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7 de dez. de 2020

tic tac tic tac

 


Não precisa ser vidente nem nada para entender que na atual situação, isto vai acontecer.

E não se trata apenas da falta de coordenação e bom senso dos governantes sejam eles municipais, estaduais ou federais sendo esta última esfera a pior vide seu negacionismo e insistência em considerar a pandemia como algo menor e que não precisa de tanto alarde já que admitir o oposto seria ir contra sua base de apoiadores digitais e o capitão jamais vai desdizer algo que disse e passar por covarde ou mentiroso pouco importando quantos cadáveres terá de usar para isso.

Há um descaso generalizado, tanto das autoridades como da sociedade, o medo saiu e entrou a sandice, as festas clandestinas pululam com preços de variam de $500 a mais de $1500 ou seja, apenas os abastados podem ir e podem se dar a luxo de pegar o COVID pois, caso infectados, terão o melhor atendimento e morte que o dinheiro pode comprar mas, não são apenas as festas ricas que proliferam, as festas de rua e para quem não pode pagar pulseirinha de ouro também acontecem sem medo ou freio e quem frequenta essas, não poderá chegar de SUV no Einstein para ficar no apartamento ou UTI de última geração.

Sexta passada, passando pelo centro na volta do trabalho, parecia uma sexta como outra qualquer, sem vírus, sem morte, sem pandemia que não fosse alcoólica. Bares abertos, música alta, e muita, mas muita gente dançando, fumando, bebendo e achando que máscara é coisa só para o carnaval. Geral perdeu o medo, cagou para o vírus e o aumento de casos que está batendo na porta, o comércio e empresariado combalidos não querem nem ouvir falar de lockdown de olho no fim de ano que promete algum tipo de alívio para os prejuízos que já amargam esse ano e a população quer algum tipo de consolo pelo menos no período de festas mesmo que em Janeiro todos tenham de chorar seus mortos e entupir os cemitérios.

A falta de pulso e organização dos governos casada com a falta de bom senso social estão preparando um cenário sombrio para o início de 2021, esse que a gente está torcendo para ser melhor mas, ainda que alguma vacina vença os obstáculos ideológicos de um governo que não pensa, até algum tipo de estrutura ser montada para vacinação em massa, muita gente vai estar a sete palmos pagando pelo desrespeito e despreparo que temos agora.

A pandemia não matou apenas pessoas, matou nosso bom senso, empatia e sentimento de sociedade, rimos da cara dela como quem ri de uma lenda urbana, penas que essa lenda urbana não tem nada de lenda e não gosta de quem ri de sua cara, mata  mesmo, sem dó nem piedade.

Feliz vírus novo!

21 de mai. de 2020

Quem ri por último?

No dia em que batemos um recorde nefasto, mórbido e horrendo, em que aparecemos num terceiro lugar mundial pavoroso, em que uma criança foi morta por estar em casa e seu corpo vagou por uma cidade voando feito anjo esquivo e esquecido até pousar na gaveta fria de um IML.

Nesse dia horrendo que deveria ser banido para sempre de nossas lembranças e da história, o assassino da república riu ao vivo para seus asseclas e fez piada.

Sem medo. Sem vergonha. Sem culpa. Sem arrependimento. Sem mácula. Sem noção.

Riu de todos os mortos, de suas famílias, dos profissionais que estão lutando dia e noite para tentar frear essa doença. Riu de quem está passando fome, sem trabalhar, sem grana, sem esperança, sem família, sem vida.

Rasgou o país ao meio e limpou sua imundície na constituição. Tirou seu membro milícia verde amarelo pátria amarga brasil e esfregou na cara de todos nós. Rindo. Jocoso. Palhaço. Piadista. Gozou de todos nós sem qualquer vestígio de consciência ou pudor.

Mostrou de uma vez por todas que não é humano, nunca foi, nunca será. É um nada, um vazio, um oco, um buraco sem fundo onde tudo que cai é dissolvido e some para nunca mais. Nem mesmo animal ele é porque animais possuem inteligência, o assassino da república possui demência.

Riu. Riso frouxo de quem está feliz com as mortes de tanta gente. É o palhaço que ri do circo em chamas sem saber que depois vai ficar sem ter onde morar. Para ele, não existe outra versão dos fatos que não seja a dele e de seu clã abjeto e odioso.

O assassino da república riu. Está feliz. Está pleno afinal, todo bom sociopata sente-se bem ao caminhar em cima de cadáveres.

E nós? Como estamos? 

Estamos morrendo. Segundo o assassino da república, uns irão tomar cloroquina, outros tubaína e nós, bem, nós seguiremos tomando onde sempre tomamos desde que ele foi eleito.

Não vou compartilhar o vídeo do assassino da república pois não desejo dar a ele mais esse prazer.

Deixo então essa reflexão bela e atual do João Silvério Trevisan que é bem melhor.

A RESISTÊNCIA DOS VAGA-LUMES

"Vencidos o medo de ser e a resignação de antigamente, oprimidos em estado de purpurinização não precisam pedir licença aos guardiões do poder heteronormativo, nem bajular aqueles supostos parceiros, como se a sobrevivência dos nossos desejos, afetos e amores dependesse deles. Quanto maior for a compreensão de que no território do desejo não existem mestres nem patrões, tanto maior será a eficácia dos sujeitos em estado de construção de suas singularidades. Se existe a escuridão opressiva ao nosso redor, nossa função é brilhar. Exatamente como os vaga-lumes, que só brilham se houver escuridão e são tanto mais vaga-lumes quanto mais escuro estiver o entorno. Talvez pareça estranho que sua luz precise das trevas para ser luz (...). Mas aí exatamente se encontra aquela capacidade de renascer das cinzas, como fantasmas iluminados, que emitem sinais de liberdade na noite. (...) Não por acaso, é justamente no meio das trevas que se efetua a dança viva dos vaga-lumes. (...) Através da dança renitente de vaga-lumes purpurinados, diremos sim no meio da noite atravessada pela execração que os senhores do poder emitem para nos ofuscar. Assim, a opressão que tenta sufocar nosso desejo, ela mesma será o motor da nossa luz e da nossa dança de vaga-lumes na noite. Quanto mais escuridão dos opressores, maior será a luz emitida pela purpurina dos oprimidos."
João Silvério Trevisan
(DEVASSOS NO PARAÍSO, 4ª edição, pp. 577/8)

5 de mai. de 2020

sem mil

cem mil. cem mil. cem mil.

e o povo segue mugindo, lambendo as botas do messias.

e o povo segue na rua porque acha que é só uma gripe.

cem mil. cem mil. cem mil.

e o presidente segue ensandecido pregando o fim da democracia e o fim da sociedade, ele quer um feudo, um reino, um gueto, não um país.

cem mil. cem mil. cem mil.

e o povo segue com a bandeira verde e amarela suja de merda, cagada por eles com seus brados de AI-5 e golpe, comem merda e arrotam bosta, colocam suas bocas no ânus do  mito sedentos pelo maná de fezes que ele defeca todos os dias em suas bocas famintas.

cem mil. cem mil. cem mil.

