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3 de jul. de 2020

Que tal quebrar as barreiras?

Tenho feito, como disse em posts anteriores, um esforço pata furar a bolha literária e conhecer a escrita de pessoas que também estão lutando por seu espaço, voz e visibilidade.

O clube fechado do panteão literário precisa ser desfeito e deixar novos ares penetrarem, novas ideias, novas letras mas, sabemos que isso é missão complicada e mesmo assim, seguimos nela com força e fé. Claro, ser reconhecido, laureado, ovacionado, premiado, quem não quer? Até o mais sonso mas, parece que ao transpor esse umbral e passar para essa outro lado algo muda ou seria impressão minha?

Da mesma forma, alguns dos prêmios mais cobiçados da literatura parecem fazer questão de atuar como peneiras sociais vide o exemplo de um dos mais desejados que cobra um bom punhado de dinheiros em sua inscrição fora os gastos com a compra e envio dos livros para a comissão julgadora. Oras, num país sem governo, pandêmico, desigual até a medula, pedir aos autores que ao custo de muito suor e lágrimas desembolsem essa grana é vilanesco, concordam?

Há quem diga que isso separa o joio do trigo mas, quem é o joio e quem é o trigo? Um autor que escreve seu livros e luta para divulgar seu trabalho e vender seus livros quase de porta em porta tem menos valor do que o autor que consegue todo o aparato mercadológico? Obviamente que não sou hipócrita, adoraria ganhar um prêmio, quem não gostaria? É meio que uma ratificação de que somos realmente escritores, um reconhecimento perante nossos pares e, claro, reconhecimento financeiro que escritor tem conta para pagar sim senhor, igual todo mundo.

Precisamos dar espaço e dar valor aos nossos amigos que lutam conosco, que escrevem conosco e essa tarefa que tenho me dedicado. Não deixo de ler os 'grandes nomes' e penso que todos merecem seu lugar ao sol, ganhar prêmios e serem reconhecidos, é o mínimo mas, se está complicado para quem já tem uma carreira consolidada, imagine para quem ainda tem de matar um leão por dia para conseguir escrever?

Nesse intuito, deixo aqui dois colegas que recém descobri e que valem um minuto de sua atenção.



Esse moço André Amadeu escreve a real, porrada na cara, suas crônica são extrações de um cotidiano cru e duro, você ler minha resenha sobre este seu livro aqui.


Esse outro moço Kaio Phelipe traz uma boêmia concreta singela de boteco urbano asfalto doce amargo doente de amores perdidos achados encontrados e perdidos novamente com uma singela aquarela de inocência que está no seu final mas ainda se agarra aos ossos, você pode ler minha resenha aqui.

E busque, procure, leia autores novos e independentes!

Tem muita gente boa aí precisando ser lida e reconhecida.

4 de mar. de 2020

Transparente

Creio que todos tenham vista a matéria do Dr. Drauzio no Fantástico de domingo último, caso não, clique aqui.

Não vejo TV aberta, não por preconceito nem nada mas simplesmente porque não há nada nela que me agrade ou mereça minha atenção, prefiro gastar meu tempo com outras coisas mas, eventualmente, aparecem matérias como essa que precisam ser vistas, compartilhadas e gerar uma reflexão em cada um de nós.

Depois de ver a matéria, a palavra que apareceu em minha mente foi PRIVILÉGIO. Sim. Essa mesma e em maiúsculas. Damos tanto por certo e imutável em nossas vidas que passamos a desvalorizar os pequenos milagres e benesses que usufruímos passando a um atitude de contestação permanente e insatisfação constante.

O carro que não temos, o emprego que não gostamos, o dinheiro que não temos, a roupa que não podemos comprar, a comida que não gostamos, as pessoas que não amamos, as filas que pegamos, o transporte que atrasa, a sociedade que não melhora, o governo que nada faz, futilidades que assomam um valor absurdo no mar de pseudo-problemas que gostamos de mergulhar.

