei com ele novamente depois daquelas vezes porque não dava mais..

Não mesmo!

Ele disse que vai mudar, disse que é muito complicado morar aqui..

Não é complicado, é só seguir as regras de convivência agora, se você quer morar em lugar que você pode fazer o que bem entender sem ter reclamação, sugiro um casa ou um sítio..

Fim da conversa e fim de mais um morador que não está preparado para conviver em sociedade.

9 de nov. de 2020

polos

 


A gente sai comemorando a derrota do déspota americano e esperançoso de que em 2022 nos livremos do nosso, fazemos memes, piadas, gritamos palavras de ordem e sentimos finalmente uma lufada de brisa de esperança como se nunca tivéssemos respirado isso antes.

Não estou criticando, acho que deve sim ser comemorado o fato de uma potência mundial ter eleito um presidente que, até onde se sabe, tem a cabeça no lugar e não é um pequeno ditador disfarçado de democracia. O que mais me preocupa e entristece (e me coloco no saco junto com o resto da farinha) é como estamos perdendo a passos largos a capacidade de diálogo, de debate, de conversar, de ouvir, de analisar, entender e compreender uns aos outros.

Longe de mim defender os que discursam pelo ódio, preconceito, intolerância e que merecem sim uma mordaça tanto física quanto moral por tais barbaridades mas, estamos nos cancelando numa velocidade tão insana que deixamos de lado a razão, a compreensão e a abertura para o diálogo e debate e que são características que nos tornam humanos por excelência. Abolimos o que pensa diferente de nós e preferimos debater apenas com as ideias que são parecidas ou alinhadas com as nossas, qual o ganho disso? Estamos pregando para convertidos, para nosso pequeno séquito, somos pastores de nós mesmos e onde está o crescimento nisso?

Reforço que não defendo o diálogo com pessoas que aberta e claramente flertam com ideias fascistas e que disseminam o ódio e a violência, com gente assim não há diálogo possível mas estamos fechando tanto a abertura que praticamente nada consegue passar e isso é um risco iminente para a estagnação, nenhuma ideologia ou grupo de ideias sobrevive muito tempo sem arestas, sem contestação, sem algo ou alguém que provoque reflexões profundas e até desconfortáveis mas, no século dos extremos que vivemos, estamos todos agindo como absolutistas, ou você está comigo ou está contra mim e achamos que temos toda a razão.

Perdemos a arte do diálogo entre mensagens de whats e postagens nas redes sociais, não sabemos mais conversar com outras pessoas se elas pensam diferentemente de nós, tem outros valores ou ideais, não importa de qual lado estejamos, passamos a encarar o outro com desdém e com raiva, como inimigo mortal e quando ele abre a boca tapamos os ouvidos porque nada do que ele possa dizer vale a pena ser ouvido ou debatido, somos reféns de nós mesmos e de nossas convicções.

Então, quando qualquer assunto esquenta e necessita de mais diálogo e conversa, não fazemos isso, partimos ao ataque e humilhação do outro, do ponto de vista do outro, ele é o mal, o erro, a caixa fora do tom, a nota fora do ritmo mas, se todos tocamos a mesma nota, que música estamos fazendo? Nunca a frase 'o inferno são os outros' me pareceu tão real, enxergamos o outro como a palavra do mal encarnada incapazes de sequer tentar entender a visão de mundo que o permeia e compele, que carrega, que foi imbuída em si e não há engano, todo excesso é nocivo, não importa de que lado venha, o excesso mata não apenas o corpo mas a mente e a sociedade e vivemos há um bom tempo no excesso do excesso sendo a arena política a principal onde jogamos todas as nossas angústias, frustrações, medos, raivas e paixões desenfreadas.

A polarização política foi o estopim para outras que dormiam sob fogo brando, nela pudemos colocar toda a nossa raiva do outro, uns nos outros pelos simples fato de pensarmos diferente, não concordarmos, maximizamos as diferenças porque elas nos fazem sentir vivos e dão menos trabalho do que tentar ouvir, conversar e dialogar, mais fácil atacar, cancelar, exilar e expulsar e ter a vida em grupos que nos aceitam e sempre dizem que estamos certos.

Não evoluímos como espécie assim muito pelo contrário, todas vezes que nos deixamos levar por esse tipo de comportamento a desgraça se abateu sobre nós implacável mas, parece que pouco aprendemos e seguimos insistindo nos mesmos erros, eu incluso. Parece que nos tornamos pequenas bolhas de sabão flutuando e que, ao esbarrar umas nas outras, ao invés de nos fundirmos em outra maior, simplesmente explodimos e deixamos de existir.

Seguindo assim, seremos uma raça polarizada realmente com dois grupos distintos vivendo em pólos distantes, incomunicáveis e que se odeiam no melhor estilo 1984.

Orwell estava certo.

30 de out. de 2020

brincando de presidente

 


Eu nasci gay graças a todas a forças do universo e, se existe algum tipo de reencarnação, voltarei ainda mais gay porque voltar hétero e escroto como o nosso 'presidente' é praga que nenhuma alma merece, melhor ir logo arder nos fogos eternos do inferno seja ele qual for.

Não temos um presidente, temos um comediante medíocre que segue um repertório datado e que surte efeito apenas para seus convertidos, uma plateia de mortos-vivos que se apegam a um modelo de sociedade cambaleante e moribundo com unhas postiças e dentes moles de forma histriônica e violenta pois sabem que seu mundo está com os dias contados e esse tipo de governo é um suspiro, um vento adicional para seus pulmões caquéticos e cheios de poeira histórica.

Bolsonaro é um palhaço cansado, maquiagem borrada pelo tempo num picadeiro roído pelas traças da história, só consegue arrancar risos de seu público quando reforça as mesmas piadas que passam de geração a geração nas mesas de festas de fim de ano familiares, festas de firma quando as gravatas foram parar nas testas e os sapatos nas mãos, churrascos que reúnem parentes que se veem em ocasiões especiais apenas para perguntar sobre as namoradinhas, namoradinhos, dizer que a sobrinha está ficando um mulherão, o sobrinho está ficando meio boiola, é pavê ou pra cumê, mulher minha não faz isso, vira homem porra enquanto as carnes vão assando além do ponto na grelha junto com as aspirações de uma sociedade que perdeu seu caminho e, desesperada, voltou-se para um mascate piadista de quinta categoria.

Bolsonaro não virou boiola por causa do guaraná, ele não pode virar gay porque não aguentaria um dia sequer como gay, trans, bi, queer ou qualquer um de nós, não duraria cinco minutos como um de nós porque ser LGBTQ no Brasil é sobreviver todo santo dia, não é matar um leão mas fazer de tudo para não ser morto por ele a cada minuto. Bolsonaro não saberia ser gay nem se quisesse, ele não tem capacidade para entender qualquer vivência fora de seu picadeiro de piadas exauridas, se passasse um dia, minutos que fosse, pediria arrego, choraria feito uma criança e pediria colo, desculpas, sumiria para qualquer buraco fundo e nunca mais daria as caras no mundo. Não poderia jamais 'virar boiola' porque não sobreviveria a uma vida gay, para ele ser gay é isso, virar algo que não é normal, um interruptor que podemos ligar e desligar ao nosso prazer, faz troça da gente porque em seu mundo binário, rígido e severo, não pode haver nada que não seja macho alfa forte dominante e zeloso de sua masculinidade, padrões de rosa e azul sem meios termos.

Bolsonaro faz piada com a gente porque essa é a única maneira de lidar com seu pavor de que sejamos humanos, gente, cidadãos e que tenha de nos tratar como tal. Para ele, 'virar boiola', 'jogar água fora da bacia' e todo repertório de piadas infantis e imbecilóides faz sentido enquanto patrono dos tiozões país afora de chinelo Raider, short de tactel, óculos na ponta do nariz e celular na mão, camiseta de time para completar o clichê. Como não pode fuzilar todos nós ou colocar num campo, faz piada porque fazer piada é humilhar o outro, diminuir, fazer dele uma não-pessoa, com seu discurso burlesco grotesco, incita que o assédio e humilhação sigam em frente porque, se o chefe pode, eu também posso e assim, dá-lhe mais e mais crianças, adolescente e adultos tendo se passar por humilhações diárias pelo simples fato de serem e existirem.

