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18 de jan. de 2021

silver



a bala de prata sai rasgando o cano da armapau feito orgasmo natimorto de um gozo abduzido de um corpo que não sabe como ser se não for no risco, no perigo, no fio da navalhacarne que corte rios de almas feito manteiga.

ela mata o lobo, o homem, o lobo do homem, o lobo no homem, o lobhomem que não é lobisomem porque esse são dois distintos, o lobhomem é um bicho que só faz se alimentar de seus pares porque não consegue encontrar satisfação que outra carne que não seja a dos seus iguais, sente prazer, lambe as patas e dedos e quer mais e gosta de ver a vítima sofrer enquanto lhe devora os ossos.

a bala de prata é magia feita minério mas só funciona ali, no abra ka dabra, na prestidigitação de centoquarenta caracteres, de live de fim de semana, de like, de curtida, de fé no fake, eu acima de tudo e deu acima de todos. ela voa rápido para matar não o bicho que roa nossos pés mas o coração que já vai fraco e bate vez ou outra de tão irregular ante o tempo que não tem mais cadência.

vamos comprando balas de prata, para matar não os monstros mas nossos pensamentos, nossas ideias, nossos amores, nossos sexos, nossos amigos, nossa humana(idade), a gente atira no que não viu e acerta o que vê todos os dias e o monstro segue rindo porque as balas de prata são doce em sua boca cheia de carne e sangue, se há bala para matar o monstro, há de encontrar o revólver que a atire, propulsão a jato de palavras que todos falam mas não sabem dizer e, se você não sabe dizer o que fala, como quer falar o que diz?

balas de prata são jujubas que ferem, estilhaçam os dentes e partem osso, articulação e pele, alojadas dentro de nós vão se dissolvendo e enchendo a gente de prata, expulsando o sangue até que fica apenas prata e gente que tem prata no lugar do sangue não morre mais com bala de prata, gente que tem prata dentro não tem nem valor, só é fria e dura e cheia de prata e aí não tem mais remédio ou bala que dê jeito...


15 de dez. de 2020

do que se pode ou não tocar e sentir (as mesmas coisas?)

 



Existem coisas palpáveis, tangíveis, possíveis, comungando realidade ainda que esta seja algo por demais subjetiva posto que cada um a experimenta com base em seus próprios valores, bagagem, vivencia, sentido e sentimento (não confundir); o real daqui pode ser imaginário aí e vale o oposto, oxalá fossemos todos menos real e mais onírico, feitos de pó de estrela, luz morta-viva de uma galáxia distante, renascida em cada gene mudo que não grita por não deixarmos que o faça e assim, abrir as portas de um mundo mais de gente e menos pseudo-pessoas.

E existe isso, essa coisa cegamudasurda que descarece desses sentidos cinco para fazer-se aqui, algo maior e que depende tanto de atos menores, simples, ínfimos, micro, nano. Mas ímãs que somos, ao invés de grudar o que presta, atuamos nos polos opostos afastando o que se deve e aproximando o que não presta, sina certa da raça, buscar o que sempre esteve na mão achando-o anos-luz distante apenas para na hora sem volta arreganhar bocas e olhos para a verdade quando ela ri de nossa cara ante o tempo perdido.

Mudar? Fácil demais, sim, é, basta pouco, um gesto, um ato(mo), um segundo, milésimo, um oi, olá, te amo, saudades e quero te ver e, um pouco mais de esforço, nada demais, só um pouco mais de boa vontade, de querer mesmo, e essas palavras tomam carne, membros e troncos, abraços, beijos, mãos e olhos. Então, sugiro que no ano próximo que de novo só tem o nome, façamos por merecer essas palavras em vida, em hóstia sacramentada, louvada, transubstanciada, metafisicadeada, empurrando goela abaixo de alguns dos 365 dias modorrentos que seguirão a certeza de que amamos quem nos ama e que desejamos mais proximidade dos que estimamos.

Deixemos as palavras para os léxicos, para os políticos, para as novelas e para nós escritores que sabemos seu real valor, que elas sejam veiculo de trazer para cá, para dentro, para os (a)braços seus, meus, nossos e vossos que são amigos amados e que as lembranças trazem cada vez que conclamadas um gosto doce na boca, um ar novo ao sangue, um olhar de dias melhores, de tempos mais lindos, mais de tudo ainda que seja do mesmo se esse mesmo for com as pessoas certas; não é tédio, nem aborrecido quando à volta estamos com quem conta.

Saiamos mais de nossos trinômios ou equações sem solução para buscar um no outro o ‘x’ da questão, em nós mesmos pouco resolve se a adição depende de mais um e nunca menos um ainda que preciso é ser inteiro mas esse inteiro só faz ser quando agregado aos demais. Por isso mesmo quero mais de todos vocês no ano que vem, vem vindo, chegando, sorrateiro, matreiro, esperto, de faca na mão para dar o golpe de misericórdia no agonizante, cansado, de guerra e nós de batalha.

Prometer? Nunca, não vou pois promessa é divida e dessas já estou cheio das que nunca paguei mas, fica o esforço cimentado de que arrancarei a pele dos ossos para ser mais a vocês e que vocês sejam mais a mim, sem cobrar nada que amizade não é agiota nem cheque especial ou cartão. Tudo se vai de uma forma muito fácil e rápida, meus caros, olho para o lado e vejo gente que não é mais ou que foi um dia e hoje é menos que uma sombra platonesca na vida enquanto eu, do lado de cá da caverna, não sei como trazer de volta para a vida iluminada aqui fora e, nesses momentos, em fato, não há que se fazer muito além de estender a mão, ombro e dar a quem precisa paciência, amor, um afago e aquele sorriso legendado ‘eu sei, eu sei’.

Fantoches de nós mesmos, cortemos as cordas e apontando o dedo ao pupeteiro feito aquele passarinho gritemos ‘Nunca mais!’. Antes que a terra e o universo nos repossua, sejamos felizes, é simples, fácil, nada custa e nem dá assim tanto trabalho, nós é que gostamos de complicar.

14 de dez. de 2020

d(ê) passagem

 


A viagem é feita de tempo onde os caminhos se cruzam de forma que nos parece aleatória mas, em verdade, tecem tramas delicadas entre nossas vidas engendrando momentos que perduram em sorrisos leves e olhares vagos, daqueles perdidos ao longe na ânsia de trazer de volta aquele tesouro que foi e que vive apenas mornamente acolhido em nossas lembranças.


Talvez o alicerce seja feito dos sonhos que morreram, não dos que nem mesmo deram o primeiro ar no mundo, mas daqueles que o fizeram e feito chama mágica arderam numa supernova, os melhores pois a beleza decaí e restam apenas os cacos para rememorar seus feitos gloriosos. Passamos o resto e o fim da vida tentando colar de volta esses pequenos pedaços de luz, vã tentativa de recompor o caleidoscópio original, ficamos mirando luzes distorcidas tentando identificar nelas aquele amor há tanto ido, aqueles dias perfeitos, aqueles momentos saídos do forno.


Não, esses que ardem vezes mais forte e se consomem em menos da metade do tempo são os que efetivamente deixam as marcas, as rugas, as cicatrizes que mesmo depois de curadas ainda formigam emulando o ferimento original. Se temos algo que deve fenecer são esses sonhos, melhor que vê-los viver para tornarem-se paródias de si e de nós, velemos então esses mortos e os bebamos, que a angústia não seja de perdê-los, mas de tê-los sentido tanto e, sob a pele, ter-nos imiscuído deles.


