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27 de set. de 2022

a necessidade que não é necessária

Já me perguntaram inúmeras vezes porque escrevo, o que motiva, qual o ímpeto, qual a razão, enfim, aquelas perguntas de sempre o que é normal, para quem está de fora, escrever parece algo mágico quase sobrenatural.

Não sei bem se acredito em dons ou bênçãos, algo do tipo 'você nasceu com esse dom' mas, pode até ser, porque não? Se há algo divino ou sobre ou super natural no ato em si, desconheço mas sei que escrever está em mim desde muito cedo assim como acho que está em todos que escrevem salvo raras exceções que podem não escrever por natureza mas por esforço o que também vale afinal, o que importa é escrever, se é bom ou não tem muita gente aí para dar um parecer.

Escrever pode ser um hobby como pode ser uma profissão como pode ser destino, praga, martírio, horror, gozo, trabalho, enfim, uma série de coisas dependendo de como você encara a profissão de fé mas, escrever é uma necessidade, ao menos para mim. Há uma urgência, uma fome, um desejo de expressar que, imagino eu, todo mundo que trabalha com algum tipo de arte, tem.

A coisa começa a ficar problemática quando tentamos associar essa produção com sucesso, reconhecimento e afirmação, coisas distintas mas relacionadas.

Hoje, com a internet e redes sociais e dancinhas e vídeos e reels, todo mundo quer e consegue sua tão merecida fama de 15 ou mais minutos mas essa é uma droga poderosa, vicia mais que crack e quando não conseguimos, vem a abstinência.

Não sou hipócrita, obviamente desejo sucesso e reconhecimento, quem não? Viver constantemente em busca disso, não. Houve um tempo em que sim, buscava muito e incansável mas, numa sociedade que pouco valoriza a leitura e arte de forma geral, as janelas de oportunidade são poucas e muitas vezes, de cartas marcadas.

Ah! Lá vem o amargo e rancoroso! Vocês podem dizer mas é a mais pura verdade, a literatura por si é bela e me proporcionou alegrias não há como negar, ao mesmo tempo, pude ver sua outra face horrenda cheia de dentes, aparências e contradições o que é normal, todo ambiente é assim pois é feito de pessoas e pessoas são complicadas e cheias de falhas então, nada demais que seus ambientes também o sejam.

Abri mão disso para viver em paz comigo mesmo, quero prêmios e sucesso? Sim! Quero isso a qualquer custo? Não. E para quem disser que é mentira, tudo bem, seu direito não acreditar e pensar que eu não lido bem com o sucesso alheio o que, se me permitem, afirmo ser totalmente falso.

Num país que trata cultura e livro como crime, qualquer um de nós que ultrapasse a barreira merece meu apoio e abraço, fico extremamente feliz quando vejo amigos escritores conseguindo reconhecimento, uma parte de mim vai junto e não me sinto esquecido, menosprezado ou preterido por isso.

Creio que a ideia central aqui seja fazer primeiro para si e depois para os outros e não aguardar uma grande chance que pode jamais vir, ser realista e parar com o complexo de coitado, não aconteceu? Tudo bem! Deixe estar! Mais importante do que ser laureado é ser lido e ter deixado de alguma forma sua marcar mesmo que seja mínima.

A alternativa pode ser frustrante e decepcionante e o preço a ser pago, alto demais.

4 de dez. de 2020

vazio da frente

 


O apartamento da frente fora desocupado há poucos dias, podia ver as paredes de um branco cansado, nuas, os buracos de pregos feito estigmas relembrando quadros mortos ali antes pendurados, a janela agora sem cortinas, selada, revelando o que antes era apenas vislumbrado.

A porta do quarto escancarada mostrando um espelho deixado para trás, provável que não pertencesse aos últimos moradores e nem mesmo aos que antes deles vieram, espelho é coisa que se leva consigo, carrega parte da alma e da soberba humana, coisas que costumeiramente não se abandonam em qualquer lugar. De certo refletia outros tempos e pessoas que impediam os vindos depois de criar algum vínculo com a imagem que tentavam refletir e assim, o deixavam ali como guardião emérito.

A janela do quarto, vista parcialmente, despida de qualquer roupa deixava ver o outro lado do prédio, como se aquele metro quadrado fosse algum tipo de universo paralelo onde se podia existir em algum tipo de vazio. Esta também residia fechada, as do banheiro, pequenas, também e se as da área diminuta de serviço assim fossem, teriam ali dentro ficado trancados um sem fim de frases, risos, choros, suspiros, amores, dissabores, alegrias e tristezas vagando pelos cômodos a esmo, esbarrando uns nos outros esperando obter algum sentido ou resposta que talvez jamais viesse.

Quem sabe futuros moradores poderiam sentir no ar esses resto mortais de conversas e sentimentos passados, atribuir ao mofo e assentar residência ali sem saber de tudo que ali já fora proferido e feito. As paredes poderiam ganhar um branco mais alvo, os buracos de pregos novos moradores e aquele bando de frases soltas enclausuradas novas bocas por onde pudessem entrar e aguardar bem quietinhos o momento de voltarem ao mundo fosse para agradar ou causar estrago.

Pensou mesmo que houvesse algum tipo de má-fé embutida na moradia já que lhe parecia que os que ali tentavam fixar residência tinham uma permanência extremamente efêmera mas, se há esse tipo de coisa, cria mais que fosse fruto da ação humana pura e estúpida que devido a poderes sobrenaturais, os espíritos deveriam ter coisas mais importantes e agradáveis a fazer que perturbar os vivos já que deles prescindiam, haviam livrado-se deste incômodo, podiam vagar pelo universo, não careciam amaldiçoar os vivos que o faziam muito bem por si mesmos.

Suspirou, profundamente. Pensou se um dia ali onde residia seria uma réplica do apartamento vazio em frente, sabia que esse dia chegaria e o aceitaria calma e docemente ainda que apegado a um certo sentimento de posse mas, sabia que o corpo que usava, assim como o imóvel, eram apenas arrendamentos com ilusão de posse, chegada a hora, passariam a outros que necessitavam mais deles, era assim a coisa toda.

Desejou intimamente sorte a quem quer que fosse o novo morador do apartamento vazio, fosse o dele ou aquele à sua frente e foi lá cuidar de sua vida emprestada.

Era o que podia fazer.

3 de dez. de 2020

sete dias

 



SEGUNDA-FEIRA


É saudade então, algo que já vi e não vejo mais ou um desejo inerte que desperta ao toque ou sussurro de alguma palavra mágica, ánima que faltou quando da concepção, talvez seja isso a busca pelo amor. Quando fecundados, algo se perde na fusão dos gametas e, saídos do ventre, passamos o resto de nossos dias a buscar esse complemento que nos falta.


Acho que você buscava o mesmo ou os olhares não haveriam de cair em traição e posto a nós em situação de desconforto agradável. Depois de cruzados, o caminho já ia sem volta e do olhar passamos a palavra e pequenos gestos que denotavam um sentimento mútuo embrionário.


A criação demanda tempo mas desse bem, os que gostam parecem dispor com bem lhes parece ainda que, incoscientemente, saibam seguir seu ritmo e direção únicos.


TERÇA-FEIRA


O que demanda o sentimento, o desejo prescinde. A carne deve ser provada até os ossos, como se apenas neles residisse a essência, o gosto. O afã do início rouba de nós o prazer da degustação, quando finalmente resolvemos deixar o paladar banquetear-se, o sumo do gosto já foi sorvido e ainda que a carne seja saborosa, seu suco primordial já se foi e passamos apenas a mastigar o mesmo naco até dele sorver a última gota de suco.


Todavia, é um processo prazeroso esse e nos entregamos a ele com afinco afinal nossas carnes eram tenras e novas, havia muito que saborear e pouco que refugar. Durante as refeições eu, você ou nós deixamos escapar algo que não estava no cardápio ou deveria ser a sobremesa o que adoçou ainda mais as bocas e nos fez pensar nos dias que viriam trazendo apenas mais sabores.


