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18 de mar. de 2020

O doente imaginário



Quando uma pessoa é eleita presidente de um país, espera-se que além de governar bem ela tenha certa compostura pertinente ao cargo que ocupa afinal, estará representando toda uma sociedade ou boa parte dela e não apenas ela mas a ideia de nação, será a cara do país pelo período em que governar.

Obviamente que isso não é perfeito afinal, presidentes não são máquinas, são pessoas e, em sendo, estão sujeitos a falhar pouco ou miseravelmente com a diferença de que seus erros ecoam muito mais que os nossos pelas razões que acabei de expor.

Qual o parâmetro então para determinar quando um presidente erra demais?

Complicado mas, pensemos nesse vídeo do presidente concedendo uma entrevista. Não é de hoje que essas conversas ao pé do ouvido que ele concede são contraditórias, ele usa essa ocasião como plataforma de contato com seu eleitorado e despreza e ofende a imprensa que lá está quando esta lhe faz saia justa ou vem de algum jornal ou canal que ele odeia pelo simples fato de tocarem em feridas que todo político sambado está mais do que acostumado a terem abertas.

Primeiro veja o tom do presidente, ele está claramente desconfortável ao falar com os jornalistas, como se fossem algo muito pior que a pandemia que assola o país e cujo governo encabeçado por ele insiste em menosprezar;

Depois, em certo momento, alega que a histeria da pandemia vai prejudicar a economia, gerar desemprego, prejuízos e recessão mas, ao mencionar tais fatos, defende apenas os empresários e o governo que terão de arcar com rescisões, multas e amparo aos desempregados, nenhuma palavra de apoio ou consideração a quem vai sofrer muito mais com tudo isso, o desempregado em si.

Ainda no caminho da histeria pandêmica, alega que o pânico será usado como capital político por oportunistas, não digo que esteja de todo equivocado mas até agora, quem está fazendo isso é o presidente e seus seguidores.

Em outro momento, o presidente diz que a Itália é uma cidade-estado com muitos velhos e que velhos são fracos, debilitados e vão morrer mesmo então não tem o que fazer, que a Itália é tipo Copacabana que só tem velho e, se quisermos fazer uma interpretação livre ou subliminar, o presidente disse, a grosso modo, que velhos precisam morrer porque são um fardo e precisam dar lugar aos mais jovens e mais fortes para construir a nação que ele sonha para todos.

Outra pérola, segundo o presidente, a epidemia só vai passar quando parte da população adquiri naturalmente imunidade contra o vírus ou seja, seleção natural pura e simples, morte dos mais fracos e sobrevivência dos mais aptos só que nesse caso, quem está decidindo isso não é a natureza mas o governo que prefere lidar com a situação como se fosse um exagero descabido. Para não onerar ainda mais o Estado, deixemos que a natureza siga seu curso.

Depois ainda compara a pandemia com uma gestação, só se for uma gestação indesejada e impossível de ser abortada, como se a pandemia tivesse sido gestada em algum útero maligno (comunista talvez) e fosse o resultado de uma união profana.

A única razão que dou ao presidente é a de que realmente o pânico não irá nos salvar, muito pelo contrário mas mesmo essas palavras saídas de sua boca soam como escárnio e desprezo por uma situação que ele não tem capacidade de gerenciar, entender ou manusear.

Tenho certeza de que sobreviveremos a essa pandemia de um jeito ou de outro. Não tenho tanta certeza se sobreviveremos ao presidente que temos.

5 de mar. de 2020

O Astro

Quando li isso aqui, achei que era balela mas, lendo a matéria, constata-se que é verídico.

Não sei por onde começar a explicar o absurdo de tal situação. Será possível que está assim tão complicado encontrar profissionais qualificados que é preciso recorrer aos astros para fazer uma contratação? Ou estamos diante de uma nova forma de processo seletivo onde suas características astrológicas serão o fiel da balança para sua contratação ao invés de experiência profissional, formação e habilidades?

Se for assim, então aqueles signos considerados mais difíceis estarão fadados ao desemprego eterno ou a se tornarem 'empreendedores' como se já não bastasse o governo e sociedade para promover a precarização do trabalho com a praga do empreendedorismo.