e as pessoas estão mijando sobre as covas dos mortos, rindo das famílias, fazendo troça de quem está lutando pela vida e dizendo que não se pode fazer um país sem quebrar algumas cabeças.

cem mil. cem mil. cem mil.

e as pessoas saem vestidas em festa pedindo a morte geral, do país, querem matar a nação para fazer nascer uma utopia horrenda, Heil Jair! Vistam suas suásticas!

cem mil. cem mil. cem mil.

e o brasil morreu, morte horrível, morreu lenta e dolorosamente, câncer, tumor, corroeu tudo quando deixou aquele homem e sua família maldita entrar e morreu rindo, cantando o hino nacional, vestido das cores nacionais, fechados com o presidente, salve, salve.

cem mil. cem mil. cem mil.

e o demente federal aplaude, abraça e espalha o vírus do totalitarismo sem medo, com orgulho, fleuma e sem vergonha de ser ditador. 

cem mil. cem mil. cem mil.

e não tem problema porque só existe morte quando convém ao presidente, quando ela for a favor de seus planos para o brasil, deus acima de todos e acima dos mortos, eu sou o estado e a constituição é meu papel higiênico, vejam como eu limpo minha bunda messiânica com ela.

cem mil. cem mil. cem mil.

e o messias quer mais, quer duzentos, trezentos, quinhentos mil ou um milhão porque esses mortos serão os alicerces sobre os quais ele erguerá seu novo brasil, sua nação soberana great again, america, america, god shed his grace on thee, bate continência pro presidente alaranjado e muda a cor da bandeira para star spangled banner, make fascismo great again.

cem mil. cem mil. cem mil.

mas para o messias, não há morte que seja suficiente, messias que é messias só fica satisfeito quando todos estiverem mortos sob seus pés e servindo eternamente sua vontade nazista suprema, ele é o caminho, a verdade e a luz de todos os finais de túneis.

cem mil. cem mil. cem mil.

não tem problema, sempre podemos fabricar mais fascistas.

4 de mai. de 2020

Quem fica com Jair?

Toca o telefone.

Alô?

Alô.

Quem fala?

Gostaria de falar com?

Humm, o velho está?

Ocupado, quer deixar recado?

Messias?

O próprio.

Ah! Não reconheci a voz, desculpe.

Estou com uma gripe, nada sério.

Certeza? Sabe como é, vindo muita gente doente lá de baixo.

Nada grave, já fiz o teste, e você é...

Ah! Não reconhece? Vai fazer de sonso?

....

Afff, deixa pra lá, sou eu, morte.

Ah! Também não reconheci sua voz, meio diferente.

Cansaço mesmo, nada demais, muito trabalho, o velho soltou essa praga e estou fazendo extra porque não está fácil dar conta mas, nem reclamo, a última vez que trabalhei assim foi quando? AIDS? A Espanhola? Enfim.

E que posso fazer por você?

Eita, está com pressa?

Não muita mas, como você mesma disse, tá corrido né, muita gente e não só aqui. Luci fica ligando o dia todo pra encher o saco, mudamos os sistemas e deu um pau fudido aqui, gente indo pro Luci quando deveria vir pra cá, é isso.

Nossa! Não vão colocar isso na minha conta, né? Só coleto! Não tenho nada que ver com isso não.

Fica tranquila, nada contigo, segue fazendo teu trabalho que o resto a gente acerta aqui mas já vou avisando que tu vai ralar ainda um tempo, aquelas tuas férias, do apocalipse, sabe? Então, já era, o velho mandou cancelar.

O que? Mas eu já tinha falado com ele, porra! Tudo certo, eu tinha reservado passagem e tudo mais! Porra, JC, assim vocês me fodem!

Lamento, o velho já decidiu. Se serve de consolo tá todo mundo aqui puto porque vai ter de fazer extra com essa pandemia e todo o esquema do fim do mundo vai atrasar. Luci tá por conta, disse que se não resolver vem aqui tirar satisfação com ele, quero só ver...

Olha, lá no Egito foi a mesma merda, eu tava de boa, ia tirar uns dias e deixar tudo com meus irmãos, eles iam quebrar o galho e tals mas aí teu pai veio com aquelas pragas e eu me fudi e agora isso de novo?

Pois, se quiser falar com ele, fica à vontade mas tu sabe como ele é. Já decidiu, igual aquela vez que eu desci, ele meteu na cabela que eu tinha de ir e não teve cristo que fizesse ele mudar de ideia e olha que eu tentei.

Enfim, paciência, liguei pra falar de outra coisa.

Diga.

Seguinte, Brasil.

De novo? Não aguento mais, meu! Todo dia gente ligando aqui pra falar dessa merda de país! Caralho! Luci liga aqui reclamando todo dia, TODO DIA, sabe o que é ouvir o Luci reclamar todo dia?

Enfim, não vou reclamar, só um pequeno problema.

Tá, fala logo.

Seguinte, que a gente faz com o Jair?

Como assim?

O que a gente faz com ele, oras?

Como o que a gente faz? Faz o que estava combinado, porra! Ele morre vai pro Luci, ponto final!

Pois é, Luci disse que negativo, nada de mandar ele pra lá, disse que já tinha falado contigo pra falar pro velho que ele não quer o homem lá não.

Como não quer? E ele lá tem querer? Quem ele pensa que é?

Mas ele falou contigo ou não?

Não sei, acho que sim mas não lembro, esse porra liga todo dia pra reclamar de alguma coisa.

Ele disse que falou contigo e que tu ia ver isso do Jair ir pra vocês.

Aqui? Tá louca? Tu perdeu o juízo na peste negra? Jair? Aqui? Hahahahahaha.

Luci disse que se mandar ele pra lá da porta ele não passa e que se mandar ele com os filhos ele fecha o inferno e vaza.

O que? Luci fez o que? Comeu enxofre? Não pode, ele lá tem como fazer isso, tá pondo as asinhas pra fora, ele que se cuide que se me der os cinco minutos eu desço lá e acabo com essa palhaçada, que inferno!

Exatamente. Só liguei porque assim, tá perto da hora de buscar o Jair e eu preciso saber na porta de quem eu largo o infeliz ou tu quer que eu fique com ele a tiracolo por aí?

Não seria má ideia...

Não fode, Nazareno! Já basta eu ter de coletar e ser tratada feito merda, tu sabe o que já ouvi? O que eu já passei? E agora tu que me deixar com esse cara pendurado pra me dar nos nervos? Quer saber, fodam-se vocês, eu largo essa porra toda e eu quero ver quem vai lá pegar o povo, vocês que lutem!

Calma, calma! Calma no além! Não precisa ficar assim também.

Enfim, preciso saber o que eu faço com o Jair.

E os filhos?

Que filhos?

Os dele, porra!

Deixa eu ver aqui, hummm, não, só bem depois, pera, um deles não, vai logo depois mas os outros vai demorar ainda.

Deixa eu pensar, podia fazer um bem bolado com o Luci, sei lá dividir, um pouco pra ele e um pouco sei lá, pro limbo.

Bom, você veja aí o que vai fazer e me fale. Eu só preciso saber onde desovar as almas, mais nada.