Eu temo o meu caminho, principalmente quando me desvio dele não por medo de me perder, mas pela sensação apavorante de conhecer outros, onde poderiam me levar e retornar ao meu velho conhecido eu sentindo que seus buracos são mais fundos do que pensei e pior, foram cavados por mim. A insatisfação gerada gesta em meu ventre alimentada pelos lenitivos artificiais, até quando, eu não sei.


Quando voltei ao meu caminho hoje, havia um mal-estar, uma sensação ruim e percebi que havia enterrado parte de meus sonhos, entristeci e ainda me encontro, julgo, velando, mas de rabo de olho eu vejo que o rei morto já possui a seu lado rei posto, aguardando respeitosamente que se desça ao solo o falecido para sentar em mim feito trono e demandar que faça o que devo fazer, seja o que tenho de ser e siga onde devo ir.


E então, aquele sorriso delicado que falei no começo aparece, converte o choro de triste em saudoso e move meus olhos para o horizonte, aquele lugar que insiste em me enviar sonhos e mais sonhos reis, queira eu ou não.


Nesse quesito meu querer vale quase nada, me resta ser súdito, fazer reverência e dizer 'Amém!'.

9 de dez. de 2020

ângulos

 


Eu tenho incongruências e dentro delas idiossincrasias, bipolaridades e desfalques pessoais que me fazem correr atrás do roubo para identificar a mim como autor do delito, responsável pela captura ainda que me evada de mim com sucesso digno de filme e, por fim, juiz e executor da sentença. 

Depois fico ali olhando para as barras da cela de mim vendo aquele outro que sou do lado de fora repetir todo o processo até que a cela fique tão lotada de mim que, ao adentrar o último mea culpa, ela simplesmente explode e todos eu ficam livres para perambular novamente pelas alamedas e vielas de mim mesmo (até que o processo todo se repita, preso num loop temporal digno das teorias mais absurdas).

Há um estranhamento constante, um não encaixar, não falta de empatia mas de simpatia e são conceitos muito diferentes, creia-me. Falta-me a segunda diversas vezes e não por alguma patologia mas apenas por não ter realmente dilatação escrotal suficiente para deglutir certos comportamentos, temas, assuntos, atitudes e convenções que a grande maioria assume como normais ou comuns ao bom convívio. Talvez o entendimento de tal quesito seja diametralmente oposto para mim e os demais o que, se não é adequado (aos outros), não me parece ruim (a meus olhos).

Assim, declinei educadamente muitos convites para confraternizar com pessoas recebendo de quem me fez o convite presencialmente, um átimo de olhar e ar surpreso, as entrelinhas perguntavam por que mas o que saiu foi um ‘ahhhh’ disfarçado de decepção e talvez exigência de justificativas já que minha recusa foi lacônica, sem recorrer a grandes elaborações ou figuras de linguagem. Pensando após, ainda cheguei a ponderar se deveria, pelo bem do status quo, ter aceito mas ir de boa vontade a algo como festa temática (Baile no Havaí, trajes floridos compulsórios – quem me conhece já realizou a ojeriza que tal cenário me causou) com pessoas que de mim sabem nada e cujo convívio diário é tão profundo quanto uma poça d’água, me parece algo simulado senão dissimulado de ambas as partes.

Como tenho essas versões de mim, passamos a discutir o assunto ponderando sobre os prós e contras, sim e não e no final nos dividimos em dois grupos distintos: um de consciência social e outro absolutamente avesso a ela. O primeiro grupo diz que deveríamos ir, integrar, enturmar, simpatizar, animar, desfazer a impressão de que somos reclusos e pouco sociáveis enquanto o segundo prega o oposto disso, que não há qualquer ângulo comum possível com essas pessoas, que será um exercício de paciência desnecessário já que são pessoas que representam nada para mim o que, confesso em minha bipolaridade, me assustar afinal são pessoas, como não representam nada?

Façamos então um adendo breve aqui: o fato de serem pessoas representa algo, obviamente! Porém, considerando o conjunto de valores, ideias e conceitos que levo dentro de mim essa representatividade desfaz-se no ar pois não há aderência entre nós, não há eixo comum ou área destacada.Veja, não digo que lhes desgosto, sou avesso ou dedico desafeto, apenas que não há representatividade e assim, não há congruência. Alguns podem retrucar que tal coisa carece de convivência e tempo e que se não existe o movimento de um lado dificilmente se poderá encontrar do outro mas, para que tal movimento existe deve haver uma predisposição inicial que motive a quebra da inércia e, por definição, todos os corpos tendem a permanecer e conservar a suas.

Ser humano pode ser assim cheio de falhas e talvez nem mesmo seja adulto tal comportamento mas certamente é meu, autêntico e maduro o suficiente para a esta que é a parte que me cabe neste latifúndio.

8 de out. de 2020

a arte de dizer adeus

 


Desde que saímos do útero somos ensinados senão adestrados sobre e para um zilhão de coisas desde as mais simples até as mais complexas, das mais cordiais e corretas até as menos edificantes e vexatórias. Pode-se discutir sem fim se o resultado disso é genético herdado de gerações antes de nós ou se, aliado a esse mesmo fator, o ambiente e como somos adestrados afeta o final da equação.


Uso o termo adestrado pois criado me parece meio falso já que criar ao menos a mim implica realmente gerar algo onde antes nada havia ou se havia era uma cacofonia disforme incapaz de um rumo ou sentido. Assim, entendo que adestrados soa mais adequado já que, apesar de alguma parte de nós ser nossa mesmo independente do meio ou outras circunstâncias, recebemos o que nossos pais entendem ser o melhor treinamento possível para enfrentar depois as mazelas da vida e, nessa receita não há ingredientes certos ainda que existam cartilhas aos borbotões tentando ensinar como fazer isso do modo mais correto quanto possível a aí, entram os modismos e conceitos novos que mudam como as dietas das celebridades.

Em certos momentos divago sobre o que resultou do experimento que meus pais fizeram e constato que apesar das falhas, sejam elas de fábrica ou adquiridas no percurso por mim mesmo ou como resultado de um adestramento equivocado, o resultado acabou sendo bem satisfatório o que é mais do que se pode dizer de muitas pessoas por aí.

Enfim, voltando ao que motivou esse texto, somos adestrados sobre muitas coisas mas vejo uma falha incomensurável em todo esse treinamento, não somos em absoluto treinados para as despedidas sejam elas de qualquer tipo. Nunca nos prepararam para dizer adeus ou simples até logo, não fomos programados para esse ato de desapegar o que entendo ser uma falha irremediável e irreparável.

Não desejo intuir que a despedida deve ser encarada levianamente ou de forma fria e corriqueira mas, se fôssemos desde tenros anos treinados para lidar com ela, creio que teríamos muito menos problemas quando dela nos acercamos pois quando isso chega o sentimento em geral é de vácuo, perdidos no espaço entre os espaços tateando por sobre escombros afiados que vão aos poucos lascando pedaços de vida que levamos tanto tempo para erguer restando, no final do processo, uma porcelana trincada e de valor duvidoso.

Sempre adiamos o despedir ou o antecipamos quando descontentes com algo ou alguém loucos para livrar-nos daquele inconveniente e inocentes de que o inconveniente é a despedida em si e não sermos mais tolerantes entre nós. A despedida é essa pequena morte que nos afasta dia a dia e come pedaços inteiros de nossas vidas sem que nos demos conta até que chega a despedida derradeira e geralmente já não há lá muito tempo sobrando para recuperar as despedidas que deixamos para trás.