Eu pessoalmente não creio na astrologia ainda que reconheça que essa 'pseudociência' (não confundir com ASTRONOMIA) tem milênios de história e deve ser respeitada como forma de estudo, conhecimento e auto-conhecimento mas eu não consigo crer que a elevação de uma estrela ou o trânsito de um planeta pode influenciar minha vida, atitudes, comportamento ou determinar meu destino, nem mesmo traçar as características de minha personalidade ou falhas de comportamento. Acho uma saída fácil para desculpar nossos erros e falhas enquanto pessoas dizer que somos como somos porque nosso signo assim o determina ou dizer que essa ou aquela pessoas tem os problemas que tem porque é desse ou daquele signo.

Claro, estou fazendo uma generalização quase grotesca e, como já disse, a astrologia merece sim respeito como 'ciência' do auto-conhecimento afinal, algo que está ainda vivo e presente depois de mais de quatro mil anos ou mais merece um mínimo de respeito e, se você crê e segue, lhe faz bem e lhe dá as respostas ou parte das respostas que busca, muito que bem!

Creio que meu problema com a astrologia é a questão de colocar a fé, algo que sou contrário a fazer quando confrontado com qualquer conjunto de crenças, regras, preceitos, normas, homilias ou coisas telúricas que foram construídos pelo homem e fique claro, é uma opinião minha, pessoal e eu posso e muito provavelmente estou enganado, quem sabe?

Outro ponto que me incomoda é a questão do horóscopo e sei que até mesmo alguns astrólogos torcem o nariz quando falamos disso. Dia desses, falava com um amigo que me contava sobre as previsões para seu signo e, involuntariamente, acabei desmontando sua crença naquelas previsões argumentando que o horóscopo nunca fala nada claramente, sempre lhe dá 50% de chance de que algo vá ou não acontecer ou seja, se ele acertar ótimo, se errar, também.

Pegue qualquer enunciado de horóscopo e veja como eles jogam com seu emocional e jamais afirmam qualquer coisa, apenas jogam possibilidades que lidam com o aleatório de nossas vidas e com nosso emocional. Assim, se você lê que pode haver problemas no trabalho e algo realmente acontecer, vai dizer que o horóscopo esteva certo, que os astros previram isso ao invés de tentar entender porque e como aconteceu esse problema que, muito provavelmente, teve uma causa real muito clara.

Da mesma forma, quando os astros apontam coisas boas e elas realmente acontecem, temos o sentimento de recompensa, de que o universo ou os deuses e deusas estão sorrindo para nós quando poderíamos apenas pensar que tais acontecimentos são reflexos de ações que tivemos ou, porque não, puro acaso ou sorte.

É mais o menos como dizer que hoje está um dia lindo mas pode ser que chova à tarde, entender? Qualquer uma das afirmações é verídica se ocorrer. O que mais me espanta é ver como as previsões diferem entre si, se meu signo é regido por um ou mais astros, ascendentes e coisas assim e tais fatos são, pelo que entendo, imutáveis, então, diferentes astrólogos deveriam ter a mesma interpretação de meu destino já que não poderiam alterar os desígnios astrais que me regem.

Não é o que acontece.

Hoje, para escrever este texto, li pelo menos quatro horóscopos distintos e cada um preconizada uma coisa diferente para mim, qual deles tem a razão? Qual deles fala a verdade? Se for seguir todos minha vida vai virar de cabeça pro ar.

Obviamente que o horóscopo é apenas parte da astrologia, desmerecer esse estudo dos astros e seus efeitos sobre nós e nossas vidas apenas porque or jornais, revistas e internet pululam com as mais absurdos desígnios e previsões seria tomar uma parte pelo todo.

Desde sempre tivemos uma necessidade de encontrar respostas, é humano apenas, esse desejo nos fez conceber os mais belos sonhos além dos mais terríveis pesadelos. Nessa busca, voltamos nossos olhos para os céus e passamos a buscar nos astros as respostas que tanto ansiamos, se eles realmente estão respondendo, não sei dizer. Se estão velando por nossos destinos, muito menos. Se estão nos ajudando ou atrapalhando, menos ainda. Deixo tais respostas para os astrólogos e estudiosos sérios do assunto que tem meu profundo respeito assim como as pessoas que seguem tais crenças.

No frigir dos ovos, não creio em bruxas mas que elas existem, ah, isso existem sim!




2 de mar. de 2020

Deus não está aqui

Desde que nos separamos de nossos parentes primatas na cadeia evolutiva e adquirimos consciência de que éramos parte atuante do mundo ao nosso redor, buscamos, como espécie, um sentido ou explicação para essa viagem doida que é viver.