Jair está pra sair quando?

Logo, eu tenho umas encomendas na frente mas ele não tarda.

Tá, vou falar com Luci, assim, se tiver de adiantar uns filhos, tem como?

Tu sabe que não, né? Não posso.

Só dessa vez, pra eu poder barganhar com Luci, senão ele vai reclamar.

Se teu velho autorizar, eu faço, dou um jeito aqui, troco alguns e acho que consigo espremer uns deles mas não todos, já aviso.

Beleza! Vou falar com o velho e te ligo de volta, pode ser?

Pode mas não demora! Jair tá meio que no jeito, se vocês ficarem de papo eu pego ele e largo em qualquer lugar e vocês que se virem pra achar depois.

Não seria má ideia...

Tu sabe que eu não posso.

Sim, só falei, de repente, ninguém te culparia, eu falo que tipo você estava muito cheia de coisa pra fazer, sabe como é.

Sei, depois a tonta aqui se fode. Negativo! Fale com o velho e com Luci e depois me liga pra dizer onde eu largo o Jair.

Tá, tá bom! Tentei né, me dá um tempo porque o velho anda de mau humor e Luci vai dar pulos quando eu falar para ele mas ele é de boa, a gente se entende. Mais alguma coisa?

Só fala pro velho que eu quero minhas férias, se ele vier de graça de novo eu mando tudo as favas e quero ver vocês darem conta, talkey?

Tudo bem! Eu falo com ele, pode deixar.

Então tá, vou lá que a pandemia chama, se eu fico cinco minutos fora já fica fila me esperando.

Vai lá, te ligo depois, se cuida!

Você também, um beijo.

Fim da ligação.

29 de abr. de 2020

Distopandêmico

Mais um dia.

Normal. Absolutamente. Normal.

Acordo com o despertador que toca todos os dias a mesma nota monocórdica e, em seguida, automaticamente começa a despejar as notícias que deveriam chamar-se velhicias já que são as mesmas de ontem, semana passada, mês passado e amanhã, semana que vem, mês e ano que vem.

Bom dia, cidadão! Estamos hoje no dia 11894 de nossa Quarentena. A quantidade de pessoas infectadas é 2.909.478.365,6 e a quantidade de mortos até o momento 12.899.765,87. O Governo está trabalhando arduamente para manter a pandemia sob controle, sua participação é muito importante!

Vou ao banheiro e aciono o temporizador, esta semana meu distrito pode usar até 8 minutos de água por unidade habitacional, o temporizador já foi atualizado com essa quantidade, tudo é automático, nós somos, aperto o botão e entro no chuveiro já com a escova de dentes, não há pia pois é um desperdício de água, fazemos tudo no chuveiro onde, agachado, os tubos sanitários se acoplam automaticamente para colher fezes e urina enquanto escovo os dentes. Não, não ha vaso sanitário ou qualquer coisa parecida, um gasto excessivo, desnecessário, os tubos fazem um trabalho muito melhor e usando quase nenhuma água.

O Governo informa que traidores da pátria foram presos e fuzilados na data de ontem. A operação foi um grande sucesso resultando na apreensão de alimentos orgânicos, carne e outros artigos que poderiam contaminar muitas pessoas e matar compatriotas. As autoridades seguem seu trabalho e você, cidadão, pode ajudar denunciando quaisquer atividades suspeitas.

Em seguida, a água fria cai em quatro jatos fortes enquanto de um orifício central escorre um fio de uma gosma branca que usamos para a assepsia geral. Tudo deve ser cronometrado, se nos perdemos em divagações podemos ficar sem banho ou sair dele sem tirar todo o líquido que faz a limpeza. O temporizador emite bipes agudos quando o tempo está por esgotar-se, geralmente aceleramos o processo para evitar não sermos capazes de terminar o banho, o meu já está apitando.

O Governo de sua excelência Jair IX segue trabalhando arduamente para combater não apenas a pandemia mas os inimigos do país. Faça sua parte! Economia é força, obediência é sabedoria, denunciar é amar!

Saio do banho e fico em frente aos jatos de ar quente para secar-me, não há toalhas, desperdício de tecido, os jatos duram exatos 17 segundos durante os quais devo colocar-me de frente e costas para que eles removam toda água. Nu, volto para o quarto-sala-cozinha-utilitário onde já me espera a roupa que usarei no dia. Não há necessidade de guardar roupas, elas são descartáveis e diariamente, recebemos por tubos pneumáticos as que usaremos, embaladas à vácuo, higienizadas e esterilizadas e que deverão ser descartadas ao final do dia na cremalheira central de cada prédio antes de regressar à minha unidade.

O Governo informa uma safra recorde de multi-grãos e sinteproteínas. Isso representa um ganho para nossa sociedade e uma possível solução da crise de abastecimento causada pela pandemia, as autoridade seguem trabalhando para que todos possamos ter o suficiente para viver bem. Lembrem-se: O que é muito para um, é pouco para todos. Economia é força!

O despertador toca novamente avisando que devo me apressar, já começo a me atrasar, não sei como está o tempo lá fora porque não há janelas, todo o ar que respiro vem através de tubos e encanamentos que filtram o ar algumas centenas de vezes até chegar aos meus pulmões. Não há brechas ou espaços nos cantos ou beiradas, tudo é vedado hermeticamente e selado para garantir um ambiente seguro e totalmente esterilizado.

O Governo de Jair IX informa que as celebrações online do aniversário de sua excelência serão transmitidas online no horário de 21:00 logo após os autos de aclamação. Não esqueçam de ouvir atentamente ao pronunciamento, sua atenção é compulsória e as penalidades previstas em lei serão aplicadas aos faltantes.

Apressado, tomo meu desjejum que também já está pronto. Todos os dias, um cardápio balanceado é entregue por um sistema de bandejas autômatas, preparado para atender às minhas necessidades nutricionais diárias, não podemos comprar alimentos, há risco de contaminação, os pratos são entregues em horários pré-determinados e concebidos por nutricionistas que conhecem a fundo o funcionamento do corpo humano e a melhor dieta para otimizar seu desempenho.

E agora, novos números da pandemia...

Já estou atrasado, o despertador informa junto com as mesmas notícias de sempre. Aperto um botão na parede e recebo os itens de segurança que usarei no dia: luvas isolantes, máscaras de tripla camada, óculos protetores, touca protetora e minha dose diária de antiretrovirais, não, não são uma cura, apenas um tratamento paliativo que pode evitar a contaminação ainda que, quase semanalmente, mudem as drogas ante alguma nova mutação do vírus, ele parece mudar mais rápido do que podemos criar novas drogas.

O Governo informa que encontra-se avançado o estudo de antiretrovirais de última geração que, segundo apontam as pesquisas, poderão derrotar o vírus definitivamente! Os testes em humanos devem iniciar dentro de alguns anos. Há esperança! O Governo é de fé!