Não somos definitivamente criaturas do adeus, nem de pausas breves e não sei como nos enganamos tão bem a ponto de crer que o somos, imbecis puros isso sim! Somos seres do afeto, do acalanto, do expressar a quem merece esse merecimento e de entender e acatar quem dele não faz conta afinal, não somos nós o circuito defeituoso mas quem não o vê assim. Ao agir como todos extirpamos de nós essa essência pura que ameniza as despedidas desde as diárias até as mais doídas e indesejadas sendo nessas últimas quando nos sentimos real efetivamente mais humanos, mais gente, mais nós e menos coisas.

Gostaria que fosse verdade para mim mas não o é, quiçá para as próximas gerações mais evoluídas e menos medrosas de lidar com seus sentimentos. Para mim, a despedida é ainda um gosto ruim na boca, aquele murro que você não esperava nunca, a palavra que nunca mais será dita, o erro que jamais será reparado e o amor que nunca mais será compartilhado ou demonstrado.

Resta então apenas deixar essas palavras aqui na esperança de que você que partiu, está prestes a partir ou pensa em fazê-lo veja de onde quer que venha a estar que as minhas falhas como pessoa jamais representaram seus defeitos como adestrador e se algum dia mordi a mão que me alimentou, não foi intencionalmente mas é do adestrado quase um dever programado nos genes retribuir assim a quem sempre lhe proveu o que, em absoluto, diminui ou ofusca o amor que lhe dediquei.

Se é preciso nos despedir, o farei da melhor forma possível se é hora para isso e com o passar do tempo quem sabe n'algum lugar menos víscera como este em que vivemos não possamos então dizer 'olá' ao invés de adeus...



17 de jul. de 2020

a vida, esse sopro

hoje não tem conto.

só vou falar da fragilidade de sermos. da vida. desse evento fortuito que a gente não sabe como começa mas sabe muito bem como acaba. 

hoje, dezessete de julho, lá se vão treze anos do acidente da LATAM (então apenas TAM) quando uma de suas aeronaves 'varou' a pista do aeroporto de Congonhas e chocou-se contra o prédio da TAM CARGO. não vou tecer teorias ou apontar culpados, só vou contar minha história que, de forma indireta, está relacionada com esse evento triste.

trabalhava na TAM na época, aviação sempre foi minha paixão e área de atuação muito provavelmente por causa de meu pai que trabalhava com isso e me levava para ver aviões como diversão. estava na empresa fazia pouco mais de um mês, havia sido contratado por um colega meu da antiga VARIG que estava na TAM e trabalhávamos exatamente no prédio que foi destruído no acidente.

no dia em questão, eu aguardava esse meu colega para conversar sobre alguns assuntos que trataríamos numa reunião no dia seguinte. era já começo de noite e uma chuva constante já caía sobre a cidade dese alguns dias. meu colega estava ocupado em uma reunião e como não desse sinal de que sairia tão cedo e como os assuntos que queria tratar com ele não era urgentes, resolvi ir embora e conversar com ele no dia seguinte antes da reunião.

peguei minhas coisas, disse até amanhã a quem ainda estava por lá e fui embora. na rua, fui para o ponto de ônibus que ficava de frente para a cabeceira da pista do aeroporto, chovia não muito forte mas persistentemente e eu aguardava o ônibus com mais algumas pessoas. o ônibus chegou, embarquei e tomei o rumo de casa, fui ouvindo música e olhando a cidade molhada pela janela embaçada do coletivo.

cheguei em casa, disse oi ao meu marido e ficamos conversando sobre amenidades, coisas de casal, simples rotina que agrada pois sabemos que existe alguém ali para ouvir sobre seu dia, são as pequenas coisas que, ao final contam. toca meu celular (vale dizer que era uma época antes de whatsapp e outros tipos de mensagens ou conexões, os smart phones não eram assim tão smart) e era meu irmão esbaforido a gritar você tá onde? e o aeroporto? e o avião da TAM que caiu? E eu oi? que avião? to em casa, acabei de chegar. Ele o avião, porra! caiu o avião! Eu que avião? acabei de sair de lá, tá doido? Ele LIGA A TV PORRA!

liguei e caí sentado. o prédio que deixara pouco mais de quarenta minutos atrás ardia em chamas. meu marido olhou para mim e eu lhe disse que trabalhava ali, naquele mesmo lugar que aparecia devorado pelo fogo e ele levou alguns segundos para processar a informação.

se tivesse ficado mais cinco ou dez minutos, não estaria aqui escrevendo. se tivesse ficado mais cinco ou dez minutos, não teria livro novo ou velho. se tivesse ficado mais cinco ou dez minutos não estaria ou seria. perdi alguns amigos naquele acidente, não muitos porque ainda era novo de casa e tinha feito poucas amizades mas, o colega que me levara para trabalhar ali morreu no acidente.

não sou muito crédulo mas, se há alguma coisa ou alguém que zela por nós de algum lugar, provavelmente foi quem me fez ir embora naquele dia. a vida é um sopro, um nada, achamos que ela dura para sempre, pura ilusão na qual nos apegamos para fingir que não sabemos que podemos morrer num piscar de olhos.

a vida é essa vela que a gente vai empurrando contra a borrasca, protegendo com as mãos em concha para ele não apagar enquanto a cera vai derretendo aos poucos e queimando nossos dedos.

estou aqui segurando a minha vela há cinquenta e dois anos. espero estar com ela nas mãos quando completar cinquenta e três.

5 de jun. de 2020

A inocência do COVID

A culpa não é do COVID.

Ele é apenas um vírus, uma das unidades mais simples e básicas da vida e que não segue códigos morais ou éticos muito menos ideologias ou ideias, apenas vive e mata não por maldade mas porque é sua função, sua natureza inegável e imutável.

A culpa é nossa.

Por elegermos um presidente totalmente incapaz e inepto, namorado do totalitarismo, casado com o preconceito, de caso com o fascismo, auxiliado por filhos rábidos e cegos de ódio e por um gabinete que só reconhece um lado das coisas que são multifacetadas, absolutos e absolutamente déspotas, caminhando de bandeira em punho rumo ao país utopia onde apenas ele poderão existir.

Por venerarmos jogadores de futebol racistas e homofóbicos, que de cima de seus muros milionários riem sem pudor de quem morre de baciada porque o dinheiro lhes fez brancos, elite, acima das questões mais básicas que um dia já foram suas e que o dinheiro lavou com suas notas e lucros; enfiam em nossos cus os cabos de vassouras todos os dias do alto de seus castelos alvos e ilibados.

Por deixarmos os filhos das empregadas feito animaizinhos de estimação com as patroas fazendo unhas, pés, cabelo e mantendo sua beleza plástica embebida do suor dos serviçais, senzala que nunca deixou de existir, só mudou de nome e passou a ter carteira mais ou menos assinada, esmola dada debaixo de reclamação porque já foi tanto que foi dado e esse povo ainda quer mais. A empregada tem de cuidar do cachorro da madama mas a madama não tem de cuidar do animalzinho deixado ali porque não é sua função afinal, seria uma inversão de valores e numa sociedade que se preza, é preciso que todos saibam seus lugares e qualquer coisa, vinte mil reais resolvem a situação.