QUARTA-FEIRA


A metade é um lugar inóspito, inspira cuidado pois é invariavelmente o ponto de onde se decide ir adiante ou retornar de forma segura. Tal decisão deveria ser tomada de forma cuidadosa e pensada mas, costumamos fazê-lo de julgamento impreciso, infestado de emoções inebriantes e promessas de que tudo sempre será melhor no dia seguinte, na próxima esquina, ao virar a página.


Ainda que os presságios sejam animadores, deveria haver algum tipo de regra que forçasse a todos, chegando em tal estágio, pesar bem o que fazer em seguida e tomar uma decisão proveitosa a ambos mesmo às custas da desgraça de uma das partes.


Infelizmente, isso não ocorre, sentir é tomar decisões assim, se fosse o oposto o mundo viveria em paz e os casais estariam juntos para sempre ou cada um vivendo tranquilamente uma existência única, pacífica e plena de si mesmo.


Tomamos as mãos um do outro e mandando às favas qualquer sinal ou sugestão de bom senso, seguimos em frente deixando para trás qualquer possibilidade de fazer a volta. Isso é amor, se fosse o contrário não o seria ou estamos todos cegos e carentes ante a hipótese de seguir sozinhos um caminho tão longo.


QUINTA-FEIRA


Depois de um tempo, até o inominável ganha nome, é do humano nomear as coisas e isso feito, passa-se a criar um laço afetivo com o nomeado e a partir desse momento, ele começa a fenecer.


Talvez deixar as coisas sem nome fosse uma alternativa mais honesta e que nos permitiria uma vida menos atribulada mas, não somos assim e seguimos dando nomes a tudo que vemos pela frente. Demos os nomes ao que sentíamos e isso nos encheu de orgulho, talvez isso seja a causa da morte de muitos ou seja apenas o cansaço.


Registramos em cartório, reconhecemos firma e voltamos para casa satisfeitos.


SEXTA-FEIRA


A antecipação é uma antessala cheia de gente onde ninguém é chamado pela ordem de chegada, senha ou nome. Ficamos todos ali esperando, os pés tremendo nervosamente, as pernas abrindo e fechando e os dedos tamborilando sobre as coxas.


A questão é que antecipamos algo que já sabemos, conhecemos e sabemos certo mas fingimos não saber, feito uma surpresa ao contrário. A felicidade tem um valor, é certo, problema é estipular o preço, essa conta fecha pouquíssimas vezes pois a matemática que usamos nunca é mesma.


Se eu quero multiplicar, você divide, se quero somar, você quer subtrair, se quero chegar a raiz quadrada, você faz cara de pi e assim vamos.


SÁBADO


No sétimo dia descansamos, exaustos um do outro.


DOMINGO


Fui a missa bem cedo, você estava lá também mas sentado do lado oposto ao meu.


A homilia seguia seu curso, cada um ali fermentando seus pecados e arrependimentos, olhando para as imagens de ar sofredor buscando algum alento, as palavras proferidas eram apenas mais uma chibatada em lombos já em carne viva, deveriam servir redenção mas só havia mesmo penitência.


Estava ali para prestar meus tributos ao falecido, não esperava que voltasse dos mortos feito o Nazareno mas, achei de bom tom ao menos encomendar uma missa em seu nome já que me fora tão importante durante tanto tempo.


De soslaio olhava para você, quem sabe não viera fazer o mesmo, vi o tempo que marcar bem cada minuto nosso em suas faces e não apenas nas minhas, suspirei fundo olhando para as pinturas nas paredes e cruzei olhos com aquele santo das causas perdidas ou impossíveis, não lhe pedi nada porque já havia passado e muito o tempo de lhe fazer pedidos, era momento de aceitar e purgar e deixar ao altíssimo qualquer possibilidade de julgamento.


No momento em que os falecidos eram citados em solene homenagem, abaixei a cabeça, arrisquei um olhar em sua direção e acho que vi algo úmido em seu rosto mas não sei ao certo, me contive em relembrar os mortos e desejar que estivessem em lugar melhor, cabe aos vivos apenas isso e tocar a vida até o momento de ir com eles ter e saber se lhes fizemos justiça ou vergonha.


Acabada a missa, saí de fininho, queria deixar aquele lugar o quanto antes e antes de você mas, acho que as entidades superiores fazem graça conosco e a aglomeração à saída me deteve o suficiente para que logo no umbral nos deparássemos um ante o outro.


Acho que vi as imagens virarem seus rostos nesse momento em tensão, não sei, Trocamos olhares velhos, cansados e sentidos, velávamos o mesmo corpo e agora era tempo de deixá-lo cumprir seu ritual de passagem.


Esprememos cada um nossos lábios num esgar de sorriso de compreensão mútua ou resignação e saímos dali para a vida que seguia seu curso normalmente do lado de fora.




20 de jul. de 2020

esse ônibus não passa mais aqui...

Despertador toca mas eu não me toco e sigo naquele estado saindo do sono entrando na realidade ou seria o contrário?

Despertador toca de novo e então eu me toco mas custa tocar a vida, custa acordar, custa sair da cama, custa por os pés no chão, custa tomar banho, custa escovar os dentes, custa fazer a barba, custa coar um café, custa cortar o pão dormido, custa passar manteiga rançosa, custa jogar tudo na pia de pilha de louça arqueológica, custa vestir a roupa, custa calçar os sapatos, custa encontrar as chaves, custa sair de casa, custa pegar o elevador, custa engate de conversar sem sentido com gente, custa dar bom dia, custa olhar pra rua, custa andar até o ponto, custa chegar lá e ver que o ônibus que precisava pegar já passou...

15 de jul. de 2020

o drama que eu não sei por em palavras

quando eu te beijei e você me beijou e nós nos beijamos naquele pântano onde beijo era flor deixamos de ser sapos para nos tornarmos homens. não príncipes que isso é coisa de sonho, inventado, placebo para deixar a mente nervosa cheia de fantasias de amor dormido, comido, sonhado entre copos de café desses que ficam o dia todo na garrafa térmica e pães dormidos.

fica comigo você disse.

por quanto tempo eu perguntei.

pra sempre você disse.

eu ri porque ali nada era para sempre e tudo era para sempre agora, momento, passa, piscou já foi. quando a gente é jovem, para sempre é muito tempo. quando somos adultos, para sempre pode ser uns meses ou anos. quando somos velhos, bem, quando somos velhos para sempre já não existe mais.

nos amamos na carne, ali, em pé, quem ama como nós aprende a amar em qualquer posição porque não há disposição que nos permita amar em outras posições e nossa posição é não abrir mão do amor mesmo quado ele se posiciona contra a gente.

saímos de lá cegos, surdos mas de mãos dadas, não fisicamente mas em pensamento, tem coisas que a mente faz melhor que o corpo eu acho. bebemos alguma coisa num boteco qualquer e eu queria ser mais articulado para ter convencido a mim mesmo de que eu amava, mas eu era coito interrompido, você sabia eu acho, já era mais do que eu, tinha certezas que para mim eram rascunhos, eu ainda tateava no escuro do desejo enquanto você já tinha encontrado as saídas.

nos despedimos. ou não. não lembro ao certo, talvez, não sei. sei que uma semana depois estávamos juntos de novo, ou quase porque eu cheguei no horário àquele pântano com cheiro de desinfetante barato e semente de homens e não te vi ou não queria te ver, ou não queria te encontrar, ou esperava que não viesse, ou torcia para que se atrasasse além de qualquer espera razoável e assim, eu poderia ir embora tranquilo ou menos nervoso.

dizem que o que gente pensa molda o mundo ao nosso redor. você não chegava, eu resolvi ir embora. aliviado mas triste. aliviado mas com raiva, aliviado mas puto. aliviado mas decepcionado. ali viado. e quando eu ia entrar na estação de metrô dou de cara contigo. contágio, letárgico, pandemia, epidermia, taxidermia de sentimentos, gelei e você com olhos dizendo achei que você não viria mas você veio e eu me atrasei e você ia embora e eu quase te perco mas olha que coisa que nos trombamos assim então era para ser e a gente vai ficar então.

sim. o universo tem bilhões de estrelas, galáxias, constelações e tudo mais. deveria estar mais ocupado criando e destruindo mundo, sugando estrelas e parindo mundo mas, ele parece ter mãos invisíveis, milhares delas, milhões talvez e às vezes, ele pressente que num planeta besta como o nosso, cheio de gente que não vale a poeira de um estrela, alguém precisa de um empurrão, de uma ajuda, de um incentivo e faz das suas.

fez de nós. depois desfez porque ele tem dessas também, não se importa muito com a gente e da mesma forma que nos junta, nos separa sem muito pesar. é assim que funciona. é assim que as coisas são. é assim que a gente é, deixa de ser, fica sendo e nunca é.

até hoje quando eu espero alguém que se atrasa, penso no que esse atraso pode me trazer e tenho vontade de atrasar os ponteiros só para ver se acontece de novo mas aí eu lembro que os ponteiros do relógio medem um tipo de tempo e que o universo mede outro tipo de tempo e que nesse meio tempo quem está perdendo tempo sou eu.

e eu fico então só lembrando desse dia quando o tempo deu certo para nós dois e esqueço do tempo até alguém me lembrar dele...


