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14 de abr. de 2020

Deus está morto?

O Deus combalido, fraco e falido acordou de seu sono quase eterno encharcado num suor de galáxias e zonzo de outros universos.

Havia tido um pesadelo horrendo. Ainda incerto de estar realmente acordado ou ainda preso naquele horror onírico, chamou pelos outros Deuses para lhes contar o que sonhara e pedir que lhe interpretassem, dessem algum sentido, ordem ou significado pois mesmo sendo Deus, quando nos domínios do sonho ainda se submetia aos desígnios de divindades muito mais antigas, anteriores e há tempos esquecidas e mortas salvo na mente dos Deuses novos que ficaram em seu lugar sem saber se eram filhos desses Deuses de antes ou Novos Deuses que criaram a tudo que existia.

Cercado já dos outros Deuses, começou a contar-lhes seu pavoroso pesadelo mas antes, perguntou por quanto tempo havia dormido. Os Deuses não sabiam responder ao certo, alguns diziam apenas dias, outros horas, uns diziam que talvez milênios ou milhões de anos mas o consenso era que não se podia dizer já que o tempo para Deuses fluía de forma distinta.

Conformado com tal ignorância, o Deus começou seu relato.

Não se lembrava de como tinha adormecido mas apenas de, sem razão aparente, ter sentido um sono incontrolável e dormido quase que instantaneamente. Deuses dormem ainda que seja um fato muito raro e que deva ocorrer, para colocar em termos humanos, como se uma pessoa dormisse durante todo o decorrer de sua vida apenas duas vezes antes do sono permanente que nem mesmo Deuses podem escapar ainda que para eles, tal sono seja outra coisa.

O Deus lembrou-se de que de início não havia notado nada anormal, Deuses sonham mas são cuidadosos ao sonhar pois às vezes, de seus sonhos podem surgir realidades inesperadas e incontroláveis. Disse que primeiro apenas sonhara, nada fora do comum, sonhos de Deuses são de certa forma parecidos com o humanos, mudam apenas em escala.

Lembrou-se de que tudo parecia correr bem enquanto sonhava até, em certo momento, passou do sonho ao pesadelo onde pessoas eram criadas a sua imagem e habitavam um lugar idílico onde tudo era permitido e concedido e a inocência reinava lado a lado com o conhecimento mas, a criação divina parece não ter ficado satisfeita com aquilo e queria algo chamado liberdade e acabou se rebelando e o Deus, ressentido, expulsou a todos do lugar concedendo a liberdade que almejavam mas advertindo que ela não viria sem um preço.

Dali em diante o pesadelo foi piorando pois as criaturas e o Deus nunca mais se entenderam e pensavam sempre novas formas de ofender um ao outro acarretando guerras, desgraças, fome, doenças, morte, extinções, horrores jamais imaginados e tudo só fazia piorar ainda que, de tempos em tempos, houvesse algum período de distensão como um tipo de fôlego que se toma antes de mergulhar novamente a cabeça na água.

O Deus lembrava-se de que mesmo tendo feito de tudo para ajudar as criaturas, sua relação com elas seguia deteriorando e cada vez mais tanto ele como elas estavam descontentes e sem encontrar uma solução para a relação já desgastada. Havia gente qua ainda tentava fazer com que as duas partes se falassem mas eram arremedos de profetas e enviados e só faziam mais mal do que bem até que, depois de uma doença que dizimou quase todas as criaturas e que não fora do feitio do Deus porque ele, apesar de tudo, amava as criaturas e apenas enviava castigos proporcionais a ofensa que um filho comete a um pai eternamente amoroso; o Deus resolveu que era tempo de encerrar aquele experimento falido e num estalar de dedos dizimou todas as criaturas e foi nesse momento em que acordou.

O Deus terminou seu relato e pediu aos outros Deuses que lhe interpretassem o sonho. Sem saber o que dizer, os Deuses ficaram olhando uns para os outros buscando algum tipo de informação que permitisse responder ao questionamento feito mas sem encontrar.

O Deus ficou impaciente ante a mudez dos Deuses e exigia que lhes dessem uma explicação para aquele sonho inquietante até que, entre os Deuses, um se levantou e aproximando-se do Deus pousou a mão esquerda em seu ombro e disse.

Mas Deus está morto! Nós não somos Deuses mas seus companheiros neste sanatório há anos já! Você morreu faz tempo e nós também morremos há tantos anos que nem mais sabemos contar mas seguimos vivos e sonhando que somos Deuses e que você é Deus porque estamos vivos nas mentes de quem ainda lembra de nós mas, fomos trancafiados aqui porque não somos mais do que lembranças mesmo e ninguém lá fora quer viver delas salvo esses poucos que nos mantém vivos. Nós morremos juntos faz muito já, apenas não fomos enterrados mas trancados vivos aqui para irmos aos poucos definhando até deixarmos de ser...