Por seguirmos youtubers e outros influenciadores racistas e escrotos que falam abertamente suas ideias fascistas e depois pedem desculpa dizendo que foram mal interpretados, fora de contexto, que nunca foram assim e até conhecem e tem amigos pretos, bixas, trans e tudo mais e seguem com milhares de seguidores e seus livros vendendo na internet e fazendo vídeos de coach e dizendo que estupro é normal, que a mulher deve atender às necessidades do macho provedor e que gente preta sofre porque só faz cometer crime.

Por fazer pouco de balas que se perdem e matam crianças e adolescentes periféricos, sem problema afinal, não são esses que cometem mais crimes? Há de pagar por isso, não? Criança preta morre e vira estatística, criança branca morre e vira capa de jornal e horário nobre. PM mata gente preta apenas fizeram seu trabalho e provavelmente coisa quem morreu não devia ser ou a PM não teria matado, se fosse gente branca não teria acontecido isso e, se acontecesse, PM estaria com a corda no pescoço, como é com gente preta a corda fica no pescoço destes que é melhor, cai bem, causa desconforto mas depois você acostuma.

Por deixar deputados e parlamentares levantarem listas de antifascistas e esquerdistas para deixar no jeito quando abrirem os campos de reeducação, nada demais, deu tão certo na Alemanha e na Rússia, porque não daria aqui no Brasil?

Por deixar manifestações nazi-fascistas passarem incólumes, como se fosse algo a ser ignorado e diminuído, tudo bem, não vai acontecer de novo mas a história tem esse vício de repetição, sabe?

Por confundir liberdade de expressão com liberdade para espalhar mentiras e apologia a regimes horrendos que mancharam para sempre a história da humanidade.

Por ajudar a propagar mentiras achando que estamos ajudando a democracia.

Por chamarmos a imprensa de lixo vendido e usar cabresto tão belo e ornado, colocado ali pelo governo messiânico e só acreditar na verdade que ele defeca atacando qualquer um que tente remover a guia porque aí seremos forçados a encarar a verdade e ela é dura demais para ser encarada de frente.

Por sermos hipócritas pedindo boicote de empresas e negócios que apoiam o governo na frente dos amigos da rede social mas por trás, seguimos consumindo os mesmos produtos e serviços sem um pingo de vergonha na cara.

Por pedir boicote da emissora lixo e não perder um capítulo sequer da novela ou reality show.

Por acharmos lindos os movimentos das minorias mas não fazermos nada para apoiar.

Por postar hashtags e frases lindas mas seguirmos tranquilos com nossos privilégios porque tudo bem na timeline mas na vida real o buraco é bem mais embaixo.

Por deixar que a religião tome conta do estado e achar que tudo é missão de deus, ungidos, messias e salvador e em nome desse deus cometer as piores atrocidades sem qualquer resquício de culpa.

Por tudo isso, a culpa é nossa e não do COVID.

Ele já infectou um organismo podre, moribundo, apático e condenado. Sinceramente, eu tenho é pena do COVID.

21 de mai. de 2020

Quem ri por último?

No dia em que batemos um recorde nefasto, mórbido e horrendo, em que aparecemos num terceiro lugar mundial pavoroso, em que uma criança foi morta por estar em casa e seu corpo vagou por uma cidade voando feito anjo esquivo e esquecido até pousar na gaveta fria de um IML.

Nesse dia horrendo que deveria ser banido para sempre de nossas lembranças e da história, o assassino da república riu ao vivo para seus asseclas e fez piada.

Sem medo. Sem vergonha. Sem culpa. Sem arrependimento. Sem mácula. Sem noção.

Riu de todos os mortos, de suas famílias, dos profissionais que estão lutando dia e noite para tentar frear essa doença. Riu de quem está passando fome, sem trabalhar, sem grana, sem esperança, sem família, sem vida.

Rasgou o país ao meio e limpou sua imundície na constituição. Tirou seu membro milícia verde amarelo pátria amarga brasil e esfregou na cara de todos nós. Rindo. Jocoso. Palhaço. Piadista. Gozou de todos nós sem qualquer vestígio de consciência ou pudor.

Mostrou de uma vez por todas que não é humano, nunca foi, nunca será. É um nada, um vazio, um oco, um buraco sem fundo onde tudo que cai é dissolvido e some para nunca mais. Nem mesmo animal ele é porque animais possuem inteligência, o assassino da república possui demência.

Riu. Riso frouxo de quem está feliz com as mortes de tanta gente. É o palhaço que ri do circo em chamas sem saber que depois vai ficar sem ter onde morar. Para ele, não existe outra versão dos fatos que não seja a dele e de seu clã abjeto e odioso.

O assassino da república riu. Está feliz. Está pleno afinal, todo bom sociopata sente-se bem ao caminhar em cima de cadáveres.

E nós? Como estamos? 

Estamos morrendo. Segundo o assassino da república, uns irão tomar cloroquina, outros tubaína e nós, bem, nós seguiremos tomando onde sempre tomamos desde que ele foi eleito.

Não vou compartilhar o vídeo do assassino da república pois não desejo dar a ele mais esse prazer.

Deixo então essa reflexão bela e atual do João Silvério Trevisan que é bem melhor.

A RESISTÊNCIA DOS VAGA-LUMES

"Vencidos o medo de ser e a resignação de antigamente, oprimidos em estado de purpurinização não precisam pedir licença aos guardiões do poder heteronormativo, nem bajular aqueles supostos parceiros, como se a sobrevivência dos nossos desejos, afetos e amores dependesse deles. Quanto maior for a compreensão de que no território do desejo não existem mestres nem patrões, tanto maior será a eficácia dos sujeitos em estado de construção de suas singularidades. Se existe a escuridão opressiva ao nosso redor, nossa função é brilhar. Exatamente como os vaga-lumes, que só brilham se houver escuridão e são tanto mais vaga-lumes quanto mais escuro estiver o entorno. Talvez pareça estranho que sua luz precise das trevas para ser luz (...). Mas aí exatamente se encontra aquela capacidade de renascer das cinzas, como fantasmas iluminados, que emitem sinais de liberdade na noite. (...) Não por acaso, é justamente no meio das trevas que se efetua a dança viva dos vaga-lumes. (...) Através da dança renitente de vaga-lumes purpurinados, diremos sim no meio da noite atravessada pela execração que os senhores do poder emitem para nos ofuscar. Assim, a opressão que tenta sufocar nosso desejo, ela mesma será o motor da nossa luz e da nossa dança de vaga-lumes na noite. Quanto mais escuridão dos opressores, maior será a luz emitida pela purpurina dos oprimidos."
João Silvério Trevisan
(DEVASSOS NO PARAÍSO, 4ª edição, pp. 577/8)

14 de mai. de 2020

Fim de quarentena

Quando acabou a quarentena. Não sabia se era exclamação, interrogação, vírgula, ponto e vírgula, reticências ou ponto final. 


Quando acabou a quarentena, sai correndo nu pelas ruas e fui preso por mãos afoitas que não sabiam mais como era tocar um corpo. Cumpri perpétua que durou até o primeiro gozo.