Matérias como essa fazem pensar, provavelmente teremos esse momento de epifania por alguns momentos em que aquelas realidades tão desoladoras nos batem na cara para, logo em seguida, voltarmos às nossas lamúrias diárias e reclamações fúteis, normal, somos apenas humanos e eternamente insatisfeitos.

Mas, se pudermos nos apegar a esse sentimento e fazê-lo durar mais do alguns minutos, empregar o sentido de privilégio em nosso cotidiano e passarmos a perceber que fazemos parte da pequena parcela de pessoas que possuem acesso às oportunidades, vantagens e benefícios que a sociedade infelizmente reserva apenas a poucos, talvez possamos fazer nossas vidas e o mundo um lugar menos pior.

Pode parecer piegas, clichê, coisa de guru de auto-ajuda mas não, pense na história daquelas pessoas da matéria que, além de estarem encarceradas, são pessoas trans ou seja, carregam mais de um estigma que dificilmente a sociedade irá perdoar e, mesmo assim, elas estão vivas, tem alguma esperança e lutam para viver dia a dia pois para elas, o amanhã é algo tão incerto quanto o hoje e menos incerto do que ontem.

Para elas, as pequenas conquistas são de valor imenso, não dão nada por certo porque sabem que a vida, num estalar de dedos, pode fazer tudo virar pó ainda mais se você faz parte de qualquer minoria social que, tradicionalmente, terá menos chances, menos reconhecimento, menos oportunidades e mais preconceito, mais discriminação, mais ódio, mais nojo, mais julgamento, mais exclusão, e mais de tudo que é ruim, nocivo e humilhante.

Pense no caso de Suzy - não desmerecendo a história das demais - há mais oito anos sem receber uma visita seja de amigos ou família, sequer uma carta, um postal, nada. Pare um momento e pense se de súbito, seus amigos e familiares deixassem de falar com você por apenas uma semana, isso, apenas uma semana, como você se sentiria? E se fossem anos? O que você faria?

Pois ela está lá, isolada, náufraga social há oito anos, OITO ANOS, sem ninguém, sem uma pessoa para conversar, tocar, trazer notícias de fora, sem ter alguém que venha lhe dizer que te ama e que está lá te esperando, que te dê forças, que te apoie, que seja amigo, família, parente.

Suzy sossobrou o navio da vida e acabou sozinha naquela ilha para onde mandamos quem não queremos mais ver, lembrar ou ter por perto. Suzy é mais uma entre as centenas de milhares de náufragos que enfiamos nas cadeias porque bandido bom é bandido morto seja real ou figurativamente. Não importa quem está lá desde que lá permaneça.

Suzy é a nova leprosa, ela e suas amigas são a nova epidemia não o coronavírus, uma epidemia que vem matando mais e mais a cada ano incentivada por autoridades que preferem fazer vista grossa e direta ou indiretamente incentivam esse massacre. Suzy e suas amigas são vítimas caladas de uma estatística que só aumenta e de uma sociedade que prefere vê-las mortas do que ajudando a fazer um país melhor mesmo que seja por apenas viverem suas vidas.

Eu te peço desculpas, Suzy. Por mim, por aqueles que eu conheço e por todos mais por esses oito anos de hiato social. Te peço desculpas por sermos tão cegos e hipócritas, por sermos tão escrotos e individualistas. Te peço desculpas por reclamar de banalidades, por me sentir um nada, por me sentir injustiçado ou preterido na vida. Te peço desculpas por reclamar daquela comida que não gostei, por fazer pouco daquela pessoa que vi na rua, por falar mal de quem não conheço, por julgar sem entender.

Eu te peço desculpas, Suzy. Por estar aqui fora achando que estou livre e ter pena de você que está aí presa e sozinha há oito anos. Quem está preso sou eu, Suzy. Quem está sozinho sou eu, Suzy. Quem está precisando aprender algo sou eu, Suzy.

Saia daí e venha nos ensinar, por favor!

22 de jan. de 2020

Diga-me onde moras e te direi se terás emprego...

A cidade é um monstro imenso que diariamente devora gentes e caga restos humanos que adubam o dia seguinte para começar tudo de novo.