3 de jul. de 2020

Que tal quebrar as barreiras?

Tenho feito, como disse em posts anteriores, um esforço pata furar a bolha literária e conhecer a escrita de pessoas que também estão lutando por seu espaço, voz e visibilidade.

O clube fechado do panteão literário precisa ser desfeito e deixar novos ares penetrarem, novas ideias, novas letras mas, sabemos que isso é missão complicada e mesmo assim, seguimos nela com força e fé. Claro, ser reconhecido, laureado, ovacionado, premiado, quem não quer? Até o mais sonso mas, parece que ao transpor esse umbral e passar para essa outro lado algo muda ou seria impressão minha?

Da mesma forma, alguns dos prêmios mais cobiçados da literatura parecem fazer questão de atuar como peneiras sociais vide o exemplo de um dos mais desejados que cobra um bom punhado de dinheiros em sua inscrição fora os gastos com a compra e envio dos livros para a comissão julgadora. Oras, num país sem governo, pandêmico, desigual até a medula, pedir aos autores que ao custo de muito suor e lágrimas desembolsem essa grana é vilanesco, concordam?

Há quem diga que isso separa o joio do trigo mas, quem é o joio e quem é o trigo? Um autor que escreve seu livros e luta para divulgar seu trabalho e vender seus livros quase de porta em porta tem menos valor do que o autor que consegue todo o aparato mercadológico? Obviamente que não sou hipócrita, adoraria ganhar um prêmio, quem não gostaria? É meio que uma ratificação de que somos realmente escritores, um reconhecimento perante nossos pares e, claro, reconhecimento financeiro que escritor tem conta para pagar sim senhor, igual todo mundo.

Precisamos dar espaço e dar valor aos nossos amigos que lutam conosco, que escrevem conosco e essa tarefa que tenho me dedicado. Não deixo de ler os 'grandes nomes' e penso que todos merecem seu lugar ao sol, ganhar prêmios e serem reconhecidos, é o mínimo mas, se está complicado para quem já tem uma carreira consolidada, imagine para quem ainda tem de matar um leão por dia para conseguir escrever?

Nesse intuito, deixo aqui dois colegas que recém descobri e que valem um minuto de sua atenção.



Esse moço André Amadeu escreve a real, porrada na cara, suas crônica são extrações de um cotidiano cru e duro, você ler minha resenha sobre este seu livro aqui.


Esse outro moço Kaio Phelipe traz uma boêmia concreta singela de boteco urbano asfalto doce amargo doente de amores perdidos achados encontrados e perdidos novamente com uma singela aquarela de inocência que está no seu final mas ainda se agarra aos ossos, você pode ler minha resenha aqui.

E busque, procure, leia autores novos e independentes!

Tem muita gente boa aí precisando ser lida e reconhecida.

24 de jun. de 2020

eu sinto que seu amor já foi algo melhor

pregava um prego, na parede que é onde se costuma pregar um prego mas, parecia que não era lá mas em mim, cada martelada não acertava a cabeça do prego mas a minha, na testa, e fazia o caminho até o coração, latejando pelas têmporas, olhos, nariz, boca, queixo, pescoço, garganta e chegando lá, onde tudo martela a cento e vinte marteladas por minuto.

eu dava marteladas lentas, precisas, mirava o prego mas tinha em mente outra coisa, foi somente quando, distraído, acertei o dedo e não o prego que notei não estar pensando em acertar o prego mas você. aquele prego era você, não era um prego, feito de metal, fino e de cabeça chata, feito para ser martelado, pregado, usado para fixar algo em paredes ou em qualquer outra superfície, os mesmos pregos que prenderam o messias na cruz, os mesmos pregos que pregaram eu e você.

com pequenas diferenças.

você não era feito de metal, era fino ou tinha a cabeça chata ainda que fosse obtusa e precisasse de umas boas marteladas para funcionar e dar conta das coisas. já eu, não era nenhum messias, não tinha cruz para ser pregado só se considerar a vida que levávamos como algum tipo de cruz, seria? acho que sim mas, se eu não era messias e você não era prego então não havia cruz e, se não havia cruz, quem nos martelava era a vida mas a gente achava que éramos nós mesmos, pregando, tentando pregar o amor em nossas paredes, fracas, rachadas, cheias de falhas, trincas e lascas.

levei o dedo martelado, latejando, latejar no coração, mais batimentos, à boca e o sorvi com gosto, feito criança, infante, eu era um, desfeito, sem doce, sem nada, aquele dedo na boca latejando era um pirulito de alguma espécie que eu chupava com ganas de que fosse você, aquele prego que eu deveria ter pregado mas nunca acertei fazer o furo na parede da gente.

chupei o dedo com mais afinco, fechei os olhos, ele era apenas um dedo, chupei então o martelo, ali em minhas mãos, assassino de pregos, de vidas, que valor pode ter uma coisa que passa a vida dando na cabeça dos outros? então, qual o valor do amor? ele fica dando na cabeça dos outros, martela também, pregos, fundo na gente até sangrar e quase sempre acerta e tirar os pregos que ele coloca é difícil, quase impossível e a remoção geralmente traz mais dor que alívio mas a gente tira assim mesmo.

o martelo não resolveu nada, de chupar eu digo, de pregar eu já tinha desistido mesmo. olhei para o prego na parede, no meio do caminho entre a parede e minha vida, mais uma martelada e estaria pregado, para sempre, não, para sempre não que não há prego que fique pregado para sempre, a gente sempre tira, arranca fora, o que se pendura pode até ser velho, ou novo, mas os pregos tem de ser sempre novos, como se ficassem cegos depois da primeira pregada, descarte, desuso, lixo, igual a gente pregado de amor, ou não.

peguei o prego e o puxei, não usei o martelo, queria sentir meus dedos em volta daquele pedaço fino e pequeno de metal frio. ele resistiu, acho que já estava meio que pregado já mas, não me dei por vencido, já arrancara muitos pregos muito mais difíceis que aquele, só uma questão de jeito e, finalmente, ele cedeu e saiu deixando um pequeno buraco na parede.

olhei para o buraco, pequeno, quase imperceptível, de longe nem se poderia dizer que a parede tinha um buraco onde antes havia um prego e até alguma coisa pendurada nela mas, ele estava lá, olhando para mim com seu olho único e eu para ele com meus dois olhos. fiquei pensando em quantos buracos não abrimos, quantos não fechamos, quantos deixamos com pregos sem nada pendurado, pensei nisso e pus o prego na boca, chupei devagar e com calma, comecei pela ponta e fui chupando devagar até chegar na cabeça chata do prego, deixei ela para fora enquanto chupava o resto do prego, o gosto de metal tomando a boca, a língua, o céu da boca e descendo pela garganta para martelar até o coração, aquele prego sendo martelado até o fim dos dias.

chupei a cabela do prego para dentro, deixei o prego dançar um pouco na boca, acho que machuquei alguma parte dela, deixei juntar bastante saliva, para enferrujar, derreter, decompor o prego e o engoli, senti passar pela garganta e tomar o caminho do coração, não do estômago e fiquei feliz, peguei o martelo e comecei a martelar meu peito.

de forma lenta, pausada, concisa, certeira, gentil até mas determinado a sentir que o amor ficaria dessa vez pregado para sempre ali.