Quando acabou a quarentena, abriu aquela champanhe barata que guardava feito relíquia sagrada. Ligou o som, aumentou o volume e bebeu, cantou, gritou, da janela, em uníssono com todos os outros que também celebravam. Ébrio, dançou pela casa, rodopiou, derramou a bebida no tapete cansado de guerra, proferiu palavras de ordem e já se acercando do cansaço, masturbou-se e dormiu. No dia seguinte, acordou de ressaca. Banho frio, café forte, jornais matutinos noticiando a volta do normal. Vestiu-se e munido de ânimo,  abriu a porta para encarar essa nova normalidade que chegara, a vida morreu, longa vida a vida. Olhou para a rua e, com um tremor incontrolável, fechou a porta e voltou para dentro de casa. Despiu-se, encolheu-se no sofá enquanto a televisão lhe trazia aquele admirável mundo novo.


Quando acabou a quarentena, tomou banho, fez barba, escovou dentes, desodorante e perfume. Vestiu a melhor roupa, cueca nova, sapato novo, tudo zero afinal, ele a rua iriam desvirginar, carecia fazer a corte; há tempos estavam em namoro platônico, soltando suspiros pelos pulmões e asfalto. Deu uma última olhada no espelho só por garantia e, dono de segurança inabalável construída durante a quarentena, saiu ao encontro da amada. Morreu atropelado ao colocar os pés na rua, o sangue escorreu pelo asfalto quente, o trânsito nervoso saindo da quarentena reclamou, as pessoas aglomeraram para ver algo que não viam há tempos. Alguns juravam ter visto água correndo junto com o sangue. Talvez um encanamento aberto. Talvez a rua chorando o amado e pedindo desculpas afinal, era de sua natureza.


9 de abr. de 2020

O medo de nós mesmos

Enquanto Bolsonaro articula seu auto-golpe espalhando seus factóides e emparedando a democracia um tijolo por vez, nós seguimos isolados compulsoriamente até que a normalidade decida dar as caras novamente.

Talvez o COVID tenha apenas derrubado uma ilusão de liberdade e autonomia que pensávamos ter envoltos em nossas batalhas diárias por uma vida que nunca foi nossa e que agora descobrimos não ser a que queríamos.

Já vivíamos em isolamento feliz sem reclamar disso, fechados em nossas casas, trancafiados atrás de portas, fechaduras, travas e cadeados vendo o mundo passar pelas telas do computado, celular e TV e aceitávamos isso como parte da modernidade facilitadora da vida, benesses tecnológicas facilitadoras.

Quantos de nós efetivamente sabiam como foi o dia uns dos outros, tinha uma genuína preocupação com isso para além de curtir ou repostar uma foto ou comentário? Aquele bom dia que não saía da boca, aquele aperto de mãos que não vinha nunca, aquele olhar que jamais chegava. A imersão digital que nos alimentava a vida supria com folga a necessidade de toque e contato humano relegando este a ocasiões específicas e pontuais.

Ainda nos víamos, conversávamos, sorríamos e olhávamos uns para os outros mas sempre sob um olhar on-line considerando aquela pessoa a nossa frente algum tipo de emulação de seu eu digital, nos perguntando intimamente se aquela simulação era parte do feed das redes e concluindo, de forma nada empírica, que por dentro o que havia era um pão há muito bolorento.

A pandemia colocou abaixo esse simulacro de civilidade forçando nossa vista para o interior jogado para baixo do tapete da vida, acabamos confrontados com nós mesmos e com o outro e descobrimos que nem ele, nem nós éramos quem imaginávamos ser. Trancados dentro de nossas casas, acabamos tomando uma consciência de que nosso corpo é finito em si, suas necessidades são outras totalmente diferentes das que o cotidiano externo clamava e nossas vidas independem de algum tipo de fé irrestrita numa ideia vaga de que as coisas são como são e de que tudo se resolve por si.

Confrontados com a clausura forçada, descobrimos que há vida dentro da vida que tínhamos, uma vida que não sabíamos, que desaprendemos, que esquecemos e tivemos de reaprender a usar. Seremos os QUARENTENIALS, os filhos da pandemia e sairemos dela com outros modos e hábitos. Talvez sejamos testemunhas do pós-internet pois se por um lado a rede ajudou muitos de nós a não enlouquecer, acabou mostrando nossa dependência um do outro e como a hierarquia social que julgávamos justa era apenas uma falácia.

No melhor cenário, sairemos disso com algum tipo de noção renovada da importância do convívio humano ainda que, num primeiro momento, temerosos de ter essa contato. No pior cenário, passaremos a ser criaturas isoladas e que valorizarão a individualidade real e virtual ainda mais concluindo que o suficiente para sermos felizes é termos apenas a nós mesmos o que, grosseiramente, não está assim tão longe da verdade.

O que não morrerá e certamente aumentará é o medo que temos uns dos outros, esse medo não apenas pela violência social que nos aparta e afeta mas o medo congênito de que o outro sempre é uma ameaça de algum tipo a nossa integridade, sanidade e autenticidade enquanto indivíduos. Se antes vivíamos esse medo de forma comedida e um tanto educada, polindo as arestas sociais que nos afetavam e tolhendo o contato com pessoas que se apresentassem como potencialmente nocivas, no mundo pós-pandemia teremos de somar a esse medo o medo de que esse outro competindo pelas mesmas coisas que nós também pode ser arauto de doença e morte e por isso mesmo deve ser isolado e afastado tanto quanto for possível.

A herança da pandemia será essa, o medo desnudo e irrestrito, justificado do outro que passa a representar uma ameaça real e não mais imaginária e desse medo nascerá o homo pandemicus que saberá lidar com essa convivência virótica melhor que seus antecessores.

A ver.

10 de mar. de 2020

E o palhaço, o que é?

Quando o palhaço é presidente e o presidente é palhaço, quem toca fogo no circo para os outros ficarem rindo?

[pausa]

Dólar, dólar, dólar, se tu vais a cinco quem fica na metade do caminho entre Disney e o inferno somos nós, aqui já estamos abraçando o capeta há tempos já, abraçar o capeta é o passatempo preferido do brasileiro depois de matar bixa, bater em mulher e mandar preto, favelado e pobre pra cadeia. Tudo em nome de deus, da moral e bons costumes, família transtornada brasileira, música pra matar brasileira. Lá vem o cruzado patriota dos confins da terra mãe em seu alazão clonado, estandarte europeu e espada de cromo, voz imberbe como se chupasse as mamas do país em busca de um leite esgotado.

[interregno]

Patriotas. Patetriotas. 15/03 nas ruas, lambendo os beiços e o rabo do messias, cruz de malta, de leite de macho maltado, ejaculado na boca dos servos idólatras que só tem boca para beber o leite fétido do sêmen jorrado dessa fonte pútrida. Fecha congresso, fecha senado, fecha stf, fecha tudo seu milico, bate continência pro capitão, do mato, do asfalto, do planalto. Fecha tudo talquei e abre essas pernas sociedade que vou lhe estuprar, arrombar, abrir, deflorar, acharam eu era a bela viola mas por dentro sou cão sarnento, rábido, rápido, criado na base de notícias falas e confusão geral, alimento dos deuses que vocês criaram em cada tweet, like e repost. Ave César! Affff César...

