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18 de mai. de 2020

Pilar e José

José parou, respirou fundo, deixou a frase que acabara de descer ao papel respirar também. Respiraram quase em uníssono mas passados alguns segundos, José percebeu a frase em outro ritmo, distinto de seu peito arfante, exausto pela tarefa de parir àquela e todas as demais antes dela.

Olhou para a frase ali quieta, respirando feito recém-nascido, quis lhe fazer um afago mas ela fugiu, só não foi mais longe porque havia um ponto que lhe segurou os passos e José, calmo, pegou a frase pelas mãos e disse ser aquele o final, ela deveria descansar pois não haveria mais nada depois, que se entendesse com as anteriores e, se houvesse inveja por ser ela a derradeira, que resolvessem isso lá nos idos do texto pois ele, pai, não poderia fazer distinção entre elas.

Pilar! Gritou.

Pilar! Gritou de novo.

Pilar! Gritou de novo mais alto.

Eu, José! Queres o que? Veio de algum lugar da casa a resposta batendo pelos cômodos.

Terminei, vens aqui dar uma olhada! Disse aos gritos.

Mas homem, tem de ser agora? Respondeu ela.

Tem de ser agora que está fresca a tinta e tem de ser agora porque é igual pão, só serve quente, saído do forno, oras! Retrucou ele.

A ouviu arrastando-se pela casa, os passos de Pilar eram frases escritas nas paredes de cada cômodo junto com os dele, passos pontuados por longas pausas sem espaçamento, vírgulas que saltavam vidas, parágrafos que falavam muito e não diziam nada, diálogos que diziam muito quando não falavam nada, pontos aqui e ali para dar um pequeno fim a momentos quase inexistentes, parênteses para guardar segredos de fora e colchetes para guardar os de dentro, sílabas átonas em palavras tônicas e tônicos para nervos que de aço, tinham apenas o nome, as vontades sim eram de ferro.

Arre, homem! É sempre assim essa pressa quando acabas, há de ter meus olhos para garantir? Os seus não foram bons o suficiente? Disse ela por cima do ombro dele.

Teus olhos são mais frescos e tem mais retina, os meus servem a mim ao contrário, enxergam para dentro e me ajudam e tirar de lá o que preciso colocar no papel. Depois disso, preciso de outros olhos para ter certeza de que o fiz bem! Disse José enquanto via Pilar sentar-se a seu lado.

Sentou e bufou, como se houvesse deixado algo importante por fazer, pela metade.

Dá-me aqui, então! Disse ela estendendo a mão e flexionando os dedos.

José pegou um calhamaço de páginas e as pousou sobre sua mão estendida, como a presentear um santo com um ex-voto.

Está aí, vais ler tudo, certo? Tens de ler tudo ou não vai prestar que me dês sua opinião. Disse sem soltar as páginas na mão de Pilar, olhava direto em seus olhos esperando a promessa.

Mas já li tudo antes, homem! Sei bem onde parei, me basta ler até onde tu acabaste de escrever, terminaste de vez, não? Disse inquisitiva.

Sim, terminei! Mas não me serve meia opinião, se for para isso eu mando a meu editor, tua opinião, afinal, é a que mais prezo. E fez olhar de quem ameaça engatar um choro.

Sabes que sempre leio tudo, me custa dizer não a ti mesmo quando não mereces meu sim mas, olha isso homem - e apontou para o vergalhão de papel no meio do caminho entre as mãos de ambos. Seja sensato, ler tudo isso de novo é penitência e eu só vou me confessar de novo daqui a dois meses que de pecados já estamos à míngua faz é tempo.

Vai, vai! Disse ele liberando as folhas com um muxoxo. Podes ler desde onde paraste, não me fica mal, fico assim de jeito mas não quero que te molestes por algo tão pequeno.

Ah, mas vem tu agora com essas manhas? Disse ela batendo com as folhas na mesa. Faz favor, José, que de filhos já tivemos cá a nossa cota e agora aqui em casa de criança só tem a ti e já basta! Chega de brincar de ser guri e vamos é ser gente, não é?

Ele resmungou algo enquanto ela separava as folhas buscando o ponto onde havia parado.

Aqui, achei! É daqui para frente, te dedicaste neste hein? Olha isso! E apontou para a resma de papel espalhada sobre a mesa.

Ainda falta revisar tudo, sabes que não é assim disse mal-humorado e cruzando os braços.

Olha, se te faz gosto eu leio tudo de novo. Disse ela pousando a mão sobre os braços dele. José a olhou de lado e sorriu maroto, ela aquiesceu e começou a ler enquanto ele ficava a seu lado apenas estudando seu rosto atrás de sinais que entregassem se estava ou não lhe agradando a leitura.