Estou pronto. A porta sem maçanetas abre ante minha presença, só voltará a abrir quando eu regressar ao fim do dia para repetir todo o processo só que ao inverso, descartar as roupa e equipamentos de proteção, passar pela câmara de descontaminação antes de entrar em minha unidade completamente nu e, uma vez lá dentro, ir direto para o chuveiro. Depois, comer ouvir mais notícias no despertador e aguardar a hora de apagarem as luzes, economia, estamos em pandemia, os recursos são escassos, precisamos fazer sacrifícios. é assim, não podemos ser egoístas nesse momento.

O Governo do excelso Jair IX informa que a pandemia será derrotada com o apoio de todos. Cada um de nós deve fazer sua parte! Acreditem! Nosso país é forte, é unido, somos um povo determinado e os sacrifícios que pedimos a todos são os mesmos que nossos governantes fazem de bom grado! Pátria amada! Somos seus filhos e de nosso líder Jair IX!

16 de abr. de 2020

Carta aberta ao COVID-19

Sr Corona eu ando aqui pensando em que faremos quando o senhor nos deixar porque com o senhor ainda temos um inimigo que joga limpo e que, a grosso modo, está apenas fazendo o trabalho que a natureza lhe designou. 


Eu sei que o senhor não faz o que faz por gosto e mais porque, igual aquela fábula do sapo e do escorpião, está em sua natureza, tudo bem! Mas, quando senhor for embora teremos de seguir vivendo com o Bolsovid-17 e contra o qual não achamos até o momento qualquer vacina ou tratamento porque esse vírus se instala nas pessoas e as transforma em mortos-vivos que mugem MITO sem parar e não param de usar as redes sociais. 


Eu fico apreensivo sabe, Sr. Corona, porque assim, o senhor está cobrando um preço alto mas logo vamos encontrar um meio de conviver consigo enquanto a pandemia Bolsonaro é meio que sentença de morte para todos sem qualquer grupo de risco. 


Não sei se o senhor teve tempo de ouvir os pronunciamentos dele ou acompanhar suas redes sociais, entendo que esteja assoberbado de trabalho no momento mas, se tiver um tempo, peço que gasta uns minutos com isso só para entender em que buraco o senhor se meteu e nos meteu fazendo valer aquela máxima de que nada é tão ruim que não possa piorar mas, honestamente, o senhor poderia ter esperado mais un três anos ou a queda do mito para chegar por aqui não é? Ou fizemos algo muito ruim (sem contar a eleição do messias) para tamanho desagravo? Sei que não devíamos reclamar, veja o Egito que teve aquelas pragas mas, elas vieram em intervalos e nós recebemos tudo de uma vez, não me parece muito justo, só acho. 


Enfim, gostaria de saber se o senhor pretende ficar muito tempo só para ter uma ideia do que fazer e quando entrar em pânico, se for ficar muito tempo a gente se ajeita como der, somos um povo acostumado a ser tratado como esgoto então de boa mas, se for mesmo ficar mais tempo como perguntei, queria saber se o senhor poderia fazer uma visitinha lá para o Bolsonaro e sua família, sabe como é, prestar seus respeitos e tal, acho que seria de bom tom de sua parte e ajudaria a gente porque o senhor já estamos sabendo como tratar mas o Bolsonaro está meio complicado. 


Um abraço!

Inspirado pelas publicações de João Silvério Trevisan em sua página no Facebook

15 de abr. de 2020

Tratamento de choque

Ela entrou, olhou ao redor, a sala estava cheia, aproximou-se do balcão onde uma atendente quase displicente mexia em alguns papéis e perguntou se a espera seria longa. A atendente olhou para ela e, por um momento, ela sentiu que se compadecera de seu estado, sabia estar doente mas não imaginava que tanto assim.

Não muito, disse a atendente, há apenas dois na sua frente, pode sentar-se que já lhe chamamos, tem hora?

Sim, disse ela, marquei há algum tempo já, deveria ter vindo antes mas não foi possível.

Entendo, respondeu a atendente, não se preocupe, há muitos aqui na mesma condição, peço que sente e aguarde, o doutor lhe atenderá em breve.

Ela agradeceu e foi sentar-se, procurou lugar afastado dos demais que ali estavam esperando atendimento, não queria conversar, ouvir lamentos de outros, problemas já os tinhas aos milhões e não carecia de aguentar os alheios.

Achou um lugar próximo a uma janela. Do lado de fora, o universo parecia calado, quieto e em paz mas ela sabia, era apenas uma impressão, havia via de morte acontecendo a cada segundo e as luzes que ela via no céu eram o testemunho silencioso de mortes há muito ocorridas, sentiu certa pena mas pensou que o universo era acima de tudo um lugar cruel, justo, mas cruel.

Absorta em seus pensamentos, não percebeu que a atendente lhe chamava. levantou-se e foi até o balcão.

Desculpe, estava distraída, disse.

Não tem importância, respondeu a atendente, o doutor remanejou alguns casos e a senhora pode entrar agora, ele a aguarda na sala sete. E apontou na direção de uma porta à esquerda onde um cartaz dizia 'APENAS PESSOAL AUTORIZADO'.

Agradeceu e passou pela porta para um corredor ladeado de portas com números e foi andando até encontra a sala sete. Bateu levemente a porta e lá dentro saiu um 'entre', abriu a porta e entrou. O doutro estava sentado e não se levantou para recebê-la, olhava para um monitor e acenava a cabeça de tempos em tempos como se chegasse a alguma conclusão muito importante.

Sente-se, por favor, disse sem tirar os olhos do monitor.

Ela sentou-se e ficou aguardando em silêncio num misto de apreensão e conformismo.

Bem, disse o doutor soltando um chiado fundo, estava olhando aqui sua ficha. Já faz um bom tempo desde sua última consulta, a senhora sabe que deve fazer consultas periódicas, não?

Ela baixou o olhos e aquiesceu envergonhada.

Hummm, disse ele, vejamos como a senhora está, alguma queixa desde a última vez em que nos vimos? Algo diferente? Como tem se sentido?

Bem, disse ela, quase na mesma porém, tenho notado muito mais dificuldade em respirar, como se meus pulmões tivessem diminuído ou fossem incapazes de prender o ar, o senhor entende?

Sim, disse ele, prossiga por favor.

Também tenho problemas estomacais, parece que tudo que como me faz mal, provoca queimação e até vômito algumas vezes. Meu intestino também não anda funcionando bem, às vezes tenho diarreia, às vezes passo dias sem ir ao banheiro.

Teve febre? Perguntou o doutor.

Sim, a mesma febre de sempre, vem aumentando muito de uns tempos pra cá e nada parece fazê-la baixar, respondeu ela.

E sua visão, audição e outros sentidos? Bem? Perguntou ele.

Em partes, disse ela, a visão fica bem ruim às vezes, o olfato já não sinto há algum tempo e o paladar anda bem ruim também. Tenho dificuldade para andar e o tato fica dormente também.

Entendo, disse o doutor. Mais alguma coisa?

Caroços, disse ela.

Caroços? Disse ele.

Sim, em várias regiões, veja disse ela e levantou a fina camada de roupa que lhe cobria exibindo vários pequenos caroços feito tumores que pareciam se espalhar pelo corpo todo.