Para Bolsonaro, a presidência não é um cargo, uma responsabilidade mas o recreio da escola, a turma do fundão, governar o país por quatro anos é, para ele, um eterno churrasco de família onde ele pode, sem medo de represálias, falar suas asneiras e atrocidades enquanto a nossa carne vai assando lentamente sob o fogo de seu fascismo ardente.

8 de mai. de 2020

Um dia sem héteros

Seis e cinqüenta e oito


Repita!


Seis e cinqüenta e oito!


O governo anuncia que não reduzirá a taxa básica de juros além do que já foi reduzido e, segundo o Ministro da Fazenda, qualquer medida nesse sentido pode comprometer seriamente a meta de crescimento prevista para este ano que ficará em torno do seu marido, de mãos certeiras quase rudes, devorando os pensamentos que se embaralham em sua mente, lhe pegando com força, suas pernas abrindo caminho por entre as suas coxas até que seu membro rijo encoste a fronte em seu sexo já úmido e então, a cotação do Euro sobe para R$ 6,35 e o saldo da balança comercial está totalmente a favor de que ele goze dentro.


Sete horas


Repita!


Sete horas!


De olhos semicerrados, tateia o outro lado da cama buscando o corpo do parceiro, não está. A mão corre pelo lençol liso, não desfeito, incólume, inocente. Entre a previsão do tempo e notícias sobre um congestionamento olímpico na cidade, seus dedos vão despertando e transmitindo ao resto do corpo o acordar lento, indesejado, o sono luta com véus e areia mas vai, aos poucos, perdendo terreno e vendo seus domínios oníricos serem substituídos por pedaços de realidade.


Sete e oito!


Repita!


Sete e oito!


Abriu finalmente os olhos, deu de cara com o travesseiro dele, formato intocado, uma busca ou resgate de algum recado deixado na noite anterior, indicando que não pernoitaria ali mas, se houve, seus neurônios dormentes ainda não se apercebem do fato. 


Barulho de chaves na porta e a associação das chaves a ele, aquela hora? Não era dada aos ciúmes comuns, era já uma mulher adulta e segura de si e ainda que o homem que morava ali e que chamava de amor, amante e até marido às vezes pudesse quiçá dar seus pulos aqui e ali, havia desde o início acordo tácito entre eles de que o longe dos olhos era sim distante léguas do coração e que se essa distância um dia diminuísse que ao menos houvesse entre eles dignidade suficiente para assumir um ante o outro o fato e dar seguimento da melhor forma possível às vidas machucadas mas não incuráveis.


Não era ele, sabia pelo girar das chaves e em seguida pelos barulhos na cozinha, era a empregada. Levantou-se por fim, foi ao banheiro para suas abluções matinais e foi dar com a empregada já no preparo do desjejum. Depois de um bom dia formal entre elas, sentou-se e sacou o controle da TV sintonizando em seguida no telejornal para inteirar-se das tragédias diárias enquanto a diarista espremia laranjas frescas.


‘Hoje está um caos’ comenta a empregada ‘acho que foi greve de ônibus porque pra chegar aqui foi um sufoco, parece que o metrô também, esse povo não quer é trabalhar...’


Anuindo com a cabeça, tentava ouvir o que o telejornal averbava. Realmente havia se instaurado um caos na cidade com vários serviços sem funcionar mas, não se falava de greve ou coisa assim, era como se parte dos trabalhadores tivessem resolvido da noite para o dia simplesmente renegar sua funções e ir aproveitar a vida ou o que restava dela entre os dias mortos do calendário.


Bebericava o suco fresco enquanto a doméstica preparava torradas e fervia o leite. O noticiário buscava analistas e formadores de opinião e até mesmo os apresentadores informavam que estavam ali emergencialmente uma vez que os colegas apresentadores dos vespertinos não haviam aparecido ou sequer informado sobre sua ausência.


Trata-se de um problema social


Não concordo, creio que é uma movimentação sindical orquestrada para desestabilizar o governo.


Mas em que sentido? Não se pode traçar um perfil do profissional que simplesmente não foi trabalhar, e se há mais casos que não sabemos?


Como assim? Está claro que é um plano da oposição para botar pânico na população, estamos em ano de eleição afinal.


Sim mas, o que digo é que não temos até o momento nenhum sindicato ou representante dos mesmos assumindo que se trata de um movimento, eles mesmos estão sem saber a causa disso tudo, me parece mais um caso desses de abdução ou essas coisas de fim dos tempos.


Oras, mas isso é coisa de teoria da conspiração, estou certo de que se pararmos e analisarmos na luz fria dos fatos vamos encontrar um padrão e uma razão para isso.


Mas e os relatos que começam a chegar de pessoas que foram comprar pão e não voltaram, e de pessoas que foram dormir juntas e acordaram sozinhas? Não estaríamos frente a algum tipo de fenômeno inédito?


Veja, enveredar por esse caminho é algo que irá apenas gerar mais pânico e dúvida na população. O governador acaba de agendar uma coletiva para logo mais para divulgar um plano de ação, estou certo de que se trata de algum tipo de embuste político!


TRIM TRIM TRIM - TRIM TRIM TRIM - TRIM TRIM TRIM


Atende o celular a doméstica e ela, educadamente, abaixa o volume da TV mesmo porque era um debate que começava a lhe tirar o apetite da refeição que mais lhe agradava no dia. Levantou-se e foi a sala pegar o jornal colocando antes a TV no mudo. Quando voltou, a mulher estava pálida, escorando-se na pia a cozinha, aproximou-se dela e perguntou o que se passava, estava tudo bem?


‘Meu marido’ respondeu num fio de voz ‘saiu para o trabalho antes de mim mas me ligaram de lá perguntando sobre ele porque lá não chegou...’ assustou-se e se o seu marido não chegasse também? Esforçou-se por lembrar a noite anterior, estava com amigas quando ele ligou entre a quarta ou quinta garrafa de vinho dizendo que chegaria bem mais tarde ou talvez pela manhã, assuntos de trabalho, ela já estava acostumada. Liberou a diarista para que fosse atrás do paradeiro do marido, desejou-lhe sorte e que se precisasse de algo não hesitasse em lhe chamar, alívio burguês.


Voltou-se para a TV e lhe restituiu a voz, o debate prosseguia, em alguns canais com elucubrações mirabolantes, outros histriônicos e outros ainda panfletários e nada de seu marido dar a porta de casa. Olhou para o relógio, marcava quase oito, sacou do celular e ligou para o numero dele.


Após o sinal, deixe seu recado.


Ele costumava de fato dormir no escritório vez ou outra quando havia trabalhos urgentes mas, preocupava-se agora com essa onda de pessoas desaparecidas. Sintonizou um canal que lhe pareceu mais com os pés no chão.


Não se pode, neste momento, traçar um perfil mas o fato é que, de acordo com as informações que nos chegam, os desaparecidos não seguem um perfil específico, são homens mulheres, crianças, de todas as idades, raças, classes sociais e perfis profissionais, desde padeiros a pilotos de avião e mesmo na sede do governo, votações importantes tiveram de ser adiadas pois alguns políticos também sumiram.


E se fosse aquela coisa dos maias? E se fosse aquela coisa da bíblia? E se fosse algo como uma invasão? E se fosse algo de sua cabeça apenas e ela ainda estivesse na cama sonhando fazendo amor com o mestre dos sonhos e ele fosse seu marido e ela mortal estivesse presa numa piada dele?


Foi trocando de canal, um após outro apenas tergiversando sobre o ’arrebatamento’, alguns de joelhos a clamar aos céus a piedade que não mereciam, outros conclamando os demais a prepararem-se para o julgamento sem juízes, alguns ainda a acusar o governo e outros fazendo pouco, como se fosse algo não digno de nota e que deveríamos seguir adiante, se esses sumidos não queriam mais fazer parte do cotidiano da humanidade, que assim fosse.


E num desses canais, ela pareceu achar algum senso entre análises disparatadas e teorias absurdas, um representante de um movimento que não sabia identificar bradava aos ventos que não era chegada a Era de Aquário mas a Era do Arco-Íris.


O senhor então afirma que todos os desaparecidos são então heterossexuais e que apenas os gays, os homossexuais não sumiram?