Para explicar fenômenos naturais, astronômicos e as mazelas nossas e do mundo, passamos a atribuí-los a entidades superiores que ou nos recompensavam ou castigavam conforme nosso comportamento, fé ou ausência dela, ou apenas porque lhes apraz fazer com que nós, meros mortais, soframos para seu divertimento e lazer. Desse amálgama de crenças e conjuntos de ideias surgiram a grande maioria das religiões atuais e, porque não dizer, com elas boa parte das desgraças e guerras no mundo.

Não questiono a fé que penso ser algo mais etéreo e inerente ao humano independente se a temos numa divindade, divindades, entidades ou seja lá o que for, penso a fé como algo que transcende qualquer conjunto de crenças e delas independe já podemos associá-la a qualquer coisa terrena da mesma forma.

O que me desagrada são as religiões pois foram feitas por homens que, por sua vez, são falhos pois são humanos e assim, as religiões também o são. Acho pouco provável que as escrituras sagradas de qualquer religião tenham sido escritas por algum tipo de divindade, ditados por alguma entidade divina ou coisa que o valha, para mim, são obras ficcionais de qualidade extremamente convincente ou questionável servindo mais como parábolas e simbologias para determinar um conjunto de regras que os crentes devem seguir e os castigos caso não o façam.

Não admira que cada religião tenha dentro de si tantas divisões e sub-divisões já que tais conjuntos de escrituras estão sujeitos a interpretações por seus seguidores, quando um deles ou um grupo deles passa a discordar ou entender de forma diferente o que as escrituras pregam, temos o cisma, a heresia, o protesto e a divisão e daí por diante. Igualmente, não é raro que essas diferentes visões colidam ou tenham arestas o que acaba por causar boa parte das guerras, fomes, perseguições, chacinas, crimes e todo tipo de horror em nome do que cada um entende ser a verdadeira fé.

Não condeno quem segue ou crê em alguma religião, se lhe dá algum alento e conforto, ajuda e entender as vicissitudes da vida e o fardo cotidiano a ser carregado, fico feliz por você mas, quando a religião passa a servir de alicerce para mater, odiar, perseguir, discriminar, ofender, separar, isolar e desmerecer o outro então temos um grave problema e, infelizmente, grande parte senão a maioria das religiões parecem estarem felizes e em paz consigo e seus acólitos apenas quando perpetrando ou disseminando tais atos.

A religião é a droga mais pesada já inventada pelo homem, inventada sim pois como disse mais acima não veio de uma sarça ardente nem de algum ser etéreo que apareceu do nada ou reviveu depois de morto, veio do inconsciente coletivo que necessitava de algum tipo de almofada emocional que permitisse lidar e explicar com as coisas ruins que se passavam e, por osmose, dar graças pelas coisas boas no melhor estilo comportamental.

Somos criaturas alimentadas por estímulos, condicionados desde sempre, fomos adestrados pela tecitura social a saber que, se nos comportamos bem, teremos recompensas, se nos comportamos mau, seremos punidos de acordo e na proporção de nosso erro ou ofensa. A religião trabalha exatamente estes conceitos prometendo o paraíso e vida eterne para aqueles que são bons e o inferno e danação para quem não agir bem, elas embutem a noção de pecado para poluir nossa moral e substituí-la por outra que vai de encontro com as regras da religião lidando com a culpa como moeda de troca, o pecado como salário do medo e a absolvição como recompensa.

Obviamente que não podemos colocar todas as religiões nos mesmo balaio, há exceções mas são casos raros e que acabam pendendo mais para a filosofia do que uma crença em si, podemos dizer então que as religiões em si não são más, apenas os homens que as fizeram mas, se tais homens são falhos então as religiões também o são e então, nas brechas dessas falhas é onde o humano encontra terreno fértil para dar vazão a seu lado mais horrendo.

Por isso eu creio que deus não está aqui, nunca esteve e nunca estará, se você procura deus, o melhor caminho seria olhar para dentro de si mesmo.

20 de jan. de 2020

O ovo da serpente

Talvez não tenhamos dado a devida atenção e importância a esse caso do Roberto Alvim nos perdendo num sem fim de críticas online sem perceber o quadro maior e bem mais grave que temos nas fuças.

Explico.

Alvim pode parecer demente mas garanto que não é, pode soar como fanático religioso recém convertido mas não é, esses tipos de fanáticos que posam de doidos são os piores pois alegando algum tipo ou grau de insanidade acabam conseguindo desculpas por sua conduta abjeta.