Passaram-se vários minutos, talvez horas. José tinha uma relação estranha com o tempo, ao escrever sentia como se fossem horas mas, ao apurar o tempo, havia passado dias. Ao pedir a Pilar que lesse o que escrevera, lhe parecia que passavam minutos quando na verdade tinham sido horas.

Pilar terminou e pousou a última folha sobre a mesa com a face escrita para baixo, um passarinho pousou no parapeito da janela da sala onde estavam, olhou para dentro e levantou voo. Um caminhão passou na rua roncando alto seu motor. Uma porta bateu no vizinho e alguém reclamou. Um vento leve fez as folhas sobre a mesa levantarem um pouco. Um cachorro latiu ao longe e outros responderam ao chamado. Um chiado estranho surgiu do nada, como se um rádio estivesse fora de sintonia. Um bater de palmas chamando por um nome veio da rua e uma voz feminina cantava alguma canção muito antiga enquanto fazia as tarefas do dia.

E? Perguntou ele com olhar ansioso.

Pilar esfregou as mãos nos joelhos, olhou para ele e depois para a janela onde o pássaro já não mais estava.

Que queres que eu diga? Está bom, tu sabes escrever, me irrita essa mania de não usar quase pontos e vírgulas e os diálogos misturados ao resto, há que ser muito bom leitor para entender onde começa e acaba, mas tu tens a escrita em ti. Sentenciou.

Só isso? Mais nada? Não tens nada para comentar? Sobre a trama, personagens, nada? Vais me dizer isso só? Disse ele apontando para a pilha de papel na mesa.

E tu queres que eu diga o que? Não sou tua editora, homem! Toda vez é essa mesma pantomima, tu escreves, eu leio, tu reclamas que eu não dou opinião, tu escreves de novo, eu leio, digo as mesmas coisas e tu reclama de novo, assim estamos há anos, José. Tu gostas que eu leia parece que para me humilhar ou porque precisa dessa ladainha para depois pôr nos eixos as histórias que tu inventas! Finalizou o discurso batendo as mãos enfaticamente nas coxas.

Já sei o que preciso arrumar, está claro! Disse ele recolhendo os papéis de cima da mesa e arrumando-os.

Se está claro, então vou é passar um café que essa leitura toda me deu foi cansaço! E levantou-se enquanto ele seguia pondo lá os papéis em ordem.

Foi para a cozinha, os passos remoendo cada palavra que sempre trocavam quando tinham aquele tipo de discussão. Passou o café, junto com o pó foi lá um pouco de tristeza e miudezas de uma vida de casal que, se não estava morta, ainda tinha algo sensível a se embrenhar em algum canto daquelas palavras que ele não escrevia e que ela não lia.

Queres, café? Gritou da cozinha.

Não houve resposta, de certo ele estava já a reescrever, pensou. Tomou lá seu café e depois colocou a xícara na pia, não se lavava nada ali na hora pois coisas lavadas limpam as ideias, há que deixar a sujeira assentar e depois ver se não surge dali nada interessante.

Foi-se para o quarto, sentou-se na cama e ficou ali a observar o teto e ver a luz do dia aos poucos fugindo pelas frestas da janela meio aberta. Já sentia o sono, mesmo após o café, lhe desarmando e ganhando espaço em sua corrente sanguínea, os olhos pesavam como se fossem feitos de mármore e a respiração ia arfando mais funda preparando o corpo para entregar-se ao dormir.

Já ia fechando a porta do mundo, em vigília, quando veio o grito.

Pilar!

14 de mai. de 2020

Fim de quarentena

Quando acabou a quarentena. Não sabia se era exclamação, interrogação, vírgula, ponto e vírgula, reticências ou ponto final. 


Quando acabou a quarentena, sai correndo nu pelas ruas e fui preso por mãos afoitas que não sabiam mais como era tocar um corpo. Cumpri perpétua que durou até o primeiro gozo.


Quando acabou a quarentena, abriu aquela champanhe barata que guardava feito relíquia sagrada. Ligou o som, aumentou o volume e bebeu, cantou, gritou, da janela, em uníssono com todos os outros que também celebravam. Ébrio, dançou pela casa, rodopiou, derramou a bebida no tapete cansado de guerra, proferiu palavras de ordem e já se acercando do cansaço, masturbou-se e dormiu. No dia seguinte, acordou de ressaca. Banho frio, café forte, jornais matutinos noticiando a volta do normal. Vestiu-se e munido de ânimo,  abriu a porta para encarar essa nova normalidade que chegara, a vida morreu, longa vida a vida. Olhou para a rua e, com um tremor incontrolável, fechou a porta e voltou para dentro de casa. Despiu-se, encolheu-se no sofá enquanto a televisão lhe trazia aquele admirável mundo novo.