Isso mesmo! É o sonho gay tornando-se realidade! É a natureza, a evolução das espécies fazendo seu trabalho! Todos sabem que nós gays somos o próximo passo evolutivo de nossa raça, que os dias heterossexuais estavam contados. Era meramente uma questão de tempo até que a natureza se encarregasse de dar o passo evolutivo definitivo! A procriação é algo supervalorizado e pode ser feito em laboratório, o sexo e sociedade heteronormativos não são mais, viva a sociedade nova e do amor verdadeiro!


Mas como o senhor pode ter certeza de que apenas os heterossexuais sumiram? De que apenas os gays foram poupados desse fenômeno?


Estou aqui falando com você, não? E sou gay,não sumi e meus amigos e amigas aqui atrás de mim também! Quer prova mais clara? E tenho fontes seguras que me garantem que a única coisa em comum entre todos que sumiram é o fato de serem notórios heterossexuais!


Mas a que o senhor atribui esse desaparecimento repentino dessas pessoas? Seria um ato de Deus?


Deus? Quem é ele? Onde ele estava quando os gays eram massacrados no holocausto ou nas ruas dessa cidade suja e preconceituosa? Não, minha querida, não foi ele que mexeu seu dedo e finalmente pôs a nós, gays, no lugar de direito na cadeia evolutiva, ele joga seus dados em outros mundos, aqui, foi uma simples e correta seleção natural o que, por sinal, me diz que você é gay afinal está aqui me entrevistando, não é?


Ah, eh, voltamos ao estúdio com você...


E havia então apenas silêncio, em todos os canais, nas ruas, nos ônibus, nos trens, no metrô, nos aeroportos, no senado, nas casas, nos países, nos carros, em toda a parte. Um silêncio tão alto que se poderia ouvir do espaço e as igrejas começaram a ruir e os santos racharam seus pés de barro e os pastores largaram tudo para poder viver livremente e os que pregavam contra os gays sumiram não como os héteros mas enfiaram-se em algum buraco fétido e escuro para penitenciar-se por sua vergonha e cruzada contra os seus.


E as pessoas descansaram seus dedos em riste e passaram a viver mais suas vidas, e os skinheads compraram vestidos e perucas e maquiagem, skindrags, e os trabalhadores podiam dizer eu te amo entre máquinas e papéis a serem assinados e ela então descobriu que não havia sumido e ouviu as chaves na porta e depois o viu entrar, olharam-se pasmos por instantes e então lágrimas de raiva vieram aos olhos transmutadas depois em lágrimas de compreensão, aceitação, alegria pela fantasia imposta estar rasgada no chão, em farrapos.


E se abraçaram, arrumaram suas malas, se beijaram no rosto e foram cada um seguir com suas vidas com seus respectivos amores.


5 de mai. de 2020

sem mil

cem mil. cem mil. cem mil.

e o povo segue mugindo, lambendo as botas do messias.

e o povo segue na rua porque acha que é só uma gripe.

cem mil. cem mil. cem mil.

e o presidente segue ensandecido pregando o fim da democracia e o fim da sociedade, ele quer um feudo, um reino, um gueto, não um país.

cem mil. cem mil. cem mil.

e o povo segue com a bandeira verde e amarela suja de merda, cagada por eles com seus brados de AI-5 e golpe, comem merda e arrotam bosta, colocam suas bocas no ânus do  mito sedentos pelo maná de fezes que ele defeca todos os dias em suas bocas famintas.

cem mil. cem mil. cem mil.

e as pessoas estão mijando sobre as covas dos mortos, rindo das famílias, fazendo troça de quem está lutando pela vida e dizendo que não se pode fazer um país sem quebrar algumas cabeças.

cem mil. cem mil. cem mil.

e as pessoas saem vestidas em festa pedindo a morte geral, do país, querem matar a nação para fazer nascer uma utopia horrenda, Heil Jair! Vistam suas suásticas!

cem mil. cem mil. cem mil.

e o brasil morreu, morte horrível, morreu lenta e dolorosamente, câncer, tumor, corroeu tudo quando deixou aquele homem e sua família maldita entrar e morreu rindo, cantando o hino nacional, vestido das cores nacionais, fechados com o presidente, salve, salve.

cem mil. cem mil. cem mil.

e o demente federal aplaude, abraça e espalha o vírus do totalitarismo sem medo, com orgulho, fleuma e sem vergonha de ser ditador. 

cem mil. cem mil. cem mil.

e não tem problema porque só existe morte quando convém ao presidente, quando ela for a favor de seus planos para o brasil, deus acima de todos e acima dos mortos, eu sou o estado e a constituição é meu papel higiênico, vejam como eu limpo minha bunda messiânica com ela.

cem mil. cem mil. cem mil.

e o messias quer mais, quer duzentos, trezentos, quinhentos mil ou um milhão porque esses mortos serão os alicerces sobre os quais ele erguerá seu novo brasil, sua nação soberana great again, america, america, god shed his grace on thee, bate continência pro presidente alaranjado e muda a cor da bandeira para star spangled banner, make fascismo great again.

cem mil. cem mil. cem mil.

mas para o messias, não há morte que seja suficiente, messias que é messias só fica satisfeito quando todos estiverem mortos sob seus pés e servindo eternamente sua vontade nazista suprema, ele é o caminho, a verdade e a luz de todos os finais de túneis.

cem mil. cem mil. cem mil.

não tem problema, sempre podemos fabricar mais fascistas.

30 de abr. de 2020

E daí?

E daí? Isso aí esta super dimensionado, é histeria.

E daí? Teve outras gripes que mataram muito mais, qual o problema?

E daí? 2009 e 2010 teve crise semelhante e não teve tanto pânico.

E daí? Esse vírus trouxe uma certa histeria, o remédio não pode ser pior que a doença, senão mata o paciente.

E daí? Não vai ser uma gripezinha que vai me derrubar.

E daí? O povo vai saber que for engando pelos governadores e pela mídia.

E daí? Não dá pra fazer mais do que estamos fazendo.

E daí? Tenho passado de atleta, não sentiria nada, talvez uma gripezinha ou resfriadinho.

E daí? Há uma histeria, querem quebrar o Brasil, não acho que vai chegar a esse ponto de morrer muita gente.

E daí? Muitas mortes nem são devido ao coronavírus mas estão colocando que é.

E daí? Todo mundo vai morrer um dia, vai fazer o que?

E daí? Vai morrer gente? Vai! Mas faz parte da vida, uns vão morrer mesmo, vai fazer que?

E daí? Vírus é igual chuva: você vai se molhar mas não vai morrer afogado.

E daí? Povo está com frescura, tá com medinho de pegar vírus.

E daí? O vírus parece que está indo embora.

E daí? Não sei da quantidade de mortos, não sou coveiro oras!

E daí? Quer que eu faça o que? Eu sou Messias mas não faço milagre!

E daí? E daí? E daí? E dai? E daí?

Mas não tinha ninguém pra ouvir ou responder ou chamar de mito. Ele pregava para um país desolado, povoado de gente morta.

16 de abr. de 2020

Carta aberta ao COVID-19

Sr Corona eu ando aqui pensando em que faremos quando o senhor nos deixar porque com o senhor ainda temos um inimigo que joga limpo e que, a grosso modo, está apenas fazendo o trabalho que a natureza lhe designou. 


Eu sei que o senhor não faz o que faz por gosto e mais porque, igual aquela fábula do sapo e do escorpião, está em sua natureza, tudo bem! Mas, quando senhor for embora teremos de seguir vivendo com o Bolsovid-17 e contra o qual não achamos até o momento qualquer vacina ou tratamento porque esse vírus se instala nas pessoas e as transforma em mortos-vivos que mugem MITO sem parar e não param de usar as redes sociais. 


Eu fico apreensivo sabe, Sr. Corona, porque assim, o senhor está cobrando um preço alto mas logo vamos encontrar um meio de conviver consigo enquanto a pandemia Bolsonaro é meio que sentença de morte para todos sem qualquer grupo de risco. 


Não sei se o senhor teve tempo de ouvir os pronunciamentos dele ou acompanhar suas redes sociais, entendo que esteja assoberbado de trabalho no momento mas, se tiver um tempo, peço que gasta uns minutos com isso só para entender em que buraco o senhor se meteu e nos meteu fazendo valer aquela máxima de que nada é tão ruim que não possa piorar mas, honestamente, o senhor poderia ter esperado mais un três anos ou a queda do mito para chegar por aqui não é? Ou fizemos algo muito ruim (sem contar a eleição do messias) para tamanho desagravo? Sei que não devíamos reclamar, veja o Egito que teve aquelas pragas mas, elas vieram em intervalos e nós recebemos tudo de uma vez, não me parece muito justo, só acho. 