O doutro levantou-se e aproximou-se dela, examinou atentamente os caroços, auscultou sua respiração, mediu sua temperatura, pressão e pulsação. Pediu que colocasse a língua para fora e fizesse ah, olhou dentro e emitindo um hum sonoro voltou a sentar-se.

Levou alguns segundos que mais pareceram a ela séculos até finalmente dizer algo.

Bem, a senhora sabe qual é seu problema, não?

Acho que sim, disse ela.

Não são muitos que vem aqui e tem casos iguais ao seu, a maioria reclama de outras coisas, falta de vida, falta de ar, falta de luz, falta de água e talvez até desejassem ter seus problemas.

Eu entendo, doutor, disse ela. Mas, o senhor já viu um caso tão grave assim? Digo, igual ao meu?

Bem, disse ele, a bem da verdade, não. Seu caso é realmente raro.

Pois então, disse ela, há alguma cura possível? Algum tratamento? Ou remédio?

Ele balançou na cadeira e olhou novamente para o monitor como se buscasse alguma resposta ou já a tivesse e não desejasse compartilhar com ela.

Veja, disse ele, em casos como o seu e vi poucos em toda a minha carreira, em casos de uma infestação assim tão grave, descontrolada e nociva, o ideal seria decretar a morte do planeta e começar novamente, talvez com mais sorte...

Ela baixou os olhos e suspirou.

Não haveria outra saída? Perguntou. Sabe, eu meio que me apeguei a eles, eles não fizeram por mal, entende?

Nunca fazem, disse ele, mas acabam fazendo, não é mesmo? A senhora não é o primeiro planeta que vem aqui com um caso assim tão grave como já disse ainda que seja um dos piores caso de infecção humana que tenha presenciado.

E o que podemos fazer? Perguntou desolada.

Em casos assim tão graves, disse ele, recomendo que a senhora elimine todos esses parasitas se pensa em ter alguma chance de sobreviver. Pode parecer algo drástico mas, se posso lhe dar um exemplo, um familiar seu, Marte, sofreu da mesma doença e sobreviveu.

Mas ele agora é estéril! Disse ela.

Depende do que a senhora considera estéril, há vida lá apenas não igual a que infesta a senhora.

Entendo, disse ela resignada. Não haveria outra saída?

Infelizmente, para o grau de infestação humana que a senhora apresenta, não, eu lamento, concluiu.

Eu entendo, disse ela, e quando poderíamos começar o tratamento?

Bem, disse o doutor, considerando sua idade, relativamente jovem e o estado avançado da infecção, diria que precisamos iniciar o quanto antes, diria que dentro de alguns meses não mais que um ano.

E o tratamento é agressivo? Perguntou ela.

Um pouco, disse ele, mas a senhora não deve se preocupar pois os efeitos colaterais são passageiros, já para a infestação humana, não posso dizer o mesmo se é que me entende.

E eu ficarei bem, digo, ao final de tudo? Disse ela.

Absolutamente! Disse ele. Nova em folha! Como se tivesse acabado de sair de um berçário estelar, poderia até trocar de nome se quiser, sempre achei Terra um tanto estranho.

Bem, disse ela conformada, se não há outra opção, sigamos então com o tratamento. Eu tentei sabe, doutor, de verdade! Tentei lidar com isso da melhor forma mas acho que cheguei ao meu limite, não estou mais suportando, o cansaço me devora e. Parou de falar, sentia que as lágrimas viriam feito oceanos.

Não se preocupe, disse o doutor sendo afável, eu compreendo e a senhora não deve sentir-se culpada por nada. Sabemos que a senhora não fez nada disso e nem causou e estamos aqui para ajudá-la agora, se a senhora puder conversar com minha assistente na recepção, ela irá informar todo o procedimento e agendar o início do tratamento, tudo bem?

Claro! Eu agradeço sua atenção, doutro, de verdade.

Não por isso, disse ele.

Ela então levantou-se e saiu do consultório, foi falar com a atendente para agendar os detalhes do tratamento e bem lá no fundo, ainda que sentisse uma certa tristeza, um pequeno fio de esperança começou a aparecer.

13 de abr. de 2020

Velha roupa colorida


Que a morte vai chegar não resta dúvida, independente de cor, classe social, posses, orientação sexual, identidade de gênero, idade, nacionalidade ou o que for.

A hora de passar a régua e encerrar a conta vem de qualquer maneira.

Mas de tempos em tempos, somos confrontados com situações que nos fazem encarar a hora final com mais frequência e urgência queiramos ou não, como esses tempos de pandemia quando vidas humanas são ceifadas em baciadas sem dó ou piedade.

A bem da verdade, antes de tudo isso que estamos vivendo, pessoas morriam de moléstias diversas, algumas completamente curáveis mas cujos doentes não tinham acesso devido a barreiras sociais, políticas ou econômicas, outras sem cura independente do quão rico fosse o doente e, infelizmente, morriam por fome, inanição ou causas não naturais que, em tese, a humanidade deveria ter deixado para trás há séculos.

O que deixa a todos espantados e assustados é velocidade com que estamos morrendo agora e a incerteza de nossa invulnerabilidade ante o avanço inexorável da doença. A morte antes acenava como algum tipo de visita distante que ia acenando cada vez mais perto até não ser mais possível ignorar sua presença. A morte era um problema do outro, lamentávamos que ela havia chegado, cumpríamos os ritos de despedida e enterrávamos junto com o falecido nosso medo de que poderíamos ser os próximos.

Com a pandemia, esse medo passou a dividir a mesa conosco e, em quarentenam temos de dormir e acordar com ele ao nosso lado, fazer as refeições, tomar banho e fazer de conta que ele não está lá. A urgência da morte veio e fez casa e não parece que vai embora tão cedo e com ela, veio o pânico de que o outro pode ser o agente mortífero e não o outro que sempre enxergávamos como imbuído de más intenções e desejoso de nos ferir para compensar qualquer desejo patológico ou desfavorecimento social. O outro na pandemia adquiriu um ar mais soturno de amigo que repentinamente ficou perigoso e precisamos manter afastado.

Talvez passada a pandemia nunca mais sejamos os mesmos uns com os outros, ingressaremos na era do pós-social, não sei mas sei que se há algo que aprendemos ou deveríamos estar aprendendo com isso é como tratamos nossos idosos.

Já por costume e tradição, nós ocidentais tendemos a enxergar os velhos como um fardo, algo que deve ser descartado e colocado de lado. Nossa sociedade preza a juventude e o novo como bálsamos insubstituíveis, o que é velho deve ser posto num museu e esquecido, inscrito nos livros de história para ninguém mais ver e ouvir falar.

Com o advento da pandemia e durante o vigente governo de agenda neoliberal ficou claro que as vidas idosas são um preço aceitável a ser pago para manter a roda girando e a sociedade funcionando afinal, eles já cumpriram seu papel, deram sua contribuição e precisam agora dar espaço aos jovens que tem de construir a pátria arrasada Brazil. O governo certamente agradece esse sacrifício já que promoverá um fôlego nas contas públicas sem que seja preciso posar de vilão ante a sociedade.