Quando acabou a quarentena, tomou banho, fez barba, escovou dentes, desodorante e perfume. Vestiu a melhor roupa, cueca nova, sapato novo, tudo zero afinal, ele a rua iriam desvirginar, carecia fazer a corte; há tempos estavam em namoro platônico, soltando suspiros pelos pulmões e asfalto. Deu uma última olhada no espelho só por garantia e, dono de segurança inabalável construída durante a quarentena, saiu ao encontro da amada. Morreu atropelado ao colocar os pés na rua, o sangue escorreu pelo asfalto quente, o trânsito nervoso saindo da quarentena reclamou, as pessoas aglomeraram para ver algo que não viam há tempos. Alguns juravam ter visto água correndo junto com o sangue. Talvez um encanamento aberto. Talvez a rua chorando o amado e pedindo desculpas afinal, era de sua natureza.


5 de mai. de 2020

sem mil

cem mil. cem mil. cem mil.

e o povo segue mugindo, lambendo as botas do messias.

e o povo segue na rua porque acha que é só uma gripe.

cem mil. cem mil. cem mil.

e o presidente segue ensandecido pregando o fim da democracia e o fim da sociedade, ele quer um feudo, um reino, um gueto, não um país.

cem mil. cem mil. cem mil.

e o povo segue com a bandeira verde e amarela suja de merda, cagada por eles com seus brados de AI-5 e golpe, comem merda e arrotam bosta, colocam suas bocas no ânus do  mito sedentos pelo maná de fezes que ele defeca todos os dias em suas bocas famintas.

cem mil. cem mil. cem mil.

e as pessoas estão mijando sobre as covas dos mortos, rindo das famílias, fazendo troça de quem está lutando pela vida e dizendo que não se pode fazer um país sem quebrar algumas cabeças.

cem mil. cem mil. cem mil.

e as pessoas saem vestidas em festa pedindo a morte geral, do país, querem matar a nação para fazer nascer uma utopia horrenda, Heil Jair! Vistam suas suásticas!

cem mil. cem mil. cem mil.

e o brasil morreu, morte horrível, morreu lenta e dolorosamente, câncer, tumor, corroeu tudo quando deixou aquele homem e sua família maldita entrar e morreu rindo, cantando o hino nacional, vestido das cores nacionais, fechados com o presidente, salve, salve.

cem mil. cem mil. cem mil.

e o demente federal aplaude, abraça e espalha o vírus do totalitarismo sem medo, com orgulho, fleuma e sem vergonha de ser ditador. 

cem mil. cem mil. cem mil.

e não tem problema porque só existe morte quando convém ao presidente, quando ela for a favor de seus planos para o brasil, deus acima de todos e acima dos mortos, eu sou o estado e a constituição é meu papel higiênico, vejam como eu limpo minha bunda messiânica com ela.

cem mil. cem mil. cem mil.

e o messias quer mais, quer duzentos, trezentos, quinhentos mil ou um milhão porque esses mortos serão os alicerces sobre os quais ele erguerá seu novo brasil, sua nação soberana great again, america, america, god shed his grace on thee, bate continência pro presidente alaranjado e muda a cor da bandeira para star spangled banner, make fascismo great again.

cem mil. cem mil. cem mil.

mas para o messias, não há morte que seja suficiente, messias que é messias só fica satisfeito quando todos estiverem mortos sob seus pés e servindo eternamente sua vontade nazista suprema, ele é o caminho, a verdade e a luz de todos os finais de túneis.

cem mil. cem mil. cem mil.

não tem problema, sempre podemos fabricar mais fascistas.

29 de abr. de 2020

Distopandêmico

Mais um dia.

Normal. Absolutamente. Normal.

Acordo com o despertador que toca todos os dias a mesma nota monocórdica e, em seguida, automaticamente começa a despejar as notícias que deveriam chamar-se velhicias já que são as mesmas de ontem, semana passada, mês passado e amanhã, semana que vem, mês e ano que vem.

Bom dia, cidadão! Estamos hoje no dia 11894 de nossa Quarentena. A quantidade de pessoas infectadas é 2.909.478.365,6 e a quantidade de mortos até o momento 12.899.765,87. O Governo está trabalhando arduamente para manter a pandemia sob controle, sua participação é muito importante!

