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4 de fev. de 2020

A bixa que se aceita

Ler esta matéria do UOL apenas reforçou a ideia que já alimentava como certa de que ou você tem a lei da passabilidade ou estará fadado ao preconceito.

De certa forma, é irônico para não dizer trágico que o modelo de gay passável para o público hétero seja o gay feminino, travestido, escandaloso, pintoso, poc, ou qualquer outro adjetivo que você decida usar para designar esses gays que são sim parte do universo LGBTQ.

Aliás, nós gays cis somos os primeiros a discriminar esse tipo de gay, não queremos ser amigos deles, ter por perto, estar junto ou ter qualquer tipo de associação, servem quando muito para alívio cômico ou chacota, piada, exemplo de comportamento gay que apenas depõe contra a comunidade como se fossem algum tipo de câncer ou doença infecciosa que precisa ser contida e isso é um assunto que precisamos resolver e rápido se quisermos cobrar de fora o respeito que tanto desejamos.

A bem da verdade, há uma geração nova que está dando a cara a tapa e desconstruindo essas noções e estereótipos tendo como apoio e referência figuras nas artes que empoderam e legitimam tal representação o que é muito, mas muito importante.

Mas, dentro do universo normativo HT cis é lamentável que a figura do gay aceito seja ainda a que descrevi mais acima. Não é a toa que a personagem do filme de maior bilheteria do cinema nacional seja uma caricatura de mulher feita por um gay assim como, conforme a matéria, outros tipos de gays que seguem a mesma apresentação fazem e fizeram sucesso na TV e cinema.

Para o publico normativo cis HT esse é o tipo de gay palatável, que desce fácil, que se reconhece como gay porque agrega toda a carga estereotipada que a sociedade normativa identifica com o homossexual. É o que se espera dele, a bixa louca cabeleireira, a dançarina, a transformista, a exagerada, a caricata, a piada pronta, são os gays que a sociedade HT está preparada para aceitar em seu seio porque cumprem uma função pré-determinada e não tem qualquer traço que ameace a normatividade.

Muito menos são criaturas politizadas, políticas ou que enfrentam dramas próximos do cotidiano de qualquer mortal e, quando o fazem, é dentro de uma concepção definida por motores morais que não são corroborados pela maioria que enxerga em tais dramas apenas uma fraca emulação de conflitos pessoais dignos de nota.

Assim, quando temos em filmes, novelas e outros, gays representados como pessoas reais, que padecem de problemas reais, que tem dilemas reais, sentimentos reais e que demandam respeito e direitos que são reais para a maioria esmagadora dos héteros, esses personagens são ignorados ou mal vistos, rechaçados ante a aproximação periculosa que tem com as pessoas ditas normais.

O gay não pode ser visto como gente porque se for, o outro terá de confrontar sua visão do gay padronizado pelos estereótipos herdados e reforçados e que lhe é bem mais agradável sem controvérsia ou questionamentos sobre a validade de sua luta por direitos inerentes a qualquer pessoa ou direito de existir como seres humanos.

O gay da família é aquele que está lá para fazer rir, fazer troça com o que o pai e a mãe não podem mas ele sim porque é gay e se espera dele que seja engraçado e afetado. Se ele demonstra que possui sentimentos e que pode construir laços afetivos ou que possui sim uma sexualidade e que pode e deve expressá-la livremente, essa mesma família que antes o adorava passará a execrá-lo por estar ameaçando a fábrica do tecido social que julgam serem os patronos.

'Ah! Mas então não pode ter gay afeminado? Não pode ter as femininas?' você pode argumentar. Claro que sim! O problema é que só existem elas na concepção normativa pelas razões que expus acima e todas as gays que estão desconstruindo essa questão mas que não se enquadram no padrão normativo que se espera delas sofrem sim uma carga enorme de preconceito pois estão lutando por algo mais que fazer rir ou servir de piada pronta.

A medida certa desse tipo de preconceito pode ser sentida na situação comum - já vivida por mim e meu marido - que gays cis passam quando recebem a famosa frase 'Mas você nem parece gay..', essa é a pior frase que você pode falar para um gay pois a carga homofóbica que ela carrega é imensa e apenas corrobora o que expus até aqui, que o gay só é aceito e reconhecido como tal quando corresponde à imagem do gay que vive na imaginação social, quando foge disso há uma incapacidade de identificar a pessoa como gay já que ela tem a passabilidade ou seja, parece hétero e assim, não pode ser gay porque gay é daquele jeito que todos imaginam.

Resultado: bug geral, tela azul do Windows.

31 de jan. de 2020

Isso não é um livro LGBTQ

Como disse na postagem de ontem, se não leu está mais abaixo, tenho com outros dois amigos um podcast sobre literatura LGBTQ chamado ORGULHO CAST - não ouviu? Estamos nas principais plataformas, só conferir, vai lá, você ouve uma penca de podcast não vai ouvir o nosso? Nunca te pedi nada...

Bem, num dos episódios, discutimos o livro de uma autora que não vou citar o nome para não dar mais cartaz a essa pessoa mas ela, mulher cis, hétero, religiosa, casada e com filhos, se dá o título de autora de LGBTQ (sic). O livro em questão tinha por título um apelido do nome composto Carlos Eduardo, faça aí a matemática e descubra, não é difícil, qualquer hétero consegue e se quiser saber minha opinião sobre ele, só procurar no Goodreads ou na Amazon onde deixei meu comentário sobre essa 'obra'.