Enfim, gostaria de saber se o senhor pretende ficar muito tempo só para ter uma ideia do que fazer e quando entrar em pânico, se for ficar muito tempo a gente se ajeita como der, somos um povo acostumado a ser tratado como esgoto então de boa mas, se for mesmo ficar mais tempo como perguntei, queria saber se o senhor poderia fazer uma visitinha lá para o Bolsonaro e sua família, sabe como é, prestar seus respeitos e tal, acho que seria de bom tom de sua parte e ajudaria a gente porque o senhor já estamos sabendo como tratar mas o Bolsonaro está meio complicado. 


Um abraço!

Inspirado pelas publicações de João Silvério Trevisan em sua página no Facebook

13 de abr. de 2020

Velha roupa colorida


Que a morte vai chegar não resta dúvida, independente de cor, classe social, posses, orientação sexual, identidade de gênero, idade, nacionalidade ou o que for.

A hora de passar a régua e encerrar a conta vem de qualquer maneira.

Mas de tempos em tempos, somos confrontados com situações que nos fazem encarar a hora final com mais frequência e urgência queiramos ou não, como esses tempos de pandemia quando vidas humanas são ceifadas em baciadas sem dó ou piedade.

A bem da verdade, antes de tudo isso que estamos vivendo, pessoas morriam de moléstias diversas, algumas completamente curáveis mas cujos doentes não tinham acesso devido a barreiras sociais, políticas ou econômicas, outras sem cura independente do quão rico fosse o doente e, infelizmente, morriam por fome, inanição ou causas não naturais que, em tese, a humanidade deveria ter deixado para trás há séculos.

O que deixa a todos espantados e assustados é velocidade com que estamos morrendo agora e a incerteza de nossa invulnerabilidade ante o avanço inexorável da doença. A morte antes acenava como algum tipo de visita distante que ia acenando cada vez mais perto até não ser mais possível ignorar sua presença. A morte era um problema do outro, lamentávamos que ela havia chegado, cumpríamos os ritos de despedida e enterrávamos junto com o falecido nosso medo de que poderíamos ser os próximos.

Com a pandemia, esse medo passou a dividir a mesa conosco e, em quarentenam temos de dormir e acordar com ele ao nosso lado, fazer as refeições, tomar banho e fazer de conta que ele não está lá. A urgência da morte veio e fez casa e não parece que vai embora tão cedo e com ela, veio o pânico de que o outro pode ser o agente mortífero e não o outro que sempre enxergávamos como imbuído de más intenções e desejoso de nos ferir para compensar qualquer desejo patológico ou desfavorecimento social. O outro na pandemia adquiriu um ar mais soturno de amigo que repentinamente ficou perigoso e precisamos manter afastado.

Talvez passada a pandemia nunca mais sejamos os mesmos uns com os outros, ingressaremos na era do pós-social, não sei mas sei que se há algo que aprendemos ou deveríamos estar aprendendo com isso é como tratamos nossos idosos.

Já por costume e tradição, nós ocidentais tendemos a enxergar os velhos como um fardo, algo que deve ser descartado e colocado de lado. Nossa sociedade preza a juventude e o novo como bálsamos insubstituíveis, o que é velho deve ser posto num museu e esquecido, inscrito nos livros de história para ninguém mais ver e ouvir falar.

Com o advento da pandemia e durante o vigente governo de agenda neoliberal ficou claro que as vidas idosas são um preço aceitável a ser pago para manter a roda girando e a sociedade funcionando afinal, eles já cumpriram seu papel, deram sua contribuição e precisam agora dar espaço aos jovens que tem de construir a pátria arrasada Brazil. O governo certamente agradece esse sacrifício já que promoverá um fôlego nas contas públicas sem que seja preciso posar de vilão ante a sociedade.

As vidas idosas passaram a ser moeda de troca no jogo político e social, se antes eram um incômodo encarado por muitas famílias como obrigação da qual se incumbiam sob o medo do julgamento social, com a pandemia passaram a ser artigo de exposição e justificativa para expressões de descaso das autoridades e até mesmo entre familiares que antes estariam pouco se lixando para elas.

Na verdade, esse valor súbito das vidas idosas vem do medo que a pandemia - como está se mostrando - não se retenha nelas e passe a devorar outras vidas com a mesma voracidade. Se um velho morre por que sua vida se extingue naturalmente ante o desgaste e fragilidade impostos pelo tempo não há problema afinal, é o curso natural das coisas mas, quando uma doença agressiva começa a ceifar essas vidas e mostra que pode clamar por outras mais jovens, entregamos as vidas velhas como oferenda para ver se a doença se sacia e nos deixa em paz.

Já ouvi e creio que tenham ouvido também comentários de que deveríamos deixar os velhos morrerem e focar no salvamento dos mais novos porque os velhos já estão no fim mesmo, qual a utilidade de gastar recursos com eles? Isso diz muito sobre nós como sociedade e espero que saíamos disso com outra concepção de valor da vida humana e de como tratamos nossos idosos.

Não vai adiantar muito passarmos por isso tudo e nossos idosos seguirem abandonados em asilos e largados a própria sorte porque não tem mais qualquer utilidade para nós nem para a sociedade. Sairemos de uma pandemia apenas para entrar em outra que sempre vivemos.

10 de abr. de 2020

A epidemia que podemos curar


Estamos em distanciamento social ou isolamento, como preferir mas o fato é que é compulsório, era isso ou deixar a doença espalhar feito fogo rasteiro e ceifar vidas até cansar ou alguém aparecer com alguma cura.


Mas antes da pandemia e de sermos forçados a ficar em casa, reassinar ideias de trabalho e contato social e reentender o que é viver, já vivíamos isolados e distantes socialmente.


Sim.

Fazíamos isso quando optávamos por desver as pessoas que precisam de nosso apoio não apenas em momentos como esse mas em todos os momentos da vida.

Quando fazíamos de conta que os problemas de outros não eram os nossos, o que arde nos olhos alheios é brisa nos nossos.

Quando falávamos coisas bonitas nas redes sociais mas fechávamos as portas quando a ajuda tinha de ser real.

Eu espero que essa pandemia sirva ao menos para que, ao final dela, sejamos pessoas mais conscientes e presentes nas vidas uns dos outros e dispostas a apoiar, incentivar e valorizar quem enfrenta uma pandemia social há tempos.

Então, já que estamos todos imbuídos desse sentimento cívico trazido pelo afastamento da pandemia, um jeito meio torto e bruto de nos aproximar, que tal prestigiar o trabalho de gente capacitada, que batalha, que luta e que precisa da sua ajuda para seguir na batalha diária contra um vírus muito mais mortal que esse de agora, o vírus do preconceito para o qual ainda não temos cura infelizmente.

E não deixe esse sentimento passar com a pandemia, implante ele no seu coração e em sua mente, faça com que ele perdure e valorize o humano porque a vida passa rápido demais para deixarmos que ela seja maculada por preconceito, fobias e qualquer coisa que não seja o amor.




9 de abr. de 2020

O medo de nós mesmos

Enquanto Bolsonaro articula seu auto-golpe espalhando seus factóides e emparedando a democracia um tijolo por vez, nós seguimos isolados compulsoriamente até que a normalidade decida dar as caras novamente.

Talvez o COVID tenha apenas derrubado uma ilusão de liberdade e autonomia que pensávamos ter envoltos em nossas batalhas diárias por uma vida que nunca foi nossa e que agora descobrimos não ser a que queríamos.

Já vivíamos em isolamento feliz sem reclamar disso, fechados em nossas casas, trancafiados atrás de portas, fechaduras, travas e cadeados vendo o mundo passar pelas telas do computado, celular e TV e aceitávamos isso como parte da modernidade facilitadora da vida, benesses tecnológicas facilitadoras.

Quantos de nós efetivamente sabiam como foi o dia uns dos outros, tinha uma genuína preocupação com isso para além de curtir ou repostar uma foto ou comentário? Aquele bom dia que não saía da boca, aquele aperto de mãos que não vinha nunca, aquele olhar que jamais chegava. A imersão digital que nos alimentava a vida supria com folga a necessidade de toque e contato humano relegando este a ocasiões específicas e pontuais.