Vou ao banheiro e aciono o temporizador, esta semana meu distrito pode usar até 8 minutos de água por unidade habitacional, o temporizador já foi atualizado com essa quantidade, tudo é automático, nós somos, aperto o botão e entro no chuveiro já com a escova de dentes, não há pia pois é um desperdício de água, fazemos tudo no chuveiro onde, agachado, os tubos sanitários se acoplam automaticamente para colher fezes e urina enquanto escovo os dentes. Não, não ha vaso sanitário ou qualquer coisa parecida, um gasto excessivo, desnecessário, os tubos fazem um trabalho muito melhor e usando quase nenhuma água.

O Governo informa que traidores da pátria foram presos e fuzilados na data de ontem. A operação foi um grande sucesso resultando na apreensão de alimentos orgânicos, carne e outros artigos que poderiam contaminar muitas pessoas e matar compatriotas. As autoridades seguem seu trabalho e você, cidadão, pode ajudar denunciando quaisquer atividades suspeitas.

Em seguida, a água fria cai em quatro jatos fortes enquanto de um orifício central escorre um fio de uma gosma branca que usamos para a assepsia geral. Tudo deve ser cronometrado, se nos perdemos em divagações podemos ficar sem banho ou sair dele sem tirar todo o líquido que faz a limpeza. O temporizador emite bipes agudos quando o tempo está por esgotar-se, geralmente aceleramos o processo para evitar não sermos capazes de terminar o banho, o meu já está apitando.

O Governo de sua excelência Jair IX segue trabalhando arduamente para combater não apenas a pandemia mas os inimigos do país. Faça sua parte! Economia é força, obediência é sabedoria, denunciar é amar!

Saio do banho e fico em frente aos jatos de ar quente para secar-me, não há toalhas, desperdício de tecido, os jatos duram exatos 17 segundos durante os quais devo colocar-me de frente e costas para que eles removam toda água. Nu, volto para o quarto-sala-cozinha-utilitário onde já me espera a roupa que usarei no dia. Não há necessidade de guardar roupas, elas são descartáveis e diariamente, recebemos por tubos pneumáticos as que usaremos, embaladas à vácuo, higienizadas e esterilizadas e que deverão ser descartadas ao final do dia na cremalheira central de cada prédio antes de regressar à minha unidade.

O Governo informa uma safra recorde de multi-grãos e sinteproteínas. Isso representa um ganho para nossa sociedade e uma possível solução da crise de abastecimento causada pela pandemia, as autoridade seguem trabalhando para que todos possamos ter o suficiente para viver bem. Lembrem-se: O que é muito para um, é pouco para todos. Economia é força!

O despertador toca novamente avisando que devo me apressar, já começo a me atrasar, não sei como está o tempo lá fora porque não há janelas, todo o ar que respiro vem através de tubos e encanamentos que filtram o ar algumas centenas de vezes até chegar aos meus pulmões. Não há brechas ou espaços nos cantos ou beiradas, tudo é vedado hermeticamente e selado para garantir um ambiente seguro e totalmente esterilizado.

O Governo de Jair IX informa que as celebrações online do aniversário de sua excelência serão transmitidas online no horário de 21:00 logo após os autos de aclamação. Não esqueçam de ouvir atentamente ao pronunciamento, sua atenção é compulsória e as penalidades previstas em lei serão aplicadas aos faltantes.

Apressado, tomo meu desjejum que também já está pronto. Todos os dias, um cardápio balanceado é entregue por um sistema de bandejas autômatas, preparado para atender às minhas necessidades nutricionais diárias, não podemos comprar alimentos, há risco de contaminação, os pratos são entregues em horários pré-determinados e concebidos por nutricionistas que conhecem a fundo o funcionamento do corpo humano e a melhor dieta para otimizar seu desempenho.

E agora, novos números da pandemia...

Já estou atrasado, o despertador informa junto com as mesmas notícias de sempre. Aperto um botão na parede e recebo os itens de segurança que usarei no dia: luvas isolantes, máscaras de tripla camada, óculos protetores, touca protetora e minha dose diária de antiretrovirais, não, não são uma cura, apenas um tratamento paliativo que pode evitar a contaminação ainda que, quase semanalmente, mudem as drogas ante alguma nova mutação do vírus, ele parece mudar mais rápido do que podemos criar novas drogas.

O Governo informa que encontra-se avançado o estudo de antiretrovirais de última geração que, segundo apontam as pesquisas, poderão derrotar o vírus definitivamente! Os testes em humanos devem iniciar dentro de alguns anos. Há esperança! O Governo é de fé!