12 de jun. de 2020

em terra de hétero, quem tem amor é gay

eu cai de quatro, cinco, seis, sete, oito, nove e dez.

cai por ele e cairia de novo, seguiria caindo até dar com a cara no chão, ou debaixo da terra, ou debaixo disso ainda, ou até no inferno, ou até depois do inferno deixando o diabo falando sozinho que eu só ia parar quando desse a volta completa e voltasse da queda para estar ali de frente, olhando naqueles olhos cor de não sei quem ou o que, cor de tudo, furta cor, furta cores, furta eu que não sou mais meu mas seu, me leva, me rouba, me assalta, me salta, me alta, me deixa assim com esse ar de gozo antecipado.

hétero não sabe amar assim de cara, de pronto, de súbito. tem de fazer corte, jogo, simula, desfaz, vai e não vai, faz de conta, agora vai e não foi, tem de brincar e dizer coisas que ninguém entende e depois passa os dias tentando recriar o primeiro dia dos namorados, aquele, doce, de beijinhos e juras, de jantar e motel, de beijo na nuca e carinho nas pontas dos dedos, de mão suave pelas costas e mãos suadas pelas coxas.

hétero passa quinze minutos ganhando e o resto da vida perdendo.

não sei, algo na água ou no líquido amniótico deles, ventre materno dever ter alguma coisa que deixa eles assim porque não tem como. talvez seja isso, se fossem gestados pelo macho não fossem assim, como são gestados por mulheres, parece que desde de lá de dentro já começam a intuir que não é seu ambiente, inóspito, insípido, arisco e depois tentam voltar mas não dá e aí não sabem mais tratar, lidar, amar, conhecer, serem mais úmidos uns com os outros, nas mãos, nos lábios, nas pernas, nas coxas, nas orelhas, nos sexos.

ser hétero é carecer de umidades, buscar algum tipo de liquidez e fluidez que não existe mais, saliva que seca nos cantos da boca enquanto gueis já nascem nadando, boiando em águas coloridas e são águas por todo o resto de suas existências, mares, oceanos, fluviais, torrenciais, mananciais, pantanais, afluentes de águas de amores que não secam jamais.

e eu estava caído ali, desfeito em líquidos na frente daquele homem, daquele macho que não era meu, ainda, possível, viável, viado, planejado, ensaio de amor, me via enchente de amores não completos e águas turvas de tesão, sem nome, sem eixo, sei freixo, sem nexo porque tesão tira da gente o prumo e coloca o torto no lugar.

mas ele era hétero, não sabia amar, dessas coisas, eu que não ia amar a um hétero porque é receita errada, desastre, bolo sem fermento, sem farinha, sem recheio, ázimo, sem gosto, sem sal, sem açúcar. era só pra ver mesmo, olhar, de longe, admirar e gozar mentalmente, eu amei por dentro, e casamos, e fodemos, e nos lambuzamos com as águas um do outro mas eu tinha mais água que ele e ele foi secando, secando, secando, secando, até virar um campo árido de alguém, de gente, pessoa deserto que teria de esperar a próxima chuva para florescer.

senti por ele, por ele ser hétero, jamais saberia de meu amor água, de como eu poderia ser seu líquido, saciar sua sede, seu sexo, sua mente, sua alma, gêmea oceano, mar de gente que podia ser nós,.senti por ele, não mais amor mas pena, porque ele era hétero e me olhava agora como se soubesse que jamais iria provar das minhas águas, dos meus caldos, dos meus sucos, das minhas seivas, morreria seco e hétero, por fora bela casca por dentro lago seco.

eu sei amar feito água, feito torrente, feito alagar, feito inundar, tipo aquelas cheias que fazem as pessoas perderem tudo, ele perdeu tudo quando foi hétero, teve de colocar seus desejos em cima dos móveis enquanto minhas águas subiam mais e mais. mas ele era hétero e não sabia como fazer isso, de amar quem é água, líquido, cheio, monção.

ele era hétero e em terra de hétero, quem tem amor é gay.

9 de jun. de 2020

O Anão

UM

A senhora fique tranquila que aqui zelamos e muito pelo bem estar dos pequenos, temos câmeras em todos os ambientes, a entrada permanece fechada sempre, há seguranças monitorando os arredores e temos duas 'tias' por criança! As refeições são balanceadas, preparadas por uma equipe de nutricionistas e as áreas comuns, como pode ver aqui no playground, são cuidadas e os brinquedos promovem a interação e integração entre os pequenos além de resgatar o lúdico que, como sabe, hoje praticamente se perdeu e...


Mas e aquele anão ali? Rasgou a mãe já meio cansada da extensa lista de benesses que lhe custaria boa parte do orçamento mas, nos tempos modernos, há que se pagar desde de doce idade pelas vantagens que antes eram aleatórias e muitos infantes já saem dos berçários pelo preço de formandos. 


A diretora ajustou-se em seu terninho chumbo justo, aproximou ritmicamente os pés embalados em sapatos de marca, olhou ao redor como a procurar pelo item sem sabê-lo ali até que finalmente deparou-se com o artefato, largado num canto do playground, numa área onde pouca grama vingava jazia o anão; desses de jardim, resquício de outros tempos, herança de outras eras das quais ela mal se recordava. Já estava ali desde que assumira a direção da escola.


Coberto de terra, o anão parecia ter vivido tempos mais dignos. Hoje, mal se distinguiam sua calça vermelha e camisa azul permanecendo relativamente incólumes apenas a touca rubra e barba branca. Parecia coxo da perna direita talvez carcomida pelos anos e seu semblante, se um dia foi sinônimo de alegria ou bonachão, atualmente mais lembrava um pedinte imerso em sonhos etílicos.


Estamos revitalizando aquela parte. Respondeu a diretora. É um anão de jardim comum, sempre esteve aqui, as crianças gostam, tentamos tirar uma vez mas elas sentiram falta, deixamos ele aí então. Terminou com certo desprezo, como se a relíquia fosse a única parte decadente de toda a instalação, um dente encavalado que não se podia extrair, habitua-se com a dor.


Mas não poderiam arrumar? Perguntou a mãe atendendo a um instinto decorador que subitamente lhe acometeu. A diretora a olhou comedidamente, de cima abaixo como a lhe inquirir se uma escola como aquela teria tempo de restaurar uma coisa estúpida e sem valor como um anão de jardim.


Bom. Continuou. Podemos entrar e assinar os papéis?


Entraram. A mãe fazendo contas, a diretora pensando no carro que desejava trocar ainda naquele ano.


DOIS

Já contei, mais de uma vez! Disse exasperada a monitora. Falta uma criança!


Impossível! Disse a diretora. Como? Saiu andando pela porta da frente? Vieram buscar mais cedo?


Não, nada disso, estava aqui hoje de manhã mas agora à tarde, não está mais. Concluiu desalentada a monitora, receosa de que fossem lhe descontar a criança do salário, seria um desconto imenso, talvez tivesse de trabalhar de graça o resto da vida.


Uma criança não some assim, minha filha. Sentenciou a diretora. Deve estar escondida, nos pregando uma peça, chame o zelador e as outras meninas que eu olho aqui as crianças no playground. Virem a escola do avesso mas achem essa criança, me entendeu? E acrescentou o dedo em riste para deixar bem claro que era imperativo que o fizessem.


A monitora embarafustou pela escola atrás dos demais deixando a diretora ali, olhando os pequenos, feito galinha com pintinhos emprestados. Já ia ensaiando como explicar aos pais, às autoridades, à imprensa, o prejuízo, o carro novo que ia lhe fechando as portas e saindo sem ela dentro e então, mirou o anão.