As vidas idosas passaram a ser moeda de troca no jogo político e social, se antes eram um incômodo encarado por muitas famílias como obrigação da qual se incumbiam sob o medo do julgamento social, com a pandemia passaram a ser artigo de exposição e justificativa para expressões de descaso das autoridades e até mesmo entre familiares que antes estariam pouco se lixando para elas.

Na verdade, esse valor súbito das vidas idosas vem do medo que a pandemia - como está se mostrando - não se retenha nelas e passe a devorar outras vidas com a mesma voracidade. Se um velho morre por que sua vida se extingue naturalmente ante o desgaste e fragilidade impostos pelo tempo não há problema afinal, é o curso natural das coisas mas, quando uma doença agressiva começa a ceifar essas vidas e mostra que pode clamar por outras mais jovens, entregamos as vidas velhas como oferenda para ver se a doença se sacia e nos deixa em paz.

Já ouvi e creio que tenham ouvido também comentários de que deveríamos deixar os velhos morrerem e focar no salvamento dos mais novos porque os velhos já estão no fim mesmo, qual a utilidade de gastar recursos com eles? Isso diz muito sobre nós como sociedade e espero que saíamos disso com outra concepção de valor da vida humana e de como tratamos nossos idosos.

Não vai adiantar muito passarmos por isso tudo e nossos idosos seguirem abandonados em asilos e largados a própria sorte porque não tem mais qualquer utilidade para nós nem para a sociedade. Sairemos de uma pandemia apenas para entrar em outra que sempre vivemos.

9 de abr. de 2020

O medo de nós mesmos

Enquanto Bolsonaro articula seu auto-golpe espalhando seus factóides e emparedando a democracia um tijolo por vez, nós seguimos isolados compulsoriamente até que a normalidade decida dar as caras novamente.

Talvez o COVID tenha apenas derrubado uma ilusão de liberdade e autonomia que pensávamos ter envoltos em nossas batalhas diárias por uma vida que nunca foi nossa e que agora descobrimos não ser a que queríamos.

Já vivíamos em isolamento feliz sem reclamar disso, fechados em nossas casas, trancafiados atrás de portas, fechaduras, travas e cadeados vendo o mundo passar pelas telas do computado, celular e TV e aceitávamos isso como parte da modernidade facilitadora da vida, benesses tecnológicas facilitadoras.

Quantos de nós efetivamente sabiam como foi o dia uns dos outros, tinha uma genuína preocupação com isso para além de curtir ou repostar uma foto ou comentário? Aquele bom dia que não saía da boca, aquele aperto de mãos que não vinha nunca, aquele olhar que jamais chegava. A imersão digital que nos alimentava a vida supria com folga a necessidade de toque e contato humano relegando este a ocasiões específicas e pontuais.

Ainda nos víamos, conversávamos, sorríamos e olhávamos uns para os outros mas sempre sob um olhar on-line considerando aquela pessoa a nossa frente algum tipo de emulação de seu eu digital, nos perguntando intimamente se aquela simulação era parte do feed das redes e concluindo, de forma nada empírica, que por dentro o que havia era um pão há muito bolorento.

A pandemia colocou abaixo esse simulacro de civilidade forçando nossa vista para o interior jogado para baixo do tapete da vida, acabamos confrontados com nós mesmos e com o outro e descobrimos que nem ele, nem nós éramos quem imaginávamos ser. Trancados dentro de nossas casas, acabamos tomando uma consciência de que nosso corpo é finito em si, suas necessidades são outras totalmente diferentes das que o cotidiano externo clamava e nossas vidas independem de algum tipo de fé irrestrita numa ideia vaga de que as coisas são como são e de que tudo se resolve por si.

Confrontados com a clausura forçada, descobrimos que há vida dentro da vida que tínhamos, uma vida que não sabíamos, que desaprendemos, que esquecemos e tivemos de reaprender a usar. Seremos os QUARENTENIALS, os filhos da pandemia e sairemos dela com outros modos e hábitos. Talvez sejamos testemunhas do pós-internet pois se por um lado a rede ajudou muitos de nós a não enlouquecer, acabou mostrando nossa dependência um do outro e como a hierarquia social que julgávamos justa era apenas uma falácia.

No melhor cenário, sairemos disso com algum tipo de noção renovada da importância do convívio humano ainda que, num primeiro momento, temerosos de ter essa contato. No pior cenário, passaremos a ser criaturas isoladas e que valorizarão a individualidade real e virtual ainda mais concluindo que o suficiente para sermos felizes é termos apenas a nós mesmos o que, grosseiramente, não está assim tão longe da verdade.

O que não morrerá e certamente aumentará é o medo que temos uns dos outros, esse medo não apenas pela violência social que nos aparta e afeta mas o medo congênito de que o outro sempre é uma ameaça de algum tipo a nossa integridade, sanidade e autenticidade enquanto indivíduos. Se antes vivíamos esse medo de forma comedida e um tanto educada, polindo as arestas sociais que nos afetavam e tolhendo o contato com pessoas que se apresentassem como potencialmente nocivas, no mundo pós-pandemia teremos de somar a esse medo o medo de que esse outro competindo pelas mesmas coisas que nós também pode ser arauto de doença e morte e por isso mesmo deve ser isolado e afastado tanto quanto for possível.

A herança da pandemia será essa, o medo desnudo e irrestrito, justificado do outro que passa a representar uma ameaça real e não mais imaginária e desse medo nascerá o homo pandemicus que saberá lidar com essa convivência virótica melhor que seus antecessores.

A ver.

2 de abr. de 2020

O mundo de amanhã

Poucas vezes vi uma pessoa tão sensata quando o cientista Atila Iamarino entrevistado do último Roda Viva.

De maneira didática, simples e direta, explicou o tamanho do problema que enfrentamos, como há tempos já se previa que poderia acontecer sem que nenhum governo tomasse qualquer providência e, sem expressar qualquer ideologia que pudesse ser usada para desacreditar seu discurso (obviamente que os Bolsonaristas irão achar qualquer resquício de socialismo e esquerdoapatia em sua fala) teceu cenários claros de como passaremos e sairemos dessa pandemia.

Acima de tudo, considerando o Estado Teocrático que já vivemos e o desmonte - que já vinha de  anos e anos - pregado pelo atual governo da ciência em detrimento de estudos, formações e profissões que representem um 'ganho' efetivo e imediato para o país a saber, médicos, advogados e engenheiros, aquelas profissões que toda a família branca, hetero, cis gosta de ter em seus quadros, enfim, tudo isso posto, é na ciência que temos a única esperança de solucionar esse problema.

Não em igrejas, templos ou afins. Em laboratórios. Esses mesmos que estão sucateados e largados a própria sorte e que agora, precisam tirar do ar uma vacina para curar a todos.

Mas, o que mais me preocupa na fala de Atila e vem me preocupando com frequência é como sairemos dessa crise. Não digo a saída em si pois sei que ela está lá e que iremos encontrá-la, me refiro a como sairemos dela enquanto pessoas porque o mundo que deixamos para trás quando entramos em quarentena não existe mais.

