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18 de dez. de 2020

o tear

 



Acordou antes mesmo dos primeiros raios de sol resolverem trabalhar e isso sempre a confundia, não sabia se era um dia novo que iniciava ou apenas uma extensão do anterior o que, na verdade, lhe era indiferente.

Havia muito a fazer e assim, passou rápido um café, cortou uma fatia fina de pão no qual passou um pouco de manteiga que já ia meio desandando e depois, ficou ali uns momentos observando a manteiga penetrar nos pequenos furinhos do pão. Sempre passava a manteiga de forma que a fatia de pão ficasse uniformemente coberta, mas hoje, de forma acidental ou não, havia deixado um pequeno pedaço dela em uma das beiradas da fatia e agora, ela vagarosamente escorria por aquela parede de trigo.


Ficou ali observando aquele movimento moroso, a xícara de café soltando um vapor leve, o aroma era de café ou algo que parecia com isso, ela lembrava do cheiro do café e principalmente do gosto ou era do gosto e depois do cheiro, não sabia, só sabia que lembrava café. A manteiga finalmente percorreu toda a lateral da fatia de pão e se esparramou no pequeno prato que a acolhia, ela queria ser a manteiga mas a vida era uma fatia muito grande de pão.


Desjejum feito, lavou a pouca louça que usara e já com os primeiros indícios de trabalho solar foi-se para a sala onde o tear a aguardava em silêncio. Abriu as janelas, a claridade já começava a inundar o cômodo o que lhe permitiria trabalhar, essa época era boa, havia muita luz, diferente das outras, ela não lembrava os nomes, sabia apenas que numas fazia frio e noutras, muito calor, agora era algo no meio, ela queria ser uma estação mas a vida havia cancelado sua parada.


Olhou para o tear, o trabalho já ia adiantado, questão de mais o que? Um dia, pouco mais? Era uma encomenda boa, lhe traria alguns dividendos, o suficiente para alguns meses até pingar outro trabalho, não eram muitos, teares eram antigos, poucas pessoas sabiam manejar um, acabariam por desaparecer, ela queria desaparecer mas sempre acabava aparecendo de volta.


Esfregou as mãos no avental já carcomido por um sem fim de esfregadas, arfou de leve e sentou-se no banco em frente ao tear quando o sol finalmente despontava no horizonte. Ela queria ser um sol, se contentaria com uma lua, mas o universo era muito grande para ela.


Começou a tecer, era bom começar cedo, fazia o trabalho render, ela rendia muito, lembrava de um tempo em que tecia quase sem parar, o tear chegava a pedir arrego, ela chegou a vara noites tecendo mas não sabia ao certo quando fora isso, podia ser um sonho, talvez fosse, ela tecia há tanto tempo que até o tempo era apenas um fio a mais a ser tecido, ela queria ser o tempo mas ele era um fio muito grande para tecer em seu tear.


A manhã já ia alta, o trabalho rendia bem e ela resolveu fazer uma pausa para tomar um café e comer mais uma fatia de pão, almoçaria mais à tarde. Dessa vez não passou manteiga, apenas comeu o pão e bebeu meia xícara de café. Ficou alguns minutos olhando pela janela da cozinha, o tempo estava bom lá fora, talvez valesse uma caminhada para esticar as pernas, ela antes fazia isso mas não lembrava quando o fizera a última vez, tinha de acabar aquela peça o quanto antes, havia pressa na entrega mas o sol estava tão convidativo, ela queria caminhar mas os caminhos já não eram os mesmos há tempos.


Voltando ao tear, sentou-se e foi quando deu fé, pela primeira vez ao olhar para a barra do vestido que roçava gentilmente o chão, um pequeno fio que dela se desprendia. Mirou o fio por longos minutos, não com surpresa mas com interrogação, era de se esperar que houvesse já que o vestido vivera dias mais ilustres. Pensou em puxá-lo mas isso poderia desfazer toda a costura e sua era a responsabilidade de tecer e não o oposto, resolveu então deixar o fio quieto e voltou ao tear.


A tarde avançou rapidamente, a luz já ia fugindo quando ela parou seu trabalho, sim não tardaria a acabar e enquanto admirava seu trabalho lembrou-se do pequeno fio solto em sua saia. Olhou para baixo e talvez pela pouca luz ou cansaço das vistas, ela queria ver mas a visão era demais para tanto, o fio lhe parecia maior. Certamente que seus movimentos tecendo o haviam soltado mais, levou a mão até o fujão e fez menção de puxá-lo, mas, anos de tecelã lhe impediram de cometer crime tão hediondo e cansada, resolveu ir deitar-se.