Estranho, já não coxeava da perna direita, ao contrário, agora estava na mesma altura da outra, ainda jazia coberto de terra e com o mesmo ar aparvalhado de antes mas que agora estava em pé, isso estava, os bracinhos levemente inclinados à frente mas as perninhas, deixando-o ereto. 


Quem o arrumara? Ela não havia autorizado nada, de certo que alguém da escola se apiedara do pobre e resolvera exercer seus dotes de restaurador nas horas vagas. Não que ela reclamasse, por ela teria se desfeito há muito do traste mas, as crianças gostavam mesmo dele e, de alguma forma que ela não conseguia precisar, lhe dava calafrios, talvez aquele olhar meio perdido, como saído de algum desenho mal acabado.


Desviou sua atenção quando ouviu lhe chamarem de dentro da escola, juntou os pintinhos sob sua asa de tecido importado e foi ver o que era mas antes de entrar, de soslaio, mirou uma última vez o anão.


Quando não se pode explicar algo, a explicação menos absurda e mais plausível é aceita como a verdade, é uma convenção social que ajuda muito quando não sabemos a quem ou que culpar. A criança sumida virou assim uma estatística e ainda que os pais acenassem com processos e ameaças, a escola sobreviveu praticamente incólume pois não se apurou qualquer irregularidade.


TRÊS


Já se iam alguns meses do ocorrido e tudo parecia voltar à normalidade mas, a fatalidade tem o péssimo hábito de, ao contrário dos raios, atingir mais de uma vez o mesmo ponto. Outra criança voltou a evaporar em fino ar colocando a diretora e a todos em polvorosa. O carro novo teria de ser um usado mesmo e por um bom tempo ainda, como iriam administrar essa nova tragédia?


Deram buscas em cada tijolo da escola, na vizinhança, nada. Nem um fio de cabelo. Novamente todo o périplo de explicações, ameaças, culpas e ante mais uma vez a impossibilidade de se poder comprovar qualquer má-fé por parte da instituição, atribuiu-se novamente ao acaso fortuito o estranho desaparecimento.


Mas, desta feita, a diretora sentiu não apenas pela criança sumida mas pela onda de cancelamentos e transferências que seguiram afinal, perder uma criança vá lá, mas duas? Era um pouco demais. Desolada, resolveram fechar a escola por alguns dias a partir do sumiço da última criança e agora, vistoriava se tudo estava efetivamente fechado e trancado antes de abandonar o lugar a sua própria sorte.


Antes de sair, resolveu dar uma última olhada no playground, ver se tudo estava bem preso e travado e então, olhou novamente o anão, havia se esquecido dele no torvelinho que seguira ao desaparecimento mas, ali estava ele e um arrepio frio subiu de seus sapatos chiques, subiu pelas meias de seda importada que usava, desestabilizou seus quadris e percorreu rapidamente sua espinha até atingir a base da nuca, espalhando-se em seguida para sua face e couro cabeludo.


O anão estava agora limpo, ereto e com seus bracinhos cheios de dobras rentes ao corpo, o ar antes aéreo fora substituído por um ar grave, os olhos semicerrados como a varrer o terreno ao seu redor e por entre a barba alva, ela podia divisar um sorriso leve, não natural, como a caçoar, pode jurar que olhava para ela.


Absurdo! Alguém certamente vinha restaurando e sem seu conhecimento, ia descobrir quem e teria uma conversa muito séria com essa pessoa, deveria mesmo ter posto no lixo aquela tranqueira sem utilidade. Bom, já se fazia fim do dia, o sol ia morrendo aos poucos roubando ainda alguns tons de laranja da noitinha que chegava e ela precisava fechar o lugar, esqueceu do anão e foi vendo se todos os brinquedos estavam em ordem para enfrentar o período de reclusão.


Prendia alguns balanços quando ouviu um farfalhar leve, como se o vento passasse as mãos na grama e virou-se de súbito imbuída de uma sensação ruim a qual associou diretamente ao anão. Não estava mais lá, em seu cantinho esquecido, sumira. Não bastasse as crianças, agora seria culpada pelo sumiço do maldito anão de jardim, uma das coisas de gosto mais duvidoso que já vagaram pela terra.


Firmou a vista para o canto do anão, podia ser um golpe da luz já minguando mas não, ele não estava mais lá, os pés tremeram dentro dos sapatos finos, o terninho ficou apertado demais e o peito mal continha o arfar de sua respiração. As mãos eram fontes de suor frio, espalmadas aos lado do corpo. Lembrou-se de quem era e do que fazia ali e, recomposta, enxugou as mãos na saia do terninho chique, aprumou-se e riu internamente por um arroubo tão infantil, justo ela, uma adulta consciente que lidava com as fantasias de crianças diariamente, das mais simplórias às mais estapafúrdias, algum funcionário rancoroso, claro, lhe pregava uma peça, ela procurava ser justa mas justiça nem sempre tem o mesmo significado entre quem a aplica e quem a recebe.


Voltou sua atenção aos balanços, tudo precisava ficar em ordem, até mesmo aquela mãozinha rechonchuda que agora pousava sobre a sua ao prender os balanços.


QUATRO

Veja bem a senhora, reformulamos tudo, a equipe toda é nova, os sistemas de segurança foram todos revistos e melhorados e agora os pais podem até mesmo monitorar a escola de casa pelo computador ou celular! Um avanço! Claro, não estou dizendo que a administração anterior fosse relapsa ou algo assim, eles fizeram o melhor que podiam mas, honestamente, nos dias de hoje é preciso investir pesado em tecnologia e melhorias constantes. Tome nossa equipe atual, são profissionais com formação no exterior, alguns falam até mais de dois idiomas. Sei que pode pensar que isso representa um custo extra mas, pense comigo, não é para seus filhos terem o melhor?


Mas, e aqueles desaparecimentos? E a diretora antiga que nunca mais foi vista? Indagou a mãe receosa de largar seus rebentos em algum lugar agourento.


A diretora retesou-se, passou a mão pelos cabelos longos e bem cuidados, girou os sapatos caros e mirou, condescendente, a mãe temerosa.


Entendo suas reservas e até mesmo compartilho delas Soltou. Mas veja bem, e não digo isso como crítica ou mesmo para denegrir ninguém, todos temos problemas e sabe Deus como é complicado e difícil lidar com eles, enfim, aquelas crianças, que Deus as tenha, provavelmente foram vítimas de violência doméstica, é o que penso e a administração à época pode ter sido, como direi, complacente, me entende?'


A mãe arregalou os olhos.


Oh, não! Disse a diretora levando a mão espalmada ao peito. Jamais em nossa administração, temos plena consciência da importância das vidas que colocam em nossas mãos mas, da mesma forma, zelamos para que essas crianças tenham um ambiente seguro tanto aqui como fora.


A mãe pareceu acalmar-se.


Já quanto à antiga diretora, e por favor não me interprete erroneamente, como disse, problemas os temos todos nós...Enfim, ela tinha lá os seus sabe? Bem, melhor não comentarmos mais, acho deselegante falarmos de pessoas que não estão mais aqui para defender-se.


Mas, ele faleceu? Perguntou a mãe curiosa.


Oh, não! Respondeu a outra. Sumiu no mundo sem deixar pistas, ninguém sabe seja amigo ou família. Sabe, como disse, todos temos problemas...


A mãe aquiesceu mecanicamente.


E aquele anão? Perguntou em seguida apontando para um canto do playground.


A diretora rodou novamente seus sapatos e mirou o canto para onde a mãe apontava. Um anão meio alquebrado, começando a coxear da perna direita, terra a lhe subir pelas pernas e de olhar perdido guardava um canto do playground.


Ah, aquilo? Disse como se olhasse para algo que pudesse dispensar. É uma herança antiga, está aqui há tempos, tentamos tirar mas as crianças parecem que se afeiçoaram a ele então deixamos ali, não é até meio simpático?'


A mãe, meio a contragosto, concordou. Parecia haver algo errado com aquele anão.