Ainda nos víamos, conversávamos, sorríamos e olhávamos uns para os outros mas sempre sob um olhar on-line considerando aquela pessoa a nossa frente algum tipo de emulação de seu eu digital, nos perguntando intimamente se aquela simulação era parte do feed das redes e concluindo, de forma nada empírica, que por dentro o que havia era um pão há muito bolorento.

A pandemia colocou abaixo esse simulacro de civilidade forçando nossa vista para o interior jogado para baixo do tapete da vida, acabamos confrontados com nós mesmos e com o outro e descobrimos que nem ele, nem nós éramos quem imaginávamos ser. Trancados dentro de nossas casas, acabamos tomando uma consciência de que nosso corpo é finito em si, suas necessidades são outras totalmente diferentes das que o cotidiano externo clamava e nossas vidas independem de algum tipo de fé irrestrita numa ideia vaga de que as coisas são como são e de que tudo se resolve por si.

Confrontados com a clausura forçada, descobrimos que há vida dentro da vida que tínhamos, uma vida que não sabíamos, que desaprendemos, que esquecemos e tivemos de reaprender a usar. Seremos os QUARENTENIALS, os filhos da pandemia e sairemos dela com outros modos e hábitos. Talvez sejamos testemunhas do pós-internet pois se por um lado a rede ajudou muitos de nós a não enlouquecer, acabou mostrando nossa dependência um do outro e como a hierarquia social que julgávamos justa era apenas uma falácia.

No melhor cenário, sairemos disso com algum tipo de noção renovada da importância do convívio humano ainda que, num primeiro momento, temerosos de ter essa contato. No pior cenário, passaremos a ser criaturas isoladas e que valorizarão a individualidade real e virtual ainda mais concluindo que o suficiente para sermos felizes é termos apenas a nós mesmos o que, grosseiramente, não está assim tão longe da verdade.

O que não morrerá e certamente aumentará é o medo que temos uns dos outros, esse medo não apenas pela violência social que nos aparta e afeta mas o medo congênito de que o outro sempre é uma ameaça de algum tipo a nossa integridade, sanidade e autenticidade enquanto indivíduos. Se antes vivíamos esse medo de forma comedida e um tanto educada, polindo as arestas sociais que nos afetavam e tolhendo o contato com pessoas que se apresentassem como potencialmente nocivas, no mundo pós-pandemia teremos de somar a esse medo o medo de que esse outro competindo pelas mesmas coisas que nós também pode ser arauto de doença e morte e por isso mesmo deve ser isolado e afastado tanto quanto for possível.

A herança da pandemia será essa, o medo desnudo e irrestrito, justificado do outro que passa a representar uma ameaça real e não mais imaginária e desse medo nascerá o homo pandemicus que saberá lidar com essa convivência virótica melhor que seus antecessores.

A ver.

2 de abr. de 2020

O mundo de amanhã

Poucas vezes vi uma pessoa tão sensata quando o cientista Atila Iamarino entrevistado do último Roda Viva.

De maneira didática, simples e direta, explicou o tamanho do problema que enfrentamos, como há tempos já se previa que poderia acontecer sem que nenhum governo tomasse qualquer providência e, sem expressar qualquer ideologia que pudesse ser usada para desacreditar seu discurso (obviamente que os Bolsonaristas irão achar qualquer resquício de socialismo e esquerdoapatia em sua fala) teceu cenários claros de como passaremos e sairemos dessa pandemia.

Acima de tudo, considerando o Estado Teocrático que já vivemos e o desmonte - que já vinha de  anos e anos - pregado pelo atual governo da ciência em detrimento de estudos, formações e profissões que representem um 'ganho' efetivo e imediato para o país a saber, médicos, advogados e engenheiros, aquelas profissões que toda a família branca, hetero, cis gosta de ter em seus quadros, enfim, tudo isso posto, é na ciência que temos a única esperança de solucionar esse problema.

Não em igrejas, templos ou afins. Em laboratórios. Esses mesmos que estão sucateados e largados a própria sorte e que agora, precisam tirar do ar uma vacina para curar a todos.

Mas, o que mais me preocupa na fala de Atila e vem me preocupando com frequência é como sairemos dessa crise. Não digo a saída em si pois sei que ela está lá e que iremos encontrá-la, me refiro a como sairemos dela enquanto pessoas porque o mundo que deixamos para trás quando entramos em quarentena não existe mais.

Ainda é cedo para entender como será isso, como faremos e como lidaremos com esse novo mundo que se abrirá e tenho certeza de que durante as próximas décadas, muitos estudiosos estarão debruçados sobre essa crise tentando entender os impactos dela em nosso modo de vida.

Fico matutando em como será quando a quarentena for suspensa ou encontrarmos uma vacina ou tratamento para essa doença. Voltaremos ao mundo como se nada tivesse acontecido? Retomaremos nossa rotina como sempre foi? Teremos os mesmos hábitos e costumes? Seremos essencialmente os mesmo?

Pessoalmente, acho que não.

Somos criaturas sociais ou anti-sociais conforme o caso, não fomos feitos para o isolamento, qualquer animal confinado adoece do corpo e da alma além de ser extremamente perigoso. Esse período que estamos passando pode ser benéfico ou nocivo conforme você decida encarar, talvez precisássemos dele para rever alguns conceitos, reavaliar nossas vidas e perceber que a imersão numa equação trabalho-casa-trabalho-sem tempo irmão não tinha uma solução que não considerasse a nós como o X da questão.

Passamos a entender que o tempo pode sim correr em outros ritmos e que cada um de nós possui tempos diferentes. Começamos talvez a valorizar mais o trabalho de cada um de nós entendendo que sem ele, o nosso pouco faz sentido. Algum tipo de empatia e simpatia parece ter nascido quando, trancados em casa, começamos a notar o quanto nossas vidas são cheia de coisas vazias e como pouco conhecíamos uns aos outros tendo vivido juntos por tantos anos.

Talvez tenhamos começado a entender que não precisamos estar em todos os lugares ao mesmo tempo, comprando tudo que não precisamos ao mesmo tempo e usando a internet para algo útil. Demos férias ao planeta que está finalmente descansando de nós, quem sabe não voltamos para ele com outros olhos, mais humanos, mais coletivos, mais sensatos.

Tomara que passemos a dar mais valor aos poucos e mágicos momentos que temos uns com os outros pois a epidemia mostrou a todos nós que a vida é um sopro, um vento que passa, um ar. Quem sabe não aprendamos a eleger melhores representantes, pessoas mais dedicadas ao bem comum e não a ideologias ou partidarismos.

E talvez saiamos disso com um senso melhor de pressa e urgência.

A vida pós-pandemia ainda é uma incógnita, estamos todos apenas especulando, jogando ideias ao vento para ver qual vai vingar. Pode ser que nada disso que escrevi aqui aconteça e que saiamos disso tudo ainda piores do que entramos, teremos cicatrizes obviamente, histórias a contar por alguns anos mas a grande questão imediata é, o que faremos com tudo isso que estamos passando?

31 de mar. de 2020

O Louco



O Louco está lá, melhor, o colocamos lá pensando que por ser Louco iria ajudar a todos nós nesse hospício mas ele era Louco, não besta.

Aí, o Louco começou a falar umas coisas estranhas, que não eram as doideiras que estávamos acostumados a ouvir quando ele ainda era interno como nós. Eram coisas muito diferentes e até mesmo alguns de nós Loucos passamos a dizer que ele era mais louco do que a gente enquanto outros Loucos achavam que ele já não era mais Louco mas são e aplaudiam suas frases disparatadas como se fossem um alívio para os dementes.

O Louco acreditava tanto na coisas que falava que as entendeu como verdade e ele não era mais Louco, era o único normal no hospício e passou a mandar e desmandar como lhe aprouvesse, demitia funcionários que não iam de encontro a suas Loucuras, desdiziam delas ou o contradiziam ante os demais Loucos.

O Louco não aceitava quando o chamavam de Louco, mesmo sabendo que havia saído dali, daquele meio de doidos, ele não era mais Louco. Quem o chamasse de Louco era isolado, chamado de do contra, inimigo dos Loucos, vilão, Louco de pedra e muitas vezes, internado em solitária para não contaminar aos demais Loucos com suas Loucuras absurdas.