No dia seguinte repetiu lá seu mesmo ritual e, quando sentou ante ao tear olhou para baixo, de certo que o fio deveria ter sumido já, impossível que ainda estivesse lá mas estava e agora, à luz do dia, não havia falha ou truque das vistas, estava mesmo maior. Abaixou-se e o pegou com uma das mãos, já formava um pequeno bolo, ela deveria cortá-lo ou mesmo tentar costurá-lo de volta mas para isso precisaria parar o trabalho e a data da entrega se aproximava além do mais, ela sentia-se cansada, mais do que ontem e do que antes, ela pouco se cansava, ela não queria descansar mas o cansaço era uma fatia de pão com manteiga demais sobre ela.


Deixou o fio para lá e voltou a tecer, nem mesmo fez pausa para café ou almoço, queria terminar logo, a entrega, era preciso respeitar os prazos, seu cansaço não importava, ela jamais havia atrasado uma entrega, seu tear era mais preciso que muitos relógios e seria possível acertar as datas do ano por suas entregas.


Quando o dia bateu seu ponto transferindo o turno para a noite, ela parou de tecer e, meio ressabiada, olhou para o chão, lá estava um pequeno monte de fios, já um pequeno novelo saindo de si, ela ensimesmada pensou em como poderia estar se desfazendo assim uma fazenda tão boa mas, ainda que fosse de qualidade, não há tal coisa que peite o tempo que acaba por desfazer tudo que é do bom e do melhor afinal, para ele isso não existe. Exausta, levantou-se e foi para a cama arrastando atrás de si aquele pequeno filhote de tecido, incapaz de lhe cortar o cordão umbilical por uma questão de princípios mais do que praticidade.


Acordou no dia seguinte com a luz do sol a lhe tocar as faces emprestando um calor há muito esquecido, chegou a pensar que sonhava com calores há tanto enterrados e olvidados mas a surpresa lhe pegou no pé pois se o sol lhe fazia carícias, o trabalho já estava então atrasado. Pulou da cama e sem café, pão ou manteiga foi-se ao tear mas sentia-se pesada, mais do que o peso do vestido, corpo ou alma que já fora tecida e costurada tantas vezes, olhou para trás e lá estava o novelo agora maior, já se poderia tecer um pequeno tapete dele, pegou-o nas mãos e indecisa e em susto, largou-o como se houvesse tocado algum leproso.


O dia corria já, era fazer repor o tempo perdido, ilusão pura mesmo que houvesse às mãos todo o tecido do mundo. Sentia as forças lhe faltarem mas era preciso tecer, cumprir a entrega, a clientela não podia esperar, ela sim.


No tear, o trabalho ia bem, pensava mesmo que era seu melhor trabalho em tempos, talvez o melhor de sua vida, se fosse seu legado, poderia ir-se em paz e ouviria do lado de lá os elogios e faces de espanto antes tamanha peça de arte, quem sabe gerações futuras não estudariam seu trabalho, não fosse usado como referência e padrão de qualidade para tecelões futuros se é que tal coisa existira no futuro mas, sempre haveria necessidade de tecelões fosse para tecer roupas, tapetes ou mesmo a delicada fábrica que unia em finos fios a trama da vida e, se não fosse para tecer, que fosse para remendar, tudo se rasga com o tempo e apenas mãos firmes e experientes sabiam como por de volta o que as intempéries cotidianas haviam rasgado.


Esses pensamentos lhe fizeram escorrer um fiozinho de suor frio pela testa e pelas faces, faltava tão pouco agora, era um tear bom aquele, estava ali desde sempre ou desde quando ela entendia o que era o sempre, brotou em sua mente uma lembrança meio embaçada de menina vendo mulher tecer, a vida era um tear, tecemos com nossas lágrimas o pano que nos servirá de mortalha, alguém lhe falara isso ou era um lembrança solta.


Olhou para o chão, o novelo que se soltava de sua saia já estava grande, se lhe faltasse fio poderia usá-lo para acabar a entrega mas fio havia, fio havia, ela tinha um bom estoque, estava segura mas, como a segurança é por si insegura, para apaziguar seu medo e satisfazer sua certeza, levantou-se e foi até onde guardava os fios arrastando atrás de si aquele pequenos animal de estimação felpudo.


Ao abrir o armário onde acomodava seus fios, quase foi ao chão, empalideceu de tal forma que a cera de velas tinham mais coloração que sua face, o armário estava vazio e a entrega seria no dia seguinte. Voltou ao tear arrastando dois pesos, o de sua decepção por não ter-se antecipado ao fato e o pequeno novelo que ia onde ela fosse.