Alvim veio do teatro, da arte, acho muito difícil acreditar que tenha sido vítima de um erro cometido por estagiários ou assessores, influências satânicas como até já comentou recentemente ou novamente alguma falha ou ato falho infeliz. Toda a estética do vídeo, sua postura, entonação de voz, enquadramento, discurso, música de fundo, tudo foi milimetricamente pensado para imitar a estética nazi-fascista de propaganda que arrebatou a Alemanha.

Seria preciso uma sequência inimaginável de erros grosseiros e que ele fosse algum tipo de imbecil para ignorar o que estava sendo feito e, sinceramente, não é o caso. Tenho certeza de que ele de forma consciente e proposital elaborou todos o detalhes daquele show de horrores, negará até a morte e talvez algum estagiário ou assistente terá de lhe ceder a cabeça para acalmar os ânimos mas não compro essa inocência ou ato falho de forma alguma e, se você compra, então o imbecil é você pois se anda como um nazi, fala como um nazi e age como um nazi então É UM NAZI PORRA!

Outro fato muito importante, Alvim quase não foi demitido. O messias ficou lá pensando em segurar ele no cargo até que a soma dos fatores fechou a equação e não teve mais como, ou ele queimava o cara ou quem ardia era ele que já anda mais queimado que carvão depois de churrasco. Bolsonaro não deve nem saber quem foi Goebbels e deve ter pensado que se Alvim causou tanto alvoroço então deve ter sido coisa boa tamanha é sua burrica geográfica e histórica.

Alvim só foi demitido porque abriu a caixa de horrores que é esse governo deixando claro qual sua intenção e plano para a nação, foi demitido porque não foi sútil, deu nomes aos bois e disse a real. A ideologia fascista e nazista segue firme e forte no governo do messias vide Damares, Weintraub e outros acólitos que seguem a cartilha mestra do messias e seu clã teocrático de uma revolução conservadora que recolocará o país no caminho da família, tradição e propriedade.

O erro de Alvim foi interpretar as declarações constantes do messias contras negros, gays, mulheres e demais minorias ao pé da letra e colocar isso para o público, enquanto fossem apenas declarações feitas em eventos ou redes sociais fica esse ar de chacota mas quando você faz um vídeo revelando que a inspiração do governo é concordante com esses discursos a coisa fica séria.

Ou não.

Em seu perfil no Face, Alvim recebeu apoio, APOIO! Impressionante (com dois S porque não Ministro da Educação) como não temos memória ou qualquer bom senso, o cara faz um vídeo de apologia ao NAZISMO e recebe APOIO! Mas, não é de impressionar. A PF em conjunto com a inteligência das polícias estaduais tem monitorado um aumento considerável de atividades de grupos neo-nazistas inclusive com manifestações sendo organizadas em apoio ao ex-secretário e ao presidente, como se não bastassem os casos de imbecis usando SUÁSTICAS como se fossem símbolos de orgulho.

Tudo isso acontece porque o governo que temos é um governo FASCISTA E NAZISTA mas age na calada e nas sombras, quando temos um governante que abertamente condena a cultura, as minorias e prega que estas devem ser curvar à maioria, que deixa claro seu plano ufanista de nação cristã, essas parcelas da sociedade que concordam com ele sentem-se mais do que à vontade para mostrar os dentes sem medo de serem repreendidas.

Bolsonaro teve de demitir Alvim a contragosto porque ele já deixou claro que detesta ter de agir quando pressionado pela mídia, pela classe política ou pela sociedade civil ou seja, temos um ditador no poder que só não é ditador ainda por uma questão técnica, ainda temos três anos para que ele seja o pequeno Hitler dos trópicos, basta aguardar e ver.

Neste caso da sociedade civil há que se fazer um adendo e o farei com o maior respeito a comunidade judaica nacional e internacional pois eles foram sempre as maiores vítimas do nazismo e regimes totalitários e seu repúdio ao discurso de Alvim foi sim decisório para que o imbecil de Brasília tomasse sua decisão mas, foi num discurso para a comunidade israelita na Hebraica do RJ que o então apenas deputado proferiu comentário ofensivos e racistas contra quilombolas e mulheres sendo aplaudido e chamado de mito ou seja, guardadas as proporções obviamente, falar mal de negros, viados, mulheres e nordestinos tudo bem? Dois pesos, duas medidas?