[break]

Mas e Marielle? Uma banana
E o PIB? Banana nanica
E o dólar? Banana ouro
E o Queiroz? Banana da terra
E o PT? Banana maçã
E a imprensa? Banana split
E o governo? Bananas

[appendix]

hétero não sofre com piadinha infame
hétero não leva lâmpadas na cara
hétero não esconde seu amor
hétero não precisa calar seu amor
hétero não precisa pedir desculpas por existir
hétero não precisa ter medo de ser feliz

hétero não precisa medir suas palavras
hétero não precisa dizer que não sente nada
hétero não precisa comungar em pecado
hétero não precisa entrar na justiça pra casar

hétero não precisa dar nomes ao seu amor
hétero não precisa inventar coisas do amor
hétero não precisa mentir sobre a vida
hétero não precisa esconder as feridas
hétero não precisa fingir nessa vida

hétero não precisa rezar pelo simples
hétero não precisa ler a lei para ter justiça
hétero não precisa ter medo dos canas
hétero não precisa fugir dos sacanas

hétero não precisa enterrar sentimentos
hétero não precisa ter medo do sexo
hétero não precisa advogado pra garantir seu amor

hétero não precisa de moeda corrente
hétero não precisa ter medo de gente
hétero não precisa chorar calado
hétero não precisa sorrir falso

hétero não precisa ter medo da gente
só precisa aceitar que a gente
só quer ser gente igual a todas as gentes

24 de jan. de 2020

Rita Lina

Sintomático dos tempos atuais qualquer pessoa que decida falar sobre assuntos delicados, polêmicos ou que promovam algum tipo de reflexão, serem taxadas de conversores ideológicos de esquerda como se fosse algum tipo de patologia ou maldição que ameaça a fábrica social.

Assim, este texto do meu querido Roberto Muniz Diaz reflete bem esse caso. Pessoalmente sou mais do texto escrito, capaz de ler dezenas ou centenas de páginas sobre um assunto sem cansar mas, quando preciso reter a atenção em vídeos eu me disperso, deve ser por isso que não gosto de nenhum canal no YouTube o que não significa que não existam alguns realmente bons, ache seu meio e nele se explore ou exploda.

Já vi alguns vídeos de Rita Von Hunty, alter drag de Guilherme Terreri Lima Pereira, que através de seu canal TEMPEO DRAG foge do usual encarnando uma drag queen refletindo sobre questões complexas, falando de temas cabeludos e, o melhor, de forma simples, direta, didático e bem humorado.

Obviamente que na atual conjuntura Rita foi taxada dentro e fora da comunidade LGBTQ (pasmem) de esquerdopata, doutrinadora e todo o séquito de adjetivos que os conservadores adoram associar a quem ousa ter pensamento próprio.

Rita não doutrina, explica. Rita é direta e vai no osso da questão, explica coisas foda de maneira simples que até um seguidor do messias consegue entender e é aí que reside o caroço, meus amores.

Estamos passando por tempos em que a doutrinação está vindo na contramão, não querem que você leia, que você tenha cultura, que você pense e tenha opinião porque gente assim contesta e não aceita qualquer placebo goela abaixo. Em tempos de um presidente birrento que odeia ser contestado e que tece para si e para todos o que é a realidade no melhor estilo ladrão de sonhos, pessoas que pensam e que falam como Rita são uma ameaça, estão falando o que fere os brios desse povo porque estão falando a verdade e convocando o povo a pensar, os que a ouvem porque muitos sequer chegarão perto de seu canal com medo de serem doutrinados.

A essência de uma sociedade é sua habilidade de dialogar, pode parecer paradoxal já que eu mesmo escrevo textos aqui que podem parecer pouco propensos ao diálogo mas veja bem, diálogo é quando você e outra pessoa - ou um grupo de pessoas - debatem ideias que podem ou não divergir ou convergir com o intuito de chegar a um consenso ou a uma nova ideia que antes não se ventilava.

Com fascistas e conservadores não há diálogo possível porque para estes só há um lado certo, o deles. Se você tenta argumentar depois de alguns minutos ou segundos esse povo já está lhe chamando de doutrinador, comunista, esquerdopata, PT, contra o Brasil e essa merda toda que os nacionalistas de plantão adoram vomitar.

Rita é um ar fresco. Rita não quer doutrinar ninguém, o oposto disso. Em seu canal ela apenas expõe os fatos, não impõe. Rita não comprou a verdade ou a ganhou como missão sacra de reerguer a nação falida, nem a família descontrolada brasileira. Rita apenas faz a soma e mostra o resultado, se você vai ou não concordar com ela vai de como você encara a soma dos fatores e o produto final.

16 de jan. de 2020

Paquiderme

Um pequeno conto sobre calor, cidade e os elefantes no meio das salas.

Da cidade escorria um suor seco e frio, o sol burlava as nuvens do fim de dia e sambava seus raios através desses buracos no céu. Irritadas, as nuvens corriam para preencher essas brechas só para constatar que logo mais a frente outras tinham sido abertas numa brincadeira de cão e gato que passava despercebida pelo mundo cá embaixo.

Salvo eu aqui, observando tudo e apostando onde o sol malandro ia forçar a entrada, abrir as pernas das nuvens vestidas de hábito monástico jogando um pouco de luz sobre a cidade louca. 

Parecia que em cada um desses buracos de sol as pessoas iam, a qualquer momento, sair com mãos ao alto rogando ao astro que lhes dissesse o caminho a seguir, jogasse para longe as nuvens de suas vidas nubladas e lhes desse um alento muito alem do seu alcance enquanto corpo celeste, ocupado demais com danças astrais para dar conta de desejos terrenos e, de certa forma, ciumento de ter sido roubado de seu heliocentrismo, melhor deixar essa raça ao seu destino, deveria pensar.

Apoiava o queixo sobre as mãos cruzadas no parapeito da janela, sorvendo essa brincadeira com gosto, já estava ali há algum tempo, aguardando que um daqueles buracos-sol caísse sobre mim e, feito interrogatório, me forçasse a confessar os crimes indizíveis que carregava no peito até mesmo aqueles que não cometi ou tencionei cometer.

Podia ver outras janelas ali da minha, outros pecados, outros crimes, outros sexos, outros amores que mantinham seus segredos entre paredes e até mesmo dentro delas haveria outros segredos dentro de mais segredos. Lugares secretos, anseios não revelados, coisas não ditas, entaladas e que acabavam por emprestar às paredes um gosto amargo e cheiro fétido conforme o acúmulo de dissabores não compartilhados ia se tornando uma massa disforme de fel e rancor.

As paredes têm ouvidos, e nariz, e boca, e braços e pernas, e coração, e sangue, esquecemos disso e pomos por terra esse universo que deveria funcionar como porto tranquilo e seguro ficando num eterno cá e lá, melhor, nenhum dos dois vide que o mundo lá fora quer devorar até o tutano e, aqui dentro, nem devoramos nem o oposto disso restando uma letargia muda e ácida que vai corroendo todos os elefantes que pomos dentro de casa.

Um elefante, sim, incomoda muita gente. Dois então, muito mais. Que dizer de mim que tinha essa manada a dividir espaço comigo? Olhava a colcha de retalhos solar se espalhando, pondo para correr as nuvens bestas e então, caiu em mim uma dessas rodelas de luz e ficou. Talvez com medo dos meus elefantes não vieram nuvens tapar o buraco, parecia que minha janela era o palco da cidade; talvez todos já tivessem, quando vitimados pela luz esclarecedora, purgado seus erros e coubesse a mim cair, em grande estilo, o pano.

Pois bem, armado de luz, ergui o queixo de sobre minhas mãos, olhei para trás mirando cada elefante nos olhos e disse que o safári iria começar, era cada um por si e o sol era para quase todos. Comecei lembrando de quando nos conhecemos, aquela pista cheia de luz, som e fúria e nós ali dançando ao redor daquele fogo fátuo, sedentos de nós mesmos. Foi bom, consumamos tudo ali mesmo num canto mais escuro e minha língua foi seu sexo e seu sexo foi meu orgasmo e nosso gozo foi estridente e nossas bocas sem pudor e sem fim salivaram uma na outra todos os desejos e sonhos que nossas veias tinham guardado.

