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5 de mai. de 2020

sem mil

cem mil. cem mil. cem mil.

e o povo segue mugindo, lambendo as botas do messias.

e o povo segue na rua porque acha que é só uma gripe.

cem mil. cem mil. cem mil.

e o presidente segue ensandecido pregando o fim da democracia e o fim da sociedade, ele quer um feudo, um reino, um gueto, não um país.

cem mil. cem mil. cem mil.

e o povo segue com a bandeira verde e amarela suja de merda, cagada por eles com seus brados de AI-5 e golpe, comem merda e arrotam bosta, colocam suas bocas no ânus do  mito sedentos pelo maná de fezes que ele defeca todos os dias em suas bocas famintas.

cem mil. cem mil. cem mil.

e as pessoas estão mijando sobre as covas dos mortos, rindo das famílias, fazendo troça de quem está lutando pela vida e dizendo que não se pode fazer um país sem quebrar algumas cabeças.

cem mil. cem mil. cem mil.

e as pessoas saem vestidas em festa pedindo a morte geral, do país, querem matar a nação para fazer nascer uma utopia horrenda, Heil Jair! Vistam suas suásticas!

cem mil. cem mil. cem mil.

e o brasil morreu, morte horrível, morreu lenta e dolorosamente, câncer, tumor, corroeu tudo quando deixou aquele homem e sua família maldita entrar e morreu rindo, cantando o hino nacional, vestido das cores nacionais, fechados com o presidente, salve, salve.

cem mil. cem mil. cem mil.

e o demente federal aplaude, abraça e espalha o vírus do totalitarismo sem medo, com orgulho, fleuma e sem vergonha de ser ditador. 

cem mil. cem mil. cem mil.

e não tem problema porque só existe morte quando convém ao presidente, quando ela for a favor de seus planos para o brasil, deus acima de todos e acima dos mortos, eu sou o estado e a constituição é meu papel higiênico, vejam como eu limpo minha bunda messiânica com ela.

cem mil. cem mil. cem mil.

e o messias quer mais, quer duzentos, trezentos, quinhentos mil ou um milhão porque esses mortos serão os alicerces sobre os quais ele erguerá seu novo brasil, sua nação soberana great again, america, america, god shed his grace on thee, bate continência pro presidente alaranjado e muda a cor da bandeira para star spangled banner, make fascismo great again.

cem mil. cem mil. cem mil.

mas para o messias, não há morte que seja suficiente, messias que é messias só fica satisfeito quando todos estiverem mortos sob seus pés e servindo eternamente sua vontade nazista suprema, ele é o caminho, a verdade e a luz de todos os finais de túneis.

cem mil. cem mil. cem mil.

não tem problema, sempre podemos fabricar mais fascistas.

10 de fev. de 2015

Bico doce



Alguns quadrinhos transcendem qualquer explicação ou emoção, são obras de arte que deveriam estar em museus, arrisco dizer. Nesse panteão, poucos subiram em minha opinião e não vou aqui fazer listas porque seria algo inútil e subjetivo, cada um de nós que aprecia a leitura sabe e tem lá os seus.

Recentemente, li 'Sweet Tooth' de Jeff Lemire e ao final chorei como não o fazia há tempos (salvo por situações não ligadas a leitura). A trama gira em torno de Gus, um híbrido animal/humano e sua jornada para conhecer de onde veio e qual seu papel no mundo pós-apocalíptico em que vive no que é ajudado pelo 'durão' Jepperd.

Há muita semelhança com 'The Walking Dead', não há como negar. A humanidade está em extinção vítima de uma praga incurável que dizimou quase todos e aguarda pacientemente para ceifar os últimos remanescentes de nossa raça. Os poucos sobreviventes lutam como podem para seguir em frente confirmando a máxima de que não há estrutura social que suporte a lei do cão, implantada por necessidades superiores à regras e costumes acordados tacitamente quando não há nada em risco. 

No lugar de zumbis, temos crianças e adolescentes híbridos de animais/humanos, os únicos imunes à praga, os zumbis somos nós mesmos vagando a esmo apenas aguardando a morte chegar, nem mesmo a sobrevida como morto-vivo é possível. Gus foi criado em isolamento pelo pai em fervor religioso pregando que apenas o lugar onde viviam era o novo Éden e o resto do mundo era fogo e perdição. Quando Gus vê-se forçado e sair desse paraíso, é na figura de Jepperd que encontra um protetor disfarçado de casca-grossa mas que, no melhor estereótipo possível, sob essa carapaça criada para defender-se de um mundo em frangalhos, ainda é um ser humano na melhor concepção da palavra, talvez sua única redenção ante o fim inevitável. Na jornada, Gus encontra outras 'crianças-bicho' e vai tomando conhecimento do mundo que seu pai demonizava perdendo aos poucos sua inocência e aprendendo como era o mundo humano antes de seu fim e como ele ainda, moribundo, se agarra às mesmas coisas tão moribundas quanto ele.

Não vou dizer mais para não estragar a surpresa de ler algo original, terno e extremamente bem feito. 'Sweet Tooth' é uma fábula sobre como deixamos tudo que é bom em nós morrer, como deixamos de lado as coisas que realmente importam em detrimento de valores e conceitos vagos e impostos pela sociedade. Também é uma fábula sobre a perda e o reencontro do que nos define como humanos e animais, como nos distanciamos de um e nos aproximamos do outro e de como a linha que separa os dois é algo extremamente tênue dificultando muitas vezes identificar quem é o animal e quem é o humano conforme a situação.

É também sobre esperança no futuro e como pode ser necessário destruir algo feito erva daninha para que do solo novo, nasça algo puro e revigorado. Nesse sentido é melancólico pensarmos que esse hoje que vivemos e prezamos tanto pode ser a semente de algo que não chegaremos a ver e há o medo que comungamos de ter passado por aqui sem deixar qualquer tipo de marca ou registro sendo, muito lá na frente, apenas uma lembrança vaga e quase inexistente, lenda pura.

Se você vier a ler 'Sweet Tooth', nas páginas finais vai entender tudo isso e ver que esses temores são infundados e apenas egoístas.


lembranças aleatórias não relacionadas com a infância

Lembrança #10 Lembro de uma festa ou rave ou balada que eu ajudei um amigo a organizar num tipo de sítio eu acho. Estava separado do meu nam...