4 de jun. de 2020

Memórias de balcão

olha ali

apontou com os olhos para o senhor do outro lado do balcão.

que?

ali, dá uma olhada.

e apontou de novo para o senhor do outro lado do balcão. o outro olhou, o senhor, bem senhor, bebericava um café com leite cerimonialmente. vestia os trajes típicos de um senhor, esses que não se tornam senhores mas se apossam de tornar-se um senhor como alguém que assalta uma geladeira no meio da noite.

quem é?

perguntou enquanto partia em dois seu pão na chapa.

afff, como assim quem é? é ele, porra.

e dessa vez usou o dedo para apontar como se esquadrinhasse o senhor de forma cartográfica.

meu, ele quem?

enfiou um pedaço grande de pão na boca formando em um lado da boca uma bola como se fosse algum tipo de tumor.

ele! lembra? aquele lá, esqueci o nome, faz tempo já mas ele foi importante.

e fez cara de quem se esforça para recordar algo que fica fugindo dentro da mente.

não lembro nem o que comi ontem, vou lembrar de alguém que faz tempo?

e engoliu a massa de pão que já não era mais um tumor.

porra! ele foi do governo, naquela época, nossa, merda de nome que não me vem, ele fez merda, morreu muita gente, lembra?

e olhava fixo o senhor que, sem dar fé, ainda bebia lentamente seu café com leite dando pequenas assopradas entre um gole e outro.

ah! aquele? porra, como era o nome dele mesmo? esqueci também, ele foi daquela vez, da doença? quando morreu gente pra caralho, mas isso foi o que? uns vinte anos ou mais?

e acenou para o balconista pedindo mais um pingado.

deve ser, mais ou menos isso, eu lembro que foi merda das grandes, a doença e tudo mais e aí parece que ele tentou dar um golpe mas deu ruim, se fudeu.

e pediu também um pingado. o senhor se apercebeu de ser o alvo da conversa dos dois ali do outro lado do balcão mas, seguiu tomando seu café com leite olhando fixamente para o copo que segurava com as duas mãos.

nossa, eu sei, eu sei! teve os filhos dele né? lembrei agora, foi feia a coisa, morreram os três, ou eram quatro? saiu no jornal e tal, mas um deles se matou, não foi?

e colocou mais um pedaço, menor, de pão na boca.

foi, um deles se matou, deu no jornal sim, disse que não ia preso, os outros foram e depois sumiram do mapa, acho que foram embora e ele ficou sozinho, lembro que foi preso mas depois soltaram e ele sumiu, nunca mais viram.

e xingou quando pegou o copo com líquido quente e queimou as pontas dos dedos.

isso, foi isso. ele pegou uma cana mas depois saiu e nunca mais. mas tem certeza de que é ele?

e apontou para o senhor que estava do outro lado do balcão, bebendo café com leite de memórias.

tenho, porra! só não consigo lembrar do nome, meu deus, como era?

e olhou fixo para o copo a sua frente exalando fios de vapor quente como se daquele oráculo improvisado fosse surgir o nome do desconhecido.

o senhor do outro lado do balcão sabia. tinha percebido. há tempos sua vida era tomar café em padarias diferentes de cidades diferentes de bairros diferentes de vizinhanças diferentes. hoje não era também diferente. os olhos em cima de si. as lembranças de alguém que ele fora, era, tinha sido, ainda era, seria, poderia ser. olhou para o café e desistiu. melhor começar a tratar de ir atrás de outra padaria, ou cidade, ou bairro, ou vizinhança, ou país.

não. país não. esse ele não teria diferente. seus filhos o abandonaram. seus amigos o abandonaram. todos o abandonaram mas ele, não. ele sairia dali num caixão, quase fora mas não deixaram e ele ainda estava ali.

levantou-se. claudicou até o caixa embalado em memórias não causadas por ele mas pelos dois do outro lado do balcão que ainda tinham olhos em cima dele. chegou no caixa e estendeu o papelzinho onde estava o total do café com leite que nem acabar de beber.

só isso, seu jair?

perguntou o caixa entre soma, divisão, subtração e multiplicação, contas. a vide é um sem fim de contas que nunca se acertam no final.

só isso, nelson, obrigado.

e manteve os olhos fixo no caixa enquanto quatro olhos ainda se fixavam nele inquisidores.

três e cinquenta.

e olhou para o senhor vestido como senhor, desses que se vestem como senhor porque a vida inteira sempre foram senhores.

eita, nelson, aumentou?

e o senhor estendeu uma nota de cinco.

a crise, seu jair! a crise! mas vai melhorar, né? esse governo aí vai dar jeito nas coisas, não é mais como antigamente.

e devolveu o troco às mãos claudicantes não por senilidade mas por emoção de lembrar de governo. de antes.

vamos ver, nelson...vamos ver, né?

aprumou-se. estufou o peito de senhor, desses de senhor que estufa o peito quando sente um orgulho de ter sido algo ou alguém que foi, era, seria, quem sabe.

saiu da padaria e nunca mais foi visto por ali.

2 de jun. de 2020

Liga/Desliga

Quando apaguei a luz, senti algo morno escorrer pela nuca como se uma gota de chocolate quente escorresse da base do crânio espinha abaixo, lambendo os poros feito dedos melados.

Sacudi a cabeça levemente como para desfazer-me daquela sensação incômoda e fui deitar. A cama estava fria mas não gelada, acomodei-me entre os lençóis e aos poucos cheguei a um estado onde as temperaturas estavam iguais e não havia mais como dar ou receber calor.

Mudo, encarei o teto buscando alguma forma de ter respostas para perguntas que eu não sabia como fazer. Jurava ter ficado assim por horas mas quando olhei para o relógio na mesa de cabeceira, míseros dez minutos tinham corrido. Soltei um impropério qualquer e sentei-me na cama, os pés roçando o piso frio no escuro, o relógio mudando seus números devagar como se esperando que eu dormisse para poder fazer o mesmo.

A sensação de algo quente deslizando nuca abaixo voltou e, instintivamente, levei a mão direita até o local, talvez uma picada de algum inseto ou alguma alergia. Foi quando senti aquilo. Não estava lá antes, ao menos não me recordo de tê-lo sentido enquanto esfregava a cabeça durante o banho e era algo muito fora do comum para que não o tivesse notado.

Talvez houvesse batido a cabeça em algum lugar acidentalmente e não me recordasse e agora havia aquilo ali para me lembrar que sim me machucara mas, refazendo minha rotina mentalmente, não lembrei de nada e qualquer coisa que houvesse causado aquilo eu, de certo, não esqueceria.

Passei a mão novamente mas devagar, sentindo a forma, seu tamanho, textura e o tato não tinha como mentir mesmo que eu julgasse a impossibilidade daquilo. Não era um galo, nem uma espinha, nem mesmo um furúnculo; não era uma fratura, hérnia, concussão ou algo do tipo, aquilo era um interruptor, desses comuns onde ligamos ou desligamos um aparelho ou luz, um liga/desliga ordinario.

O interruptor parecia sair da base de meu crânio sendo que a chave em si apontava para cima agora, se essa era a posição liga ou desliga não tinha como saber e, receoso, removi a mão pousando-a sobre meu joelho.

Devo ter ficado assim alguns minutos, olhando para o relógio que seguia trocando seus números preguiçosamente e sem ter certeza do que estava acontecendo ou do que deveria fazer. Pensei em levantar, acender a luz, ir ao banheiro, lavar o rosto e quem sabe acordar pois só podia mesmo estar dormindo e tendo algum pesadelo absurdo mas, se fosse isso mesmo, eu tinha uma imaginação pouco fértil pois fora o interruptor na cabeça todo o resto exalava um ar de realidade incongruente com o mundo onírico, não que um interruptor na cabeça não o fosse.

Tomei coragem, levantei, acendi a luz do quarto e fui ao banheiro mas lá, não acendi a luz, a luz que vinha do quarto era suficiente para que eu abrisse a torneira e, com as mãos em concha, jogasse água no rosto. Fechei a torneira, o resto de água escorria vagarosamente pelo ralo, o redemoinho da água descendo rodava calmo, pequenos respingos de meu rosto molhado caíam na pia e faziam um barulho surdo.