Os corações correram garganta acima e se bateram de frente Tum Tum Tum Tum Tum Tum Tum uníssono e num coro que ia acima da musica na pista. Bailaram as aortas, quase enfartam os miocárdios mas, segura, voltam eles para suas cavidades certos de que são um do outro mas a mente prega peças e desce a chibata no músculo cardíaco eriçado dizendo que está a mandar sangue demais para a cabeça de baixo deixando a de cima desprovida de poder colocar ordem nesse puteiro.

Corações aplacados e membros meia-bomba, melados de sexo, passamos ao que deveria ter sido o inicio e trocamos amenidades já que a intimidade fora sequestrada um do outro, sem resgate. Do clube ao café mais próximo, brecamos tudo que fosse mais fast no café da manhã e entre pães, doces e cafés, trocamos recheios de sonhos, coberturas de desejos, caramelizamos nosso amor, pão de Ló apaixonado, pão/pau - queijo/beijo.

Satisfeitos nos dois apetites, nos despedimos e trocamos números de telefone velados com a promessa de ligar e a incerteza de tal promessa fazer-se ato. Fomos embora, aguardar os minutos fazerem as horas, as horas dias e os dias nossa fome de ter-nos de novo mais do que a comida podia suprir. Em casa, mirava o telefone, os dedos tamborilando, dementes por se fazerem úteis e discar mas punha os danados a ferros e lhes dizia que você também tinha dedos e assim poderia fazer o mesmo esforço.

Nesse balé de tolos ficamos por algum tempo, aposta estúpida, sem ganhadores, premio que se acumulava agitando as mãos para ser resgatado e nós dois fazendo pouco dele, como que a deixar para outros que precisassem mais, como se nós mesmos não o desejássemos mais que o ar a nossa volta. E veio o toque do aparelho, agora já não sei quem correu para resgatar o premio, só sei que nos falamos e resolvemos que o melhor a fazer era dividi-lo uma vez que ambos o desejavam na carne.

Fizemos assim e fomos gastando essa loteria acumulada a dois, cegos do amor que nos fora sorteado, incautos, investidores de primeira viagem. De começo, achamos que aplicáramos nosso amor em investimentos cujo rendimento seria liquido e certo, nossa felicidade era por conta, tínhamos a nós e isso era uma linha de credito sem fim, inesgotável e cada vez que parecia a nós que os rendimentos não eram assim lá o que esperávamos, bastava fazer um empréstimo pessoal de nós mesmos, com juros de amante para amante e prazo a perder de vista para vermos renovado o credito amoroso que julgávamos ter.

Mas, os dias foram caindo da folhinha como folhas outonais e, quando a ultima caiu e, pelada, a árvore não tinha mais sombra ou frutos para ofertar, tentamos mais credito no banco afetivo para adubar a árvore seca e, para nossa surpresa, tivemos o investimento negado. Pasmos, ficamos sem ação, vasculhamos por economias porém, mais cigarras que formigas, estávamos com os bolsos só nos forros e a chuva se armando sob nossas cabeças.

Esgotados os meios, passamos aos fins e como cada um de nós tinha sua parcela de culpa no malfadado empreendimento só que, ao invés de assumirmos nossas parcelas de infelicidade e péssima administração, preferimos por os dedos em riste um nas fuças do outro negando culpa conjunta, pondo a conta apenas na nota de um só. Tentando salvar algo dessa quebra geral, saqueamos tudo, não deixamos nada ao amor que, na verdade, ainda tinha seu peso em ouro e podia ser usado como moeda de troca para reconstruirmos.

Finalmente, sem ter mais o que raspar do fundo do cofre, raspamos nós mesmos na carne até sangrar e quando vimos a cor dos ossos e os dentes agressivos se abrindo sobre eles, julgamos melhor assumir a falência, cerrar as portas e buscar novos sócios, outros empreendimentos. Nesse litígio, não havia muito que repartir, havia sobrado apenas culpas, remorsos e acusações suspensas no ar, frases presas no vácuo, sentimentos soltos no tempo e um vazio imenso que de tão grande não era mais vazio, tinha consistência e podia ser tocado.

Fomos, simples assim. E os dias voltaram a contar no calendário, lentamente, um a um e nossas vidas foram se remendando da melhor forma possível e nossos bolsos foram se enchendo aos poucos, com trocados de inicio e, algumas vezes, com notas e até quantias vultosas mas que paravam em nossos bolsos assim como o ar para nos pulmões.

E então, dado o tempo certo, nossos nomes já não estavam mais sujos, caducaram nossos débitos, podíamos amar de novo, as consultas aos órgãos de proteção ao credito afetivo davam como negativas e, numa dessas, nos redescobrimos com capital suficiente para amadurecer a ideia e ideal de termos nosso negocio próprio de forma definitiva, desprovidos e demovidos dos sonhos acelerados do inicio, das ilusões de destino e cientes de nossos medos e capacidades de entender um no outro o alimento do desejo comum, cheios agora de sonhos maduros, tangíveis em seu sonhar duo, retos e certeiros em nosso caminho de pouquíssimas curvas salvo as de nossos corpos não desconhecidos a nós e assim, sem grandes surpresas cartografadas mas emprestando às línguas um gosto conhecido mas retemperado com novo animo e sede de amar, viver e sermos.

Negocio fechado! No dia em que assinaríamos nosso contrato, selaríamos nosso compromisso de sermos o banco central um do outro, fiquei com a caneta na mão, esperando ver no outro lado da linha tracejada seu nome correr para o meu. Roubado por um destino traíra, saqueado por uma tragédia que de grega não tinha sequer o nome, assaltado por outros que levaram o cobre e, de quebra, você para não mais. Dos olhos, correram lagrimas lépidas, escoram face abaixo, deram voltas no pescoço, empoçaram na espádua, caíram para o braço e em torvelinhos correram sua extensão, lamberam-me os dedos e abraçaram a caneta até que, em pequeninas gotas, caíram sobre o espaço em branco onde deveria estar seu nome.

Foi então que chegaram esses elefantes, todos de uma vez, talvez já estivessem lá, disfarçados de mobília e não os tivesse notado, não sei. Começaram a abanar suas trombas para mim e me dizer coisas que só os elefantes dizem. Delicados, porém, transitavam pelo apartamento sem quebrar nada exceto meu coração e corpo e então, olhando pela janela, aguardei esses restos de sol para poder municiar-me e lhes por fim. Espera meio longa, às vezes faltava sol, às vezes os elefantes se escondiam tão bem que não era possível achá-los, às vezes eu me sentia o elefante.

Mas não hoje, era dia de acertar as contas e com a janela e a mim mesmo sob aquele circulo solar, fui executando um a um dos paquidermes, sem dó, seus protestos me eram surdos, tombaram todos e quando restou apenas um, este me olhava nos olhos, um olhar atemporal, a tromba inerte e a respiração mal um sopro. Nos olhamos por instantes sem contar, impassíveis, os últimos habitantes duelando naquela nesga de sol. E então, no fundo dos olhos mortos do bicho, vi o que precisava ver, senti, intui e, usando minha ultima bala de sol e já antevendo as nuvens que vinham a galope tapar minha artilharia, abracei o elefante e com ele me joguei nos raios do sol.