Ainda é cedo para entender como será isso, como faremos e como lidaremos com esse novo mundo que se abrirá e tenho certeza de que durante as próximas décadas, muitos estudiosos estarão debruçados sobre essa crise tentando entender os impactos dela em nosso modo de vida.

Fico matutando em como será quando a quarentena for suspensa ou encontrarmos uma vacina ou tratamento para essa doença. Voltaremos ao mundo como se nada tivesse acontecido? Retomaremos nossa rotina como sempre foi? Teremos os mesmos hábitos e costumes? Seremos essencialmente os mesmo?

Pessoalmente, acho que não.

Somos criaturas sociais ou anti-sociais conforme o caso, não fomos feitos para o isolamento, qualquer animal confinado adoece do corpo e da alma além de ser extremamente perigoso. Esse período que estamos passando pode ser benéfico ou nocivo conforme você decida encarar, talvez precisássemos dele para rever alguns conceitos, reavaliar nossas vidas e perceber que a imersão numa equação trabalho-casa-trabalho-sem tempo irmão não tinha uma solução que não considerasse a nós como o X da questão.

Passamos a entender que o tempo pode sim correr em outros ritmos e que cada um de nós possui tempos diferentes. Começamos talvez a valorizar mais o trabalho de cada um de nós entendendo que sem ele, o nosso pouco faz sentido. Algum tipo de empatia e simpatia parece ter nascido quando, trancados em casa, começamos a notar o quanto nossas vidas são cheia de coisas vazias e como pouco conhecíamos uns aos outros tendo vivido juntos por tantos anos.

Talvez tenhamos começado a entender que não precisamos estar em todos os lugares ao mesmo tempo, comprando tudo que não precisamos ao mesmo tempo e usando a internet para algo útil. Demos férias ao planeta que está finalmente descansando de nós, quem sabe não voltamos para ele com outros olhos, mais humanos, mais coletivos, mais sensatos.

Tomara que passemos a dar mais valor aos poucos e mágicos momentos que temos uns com os outros pois a epidemia mostrou a todos nós que a vida é um sopro, um vento que passa, um ar. Quem sabe não aprendamos a eleger melhores representantes, pessoas mais dedicadas ao bem comum e não a ideologias ou partidarismos.

E talvez saiamos disso com um senso melhor de pressa e urgência.

A vida pós-pandemia ainda é uma incógnita, estamos todos apenas especulando, jogando ideias ao vento para ver qual vai vingar. Pode ser que nada disso que escrevi aqui aconteça e que saiamos disso tudo ainda piores do que entramos, teremos cicatrizes obviamente, histórias a contar por alguns anos mas a grande questão imediata é, o que faremos com tudo isso que estamos passando?

20 de mar. de 2020

O Brasil que deu certo

A menina não acreditava ou acreditava mas não queria ou fazia que sim mas na verdade nem sabia se deveria mesmo acreditar em tudo aquilo e munida dessas incertezas resolveu que para matá-las precisava era sair dali e ver com seus próprios olhos para não ter de usar os dos outros que poderiam ser mentiras feitas apenas para enganar.

Num momento de distração, burlou a vigia severa dos pais e ganhou a rua que já ia escura mesmo que ali dentro a diferença entre dia e noite fosse imaginária e determinada pela intensidade das luzes artificiais.

Poucos ainda zanzavam pelas ruas, voltando para suas casas depois de mais um dia de trabalho ou do pouco trabalho que ainda existia entre eles. Verificou a pequena mochila que carregava onde uma pequena ração de alimentos deveria ser capaz de lhe sustentar até atingir seu destino, comida era luxo por ali e desde que se dera por gente sabia que racionar era viver.

Atenta, seguiu seu caminho sem dar olhar a quem cruzasse seu caminho, despertar interesse ou perguntas era perigoso e poderia aguar seu plano de fuga. Lembrou repentinamente de um livro que lera, há tempos, um dos poucos que ainda circulavam por ali, ela uma das poucas que ainda conseguia fazer sentido das palavras escritas, os mais novos desconheciam a utilidade dos livros, julgavam um prazer mórbido lidar com papel.

Pensou como a história do livro era parecida com a sua, com a deles, com a de todos ali mas moveu o pensamento pois tinha mesmo de focar em encontrar o caminho para fora dali, aquela história de pessoas presas num parque no meio do país e forçadas a crer que o tempo ali havia parado era apenas isso, uma história, nada mais.

Para achar seu caminho foi folheando a memória, andar com pedaços de papel era um risco desnecessário então, havia memorizado a rota que descobrira num pedaço roto de papel que descobrira por acaso entre as coisas dos pais.

Foi seguindo seu caminho até dar de cara com uma porta de aço. Parou. Pensou. Voltou a folhear a mentelivromapa. Arregalou os olhos como quem lembra de um detalhe importante subitamente. Apertou o botão que se escondia sob camadas eternas de pó e ferrugem.

Um gemido de estômago vazio de séculos se fez. Ela assustou e pensou correr. Olhou para os lados e para trás mas ninguém parecia ter dado fé do barulho. O gemido foi se tornando um ranger fino como se alguém descascasse metal com uma lixa, depois como se alguém tentasse escorregar por cabos com as unhas e finalmente cessou.

Uma porta se abriu a sua frente, Escuro dentro e ela mesmo com medo olhou para trás e entrou. Quando entrou uma luz meio morta de tão velha meio que acendeu e ela, assustada, olhou ao redor. À sua direita uma placa de aço carcomido lhe dizia zero um do s tres q tro cinco s is ete oit nov dez. Vasculhou novamente a mentemapa e apertou o último botão.

A coisa gemeu de novo como se tentasse acostumar com ela dentro de suas entranhas ou fosse devorá-la e ela se encolheu num canto. A porta se fechou com um ruído ríspido e a coisa começou a subir devagar como se não desejasse sair de onde estava.

Sob a luz morta dentro subindo, ela ficou pensando em como seria ao sair, o que seria ao sair, quem seria ao sair. Seria tudo como havia pensado, como havia falado com aquelas pessoas, como sonhava quando os pais a punham para dormir e ela dormia acordada sonhando com aquele outro lugar?

A luz deu um lampejo mais forte e do outro lado da coisa ela pode ver um cartaz meio rasgado velho e descolorido onde se podia ler algo como BR S L ACIM DE UDO,  EUS AC MA E TO OS. Franziu o cenho, lembrava vagamente daquilo, como se fosse algo enterrado que nos deparamos sem querer ao remexer em coisas velhas demais ou mortas. Riu.

A coisa parou. Chiado forte. Gemido de satisfação como se tivesse lembrado qual sua função e estivesse feliz por executá-la. A porta soltou um silvo longo e abriu como se estivesse sussurrando. Uma luz clara, leve e quente atingiu seu rosto junto com uma lufada de um ar que ela nunca havia respirado, Puro. Sem contaminar, Incólume. Inocente. Intocado. Selvagem.

Ela saiu. A porta se fechou atrás dela com um silêncio solene.

A coisa começou a descer de volta ao seu leito profundo e ela começou a andar pelo país que nunca vira alguém nenhum.