O Deus olhou para o Deus com olhar perdido e um pequeno fio de saliva correu do canto de sua boca, talvez fosse uma lágrima que incapaz de encontrar caminho pelos olhos acabou saindo por ali e, engolindo em seco disse.

Deus, estamos aqui então? Vamos morrer assim?

Todos acenaram com a cabeça e o Deus então deitou-se, encostou a cabeça no travesseiro e voltou a dormir.

2 de mar. de 2020

Deus não está aqui

Desde que nos separamos de nossos parentes primatas na cadeia evolutiva e adquirimos consciência de que éramos parte atuante do mundo ao nosso redor, buscamos, como espécie, um sentido ou explicação para essa viagem doida que é viver.

Para explicar fenômenos naturais, astronômicos e as mazelas nossas e do mundo, passamos a atribuí-los a entidades superiores que ou nos recompensavam ou castigavam conforme nosso comportamento, fé ou ausência dela, ou apenas porque lhes apraz fazer com que nós, meros mortais, soframos para seu divertimento e lazer. Desse amálgama de crenças e conjuntos de ideias surgiram a grande maioria das religiões atuais e, porque não dizer, com elas boa parte das desgraças e guerras no mundo.

Não questiono a fé que penso ser algo mais etéreo e inerente ao humano independente se a temos numa divindade, divindades, entidades ou seja lá o que for, penso a fé como algo que transcende qualquer conjunto de crenças e delas independe já podemos associá-la a qualquer coisa terrena da mesma forma.

O que me desagrada são as religiões pois foram feitas por homens que, por sua vez, são falhos pois são humanos e assim, as religiões também o são. Acho pouco provável que as escrituras sagradas de qualquer religião tenham sido escritas por algum tipo de divindade, ditados por alguma entidade divina ou coisa que o valha, para mim, são obras ficcionais de qualidade extremamente convincente ou questionável servindo mais como parábolas e simbologias para determinar um conjunto de regras que os crentes devem seguir e os castigos caso não o façam.

Não admira que cada religião tenha dentro de si tantas divisões e sub-divisões já que tais conjuntos de escrituras estão sujeitos a interpretações por seus seguidores, quando um deles ou um grupo deles passa a discordar ou entender de forma diferente o que as escrituras pregam, temos o cisma, a heresia, o protesto e a divisão e daí por diante. Igualmente, não é raro que essas diferentes visões colidam ou tenham arestas o que acaba por causar boa parte das guerras, fomes, perseguições, chacinas, crimes e todo tipo de horror em nome do que cada um entende ser a verdadeira fé.

Não condeno quem segue ou crê em alguma religião, se lhe dá algum alento e conforto, ajuda e entender as vicissitudes da vida e o fardo cotidiano a ser carregado, fico feliz por você mas, quando a religião passa a servir de alicerce para mater, odiar, perseguir, discriminar, ofender, separar, isolar e desmerecer o outro então temos um grave problema e, infelizmente, grande parte senão a maioria das religiões parecem estarem felizes e em paz consigo e seus acólitos apenas quando perpetrando ou disseminando tais atos.

A religião é a droga mais pesada já inventada pelo homem, inventada sim pois como disse mais acima não veio de uma sarça ardente nem de algum ser etéreo que apareceu do nada ou reviveu depois de morto, veio do inconsciente coletivo que necessitava de algum tipo de almofada emocional que permitisse lidar e explicar com as coisas ruins que se passavam e, por osmose, dar graças pelas coisas boas no melhor estilo comportamental.

Somos criaturas alimentadas por estímulos, condicionados desde sempre, fomos adestrados pela tecitura social a saber que, se nos comportamos bem, teremos recompensas, se nos comportamos mau, seremos punidos de acordo e na proporção de nosso erro ou ofensa. A religião trabalha exatamente estes conceitos prometendo o paraíso e vida eterne para aqueles que são bons e o inferno e danação para quem não agir bem, elas embutem a noção de pecado para poluir nossa moral e substituí-la por outra que vai de encontro com as regras da religião lidando com a culpa como moeda de troca, o pecado como salário do medo e a absolvição como recompensa.

Obviamente que não podemos colocar todas as religiões nos mesmo balaio, há exceções mas são casos raros e que acabam pendendo mais para a filosofia do que uma crença em si, podemos dizer então que as religiões em si não são más, apenas os homens que as fizeram mas, se tais homens são falhos então as religiões também o são e então, nas brechas dessas falhas é onde o humano encontra terreno fértil para dar vazão a seu lado mais horrendo.

Por isso eu creio que deus não está aqui, nunca esteve e nunca estará, se você procura deus, o melhor caminho seria olhar para dentro de si mesmo.

lembranças aleatórias não relacionadas com a infância

Lembrança #10 Lembro de uma festa ou rave ou balada que eu ajudei um amigo a organizar num tipo de sítio eu acho. Estava separado do meu nam...