Olhei para o espelho acima da pia e meu reflexo parecia meio borrado, não havia luz suficiente mas temia que ao acendê-la forçosamente teria de encarar o fato de que não estava sonhando. Ouvi um carro frear bruscamente na rua e alguém soltando algum tipo de maldição, se era mesmo um sonho era bem realista, eu deveria ter uma mente ímpar para o sonhar.

Tomado de coragem, acendi a luz do banheiro e fechei um pouco os olhos ante a claridade súbita. Não queria abri-los, fiz mais um esforço para despertar caso ainda fosse algum tipo de ilusão e abri os olhos aos poucos. 

Ali estava eu, rosto molhado, encarando meu reflexo também molhado, na verdade ele não estava, quem estava era eu, ele deveria estar seco afinal quem molhara o rosto fora eu e não ele, daquele lado ele deveria estar com sono e irritado por eu tê-lo feito acordar apenas para me olhar em horário tão estapafúrdio.

Abri o armário embutido no espelho e de lá saquei um espelho menor, de mão. Fechei o armário e voltei a me olhar. Com certo malabarismo, consegui alinhar o espelho de mão, minha nuca e o espelho no armário. Consegui ver o interruptor, estava mesmo lá, era branco, quase gelo e estava perfeitamente embutido em mim, não havia reentrâncias, não havia aquela capa de plástico que geralmente protege os interruptores, era como se ele houvesse simplesmente brotado do fundo de mim.

Comecei a pensar se não havia sido abduzido e passado por alguma experiência mas, o máximo de abdução que já me ocorrera fora quando eu resolvi largar tudo e passar um fim de semana numa praia distante o que não qualificava como abdução, eu sei, mas era a experiência mais próxima disso que me recordava. 

Talvez eu tivesse sido cobaia em algum experimento secreto mas novamente, o mais próximo disso que já vivera fora quando tentei participar de um grupo de pesquisas sobre novos refrigerantes e fui dispensado logo de cara porque não me encaixava no perfil que desejavam.

Abandonei as teorias de conspiração e resolvi que o melhor seria procurar ajuda profissional agora não sabia se seria um médico ou um eletricista. Na dúvida, optei pelo primeiro e se ele não desse jeito partiria para o segundo. Como a noite já ia larga, resolvi esperar até amanhecer, não queria sair correndo para um pronto-socorro onde seria alvo de escrutínio, preferia consultar um profissional que já conhecia e pensei se não deveria ser um psiquiatra, quem sabe não estava perdendo a razão e alucinando?

Resolvi me acalmar, guardei o espelho de mão dentro do armário, apaguei a luz, deixei a torneira pingando e voltei ao quarto. Fiquei parado no meio dele, olhei ao redor para me certificar de que estava mesmo no meu quarto, a cama era a mesma como sempre fora, a TV era mesma e seguia sem funcionar como sempre estivera, a cômoda ao lado esquerdo da cama era a mesma, velha, carcomida e cujas gavetas prendiam em minhas peças de roupa mal acomodadas nelas.

A porta que dava para a sala/cozinha era a mesma com a mesma maçaneta que emperrava quando fazia muito frio e a janela que dava para a rua era também a mesma, a mesma trinca na parte superior do vidro parecendo uma teia que alguma aranha desistira de tecer e a veneziana onde faltavam algumas palhetas era também a mesma.

Tudo era igual salvo o interruptor na base da minha cabeça. Sentei-me na beirada da cama novamente, olhei para o relógio e acho que ele pegara no sono pois os números não mais mudavam. Teria de aguardar ainda algum tempo até raiar o dia poder ir ao médico, ficar com aquele botão ali certamente não me deixaria dormir.

Comecei então a pensar no que aconteceria se eu mexesse nele, se o ligasse (ou desligasse, não tinha como saber se na posição em que se encontrava era um ou outro). Pensando bem e com mais calma, seria uma vantagem possuir um botão de liga/desliga, pensem bem, na hora de dormir, adeus insônia basta desligar se bem que isso implica um problema, como fazer para despertar depois de desligado? Boa pergunta mas, como não sou eletricista ou engenheiro, passei para outras aplicações práticas (que implicavam o mesmo dilema, depois de desligado, como religar?).

Após algum tempo que não sei precisar pois o relógio ainda dormia, só acordaria de manhã é certo, resolvi que não custaria testar afinal, o botão estava ali e se ali estava era por uma razão mesmo não tendo sido pedido por mim ou oferecido como algum tipo de graça ou recompensa, pouco provável que uma ou outra fosse chegar na forma de um interruptor se bem que o milagre não escolhe forma, nós é não entendemos como ele vem.

Levei a mão até o botão e o senti novamente, estava lá, parado e quieto, hesitei e tirei a mão, e se ao mexer nele eu simplesmente deixasse de existir? Mas se assim fosse, porque eu teria aquele interruptor na cabeça? Minhas têmporas latejavam, era mais filosofia do que podia suportar, uma decisão se fazia necessária e, determinado, levei a mão de novo ao botão e buscando lá no fundo alguma prece ou algo que o valha, puxei o interruptor para baixo.

Quando apaguei a luz, senti algo morno escorrer pela nuca como se uma gota de chocolate quente escorresse da base do crânio espinha abaixo, lambendo os poros feito dedos melados...


29 de mai. de 2020

Vazando

Hoje acordei atrasado de um sonho sólido e me desfiz líquido no chuveiro enquanto batia uma e me esvai junto com a porra que íamos pelo ralo enquanto eu me escorava nos azulejos molhados com as mãos escorregando e o peito arfando e a água caindo na minha cabeça e correndo pelo pescoço braços tronco pernas pau e porra e fazendo um pequeno torvelinho no ralo que não dava vazão porque era muita água e muita porra e eu achei que estava me esvaindo em sêmen mas eu já tinha gozado então de onde saia aquela porra toda essa porra toda que todo dia é a mesma porra e que porra é essa que é sempre a mesma branca sem gosto sem cheiro sem cor ou branco são todas as cores não preto que é é mas porra que cor é todas as cores e porra que tem de ser a mesma porque não pode sair diferente pra gente poder ter algum gosto porra algum novo porra e eu tinha de tomar café e comer pão e fruta porque porra fibras e alimento é bom e tem de ser balanceado porra também (?) mas eu bato todo dia de manhã no chuveiro porque sempre acordo de um sonho sólido que eu queria que fosse líquido porque líquido se desfaz que nem eu aqui nesse chuveiro com a água e a porra ainda escorrendo meu deus estou vazando ou é porra que sai do chuveiro e água do meu pau ou essa porra toda está enchendo e o ralo não vai dar conta e vou morrer afogado num pequeno mar de água e porra grávido de mim mesmo e sem ter tomado o café da manhã que é a refeição mais importante do dia mas não do sonho aquele que eu sempre tenho sólido e me desfaço líquido quando tomo banho e já é assim faz um tempo mas hoje a água não para de cair e a porra não para de sair o chuveiro é um chafariz e meu pau também e minhas mãos vão escorregando pelos azulejos porque eu me sinto mole acho que vou desmaiar sem ter tomado o café da manhã o dia mais importante da refeição ou algo assim porra que vai saindo e água que vai caindo e vou caindo junto com água e porra e vamos caindo e o ralo vai nos engolindo porque o ralo também precisa tomar café da manhã que é a refeição mais dia do importante e vamos caindo no ralo

e sumindo

sumindo

sumindo

sumindo

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sumindo

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sumindo


28 de mai. de 2020

Elevado

Dia Quente Mormaço Suor Gruda Escorre Seca Debaixo do braço Dois estigmas Não Cristo Não Diabo Não Nada Só gente Seca Úmida Pegajosa Viscosa Velcro líquido Liquida Ação Morte em vida Se vê rima

Vai para a rua que vai para a o ponto que vai para o ônibus que vai para o aperto que vai para o cheiro de gente que vai para o ar estagnado que vai parar que vai descer que vai sair que pede licença que esbarra e xinga que sai amarrotado que vai para o ponto que volta para a rua que vai para o prédio que vai para a porta que gira e gira e gira e gira e vomita gente dentro e fora