O nazi-fascismo segue embrenhado no poder, esse episódio de Alvim certamente serviu para alertar esse povo de que precisam tomar mais cuidado ao falar de seu plano nefasto para o país, tenham certeza de que a partir de agora eles serão mais cuidadosos - ou não porque o grau de imbecilidade deles é tamanho que certamente farão em breve outra merda que nos causará risos de nervoso - com seu discurso mas não se engane, eles seguem lá e cada vez mais cercados de apoiadores travestidos de defensores da mora e bons costumes, cobertos pelo manto da religião, orando pelo fim do mal que atravessa nossa sociedade na figura de bixas, pretos, pobres e tudo mais que não é aceitável numa sociedade utópica que ele anseiam implementar.

O ovo da serpente eclodiu e as cobras estão rastejando bem diante de nossos pés, cabe a nós pisar em suas cabeças antes que elas nos mordam.

13 de jan. de 2020

Mono não é Estéreo

Em outros textos, refleti sobre novas formas de relacionamento e amor e, após ler esta entrevista de Manuel Lucas Matheu, estudioso do sexo e relacionamentos humanos, só passei a ter mais certeza do tipo de relacionamentos que desejo ter em vida (os pós vida não sei porque ainda não temos testemunhos que comprovem como são as coisas do lado de lá).

Fique claro que estas são as MINHAS opiniões e que relacionamentos são complexos e cabe a cada um de vocês encontrar o que funcione para si e para seu companheiro, companheira, companheires. Eu mesmo passei por um processo de desconstrução e ainda me encontro nele pois relacionamentos e o afeto humano não são coisas estáticas mas mutáveis.

Explico essa última frase.

A estagnação, a famigerada zona de conforto e a acomodação são 'patologias' que matam o humano e tudo que o cerca incluso os relacionamentos. Se você busca um relacionamento para ter segurança então sugiro que repense seus conceitos sobre relações humanas pois um relacionamento não é porto seguro de nada, o oposto disso.

Somos criaturas inquietas e termos adotado uma conduta sedentária desde que passamos a dominar as fontes de alimento e tecituras sociais não nos fez menos nômades, apenas trocamos o vagar físico pelo vagar emocional, em termos de sexo e amor seguimos tão nômades quanto nossos ancestrais sendo a diferença as amarras e convenções sociais que ainda tentam conter nosso desejo a uma esfera de socialmente aceito.

Somos tão diferentes da pessoa que fomos ontem quanto da pessoa que seremos amanhã ou da que seremos daqui a cinco minutos, ser humano é ser mutante e evoluir e, assim sendo, um relacionamento precisa evoluir igualmente ou estará fadado ao erro e a causar angústia e frustração a quem estiver nele envolvido.

Achar que seremos felizes para sempre é uma crença horrenda que nos faz buscar cada vez mais por uma felicidade utópica romantizada e vendida como ideal de vida sendo que jamais a conseguiremos e passaremos a preencher o vazio que surge dessa busca inútil com coisas como bens materiais, drogas lícitas ou não e toda e qualquer coisa que ajude a encarar o fato de que tal modelo inexiste fora das percepções e capacidades individuais.

A monogamia é uma construção social que tem suas fundações em noções de moral e tradição elaboradas única e exclusivamente para manter a todos nós em rédeas curtas e, fim principal, a distribuição de riqueza e poder limitada às classes dominantes perpetuando seu domínio e status quo.

É humanamente impossível que sejamos suficientes, no conceito de monogamia, para suprir as necessidades, anseios, desejos, amor, expectativas e porque não fetiches e taras uns dos outros. Na construção monogâmica jogamos esse peso todo nas costas do outro demandando dessa pessoa que seja capaz de suprir tudo isso quando ela mesma faz igual conosco, nesse jogo não há ganhadores pois essa expectativa de locupletação é impossível e, ao final, teremos pessoas infelizes e tão frustradas que acabarão por odiarem-se de forma visceral pelo simples fato de não terem correspondido às expectativas que deveriam ser da responsabilidade individual e não atribuídas aos outros.

Acredito mesmo que durante nosso tempo de vida amaremos mais de uma pessoa seja em tempos diferentes ou ao mesmo tempo e que essas pessoas atenderão a diferentes necessidades nossas de formas diferentes perfazendo o conjunto da obra algo tão próximo quanto possível do que sonhamos ser a felicidade que desejamos.

Algumas pessoas podem ser apenas um dia, horas ou minutos, outras meses, anos, décadas mas cabe a nós e a elas entender o que podemos fazer uns pelos outros para tornar a vida menos miserável e mais agradável e ter a noção de que o amor romântico perpetuado pela arte, mídia e convenções sociais é uma posse terrível que remete aos piores modelos escravocratas.