O Louco adorava aparecer, sempre fazia comícios no hospício mas apenas para seus Loucos seguidores, para os outros ele não falava nada porque dizia que eles eram Loucos e só deturpariam o que ele dissesse. O Louco amava propagar notícias Loucas como se fossem bençãos, dizia que era a única fonte de normalidade ali dentro, qualquer outra fonte era Louca e não confiável.

O Louco tinha acessos de raiva, dizia que não era pela Loucura mas porque o chamavam de Louco quando ele não o era. O Louco às vezes falava uma coisa e fazia outra e dizia a quem o contestasse que Loucos eram eles e que ele sabia exatamente o que estava fazendo.

Um dia, apareceu uma doença no hospício, não as da mente ou psiquê mas dessas que matam de verdade, contágio, praga, chaga, moléstia grave. O Louco disse que era mentira, que não era nada demais e que todos deviam seguir com suas vidas Loucas normalmente, que a histeria - salvo em casos congênitos ou patológicos - apenas faria mal a todos ali.

Mas os Loucos começaram a morrer e mesmo assim, O Louco seguia dizendo que não havia nada a temer, que era assim mesmo, Loucos nascem e morrem todos os dias, não era nada demais e a vida no hospício precisava seguir seu ritmo e rotina.

O Louco foi aos poucos perdendo sua voz junto aos Loucos, mesmo entre aqueles que apoiavam sua Loucura pois os Loucos morriam aos montes e até um Louco sabe quando a Loucura passa dos limites e vira caso de vida ou morte.

O Louco ainda tentou virar o jogo e tomar controle total do hospício mas não deu certo. O Louco foi aos poucos falando para cada vez menos Loucos até que, certo dia, percebeu que não havia mais ninguém a lhe ouvir e que ele estava sozinho no hospício.

Desesperado, o Louco saiu correndo pelos corredores e alas perguntando a todos que encontrava onde estavam seus amigos Loucos mas ninguém lhe respondia. Fugiam dele. Evitavam. Faziam de conta que ele não estava lá.

Quando finalmente alguém se dignou a lhe responder porque ninguém lhe dava atenção ouviu:

E porque deveriam? Você é Louco...


30 de mar. de 2020

Discurso para um país que já foi

Boa noite.

Desde que adotamos o isolamento vertical para enfrentar a crise do COVID-19, nossa economia tem apresentado claros sinais de melhora e recuperação e conseguimos controlar a expansão da epidemia em nossa pátria.

O isolamento de cidadãos de grupos de risco como idosos, doentes crônicos, homossexuais, pessoas de baixa renda e outras minorias mostrou-se uma decisão acertada, prudente e alinhada com os anseios de uma nação que precisa crescer, trabalhar e colocar o sustento de volta às mesas de todos os brasileiros.

Alguns políticos e governadores contrários a estas medidas, fomentadores do caos e da histeria e usando da crise para aumentar seu capital político foram devidamente demovidos de suas responsabilidades e substituídos por técnicos e militares capacitados e alinhados com a determinação de meu gabinete de que o Brasil não pode cair de joelhos ante um simples gripe.

Adotamos medidas severas de contenção, a cloroquina foi distribuída a todos os grupos de risco e pessoas doentes e tudo isso sem parar o país como muitos desejavam. Tivemos muitas mortes mas, por  minha vivência de atleta e militar sei que numa batalha ou competição sempre teremos perdedores e alguns mortos, lamentamos tais perdas mas são um custo necessário para que a maioria siga com suas vidas e contribuindo para fazer de nosso país uma grande nação novamente.

O sangue destes patriotas tombados nessa luta contra essa doença será para sempre venerado, serão nossos eternos heróis e deles jamais esqueceremos assim como jamais esqueceremos dos inimigos do povo que se aproveitaram do caos, do pânico e do medo para minar uma presidência eleita democraticamente pelo povo.

Seguiremos com nossa luta para fazer de nossa amada pátria uma grande nação onde as famílias de bem, os cristãos e a morale bons costumes sejam sempre nosso norte e nossa luta jamais cessará para que isso ocorra.

A todos os patriotas, uma boa noite e obrigado.




E o que é isso?

Não sei, apertei esse botão aqui nesse negócio e ele começou a passar isso aí

Sério?

Sim, estranho não?

Muito, falei que não deveríamos ter vindo aqui, todos falam que não é um bom lugar.

Mas, se ninguém fala de quando isso aconteceu, eu quero saber você não?

E faz diferença?

Claro que faz!

Não acho, tudo isso foi há tanto tempo, dizem que nem aconteceu de verdade e que esse cara é uma invenção..

Não acho que seja, me parece bem real, eles não tinham como fazer algo assim de mentira, não naquela época.

Parece que não mas vai saber, faz tanto tempo, ninguém sabe ao certo, a gente sabe só que naquela época morreu quase todo mundo.

Verdade, quem sobrou viveu pouco para contar mas ainda acho que é verdade sim

Verdade ou não é melhor irmos antes que nos peguem aqui, você sabe que eles não gostam quando ficamos fuçando nessas ruínas.

Tem razão, vamos embora, isso tudo é besteira mesmo, vamos voltar e tentar achar algo para comer.

E saíram os dois para o país que um dia já foi...

26 de mar. de 2020

Alphabeto

Lembro de certa ocasião, há anos, quando eu ainda era um jovem despreocupado e amando outro homem de maneira louca e incerta, estávamos no meu carro que ia cheio de bixas e lésbicas.

Era um modelo que à época se costumava designar como GLS acrônimo de Grand Luxo Super até onde sei. Outro carro que estava cheio de amigos nossos emparelhou com o meu e o motorista daquele comboio hétero disse: 'E esse Fiesta GLS?'

Levei alguns segundos para associar o GLS do carro com o GLS de Gays, Lésbicas e Simpatizantes que então, abarcava com folga todo os segmentos do mundo gay e então, caímos na risada. Talvez essa piada hoje não fosse motivo de riso e certamente não faria sentido ante a sigla LGBTQIA+ ou qualquer outra que estejamos usado para designar todos os matizes do movimento.

Tudo isso me veio quando li matéria de João Silvério Trevisan publicada na edição 33 da Revista Serrote onde ele questiona os limites e limitações da sopa de letrinhas que passamos a usar para identificar as identidades de gênero e orientações sexuais.

Tomando como base essa matéria (cujo conteúdo pode ser visto aqui) surge uma provocação: até que ponto a extensão alfabética para dar voz a sexualidades e identidades não normativas ajuda a dar voz ou pulveriza a luta pelos direitos?

Há aqui um paradoxo, penso eu.

Ao adicionarmos mais letras estamos efetivamente dando voz, espaço e reconhecimento a cada segmento que surge e necessita, obviamente, de representação, voz e lugar de fala e não deseja e nem deve, penso eu, delegar sua luta a outros segmentos que não entendem suas demandas ou realidade.

A questão da representatividade deve ser respeitada pois se antes convivíamos todos sob três letras, GLS ou qualquer outra designação usada de fora para catalogar e identificar os gays, fazíamos isso como parte da maioria gay cis que adotava tal sigla como suficiente para determinar nosso clã enquanto as demais identidades e sexualidades seguiam marginais e sobrevivendo das migalhas que o GLS ia conseguindo aos poucos.

Com o avanço da luta pelos direitos gays, outras sexualidades e identidades começaram a sair da sombra generalizante do movimento e passaram a demandar direitos mais específicos que atendessem suas necessidades e anseios, nada mais justo e com isso, o GLS ficou pequeno para acomodar tanta gente a passamos o LGBT, LGBTQ, LGBTQ, LGBTQIA, LGBTQIA+ e outros mais que soam como algum tipo de equação matemática impossível de ser solucionada.

O outro lado dessa moeda é a pulverização da luta pelos direitos e isolamento de grupos o que acaba gerando uma fragmentação do discurso e rachaduras muita vezes irreconciliáveis dentro do próprio movimento enquanto, do outro lado, do lado normativo, seguimos sendo vistos apenas como viados, bixas, sapatões e travestis, não se iludam que eles saibam diferenciar cada uma das letras da sigla que criamos para nós.