Fila Elevador Imensa Gente atrás Gente Vai um por vez que é muita Gente que vai atrás Gente que vai indo que vai entrando Um por Um por Um por todos e Todos por nem um e vai a fila e Ele vai Indo Com a fila com o fluxo com aquela sangria de gente Com aquele rio de Morto por dentro Por fora também há mortos Por dentro há mais Por onde anda a vida e a Morte vai na fila Olhando cada um e Sentindo que chega a sua vez Entra no elevador Com mais gente Com mais morte Com mais ou menos Vai pedir o Andar da carruagem é lento Ele vai descer no Último andar que tem ali tem vista para cidade toda e sempre tem Gente que se aperta para chegar mais rápido mas o elevador Vai lento o dia ali andares que são meses ou anos e os Botões acendem e apagam enquanto as Pessoas esvaziam e são vazias e o elevador vai ficando Vazio é o que ele é Vazio é o que sente Vazio é o que ele quer mas o Elevador ainda está lá mas só com Ele que não chega no seu andar e as Luzes são brilhantes enquanto acendem e apagam e mostram Números que deveria ter pensando antes ontem semana passada e que deveriam estar no Relatório que o prédio come todos os dias quando ele e os Outros são quem? Alguém ou ninguém ou alguninguém mas Ele

Segue subindo no Elevador que vai mostrando as Luzes números quinze dezesseis dezessete dezoito dezenove Vinte desce porque não tem vinte e Um ar desespero porque vinte não para e o Elevador passa direto como se mais andares depois mas não tem Nenhum sentido e o elevador sobe e sobe e sobe e sobe e sobe e sobe e sobe e Sobre onde ele está? Já não sabe nem sobe ou vê qualquer coisa apenas sente que o elevador Sobe e sobe e sobe e sobe e sobe e sobe e sobe

Lá embaixo Gente olha para o Céu que tem azul e tem nuvens e tem Ele Elevador Elevado Num ponto que já não era mais possível dizer Quem o havia (e)levado?

25 de mai. de 2020

O umbigo do mundo

Acordei. Pelo menos acho. Deve ser. Ouvi buzinas e não costumo sonhar com buzinas, já sonhei com cornetas, línguas de sogra que eram línguas mesmo mas, buzinas, nunca. Então estava acordado.

O quarto abafava o ar que entrava pelas frestas da veneziana. Eu olhava para o teto tentando sincronizar o som das buzinas com as sombras que eram refletidas. Nunca fui bom nisso, aliás, nunca fui bom em sincronizar nada, nado mas totalmente sem sincronia aliás, faz tempo que não nado, nada, meio que cansei, qual o propósito de ir de um lado para outro num mar de azulejos que não leva a lugar algum? Água não deveria levar a gente para algum lugar? Ar não que não se pode sentir, salvo o vento mas ar mesmo, não.

Levantei. E senti algo estranho escorrendo na barriga, como um vazamento, daqueles de pia, sabe? Fio de água que nunca se consegue descobrir de onde brota. Mas no meu caso sim, era do meu umbigo. Olhei para ele e corria um riozinho fino, passei o dedo e levei ao nariz. Umbigo tem cheiro, um aroma peculiar, característico, nenhuma outra parte do corpo cheira igual, talvez frieiras mas ainda assim não tem o mesmo buquê do umbigo. É um cheiro azedo que é rançoso que é doce que é patê que é queijo que é leite talhado que é algo sei lá. Pode ser algum cheiro que fica do cordão, cheiro uterino, de mãe, talvez as mães cheirem assim por dentro.

O meu não tinha esse cheiro.

Senti cheiro de água do mar, peixe vivo, aves marinhas, pescador, cidade de litoral, colônia de pescadores, velhas almiscaradas sentadas em varandas de jacarandá ao por do sol, cachaça correndo balcões de madeira, peixo frito e purê. Estranhei. Deve ser algum resquício de sonho, ainda devo estar no limiar, só pode, ontem dormi com fome, ainda devo estar sonhando com isso, comida, é isso.

Mas não.

Fui ao banheiro. Luz acesa, buzinas ainda lá fora e o teto fora de ritmo. Olhei bem, no espelho, e o fio de água ainda lá, corria reto do umbigo, passava pelo púbis e descia meio torto pelo pau até gotejar minúsculo no prepúcio. Olhei com mais atenção e assustei. Abri a gaveta e procurei uma lupa, quem tem lupa no banheiro? Eu. Às vezes preciso procurar algo que cai no chão e hoje em dia tudo é tão pequeno, cai e eu não consigo encontrar sem uma lupa então tenho uma, eu derrubo muitas coisas, menos a lupa.

Aproximei a lente do umbigo quase numa auto-felação. Meus olhos, melhor, um deles que fixava na lente, abriu feito um buraco. Ao redor do meu umbigo havia uma cidade. Sim. Uma cidade, dessas onde as pessoas vivem, nascem, dormem e morrem, não necessariamente nessa ordem. 

Pequenas casas ao redor do buraco do meu umbigo que lhes servia de baía. A água que escorria era seu rio, pequenos barcos subiam e desciam por ela, descendo iam até o final do curso na cabeça do pau, subindo, caiam dentro do umbigo para sempre. Engraçado. Eu nunca senti nada, tinha navios dentro de mim e nunca senti nada, nem uma âncora, nem um naufrágio, nada mesmo.

Havia também uma igreja, bem no meio se bem que é complicado determinar onde fica o meio de um círculo e o umbigo é um mas, ela estava lá, no meio. E havia um mercado e um bar eu acho. E pessoas circulando pela cidade, caminhando, empurrando carrinhos de compras, só não vi carros mas acho que ouvi vozes. Pelo menos acho que eram vozes. Tentei apurar o ouvido para captar o que diziam mas as buzinas lá fora não deixavam. 

Ouvi a igreja badalar os sinos, baixinho, como se fosse um ruído de algo muito distante que nem mesmo poderia lhe atestar a veracidade. Vi as pessoas indo para lá, missa provavelmente, os navios seguiam indo e vindo, entrando e saindo do meu umbigo, estariam levando ou trazendo coisas? Não sei qual dessas hipóteses me amedrontava mais, e se levavam para fora algo que me fizesse falta depois? E se estavam trazendo para dentro, não poderia ser algo que me fizesse mal?

Sonho, só pode. Fechei os olhos com força. Contei até dez e os abri. Olhei para baixo, pela lupa mas lá estava a cidade, deveria procurar um médico mas qual? Um clínico? Mais certo um psiquiatra, doutor, há uma cidade vivendo no meu umbigo. Curvei-me ainda mais em contorcionismo para tentar, através da lupa, divisar mais algum detalhe da cidade e seus habitantes, fiz tanto esforço que minhas costas estalaram e, repentinamente, senti como se fosse um tatu daqueles que viram uma bola.

Fui meio que desfalecendo caindo dentro de mim, no umbigo, sem lupa, já não a tinha nas mãos. Fui caindo assim no umbigo que era meu mas da cidade também até dar de cara com o chão de pele que tinha pelos por árvores. Levantei-me, limpei as mãos e meu corpo nu, estava nu, isso não são modos de se apresentar numa cidade que vivia no meu umbigo, tudo bem, o umbigo era meu mas modos são modos e eu os tenho.

As pessoas me cercaram, outras seguiam para igreja ignorantes de minha chegada. O fato de estar nu não parecia incomodar ninguém, as pessoas foram me acolhendo e me tocando, como se já soubessem quem eu era e esperassem minha chegada. Apavorado, nu e dentro de mim mesmo perguntei.

Onde estou? Que lugar é esse, por favor?

As pessoas que me cercavam olharam entre si meio que atônitas, como se a minha pergunta fosse descabida ou até mesmo absurda e então, uma delas olhou-me nos olhos e disse.

Bem-vindo! Aqui é o umbigo do mundo!

lembranças aleatórias não relacionadas com a infância

Lembrança #10 Lembro de uma festa ou rave ou balada que eu ajudei um amigo a organizar num tipo de sítio eu acho. Estava separado do meu nam...