5 de dez. de 2019

Fim de festa - e festas não foram feitas para durar

O ano vai estrebuchando minha gente, vai soltando os últimos suspiros tentando de todo jeito se agarrar ao pouco dele e de nós que resta, não tem jeito, sabe que vai acabar e nós vamos seguir de mãos dadas com seu sucessor, o rei está morto, longa vida ao rei.

Fatalmente, conforme os dias que anunciam a morte do ano se achegam, num processo de morte similar mas nem tanto vamos fazendo aquela pesagem do que foi o ano que está indo pra cova, retrospectiva, lista de acertos e erros, culpas e acusações, lamentos e alegrias. Balanço, fecha a conta e passa a régua e essa conta tem de fechar ou não tem de fechar e se não fechar, bem, recauchutamos o que sobrar dela em metas para o novo que já chega.

Às vezes acho pernicioso fazer esses balanços, me passa uma sensação de finitude e meio derrota, como se tivéssemos apenas esse ano para dar certo, fazer certo, viver certo mas, por outro lado, penso que esse sentimento de encerramento e fechamento é benéfico pois nos faz encarar o que foi bom com gosto e um sorriso - quando possível - e o que não foi tão bom como provável sucesso no ano que vai nascer.

Eu tenho uma dificuldade imensa em fazer esse balanço, pode ter alguma compulsão ou TOC mas eu fico relembrando tudo e tentando não esquecer de nada. O que foi bom, ótimo, excelente? O que foi ruim? O que fiz certo e o que fiz errado? Não consigo lembrar a cor da cueca que vesti hoje pela manhã, como lembrar de trezentos e sessenta e cinco dias? Minha família é pródiga naquela doença que rouba e devora memórias, poderia ser ela já me sondando e roubando as minhas aos poucos mas acho que é mesmo essa falha de por em pesos o que se passou comigo.

Mas, se posso dizer as coisas boas que se passaram - não vou falar das ruins porque segundo aquela autor russo as infelicidades, cada um de nós as tem a sua maneira, mantenhamos então a elas na esfera do privado - poderia dizer:

Em Julho fui na FLIP 2019 com meu querido amigo Roberto Muniz Dias onde participei do lançamento da antologia A RESISTÊNCIA DOS VAGALUMES da editora NÓS:


Essa antologia, organizada pela Cristina Judar e Alexandre Rabelo, é de extrema importância considerando o cenário de obscurantismo que se acerca de nós no atual (des)governo e conta com nomes de peso como podem ver na imagem acima.

O lançamento em Paraty - e depois em SP - serviu para expor nosso trabalho e abrir um foco de resistência e, fora esse evento e livro foda, flanar pela FLIP com Roberto, encher a cara no bar de vinhos, comer e participar de mesas diversas conhecendo autor@s divers@s foi e sempre é uma experiência foda ainda mais para quem escreve.

Sai de lá feliz e falido porque devo ter comprado metade da feira mas livros são, algumas vezes, melhores que pessoas.

Também tive o prazer de ver duas peças do Roberto montadas aqui em SP:



Roberto é meu amigo há mais tempo do que já posso lembrar e tem construído uma carreira sólida na dramaturgia, partilhamos das alegrias e tristezas de escrever e seguimos tentando deixar nosso nome em algum lugar nem que seja para falarem mal da gente.

Depois de me incorporar as estatísticas em Julho, o tempo passou a sobrar e foi com esse tempo extra que vi algumas belezas na 43 MOSTRA DE CINEMA - devo ter visto uns 27 ou 28 filmes:


Fora o que vi em casa em Dvd ou streaming, pelo Letterbxd - onde tenho conta, a soma é de 142 filmes vistos, nada mal penso eu. Já do lado da leitura, acho que bato a meta de ler 45 livros esse ano, já estou no 44 e 45 que você pode acompanhar no Goodreads.

Depois veio o convite do Alexandre Rabelo para ajudar ele na coordenação do MIX LITERÁRIO que integra a programação do MIX BRASIL em sua 27 edição este ano:


Foi um evento foda que ocupou a Biblioteca Mario de Andrade, para mim foi um tesão do caralho ter ajudado na organização do evento, das mesas, conhecido gente incrível que está produzindo literatura de qualidade e de resistência e, se puder e me quiserem, estarei lá ano que vem com certeza! Acabei descobrindo um lado meu que não conhecia de organizar e produzir.

O mais foda foi ter mediado mesa com Santiago Nazarian, Samir Machado de Machado e Cidinha da Silva, confesso que gelei quando Rabelo me pediu pois exceto por Cidinha eu mal conhecia as obras dos outros dois mas, me preparei bem e acho que a mesa foi um sucesso além de ter conhecido Santiago - fã do Suede, trocamos altos papos, se é fã do Suede não tem como não ser gente boa - e Samir cujo TUPINILANDIA está na lista de leitura para em breve.

Meu segundo livro de contos deveria ter saído ainda este ano mas, devido a alguns imprevistos, tive de adiar para 2020 - e Cristina Judar sabe o quanto me ajudou nesse processo todo aliás não só ela mas Alexandre Rabelo também. O livro está pronto, projeto gráfico foda feito pelo Fabiano Souza, tudo certo, só batalhar a publicação e, ano que vem, meti na cachola que vai ser meu ano na literatura, tenho mais material pronto, um ou dois romances em andamento e outro sem fim de ideias que eu estou bolando não apenas sozinho mas com outras pessoas.

Falando nisso, esse ano nasceu o ORGULHO CAST podcast no qual eu, Paulo Sergio e Fabiano Cardoso falamos de livros e literatura LGBTQIA+, a ideia nasceu como resposta a tudo isso que está acontecendo no país e resolvemos abrir essa frente para mostrar que a gente pode até sofrer mas jamais seremos calados! O podcast é quinzenal trazendo, a cada episódio, um livro diferente com os comentários e opiniões dos três.

Acho que de forma resumida foi isso, tive perrengues? Claro que tive mas nada que fosse demais, se entrar nessa conta de fim de ano, apesar de tudo, não posso me queixar de 2019, das pessoas que conheci, dos amigos que ainda tenho, das coisas que fiz, dos porres que tomei, de tudo que comi, de tudo li e do meu amor pra vida que é Wanderson Wans, 17 anos de vida comum e junta e misturada.

Pode vir 2020, pode vir que eu tô bem pronto!

8 de fev. de 2015

sunday


domingos são curtos, domingos são longos
domingos são pedaços de nós a escoar pelo ralo
domingos são pedaços de nós a escoar pelo falo
domingos são pedaços de nós a morrer pelo quarto
domingos são tediosos, domingos são horrorosos
domingos são nojentos, domingos são grudentos
domingos não tem hora, domingos nunca vão embora
domingos nunca terminam, domingos nunca germinam
domingos são de bosta, domingos são de óstia
domingos são assim, domingos
sem nada, à noite, prendem a gente na cama, na tv
pensando na segunda, ali na esquina já te olhando de viés
domingos não tem nada
domingos não servem pra nada
domingos são dias mortos
domingos são dias tensos
domingos são dias chatos
domingos só tem de bom servir como esperança do sábado

lembranças aleatórias não relacionadas com a infância

Lembrança #10 Lembro de uma festa ou rave ou balada que eu ajudei um amigo a organizar num tipo de sítio eu acho. Estava separado do meu nam...