16 de mar. de 2020

A epidemia que nunca passou

Pandemia. Contágio. Vírus. Doença. Quarentena.

O tecido social delicado e indelével mostra toda sua fragilidade quando confrontado por uma praga que se alastra de forma global e irrestrita, coloca a prova o senso de sociedade, solidariedade e empatia, expõe o pior de nós enquanto espécie.

Enquanto bolsas caem das alturas, ricos se preocupam em não ficar menos ricos ou lucram com a desgraça mundial (e você pode ter certeza de que eles irão lucrar, e muito), governos se desdobram para evitar que a doença se espalhe pensando não na população mas no custo que a busca desenfreada por tratamento nos serviços de saúde precários traria aos cofres públicos, aos investimentos estrangeiros, ao dinheiro que deixaria de circular.

O custo dessa epidemia, digo o custo real, econômico, ainda será entendido e medido mas já sabemos que será alto, desenha-se um cenário de recessão global, falências, desemprego e encolhimento de economias, uma conta que vai acabar no colo das classes mais pobres certamente já que rico não vai pagar esse boleto.

O custo humano e social já estamos pagando quando nos recusamos a abrir mão de nosso conforto diário, da balada, do bar com a galera, do show, do cineminha pensando que a doença vai passar longe de nós. Pode até passar e espero que passe mas, e o outro? E quem não pode se dar ao luxo de desdenhar a doença? E quem não tem a opção de ficar em quarentena confortável em seu apartamento de vários metros quadrados, abastecido, com acesso a internet e streaming e gerente cuidando de seus investimentos?

O ser humano é uma criatura abjeta, basta ver uma situação como esta pandemia para comprovar que seu único pensamento é em si, individual, solo, único. Tudo bem o outro morrer desde que eu não morra ou não tenha de abrir mão do meu conforto e privilégios.

Então, quando um casal de idosos que viajam para Búzios, tem médico próprio, plano de saúde e moram num bairro de classe média alta segue com sua diaristas trabalhando em casa mesmo estando ambos infectados, há quem diga que ela precisa seguir trabalhando pois foi a profissão que escolheu para si, que diaristas não são mais escravas e que o referido casal demonstrou empatia ao fornecer luvas, máscaras e outros meios de proteção.

Não. Apenas não.

O preço dessa doença ainda não foi sentido pois as classes mais baixas ainda não começaram a se infectar, quando começarem teremos então uma boa noção do que essa pandemia vai custar a todos nós. Pobre não pode se dar ao luxo de ficar de quarentena, não pode ficar em casa porque precisa trabalhar, tem conta para pagar e não tem opção. Não viaja para Búzios ou tem médico pessoal.

Enquanto a elite segue confinada em suas torres, o pobre segue pegando coletivo e trens lotados, não tem isolamento, não tem escolha. Pobre não faz home office amores, pobre não tem como estocar comida nem licença remunerada, pobre tem de lutar todo dia contra o vírus da desigualdade ou morre.

Achar que empatia é fornecer luva e máscara e dizer para a pessoa vir só uma vez por semana é cagar para a vida alheia, fazer troça com a saúde do outro. Empatia não é estocar comida e comprar todo o álcool em gel, isso é mesquinharia em seu aspecto mais grotesco. Estamos em momento de pensar COLETIVAMENTE e deixar o INDIVIDUAL um pouco de lado.

Empatia é deixar quem lhe presta serviços em licença remunerada até que a situação se acalme. É comprar apenas o que falta entendendo que o o seu estoque é a fome do outro. É abrir mão daquele lazer porque ele pode representar a morte do outro. É pensar que a doença não conhece classe, posse ou status, ela vai infectar todos sem exceção e sem dó mas podemos, como pessoas, minimizar seu impacto pensando uns nos outros e não em nossas necessidades pessoais.

Epidemias como essa são e serão cada vez mais comuns num mundo globalizado, conectado e mutante, cabe a ciência tentar prever e prevenir, aos governos controlar, dar apoio, cuidar e gerenciar e a nós, atuar como seres pensantes e aptos para a vida em sociedade.

Já a epidemia de egoísmo, desigualdade e pobreza segue fazendo vítimas como sempre e seguirá assim mesmo depois que essa de agora for superada. Contra essa epidemia social não há vacina, não há remédio, não há contenção e ela fica mais evidente quando temos doenças graves como o coronavírus entre nós.

O coronavírus é patológico, o outro é sociológico.

3 de mar. de 2020

Contágio

O tecido social que nos cerca é algo tão frágil que não nos damos conta, vivemos escorados num conjunto de regras, normas, convenções e regras que estão apenas sugeridas em nosso inconsciente coletivo e que jogaremos ao chão ao menor indício de que teremos de lutar pela sobrevivência.

Acha que não?

Veja essa epidemia nova que se espalhou pelo mundo, por mais que as autoridades de saúde e governos locais e mundiais atestem que não há razão para pânico, as pessoas já começas a estocar alimentos, água, remédios e produtos como álcool em gel e máscaras simplesmente desapareceram das farmácias. Talvez justamente porque essas autoridades e governos pedem calma seja porque todos estamos apavorados afinal, desde quando governos e autoridades realmente informam a sociedade com fatos reais e verídicos? Partimos do pressuposto de que estão mentindo e de que a situação é bem pior do que reportam e que os pedidos de calma são para proteger os mais ricos e as elites.

Claro que uma epidemia como essa precisa de toda nossa atenção, precaução e atenção e prefiro crer que as autoridades e governos estão mesmo empenhados em conter o vírus, minimizar seu impacto e encontrar uma cura ou vacina o mais rapidamente quanto possível mas, o efeito cascata já se faz sentir ainda mais nos tempos de hoje quando as pessoas podem viajar mais e de forma mais rápida facilitando a disseminação da doença.

Eventos como esse sempre me deixam assustado pois é uma crença pessoal minha de que nosso fim não virá do céu ou alguma guerra sem fim mas de alguma doença terrível que vai dizimar com facilidade grande parte de nós e jogar nossa sociedade no lixo da história e no esgoto da civilização pois não há civilidade ou solidariedade que resista ao instinto de sobrevivência.

O maior estrago que uma epidemia dessas pode fazer é, além do custo em vidas obviamente, dizimar as estruturas sociais frágeis que nos unem basta ver como mercados e bolsas regiram ao vírus se espalhando pelo planeta e como as pessoas começaram a entrar em pânico por uma doença que nem é assim tão fatal.

São esses acontecimentos que metem medo em mim, que me fazem descrer de nosso raça e entender que somos animais acima de tudo, no frigir dos ovos é cada um por si e o mundo contra todos, não acho que esse vírus será nosso fim mas a cada nova epidemia que eclode passo a ter mais e mais certeza de que esse será nosso fim e de que aqueles que sobreviverem, estarão imersos num desses mundos pós-apocalípticos que o cinema vira e mexe nos apresenta.

Quem viver, verá.

lembranças aleatórias não relacionadas com a infância

Lembrança #10 Lembro de uma festa ou rave ou balada que eu ajudei um amigo a organizar num tipo de sítio eu acho. Estava separado do meu nam...