Estou pronto. A porta sem maçanetas abre ante minha presença, só voltará a abrir quando eu regressar ao fim do dia para repetir todo o processo só que ao inverso, descartar as roupa e equipamentos de proteção, passar pela câmara de descontaminação antes de entrar em minha unidade completamente nu e, uma vez lá dentro, ir direto para o chuveiro. Depois, comer ouvir mais notícias no despertador e aguardar a hora de apagarem as luzes, economia, estamos em pandemia, os recursos são escassos, precisamos fazer sacrifícios. é assim, não podemos ser egoístas nesse momento.

O Governo do excelso Jair IX informa que a pandemia será derrotada com o apoio de todos. Cada um de nós deve fazer sua parte! Acreditem! Nosso país é forte, é unido, somos um povo determinado e os sacrifícios que pedimos a todos são os mesmos que nossos governantes fazem de bom grado! Pátria amada! Somos seus filhos e de nosso líder Jair IX!

16 de abr. de 2020

Carta aberta ao COVID-19

Sr Corona eu ando aqui pensando em que faremos quando o senhor nos deixar porque com o senhor ainda temos um inimigo que joga limpo e que, a grosso modo, está apenas fazendo o trabalho que a natureza lhe designou. 


Eu sei que o senhor não faz o que faz por gosto e mais porque, igual aquela fábula do sapo e do escorpião, está em sua natureza, tudo bem! Mas, quando senhor for embora teremos de seguir vivendo com o Bolsovid-17 e contra o qual não achamos até o momento qualquer vacina ou tratamento porque esse vírus se instala nas pessoas e as transforma em mortos-vivos que mugem MITO sem parar e não param de usar as redes sociais. 


Eu fico apreensivo sabe, Sr. Corona, porque assim, o senhor está cobrando um preço alto mas logo vamos encontrar um meio de conviver consigo enquanto a pandemia Bolsonaro é meio que sentença de morte para todos sem qualquer grupo de risco. 


Não sei se o senhor teve tempo de ouvir os pronunciamentos dele ou acompanhar suas redes sociais, entendo que esteja assoberbado de trabalho no momento mas, se tiver um tempo, peço que gasta uns minutos com isso só para entender em que buraco o senhor se meteu e nos meteu fazendo valer aquela máxima de que nada é tão ruim que não possa piorar mas, honestamente, o senhor poderia ter esperado mais un três anos ou a queda do mito para chegar por aqui não é? Ou fizemos algo muito ruim (sem contar a eleição do messias) para tamanho desagravo? Sei que não devíamos reclamar, veja o Egito que teve aquelas pragas mas, elas vieram em intervalos e nós recebemos tudo de uma vez, não me parece muito justo, só acho. 


Enfim, gostaria de saber se o senhor pretende ficar muito tempo só para ter uma ideia do que fazer e quando entrar em pânico, se for ficar muito tempo a gente se ajeita como der, somos um povo acostumado a ser tratado como esgoto então de boa mas, se for mesmo ficar mais tempo como perguntei, queria saber se o senhor poderia fazer uma visitinha lá para o Bolsonaro e sua família, sabe como é, prestar seus respeitos e tal, acho que seria de bom tom de sua parte e ajudaria a gente porque o senhor já estamos sabendo como tratar mas o Bolsonaro está meio complicado. 


Um abraço!

Inspirado pelas publicações de João Silvério Trevisan em sua página no Facebook

3 de abr. de 2020

Canção para fim de quarentena

Quando acabar essa doença toda eu quero sair pra ver a rua que a rua não me vê se é que um dia me viu.

Quero ficar doente de gente , infectado de nós, contagiado de sexamor e gozopleno, humanovirus.

Quero uma quarentanós entre quatro paredes até que a gente acabe lambendo os ossinhos um do outro.

Quero inficção de livros, de prosa, de verso, de métrica, de réplica, de sexofaladofeitoaquatromãos.

Quero teste de contágio da contagem de beijos e orgasmos que vou ter e quero contraprova de todos os falsos posinegativos que me disseram que eu não iria mais tocar ou deixar tocar.

Quero o gosto do gozo que falo que quero que preciso sentir porque andei na quarentenoia, abstinência, falta, peru frio e tremedeira pós pandemia.

Quero dar meu amor pra quem pedir, minha boca de quarentena seca e pronta pra molhar, jorrar, lamber todos os lábios e buracos que eu nem lembro mais onde estão.

Quero sair de mim e entrar em nós, quero sair de nós e entrar em loop, por as pessoas no shuffle e sair beijando e abraçando até que eu seja a pandemia.

lembranças aleatórias não relacionadas com a infância

Lembrança #10 Lembro de uma festa ou rave ou balada que eu ajudei um amigo a organizar num tipo de sítio eu acho. Estava separado do meu nam...