Voltando.

Você pode perguntar mas um hétero não pode escrever sobre LGBTQ? Isso não é preconceito? Bem, vamos falar sobre lugar de fala, chato né? Você já deve estar cansado de tanto ouvir falar disso mas, veja bem, quem tem mais autoridade e propriedade para falar de temas LGBTQ? Uma comparação brusca mas válida: imagine eu branco, gay, cis resolve escrever sobre o racismo estrutural no Brasil, entendeu? Com qual autoridade eu, uma pessoa branca posso falar sobre racismo? Há pessoas bem mais preparadas para falar disso do que eu e elas devem sim ter seu lugar de fala, não eu.

Isso, entretanto, não me desautoriza a participar do debate desde que com o devido bom senso e respeitando esse lugar de fala que pertence ao outro já que é uma realidade que não me pertence, não vivencio ou entendo. Percebe? Então um hétero pode escrever sobre temas LGBTQ? Claro que pode, e deve!

Neste caso estamos falando de literatura e quanto mais gente tratando de temas LGBTQ, melhor o que, guardadas as proporções, vale para quaisquer outros assuntos que afetam a minorias. O que pega mal e fica ruim é quando o hétero resolve escrever LGBTQ e acha que está fazendo um excelente trabalho mas, na verdade, está sugando o filão LGBTQ em benefício próprio sem acrescentar ou prestar algum serviço relevante a comunidade LGBTQ.

Nos caso desta autora, seu livro de LGBTQ tem muito pouco. Ela escreve o que podemos classificar de 'literatura pornográfica' ou HOT se você prefere anglicismos. Seus personagens são o supra sumo do clichê LGBTQ, estereotipados e refletindo um padrão de LGBTQ que a grande mídia e sociedade conseguem identificar com mais facilidade.

São personagens rasas, trama fraca e rocambolesca, sexo gratuito e ela ainda alega que pesquisou a fundo o tema para falar de relacionamentos abusivos e práticas sexuais pouco 'convencionais'. De certo que sua pesquisa foi feita com base na vasta literatura hétero existente pois escreveu um 'romance LGBTQ' com os personagens mais héteros que já vi além de feminilizar o personagem principal dando aos outros um ar misógino e machista ou seja, além de esculachar com LGBTQ ela também deu rasteira no movimento feminista.

O que se passa nesse caso é que esta senhora, travestida do manto de militância e de que está dando visibilidade aos LGBTQs, descobriu um filão de ouro e está faturando alto e não em cima dos LGBTQ que, creiam, parecem ser a minoria que lê seus livros. A grande maioria de seu público são mulheres heterossexuais, sim, isso mesmo, mulheres hétero que veem na luxúria carnal explícita de seus romances altamente erotizados alguns de seus desejos mais recônditos materializados sem ter a carga de culpa que isso acarreta pois os personagens são gays mas, ledo engano, os personagens gays emulam relacionamentos e práticas sexo-afetivas normativas dos héteros, pouco se aprofunda no cerne da questão de relacionamentos LGBTQ ou seja, ela escreve romances héteros onde todos os personagens são gays, simples assim.

Qualquer gay que se diga ou sinta parte da comunidade lerá um livro desses e ficará horrorizado com tamanho desserviço e representações grotescas de relacionamentos e pessoas LGBTQ e a autora ainda se diz militante e que tem muitos leitores LGBTQs e fica toda doída quando GAYS apontam os furos de sua obra como se nós, GAYS, não houvéssemos entendido nada, querida, quem não entendeu nada foi VOCÊ!

Há autores héteros que escrevem sobre temas LGBTQ e com louvor, ser hétero não é um impeditivo para escrever sobre LGBTQ assim como ser gay não é impeditivo para escrever sobre temas héteros. Enquanto escritores, precisamos ter a liberdade de expressar nossa arte como acharmos melhor desde que ao falar de temas que não conhecemos ou onde não temos lugar de fala saibamos fazê-lo de forma correta, humana, sensível e coerente afinal, independente da orientação sexual, estaremos falando de relações humanas, de pessoas, de amor e afeto, coisas que estão muito além de clichês sexuais socialmente impostos e aceitos e de estereótipos perpetuados.

Enquanto autores e autoras como esta ilustre senhôra estão colhendo os louros de serem identificados como LGBTQ, temos autores LGBTQ que estão produzindo literatura de qualidade e fazendo algo realmente relevante pelo movimento e não somente autores e autoras LGBTQ, héteros também ainda que sejam todos pouco conhecidos pois escrevem sobre assuntos que vão além do sexo e do esperado clichê de LGBTQs e muitos leitores não querem isso, querem o fácil, o comum, o esperado, o clichê, o que já entendem, que não lhes causará desconforto ou lhes forçará a pensar em questões que não desejam pensar.

Se você realmente deseja conhecer literatura LGBTQ que está fazendo a diferença, faça um esforço, pesquise ou até mesmo me pergunte que posso lhe indicar alguns autores LGBTQ de qualidade, são autores e autoras que estão batalhando e muito para fazer a diferença e ajudar a comunidade LGBTQ.

Não dê mais dinheiro para hétero oportunista.


lembranças aleatórias não relacionadas com a infância

Lembrança #10 Lembro de uma festa ou rave ou balada que eu ajudei um amigo a organizar num tipo de sítio eu acho. Estava separado do meu nam...