Locomoção em SP é para os fortes. De estômago, de espírito, de alma, de corpo, de ânimo, de vontade e tudo mais. Já conheci gente que gastava todo dia cerca de cinco horas no trajeto casa-trabalho-casa, considerando um jornada de oito horas e um dia de vinte e quatro, essa pessoa consumia mais da metade de seu dia no transporte público tendo de dividir o que sobrava entre outras atividades como lazer, estudo e porque não dormir.

A cidade cresceu de forma completamente desordenada empurrando parta bairros cada vez mais distantes a maioria da população incapaz de acomodar num orçamento apertado o custo de vida exorbitante de morar próximo ao trabalho, privilégio reservado a elite branca cis da qual eu, não há como negar, faço parte.

São essas pessoas que gastam tempo se locomovendo pela cidade que movimentam a máquina branca que está pouco se lixando em saber quantas conduções ou baldeações serão necessárias para que a diarista, o porteiro, o entregado e outros prestadores de serviços cheguem a seus destinos e cumpram com sua função de não deixar a elite branca sem seus mimos.

Como se não bastasse isso, a sociedade e o governo não se cansam de tomar medidas que tornem apenas mais difícil esse deslocamento vide o preço de $4,40 pelo coletivo e metrô, o cancelamento de diversas linhas de ônibus principalmente ligando os bairros mais distantes ao centro e bairros nobres e o metrô que faria qualquer cidade que se auto proclame metrópole corar de vergonha.

Esse mecanismo perverso não pensa em facilitar o acesso dessas pessoas ao trabalho mas sim impedir seu acesso ao lazer e cultura fora da periferia que, segundo pensam, é onde devem ficar essas pessoas e por lá mesmo ter seu lazer, promover sua cultura e viver suas vidas aos finais de semana, feriados e dias santos desde que não seja o plantão. Nada de ir passear no shopping de rico, museu, cinema ou teatro, nada de ir ao parque onde as madames e playboys vão correr e passear com seus filhos de raça, muito menos marcar rolê nas cercanias de bairros nobres.

Por isso bairro de rico não tem transporte e quem precisa lá chegar tem de penar e muito para fazê-lo sendo obrigado a caminhar ainda uma boa distância já que rico não tem metrô na porta muito menos ponto de ônibus, onde já se viu!

Essa mesma exclusão acabe sendo responsável por aumentar os índices de desemprego de quem m ora muito distante do centro ou grandes centros de emprego vide esta matéria aqui que elucida bem o assunto. Não é de surpreender que a maioria branca seja a que tenha mais fácil acesso ao trabalho e oportunidades de emprego já que não precisam cortar a cidade de um extremo a outro para isso.

Acontece que parte dessa elite branca, digamos os não tão ricos quanto a maioria dos demais brancos - eu incluso, está cada vez mais enfrentando dificuldades em 'morar bem' já que vários bairros como a Vila Buarque, onde resido, estão passando por um processo de gentrificação e consequente especulação imobiliária o que faz com que os preços não apenas do imóveis mas de tudo ao redor fique muito mais caro do que o normal e assim, afastando boa parcela de moradores originais do bairro ou permitindo que pessoas que desejem morar na região o façam jogando para os bairros mais distantes todos que não podem arcar com o luxo de morar num bairro 'novo' ou 'renovado' e assim, i ciclo se mantém e não se quebra.

Não bastam apenas políticas públicas para resolver esse problema mas certamente que sua solução passa por elas, é preciso que nós mudemos nossos hábitos e tenhamos empatia em reconhecer que o problema não é apenas de um mas de todos nós e, para deixar claro como ainda não conseguimos pensar assim, deixo o exemplo que uma amiga me deu há algum tempo.

Ela conversava com algumas pessoas no café da empresa, algumas reclamavam que por conta dos corredores de ônibus, estavam levando mais tempo que o usual para chegar ao trabalho de carro. Ela argumentou que para as pessoas que usavam o transporte público, os corredores faziam uma enorme diferença pois representavam uma economia de tempo para essas pessoas que poderiam, com esse tempo extra, talvez chegar mais cedo em casa, na faculdade e ter uma qualidade de vida melhor.