Sentou-se em frente o tear, lá fora a tarde se espalhava por todo lado de forma preguiçosa, ela inspirou profundamente e desejou que a tarde ficasse ali mais tempo mas já ao longe as cores da noite começavam a comer em pequenos pedaços aquele resto de dia.


Desolada, não poderia cumprir com a entrega e lhe faltava tão pouco, um novelo bastaria, não mais. Como pudera ser tão descuidada? Uma vida dedicada assim ir ao fim, nunca lhe havia passado isso, agora deixaria como legado não elogios mas um nome que seria eternamente associado à inconstância e incompetência, seu tear seria vendido como bugiganga e não preservado como item histórico.


Suspirando levemente olhou para o chão, o novelo ainda estava lá, maior ainda ela pensou, como se não bastasse a desgraça de agora ainda tinha aquele atestado de sua incapacidade a lhe lamber as saias e então, em algum tipo de iluminação divina ou desespero, é difícil diferenciar ambos pois confunde-se muito, quando se pensa num é outro e vice-versa, teve ali a resposta de suas preces ou angústias.


Sacou o novelo do chão e o desfiou encaixando sua meada no tear. Com o olho, mediu a quantidade, haveria de ser o suficiente, não tinha também outra alternativa que não essa, preparada e determinada, começou a tecer pois a noite já se mudava e o dia seguinte iniciara sua jornada trazendo consigo a entrega.


E teceu a noite toda, horas a fio, com fio, fiando-se no tecido que dela saía, seu nome seria intocado, seu tear imaculado, seu trabalho reconhecido e sua técnica reverenciada. Ela seria alguém, não apenas um fio no tear mas o tear, nunca fizera outra coisa exceto tecer, tecera de tudo de tapetes a tapeçarias, a finas tramas que jamais entendera a serventia, de panos raros e caros, padronagens simples e das mais intricadas, seguira tecendo fosse na chuva, sol, neve ou seca, tecia de olhos fechados, muitas vezes com amor outras tantas com um sentimento menor mas tecia, a vida tecia junto mas ela não reconhecia a padronagem, tentava se encaixar na trama mas a vida sempre mudava o padrão, ela teve padrão mas não lembrava qual era, achava ter tecido fios com outros mas há tanto tempo que não sabia quais eram os fios usados, não lembrava bem deles apenas de seguir tecendo, dias, noites e sempre no prazo, isso era o mais importante, tecer é vida, tecer com arte de no prazo é arte em vida e se a arte imita a vida que dizer de sua tecelagens, não eram arte e vida? Não eram sua vida, não tecia sua vida para outros deixando que eles usassem sua vida tecida como proteção aos fios tortos que não sabiam tecer por si?


O dia chegou de mansinho, veio junto uma névoa suave que cobriu tudo dando às paragens aparência de algo imerso em líquido. Quando a névoa subiu e a luz morna finalmente tocou a terra, as pessoas começaram a sair para suas tarefas diárias, havia muito a entregar e o prazo é muito importante, o leite deve estar às portas cedo, os jornais idem, o comércio deve abrir suas portas e a vida deve ter seus prazos atendidos.


A entrega da encomenda foi respeitada, a peça de tecelagem era realmente única, foi um espanto geral ante tamanha qualidade e fineza do trabalho executado, uns diziam que não era algo terreno, que apenas os divinos poderiam ter concebido algo tão perfeito e belo, outros sussurravam que forças menos nobres pudessem estar envolvidas, uns tantos lhe achavam defeitos por motivos de inveja e amargura apenas, outros não deram atenção e a pessoa a quem era destinada a peça rompeu em prantos ante tamanha beleza, disse sentir uma injustiça que peça tão rara e única fosse de sua propriedade e decidiu por doá-la a comunidade, houve quem duvidasse de seus motivos mas a doação foi aceita mesmo assim.


O único consenso foi a dúvida sobre o paradeiro da artesã autora de tão magnífica peça.

4 de dez. de 2020

vazio da frente

 


O apartamento da frente fora desocupado há poucos dias, podia ver as paredes de um branco cansado, nuas, os buracos de pregos feito estigmas relembrando quadros mortos ali antes pendurados, a janela agora sem cortinas, selada, revelando o que antes era apenas vislumbrado.

A porta do quarto escancarada mostrando um espelho deixado para trás, provável que não pertencesse aos últimos moradores e nem mesmo aos que antes deles vieram, espelho é coisa que se leva consigo, carrega parte da alma e da soberba humana, coisas que costumeiramente não se abandonam em qualquer lugar. De certo refletia outros tempos e pessoas que impediam os vindos depois de criar algum vínculo com a imagem que tentavam refletir e assim, o deixavam ali como guardião emérito.