Com isso, a vantagem acaba ficando totalmente do lado oposto que tem maior facilidade em legislar contra nós já que seu discurso sim é unificado e não reconhece nossas divisões e sub-divisões. Pensando assim, a provocação/sugestão de Trevisan de encontrarmos alguma outra sigla, palavra ou denominação que seja capaz de abraçar e representar todos nós em cada uma de nossas sexualidades e identidades e que ainda seja capaz de aceitar adições futuras é algo a se pensar profundamente.

Inclusive o termo HOMOSSEXUAL que carrega em si um machismo derivado além de estar estritamente ligado ao sexo e não a identidade de gênero, deveríamos repensar essa palavra, aposentá-la e colocar as cabeças pensantes de todo o movimento, TODO MESMO, para encontrar ou criar alguma outra que seja mais real e afeta a todas as matizes que compõe nosso arco.

Da mesma forma, precisamos repensar a forma de militância de modo a manter as individualidades de cada célula mas unificar o discurso para fazer frente ao avanço conservador que nos devora cada dia com mais voracidade. Não seria a hora de colocarmos as 'diferenças' de lado e fazer uma frente única? Recriar essa sigla extensa que para os normativos não faz sentido algum saindo com algo que fosse mais direto e representasse a todos nós independente de qual letra pertençamos?

Posso incorrer num erro grosseiro aqui afinal, sou homem, gay, branco, cis então me foge completamente a realidade de luta de outras sexualidades e identidades. Talvez meu discurso seja uma utopia ou até mesmo uma ofensa aos mais radicais ou puristas mas, expresso estas opiniões despido de qualquer desejo de roubar a luta de quem quer que seja e imbuído do mais sincero desejo de que nos unamos para lutar contra um inimigo comum que está se aproveitando de nossas rachaduras para infiltrar seu discurso de ódio e nossa destruição.

Não valeria a pena baixarmos as armas que estamos apontando uns contra os outros e apontá-las contra esse inimigo peçonhento que nos ameaça?

25 de mar. de 2020

O GENOCIDA


O Genocida está entre nós, ganhou a eleição no grito, no tiro, na arminha, no ódio, no xingamento, na humilhação e no temor a deus pátria armada brazil great again pra gringo ver mamar chupar até o caroço.

O Genocida caga. Caga para quem  não está lá a lhe lamber as botas de capitão do mato neoliberal pós trauma fálico de calibre duvidoso. Caga para quem não abaixa a cabeça e a mente para seus mandos e desmandos. Caga para quem não bate continência ante seu destempero com furos buracos sexo aberto de gozo fechado e medo de esporrar quando lhe atendem o pedido ufano de amar a ele que é a pátria. Apátrida caga na pátria que para ele é látria de merda onde seu ânus messiânico defeca todo dia com gosto e vontade de nos soterrar na merda de sua mente degenerada.

O Genocida não acredita em nada que não seja saído de sua mente e realidade virtual sem virtude. Ele só acredita que todos estão contra ele. Ele só acredita que todos querem ir contra ele. Ele só acredita que a verdade é rua onde a única mão que trafega é a sua. Ele só acredita em nação na ação de inação quando ele comanda com força e verbo seus comandados para salvar o país das mãos dos corruptores de países.

O Genocida não acredita em organismos mundiais, muito menos se forem microscópicos e vindos de uma ditadura comunista que deve ter engendrado essa pandemia para acabar com a família cristã que estupra mas não mata e tem nojo da empregada e da babá porque elas são a empregada e a babá e não querem viajar ao lado de quem não tem status nem ver filho de gente de cor na faculdade ao lado de seus rebentos brancos e imaculados de nomes suntuosos.

O Genocida faz uma conta de que velho é velho e que o novo sempre vem e sem vem, precisa de espaço e o velho tem de dar esse espaço porque velho não trabalha dá trabalho e velho só fica doente e toma remédio e joga dominó na praça e reclama da fila do banco e entope os hospitais e velho já é doente porque é velho então não é um vírus que mata ele mas o fato de ser velho então o velho precisa morrer para por carne na máquina e deixar ela bem azeitada fazendo hambúrguer de gente e deixando o empresário feliz e contente e rindo com o sobre desce da bolsa e do dólar enquanto o pobre chora com o sobe e desce do ônibus que não pode deixar de tomar.

O Genocida chama tudo que não conhece e despreza de histeria e falácia. Ele só acredita no que está a seu favor, se está contra ele deve ser coisa ruim e feita pelos inimigos da nação, danação eterna para os inimigas da pátriamadabrasilacimadetudodeusacimadetodos. Ele não tem medo de confronto afinal ele é macho alfa ômega que tem nas mãos os meios para por fim e começo nas vidas de todos nós. Ele não tem papas na língua bipartida porque dela só vaza apenas veneno patriota para colocar o país no rumo certo.

O Genocida não pensa na sociedade como um todo mas em partes. Nas partes que ele quer preservar, que lhe interessam, que lhe mantem teúda e manteúdamente. Ele quer a economia no ritmo porque se ela errar uma nota é a banda dele que vai parar de passar. Ele inverte porque para ele o certo é o que lhe faz sentido quando errado para todos os demais, é criatura da contramão, do contra, brasildeus acima de tudotodos.

O Genocida pensa que foi enviado por deus para salvar a nação, a família, o pai, a mãe e o irmão, a irmã, a sobrinha e a tia. Ele fez pacto com deus para levar seus cruzados pela terra brasilis em cruzada moral obrigatória de força e fé para banir o perigo de esquerda ou de qualquer outra direção que venha. Ele é um santo homem santo feito santo que se faz de santo para santificar o que o demônio tenta fazer para tentar o santo que sabe que de santo não tem nada, ôsana nas alturas do altar do mártir da facada neofake.

O Genocida está entre  nós.

E nós que sabemos disso precisamos matar o Genocida antes que ele faça o que seu nome bem diz.

23 de mar. de 2020

É justo, justíssimo!

O pior da epidemia não é a doença em si pois ela seguirá seu fluxo até ser controlada ou encontrarem sua cura e tratamento.

O pior é a máscara humana que ante o esfacelamento do tecido social cai mais rápido do que as bolsas ao redor do mundo.

É simplesmente abjeto e beira o absurdo comentários como o de Roberto Justus, o supra sumo da elite branca, cis, HT, rica e tradicional cujo áudio remete ao pior momento da história humana, o nazismo.

Num discurso eugenista, elitista, nada empático e totalmente focado na seleção natural que deverá priorizar o mais fortes em detrimento dos mais fracos, Herr Justus deixa bem claro de que lado está sua solidariedade afinal, como irá ganhar seus milhões sem ter quem para ele trabalhe?

Alinhado com Bolsonaro e sua quadrilha de paspalhos neoliberais, Justus prevê uma recessão terrível e que trará grandes prejuízos a todos caso a 'histeria' e o 'pânico' não sejam controlados e a economia não siga funcionando normalmente e, para que isso ocorra, o sacrifício de alguns será preciso e não de forma simbólica mas literal.

O discurso de Justus está alinhado com o de Bolsonaro e sua tchurma que estão se cagando de medo da recessão que essa pandemia causará não pelo social mas pelo abalo político que causará justamente quando pretendiam se perpetuar no poder e implantar sua agenda conservadora e neoliberal no país.

Para eles, isso é uma gripe qualquer, um resfriado e se os velhos irão morrer, que morram, oras! Eles já estavam no fim da linha e muito provavelmente não foi essa epidemia mas outras doenças que irão matá-los. Da mesma forma, se os pobres morrerem também será um grande infortunio mas, como pensam eles, não se pode fazer um omelete sem quebrar alguns ovos.

O pensamento de Bolsonaro ao tratar essa crise como capital político é medonho e condizente com o caráter de um sociopata, Hitler bateria palmas se pudesse. Para Bolsonaro a economia vem antes de tudo porque é sua carta na mesa, seu capital de troca, sem ela ele está na corda bamba então, se for preciso matar parte da população, tudo bem!

A economia já está na merda, a crise já se instalou, a recessão já vem a galope e não apenas aqui mas no mundo e o momento é de zelar pela saúde pública e adotar medidas que ao menos amenizem a recessão que se acerca, tranquilizem a população e demonstrem que há efetivamente alguém no comando da nação e não um imbecil e seus filhos fazendo merda nas redes sociais e jogando queda de braço com governadores que, ainda que não sejam santos, estão tomando medidas efetivas para conter o contágio da população e um eventual colapso dos sistemas de saúde.