Foi tratada feito um alienígena e a conversa ficou por ali mesmo.

18 de dez. de 2019

Mas o ódio cega...

Diga-me com quem andas e te direis quem és, diz o ditado.

Só que nessa de dizer quem somos baseado com quem andamos tem muita coisa no meio e não necessariamente as pessoas com quem andamos são um reflexo fiel do que somos porque às vezes, podemos andar com as pessoas erradas por entender que são as certas até que abrimos os olhos e nos damos conta do erro cometido.

Isso definiu quem somos?

Num primeiro momento, confesso que minha reação à agressão sofrida por Karol Eller foi a da maioria leia-se TOME! BEM FEITO! Você é lésbica e vai lá apoiar o messias, fazer arminha, dizer que não há homofobia que é tudo vitimismo, que a comunidade LGBTQ não te representa e coisa e tal, deu no que deu.

Depois, caí em mim e disse não, não pode, estou errado!

Explico - lembrando que esta é a minha opinião, você é e deve sempre ser livre para tirar as suas.

Karol é lésbica e portanto faz parte do L de LGBTQIA+, quando dizemos  BEM FEITO, ELA QUE LUTE e coisas do tipo estamos assumindo o papel do opressor e dando a ele mais munição para nos atacar pois se nós que deveríamos acolhê-la, apoiar e tentar fazer com que ela veja o engano em que havia incorrido ao andar com quem lhe tratava realmente como massa de manobra, a renegamos e dizemos que vá pedir ajuda em outro lugar então o outro lado vai, com propriedade, nos apontar como intolerantes, radicais, preconceituosos e até espalhar boatos de que os agressores foram da esquerda rábida e de outros gays ressentidos da traição de alguém da comunidade.

Percebem como apenas fizemos o jogo deles e saímos mais fragilizados do evento? Quem deveria ser apontado como vilão sai como herói e vice-versa e a rachadura em nosso telhado fez apenas aumentar.

Ela traiu o movimento? Que é traição, meus amores? Ela ou qualquer um de nós é obrigado e concordar com tudo que a militância faz ou diz e digo isso de forma generalizada, ser militante é acima de tudo cobrar não apenas das autoridades e sociedade civil nossos direitos mas apontar onde a militância falha ou age de forma equivocada, aceitar tudo que a militância diz sem questionar nos torna tão ou mais cegos que as pessoas que condenamos do outro lado e, novamente, não estou desmerecendo a militância que ela é essencial e de vital importância para nossa comunidade mas ela não pode nos cegar ao ponto de não sabermos diferenciar erros de acertos, a militância não está acima do bem e do mal.

Quando 'comemoramos' a agressão passamos a ter tanta culpa quanto o agressor e aí fica meio difícil de diferenciar quem é quem, não acham? Qualquer ataque homofóbico deve ser condenado independente de quem seja, se não tivermos esse sentimento de unidade e coesão estamos fadados a morrer como pessoas e movimento enquanto o opressor fica cada vez mais forte, julgar que essa agressão é a lei do retorno é apenas confirmar que esse retorno, ao rirmos de Karol, estará nos esperando na esquina e passaremos o resto de nossas vidas nesse ciclo sem fim, não estaria na hora ou até mesmo passada a hora entendermos que precisamos de UNIÃO e não de SEPARAÇÃO?

Eu realmente espero que ela tenha caído em si e entendido que as pessoas que ela apoia são as mesmas que endossam e incentivam agressões como a que sofreu, que a LGBTQfobia mata mais do que conflitos armados ao redor do globo e que vitimismo é um conceito usado pelo opressor para estrangular qualquer luta por igualidade e representatividade.

Enquanto não entendermos que agredir um membro de nossa comunidade é agredir todos estaremos ainda caminhando para o fracasso a passos largos e dando mais espaço para aqueles que nos querem cada vez menos presentes para não dizer mortos.

lembranças aleatórias não relacionadas com a infância

Lembrança #10 Lembro de uma festa ou rave ou balada que eu ajudei um amigo a organizar num tipo de sítio eu acho. Estava separado do meu nam...