Denominar-se dono e senhor da felicidade e prazer alheios é um ato sórdido de dominação colonial e reflexo de milênios de regras religiosas e morais caducas que se recusam a evoluir mesmo ante mudanças radicais no tecido dos relacionamentos humanos e, a onda conservadora que vivemos é um ato desesperado para conter essa mudança que, sinto dizer aos moralistas de plantão, não arrefecerá.

O amor e o desejo não podem ter donos, não é saudável que nos consideremos amos e senhores dos corpos e almas e corações uns dos outros quando apenas nós mesmos temos tal autoridade. Essa noção de que somos apenas um para o outro é um sonho distorcido pois o olhar e o sentimento não conhecem barreiras ou regras, vão onde querem e desejam quem quiser e quando isso bate de frente com a imposição monogâmica de unidade geramos o conceito de traição e condenamos o traidor como se houvesse cometido um crime hediondo quando houve apenas sexo, desejo ou amor e qual desses itens pode ser considerado de posse de algum de nós?

Pode parecer que atesto a desfeitura de todos os tecidos sociais e modelos de relacionamento mas não, relacionamentos saudáveis são baseados em respeito, diálogo e companheirismo, o amor romântico surge no começo mas, com o passar do tempo, ele se transmuta em algo maior que transcende as barreiras convencionais e torna-se algo que nos acalenta e alimenta enquanto seguimos pela vida buscando o que nos faz felizes.

Talvez soe paradoxal mas o amor que aprendi a acreditar não é um amor de posse mas um livre que lhe permite ser feliz com a pessoa ou pessoas que você ama seja em qual momento for e creio mesmo que nós LGBTQs temos por obrigação reinventar os relacionamentos ditos padrão já que não refletem as necessidades ou anseios nossos mas são uma herança modorrenta de uma sociedade machista, patriarcal, normativa e zelosa da tradição, família e propriedade.

A monogamia foi a invenção mais perniciosa que a sociedade humana inventou e acredito que estamos começando a aprender como nos curarmos dela mesmo tendo ao nosso redor críticos e ofensores e até mesmo parte da comunidade científica que, algumas vezes, alega que a monogamia é a única via de contenção de DSTs e outras mazelas do corpo e da mente (parcela da ciência que anda de mãos dadas com os crentes e conservadores de plantão).

Se até o som é estéreo, porque nós deveríamos ser mono?

10 de jan. de 2020

Quem cala consente

Antes de falar a que vim, convém fazer uma rápida explanação do que é fé e do que é religião pois são sim coisas muito distintas mas que frequentemente misturam por aí como se uma fosse parte da outra.

Fé. Não é algo concreto, é mais um sentimento ou (pre)disposição em crer em algo que supera a condição humana sem que esteja formal ou teologicamente relacionado a uma crença ou conjunto de valores específicos.

Ter fé não significa necessariamente crer em algum tipo de divindade ainda que, por conseguinte, quem segue alguma religião irá direcionar sua fé a essa ou aquela divindade ou divindades. Ter fé seria mais crer que o universo tem seus desígnios e que tudo transcorrerá como deve ser e que por mais dura que possa parecer a realidade, as leis universais físicas ou metafísicas darão cabo de tudo e de todos como for preciso.

Fé é algo imaterial e não é preciso crer em algo para ter, basta ter e pronto.

Já religião é um conjunto de crenças, regras, doutrinas, normas ou até mesmo leis que definem como a fé em determinada(s) divindade(s) deve seguir ou seja, sua fé está restrita aos ditames e costumes daquela religião em si e invariavelmente fechados a outras concepções ou noções externas tornando a fé uma coisa hermética e que se alimenta apenas desses preceitos ditados pela divindade não em si mas através de seus 'profetas' ou 'pregadores'.

Lembro que estas são visões minhas, sinta-se livre para concordar ou não.

Quando temos uma religião ou grupo de religiosos que entende seu dever, direito ou função ditar como devemos nos comportar, o que podemos ou não ouvir, ver, ler, assistir e fazer, estamos adentrando um terreno perigoso em que a religião - não a fé - passa a agir como Estado impondo suas regras a todos que não a seguem independente de quem seja.