A janela do quarto, vista parcialmente, despida de qualquer roupa deixava ver o outro lado do prédio, como se aquele metro quadrado fosse algum tipo de universo paralelo onde se podia existir em algum tipo de vazio. Esta também residia fechada, as do banheiro, pequenas, também e se as da área diminuta de serviço assim fossem, teriam ali dentro ficado trancados um sem fim de frases, risos, choros, suspiros, amores, dissabores, alegrias e tristezas vagando pelos cômodos a esmo, esbarrando uns nos outros esperando obter algum sentido ou resposta que talvez jamais viesse.

Quem sabe futuros moradores poderiam sentir no ar esses resto mortais de conversas e sentimentos passados, atribuir ao mofo e assentar residência ali sem saber de tudo que ali já fora proferido e feito. As paredes poderiam ganhar um branco mais alvo, os buracos de pregos novos moradores e aquele bando de frases soltas enclausuradas novas bocas por onde pudessem entrar e aguardar bem quietinhos o momento de voltarem ao mundo fosse para agradar ou causar estrago.

Pensou mesmo que houvesse algum tipo de má-fé embutida na moradia já que lhe parecia que os que ali tentavam fixar residência tinham uma permanência extremamente efêmera mas, se há esse tipo de coisa, cria mais que fosse fruto da ação humana pura e estúpida que devido a poderes sobrenaturais, os espíritos deveriam ter coisas mais importantes e agradáveis a fazer que perturbar os vivos já que deles prescindiam, haviam livrado-se deste incômodo, podiam vagar pelo universo, não careciam amaldiçoar os vivos que o faziam muito bem por si mesmos.

Suspirou, profundamente. Pensou se um dia ali onde residia seria uma réplica do apartamento vazio em frente, sabia que esse dia chegaria e o aceitaria calma e docemente ainda que apegado a um certo sentimento de posse mas, sabia que o corpo que usava, assim como o imóvel, eram apenas arrendamentos com ilusão de posse, chegada a hora, passariam a outros que necessitavam mais deles, era assim a coisa toda.

Desejou intimamente sorte a quem quer que fosse o novo morador do apartamento vazio, fosse o dele ou aquele à sua frente e foi lá cuidar de sua vida emprestada.

Era o que podia fazer.

3 de dez. de 2020

sete dias

 



SEGUNDA-FEIRA


É saudade então, algo que já vi e não vejo mais ou um desejo inerte que desperta ao toque ou sussurro de alguma palavra mágica, ánima que faltou quando da concepção, talvez seja isso a busca pelo amor. Quando fecundados, algo se perde na fusão dos gametas e, saídos do ventre, passamos o resto de nossos dias a buscar esse complemento que nos falta.


Acho que você buscava o mesmo ou os olhares não haveriam de cair em traição e posto a nós em situação de desconforto agradável. Depois de cruzados, o caminho já ia sem volta e do olhar passamos a palavra e pequenos gestos que denotavam um sentimento mútuo embrionário.


A criação demanda tempo mas desse bem, os que gostam parecem dispor com bem lhes parece ainda que, incoscientemente, saibam seguir seu ritmo e direção únicos.


TERÇA-FEIRA


O que demanda o sentimento, o desejo prescinde. A carne deve ser provada até os ossos, como se apenas neles residisse a essência, o gosto. O afã do início rouba de nós o prazer da degustação, quando finalmente resolvemos deixar o paladar banquetear-se, o sumo do gosto já foi sorvido e ainda que a carne seja saborosa, seu suco primordial já se foi e passamos apenas a mastigar o mesmo naco até dele sorver a última gota de suco.


Todavia, é um processo prazeroso esse e nos entregamos a ele com afinco afinal nossas carnes eram tenras e novas, havia muito que saborear e pouco que refugar. Durante as refeições eu, você ou nós deixamos escapar algo que não estava no cardápio ou deveria ser a sobremesa o que adoçou ainda mais as bocas e nos fez pensar nos dias que viriam trazendo apenas mais sabores.


QUARTA-FEIRA


A metade é um lugar inóspito, inspira cuidado pois é invariavelmente o ponto de onde se decide ir adiante ou retornar de forma segura. Tal decisão deveria ser tomada de forma cuidadosa e pensada mas, costumamos fazê-lo de julgamento impreciso, infestado de emoções inebriantes e promessas de que tudo sempre será melhor no dia seguinte, na próxima esquina, ao virar a página.