A galera que apoia o messias segue cega feito o gado que sempre foram, mugindo e espalhando que é tudo uma conspiração comunista, do PT e que a China é a grande responsável por tudo destilando ódio, xenofobia e preconceito alimentados pelo discurso inflamado do messias e seus filhos dementes. Preferem enfiar a cabeça no buraco olavista e bolsonarista ao invés de entender que o buraco onde estamos engoliu a todos sem exceção e só vamos sair dele com muita luta e resiliência.

Discursos como o Justus são reais, muito reais e ecoam tais teorias conspiratórias e pensamento eugenista que as elites bolsonaristas elegeram e seguem defendendo, se for para sobreviver alguém, que seja a melhor parte da sociedade, esse é o pensamento bolsonarista.

A epidemia vai passar, tenho certeza disso mas me pergunto quando iremos nos curar do vírus Bolsonaro que está nos matando a cada dia que passa e, seguindo nesse ritmo, ao final dos quatro anos, restará apenas ele para contar a história para os escombros do que um dia foi um país.

20 de mar. de 2020

O Brasil que deu certo

A menina não acreditava ou acreditava mas não queria ou fazia que sim mas na verdade nem sabia se deveria mesmo acreditar em tudo aquilo e munida dessas incertezas resolveu que para matá-las precisava era sair dali e ver com seus próprios olhos para não ter de usar os dos outros que poderiam ser mentiras feitas apenas para enganar.

Num momento de distração, burlou a vigia severa dos pais e ganhou a rua que já ia escura mesmo que ali dentro a diferença entre dia e noite fosse imaginária e determinada pela intensidade das luzes artificiais.

Poucos ainda zanzavam pelas ruas, voltando para suas casas depois de mais um dia de trabalho ou do pouco trabalho que ainda existia entre eles. Verificou a pequena mochila que carregava onde uma pequena ração de alimentos deveria ser capaz de lhe sustentar até atingir seu destino, comida era luxo por ali e desde que se dera por gente sabia que racionar era viver.

Atenta, seguiu seu caminho sem dar olhar a quem cruzasse seu caminho, despertar interesse ou perguntas era perigoso e poderia aguar seu plano de fuga. Lembrou repentinamente de um livro que lera, há tempos, um dos poucos que ainda circulavam por ali, ela uma das poucas que ainda conseguia fazer sentido das palavras escritas, os mais novos desconheciam a utilidade dos livros, julgavam um prazer mórbido lidar com papel.

Pensou como a história do livro era parecida com a sua, com a deles, com a de todos ali mas moveu o pensamento pois tinha mesmo de focar em encontrar o caminho para fora dali, aquela história de pessoas presas num parque no meio do país e forçadas a crer que o tempo ali havia parado era apenas isso, uma história, nada mais.

Para achar seu caminho foi folheando a memória, andar com pedaços de papel era um risco desnecessário então, havia memorizado a rota que descobrira num pedaço roto de papel que descobrira por acaso entre as coisas dos pais.

Foi seguindo seu caminho até dar de cara com uma porta de aço. Parou. Pensou. Voltou a folhear a mentelivromapa. Arregalou os olhos como quem lembra de um detalhe importante subitamente. Apertou o botão que se escondia sob camadas eternas de pó e ferrugem.

Um gemido de estômago vazio de séculos se fez. Ela assustou e pensou correr. Olhou para os lados e para trás mas ninguém parecia ter dado fé do barulho. O gemido foi se tornando um ranger fino como se alguém descascasse metal com uma lixa, depois como se alguém tentasse escorregar por cabos com as unhas e finalmente cessou.

Uma porta se abriu a sua frente, Escuro dentro e ela mesmo com medo olhou para trás e entrou. Quando entrou uma luz meio morta de tão velha meio que acendeu e ela, assustada, olhou ao redor. À sua direita uma placa de aço carcomido lhe dizia zero um do s tres q tro cinco s is ete oit nov dez. Vasculhou novamente a mentemapa e apertou o último botão.

A coisa gemeu de novo como se tentasse acostumar com ela dentro de suas entranhas ou fosse devorá-la e ela se encolheu num canto. A porta se fechou com um ruído ríspido e a coisa começou a subir devagar como se não desejasse sair de onde estava.

Sob a luz morta dentro subindo, ela ficou pensando em como seria ao sair, o que seria ao sair, quem seria ao sair. Seria tudo como havia pensado, como havia falado com aquelas pessoas, como sonhava quando os pais a punham para dormir e ela dormia acordada sonhando com aquele outro lugar?

A luz deu um lampejo mais forte e do outro lado da coisa ela pode ver um cartaz meio rasgado velho e descolorido onde se podia ler algo como BR S L ACIM DE UDO,  EUS AC MA E TO OS. Franziu o cenho, lembrava vagamente daquilo, como se fosse algo enterrado que nos deparamos sem querer ao remexer em coisas velhas demais ou mortas. Riu.

A coisa parou. Chiado forte. Gemido de satisfação como se tivesse lembrado qual sua função e estivesse feliz por executá-la. A porta soltou um silvo longo e abriu como se estivesse sussurrando. Uma luz clara, leve e quente atingiu seu rosto junto com uma lufada de um ar que ela nunca havia respirado, Puro. Sem contaminar, Incólume. Inocente. Intocado. Selvagem.

Ela saiu. A porta se fechou atrás dela com um silêncio solene.

A coisa começou a descer de volta ao seu leito profundo e ela começou a andar pelo país que nunca vira alguém nenhum.

19 de mar. de 2020

A festa das panelas

Pouco depois das dezenove e trinta começou, no convite dizia vinte e trinta mas os convidados chegaram mais cedo não que fosse problema, para aquela festa chegar antes não era crime mas sim chegar depois ou não chegar.

Primeiro aqui e ali um pam pam pam modesto, quase tímido mas decidido. Depois um outro talvez encorajado pelo primeiro e um outro mais convocado pelos já ingressos na festa que seria, excepcionalmente, feita das janelas posto que a doença real, não a imaginada, havia chegado também impondo uma clausura forçada aos convidados que, mesmo assim, não se intimidaram pois festa é festa não importa se na rua, casa, sacada, janela ou salão.

E o coro de panelas foi encorpado por gritos, palavras não de ordem mas de desgosto, gosto ruim de quem sabe que tudo está indo a pique mas não quer afundar sem proferir as últimas palavras nem deixar a música parar porque, como dizem, revolução sem música melhor nem fazer. Palavras de descontentes, que precisam gritar para que sua tristeza que não foi causada por eles seja ouvida e vista.

Já seria por volta das vinte e quinze quando a festa parece ter dado uma acalmada. Talvez uma pausa para engatar o grande momento, aquele em se apresenta a debutante nervosa que pela enésima vez tenta ser república, quando apagam as luzes para entrar o bolo cheio de velas ou aquele vídeo com memórias de um vida que parece nunca ter sido.

E então, vinte e trinta, tudo explodiu.

PAM PAM PAM PAM PAM PAM PAM PAM PAM PAM PAM PAM PAM PAM PAM PAM PAM

E tudo virou orgia de gritos e panelas e janelas tocando Chico e pessoas mandando frases e gentes pedindo paz e vozes gritando fora e urros de jamais e berros de ele nunca e risos e choro e luzes e fogos e cacofonia de sons cofiando os ouvidos que gozavam de tanto ouvir o que já deveria ter sido gritado antes.

Não sei quanto tempo. Acho que foi muito. Deve ter sido pouco ainda. Aos poucos o povo janela foi se acalmando, voltando para a quarentenacional, campos de concentração de vinte metros quadrados e abastecidos de fome de sonhos de tempos menos caducos e cambaleantes, espirrando com o braço no cérebro e a boca aberta num esgar de alegria.

Recolhidos. Felizes. Fomos jantar e ver a quantas andava o vírus mandão que mesmo sem ter sido eleito passou a governar com dna de ferro nossas vidas. Pensando no que vamos estocar amanhã mas já estocados de um pouco de esperança.

Ao longe, algum iluminado sacou um trompete e mandou um olê olê olá lula lula.....

lembranças aleatórias não relacionadas com a infância

Lembrança #10 Lembro de uma festa ou rave ou balada que eu ajudei um amigo a organizar num tipo de sítio eu acho. Estava separado do meu nam...