Quem discorda é considerado inimigo daquela 'fé', é perseguido e execrado e atacado por todos os lados até se converter ou ser expulso da sociedade no melhor estilo medieval ou até pior. A religião é uma falha grotesca da humanidade que precisa ainda de algo que lhe dê algum lenitivo para questões que talvez jamais consiga responder e, se agisse apenas como amparo da alma reconfortando a quem entende precisar desse tipo de apoio, não teríamos problemas pois a religião, quando age desta forma, atua como um tipo almofada emocional.

Como disse acima, temos problemas quando a religião passa a querer ditar como devemos ser e nos comportar de forma generalizada e a religião não pode fazer isso pois não lhe cabe este papel, isso cabe a cada um de nós e ao Estado que deve zelar pelo tecido social da melhor forma possível.

A religião é feita por homens, o que sabemos de cada uma delas foi herdado de uma série de crenças e escrituras que não se sabe quem escreveu ou como foram escritas, em qual contexto ou com qual intuito e pior, tudo feito por seres humanos, as criaturas mais falhas que já pisaram na face do planeta. Como dar crédito a algo que uma pessoa, julgando-se iluminada e eleita, prega como verdade universal e inconteste? Não cabe questionar? Devemos aceitar piamente? Muitas religiões não aceitam qualquer tipo de questionamento e se o fizermos, seremos encarados como descrentes ou pagãos.

Eu só passarei a crer em alguma religião quando a divindade ou divindades que em tese a sustentam materializarem-se na minha frente corroborando cada detalhe do que está escrito, converto-me na hora sem titubear!

Mas, você pode dizer, você também vive sob um conjunto de regras que não sabe ao certo quem fez e ainda assim as segue. Justo. Porém, esse conjunto de regras não foi ditado por uma chama, arbusto, voz misteriosa e potente ou visão, são regras que resultaram de séculos e milênios de evolução social e que são feitas por pessoas eleitas por nós para mantê-las e alterá-las quando necessário, podem e devem ser questionadas e inquiridas, devem evoluir e acompanhar a sociedade que é sempre mutante, não são mandamentos cuspidos de uma montanha ou ditados por nuvens no céu.

Agora chegando ao título do post, quando temos uma religião ou grupo religioso censurando qualquer tipo de manifestação artística ou de opinião porque estas ofendem sua fé, estamos, se nos calarmos, abrindo um precedente horrível para que amanhã outras opiniões ou expressões sejam censuradas igualmente até chegarmos ao patamar de nos sentirmos coibidos de fazê-lo.

É um caminho sem volta e que parece impossível mas é real e está acontecendo ante nossos olhos e estamos todos fazendo de conta que esta tudo bem. Não está. Quando dermos por nós já será tarde demais para fazer qualquer coisa, estaremos amarrados em nome das divindades e sendo forçados a orar rosários e novenas porque a alternativa a isso será a excomunhão social ou, pior cenário, queimar em praça pública.

Acha exagero?

Lembre que já fizemos isso e muito pior em nome da religião e a história tem o péssimo hábito de repetir-se quando lhe damos as costas...

12 de dez. de 2019

Jesus é raposa no país das ovelhas

Estava eu quieto aqui preparando minha segunda vinda -  que anda complicada sabe? Atrasando muito mas não é minha culpa, meu pai anda meio assim de me mandar de novo mas enfim, aviso assim que souber a data certa - quando veio aí um dos anjos dizer que tinha aí um filme falando mal de mim e tal, falando que eu era gay e tal e tipo tirando sarro legal com minha figura e tudo mais.

Na hora confesso que fiquei meio de cara, porra, mais um filme com piada sobre mim, sobre meu pai, sobre aqueles caras com quem eu andei quando estive por aí mas, tudo bem! Na minha época, digo na época que estive com vocês, não tinha nada de filme e essas coisas minha gente, era tradição oral mesmo e aí sabe como é, fala pra um, fala pra outro que fala pra mais uns tantos e quando você dá por si é telefone sem fio e olha que deixei tudo bem, mas muito bem explicado!

Enfim, fiz minha parte, só posso falar isso. Passei o recado, deixei instruções e tudo mais, sabia que um ou outro não tinha entendido porra nenhuma do que eu disse e olha que antes de voltar pra casa ainda perguntei mais de uma vez se alguém tinha alguma dúvida e ninguém falou nada.

Quis ainda ser gente boa e chamei os caras pra uma última ceia, olha só que legal! Comida e bebida por minha conta, à vontade que era pra depois não me chamarem de miséria e ainda teve gente que não gostou e foi lá me dedurar pros romanos, faz parte, quando desci meu velho me disse que não ia agradar geral e que iam me pegar pra cristo, vim sabendo, de boa gente.