Ainda que os presságios sejam animadores, deveria haver algum tipo de regra que forçasse a todos, chegando em tal estágio, pesar bem o que fazer em seguida e tomar uma decisão proveitosa a ambos mesmo às custas da desgraça de uma das partes.


Infelizmente, isso não ocorre, sentir é tomar decisões assim, se fosse o oposto o mundo viveria em paz e os casais estariam juntos para sempre ou cada um vivendo tranquilamente uma existência única, pacífica e plena de si mesmo.


Tomamos as mãos um do outro e mandando às favas qualquer sinal ou sugestão de bom senso, seguimos em frente deixando para trás qualquer possibilidade de fazer a volta. Isso é amor, se fosse o contrário não o seria ou estamos todos cegos e carentes ante a hipótese de seguir sozinhos um caminho tão longo.


QUINTA-FEIRA


Depois de um tempo, até o inominável ganha nome, é do humano nomear as coisas e isso feito, passa-se a criar um laço afetivo com o nomeado e a partir desse momento, ele começa a fenecer.


Talvez deixar as coisas sem nome fosse uma alternativa mais honesta e que nos permitiria uma vida menos atribulada mas, não somos assim e seguimos dando nomes a tudo que vemos pela frente. Demos os nomes ao que sentíamos e isso nos encheu de orgulho, talvez isso seja a causa da morte de muitos ou seja apenas o cansaço.


Registramos em cartório, reconhecemos firma e voltamos para casa satisfeitos.


SEXTA-FEIRA


A antecipação é uma antessala cheia de gente onde ninguém é chamado pela ordem de chegada, senha ou nome. Ficamos todos ali esperando, os pés tremendo nervosamente, as pernas abrindo e fechando e os dedos tamborilando sobre as coxas.


A questão é que antecipamos algo que já sabemos, conhecemos e sabemos certo mas fingimos não saber, feito uma surpresa ao contrário. A felicidade tem um valor, é certo, problema é estipular o preço, essa conta fecha pouquíssimas vezes pois a matemática que usamos nunca é mesma.


Se eu quero multiplicar, você divide, se quero somar, você quer subtrair, se quero chegar a raiz quadrada, você faz cara de pi e assim vamos.


SÁBADO


No sétimo dia descansamos, exaustos um do outro.


DOMINGO


Fui a missa bem cedo, você estava lá também mas sentado do lado oposto ao meu.


A homilia seguia seu curso, cada um ali fermentando seus pecados e arrependimentos, olhando para as imagens de ar sofredor buscando algum alento, as palavras proferidas eram apenas mais uma chibatada em lombos já em carne viva, deveriam servir redenção mas só havia mesmo penitência.


Estava ali para prestar meus tributos ao falecido, não esperava que voltasse dos mortos feito o Nazareno mas, achei de bom tom ao menos encomendar uma missa em seu nome já que me fora tão importante durante tanto tempo.


De soslaio olhava para você, quem sabe não viera fazer o mesmo, vi o tempo que marcar bem cada minuto nosso em suas faces e não apenas nas minhas, suspirei fundo olhando para as pinturas nas paredes e cruzei olhos com aquele santo das causas perdidas ou impossíveis, não lhe pedi nada porque já havia passado e muito o tempo de lhe fazer pedidos, era momento de aceitar e purgar e deixar ao altíssimo qualquer possibilidade de julgamento.


No momento em que os falecidos eram citados em solene homenagem, abaixei a cabeça, arrisquei um olhar em sua direção e acho que vi algo úmido em seu rosto mas não sei ao certo, me contive em relembrar os mortos e desejar que estivessem em lugar melhor, cabe aos vivos apenas isso e tocar a vida até o momento de ir com eles ter e saber se lhes fizemos justiça ou vergonha.


Acabada a missa, saí de fininho, queria deixar aquele lugar o quanto antes e antes de você mas, acho que as entidades superiores fazem graça conosco e a aglomeração à saída me deteve o suficiente para que logo no umbral nos deparássemos um ante o outro.


Acho que vi as imagens virarem seus rostos nesse momento em tensão, não sei, Trocamos olhares velhos, cansados e sentidos, velávamos o mesmo corpo e agora era tempo de deixá-lo cumprir seu ritual de passagem.


Esprememos cada um nossos lábios num esgar de sorriso de compreensão mútua ou resignação e saímos dali para a vida que seguia seu curso normalmente do lado de fora.




lembranças aleatórias não relacionadas com a infância

Lembrança #10 Lembro de uma festa ou rave ou balada que eu ajudei um amigo a organizar num tipo de sítio eu acho. Estava separado do meu nam...