Mas voltando aí ao tal filme desses caras, Porta dos Fundos, é isso? Que seja, nome besta para um grupo de humor, só acho. No meu tempo tinha uns comediantes com nomes melhores ou eu estou sendo saudosista mas olha: Os Escárnios de Jerusalém, Lázaro riu por último, Madalena é a mãe, olha só, não é melhor?

Voltando que eu divago às vezes, muita coisa pra pensar, fim do mundo, Satanás ligando toda hora pra falar com meu pai e ele não quer atender aí quem segura a onda sou eu, saca? Olha só o nível da conversa com Luci:

Alô?

Alô.

Quem fala?

Sou eu Luci, pode falar.

Jeová?

Não, meu, sou eu, o filho.

Ah, porra vocês tem a voz igual meu..

Já sei, que você quer?

Afff, precisa ser grosso não JC.

Tá, mas fala aí, que manda?

Meu, queria saber se tem como a gente negociar esse lance de anticristo e tal, eu ando meio sem poder subir lá e, sabe, tipo fazer a parada sabe?

Não sei não.

Ah, sabe vai, aqui embaixo tá o inferno...

Sério?

Hahaha engraçado, sério, fala com o velho aí que ele te escuta, vê se dá pra atrasar isso aí mais uns milênios só até eu estar mais de boa aqui..

Luci, foda isso né..

Porra JC, quebra essa, livrei tua cara no deserto, quebrei altos galhos com teus camaradas...

Tá, vou ver o que dá pra fazer, liga depois.

Valeu, você é o messias!

Pode isso?

Mas então, aí veio esse filme aí e fui lá ver qual era e olha, rache o bico! Ri de molhar a túnica! Meu, porque no meu tempo não tinha essas paradas? Se eu voltar mesmo e esses caras ainda estiverem aí só arrebato eles depois de ver um show e, se já tiverem vindo pra cá ou lá pro lado do Luci, mando voltar só pra ver ali ao vivo.

Só tem uma coisa que me deixou assim realmente meio puto, quase chamei Moisés e pedi lá emprestadas as pragas pra mandar de novo. Esse povo que diz aí que me segue e tal, que me adora e tudo mais aliás, tenho horror de adoração, quando fui aí daquela vez ficava era puto com o povo me venerando mas de boa, deixei pra lá.

Agora esse povo aí fica usando meu nome feito pasta de dente, dizendo que estão agindo em meu nome e tal e que tem de se converter e me aceitar no coração e essas paradas todas. Meu, doente isso, eu fico é com vontade de dar um perdido no velho aqui e descer aí rapidinho pra explicar a real pra esses caras, só queria ver geral gelar quando me visse aparecer na frente pra tirar satisfação dessa merda toda, não ficava um meu irmão, não ficava um hahaha, duvida?

Meu, passei ai mais de trinta anos pregando amor, fraternidade, respeito, amizade e essa parada toda, aí vocês distorceram tudo, entenderam tudo errado, cagaram com tudo e depois vem falar que eu que disse essas paradas todas? Que tá na bíblia?

Meu irmão, a bíblia nem fui eu que escrevi! Foram aqueles caras que eu ensinei ou que tentei ensinar mas pelo jeito deu ruim porque eles escreveram tudo errado, foda isso meu! Ainda tô tentando convencer meu velho a deixar eu voltar mais uma vez antes dele apertar o botão do foda-se pra ver se com a tecnologia de agora as coisas dão um pouco mais certo ou menos erradas.

Sério meu, esse povo tem nada a ver comigo não, sou de outra praia, tu acha que um cara como eu que fazia pão aparecer do nada, mudava água pra vinho e era todo paz e amor ia reclamar de piada? Reclamo de piada quando ela é ruim parceiro, quando ela não tem graça aí me dá ganas de estalar os dedos e mandar o fulano contar a piada pro Luci, hahaha - cá entre nós já fiz isso mas ninguém pode provar hahaha.

Saco cheio - e olha que pra encher o meu saco precisa hein! - desse povo escroto, por mim mandava todos eles fazer fila na porta do Luci, ele ia ficar puto comigo mas nem aí, se vira meu irmão, não dizem que uma vez no inferno...hahaha

lembranças aleatórias não relacionadas com a infância

Lembrança #10 Lembro de uma festa ou rave ou balada que eu ajudei um amigo a organizar num tipo de sítio eu acho. Estava separado do meu nam...