9 de dez. de 2020

ângulos

 


Eu tenho incongruências e dentro delas idiossincrasias, bipolaridades e desfalques pessoais que me fazem correr atrás do roubo para identificar a mim como autor do delito, responsável pela captura ainda que me evada de mim com sucesso digno de filme e, por fim, juiz e executor da sentença. 

Depois fico ali olhando para as barras da cela de mim vendo aquele outro que sou do lado de fora repetir todo o processo até que a cela fique tão lotada de mim que, ao adentrar o último mea culpa, ela simplesmente explode e todos eu ficam livres para perambular novamente pelas alamedas e vielas de mim mesmo (até que o processo todo se repita, preso num loop temporal digno das teorias mais absurdas).

Há um estranhamento constante, um não encaixar, não falta de empatia mas de simpatia e são conceitos muito diferentes, creia-me. Falta-me a segunda diversas vezes e não por alguma patologia mas apenas por não ter realmente dilatação escrotal suficiente para deglutir certos comportamentos, temas, assuntos, atitudes e convenções que a grande maioria assume como normais ou comuns ao bom convívio. Talvez o entendimento de tal quesito seja diametralmente oposto para mim e os demais o que, se não é adequado (aos outros), não me parece ruim (a meus olhos).

Assim, declinei educadamente muitos convites para confraternizar com pessoas recebendo de quem me fez o convite presencialmente, um átimo de olhar e ar surpreso, as entrelinhas perguntavam por que mas o que saiu foi um ‘ahhhh’ disfarçado de decepção e talvez exigência de justificativas já que minha recusa foi lacônica, sem recorrer a grandes elaborações ou figuras de linguagem. Pensando após, ainda cheguei a ponderar se deveria, pelo bem do status quo, ter aceito mas ir de boa vontade a algo como festa temática (Baile no Havaí, trajes floridos compulsórios – quem me conhece já realizou a ojeriza que tal cenário me causou) com pessoas que de mim sabem nada e cujo convívio diário é tão profundo quanto uma poça d’água, me parece algo simulado senão dissimulado de ambas as partes.

Como tenho essas versões de mim, passamos a discutir o assunto ponderando sobre os prós e contras, sim e não e no final nos dividimos em dois grupos distintos: um de consciência social e outro absolutamente avesso a ela. O primeiro grupo diz que deveríamos ir, integrar, enturmar, simpatizar, animar, desfazer a impressão de que somos reclusos e pouco sociáveis enquanto o segundo prega o oposto disso, que não há qualquer ângulo comum possível com essas pessoas, que será um exercício de paciência desnecessário já que são pessoas que representam nada para mim o que, confesso em minha bipolaridade, me assustar afinal são pessoas, como não representam nada?

Façamos então um adendo breve aqui: o fato de serem pessoas representa algo, obviamente! Porém, considerando o conjunto de valores, ideias e conceitos que levo dentro de mim essa representatividade desfaz-se no ar pois não há aderência entre nós, não há eixo comum ou área destacada.Veja, não digo que lhes desgosto, sou avesso ou dedico desafeto, apenas que não há representatividade e assim, não há congruência. Alguns podem retrucar que tal coisa carece de convivência e tempo e que se não existe o movimento de um lado dificilmente se poderá encontrar do outro mas, para que tal movimento existe deve haver uma predisposição inicial que motive a quebra da inércia e, por definição, todos os corpos tendem a permanecer e conservar a suas.

Ser humano pode ser assim cheio de falhas e talvez nem mesmo seja adulto tal comportamento mas certamente é meu, autêntico e maduro o suficiente para a esta que é a parte que me cabe neste latifúndio.

8 de dez. de 2020

para servir e proteger...

 



Creio que todos tenham visto esse caso aqui.

Antes, deixo claro que não estou absolutamente defendendo qualquer comportamento violento ou abusivo da autoridade policial antes apenas encarando a profissão de PM como qualquer outra com seus problemas e dificuldades ante uma conjuntura social complexa e insana que acaba cobrando de todos nós um preço alto demais.

A relação que temos com a polícia é uma relação de amor e ódio, precisamos dela e ao mesmo tempo a execramos, elogiamos quando nos atende bem e ofendemos quando age mal, detestamos precisar dela mas tememos não tê-la por perto e esse tipo de sentimento e comportamento paradoxal vai de um extremo a outro conforme a classe social em que vivemos, brancos classe média tem um tipo de visão e sentimento, brancos classe alta outro e pobres, negros e periféricos outra totalmente diferente e, a grosso modo, seria respectivamente algo assim: os primeiros querem proteção e segurança mas acham que ela exagera e que o problema é estrutural discutindo do alto de seu chão de taco e MPB descolada, os segundos acham que a PM é tipo o novo capitão do mato, feitor, tem de manter os pobres e demais longe e sob controle, sua milícia pessoal sempre disponível a um telefonema para algum deputado ou governante e os últimos, só sabem que ao ver uma viatura existe uma chance grande de presos, agredidos ou mortos.

Essa relação complicada é herança da ditadura, as polícias eram braços da ditadura e, depois da abertura, seguiram impregnadas dos refugos do regime que, se não estão mais aí, deixaram as corporações abastecidas de suas ideias e comportamento que parecem ter sido inscritos em pedra sagrada quando não tem uma relação espúria com o crime e tornando-se algo ainda pior e mais perigoso, as milícias que estão devorando sem medo o RJ e começando a estender seus dedos para outros estados.

Mas não é só isso, uma profissão como PM é um trabalho ingrato além de extremamente perigoso, todos nós quando saímos de casa para trabalhar ou seja o que for, temos uma chance de não voltar vivos afinal, a vida é uma sacola plástica jogada ao vento mas, um policial tem essa chance aumentada de forma exponencial e isso para ganhar um salário que mal paga as contas do mês. Como pedir que essa pessoa entregue sua vida diariamente se ela mal consegue sobreviver dignamente? Da mesa forma que os professores são pouco valorizados e deles se espera muito, fazemos o mesmo com a polícia sendo que eles esperamos que morram para manter a lei e a ordem mesmo quando a lei e ordem parecem algo meio sem sentido.

Temos um perigo alto aqui não apenas por demandarmos que pessoas mal preparadas e mal pagas saiam armadas pelas ruas para zelar pela segurança pública mas por entendermos que seus excessos e truculência são justificados numa sociedade que só entende a linguagem da porrada, o malandro é sempre o outro e ele precisa ser detido e colocado atrás das grades mas, as mensagens que enviamos aos agentes da lei são dúbias, mate mas seja humano, bata mas seja doce, afaste o perigo mas o abrace, seja humano mas agressivo, zele por mim mas não espere que eu zele por você e, se você exagerar ou ultrapassar algum limite, eu vou te condenar mas lá no fundo eu te entendo e apoio, como fazer uma relação dessas funcionar?

Nossa relação com uma corporação que deveria atuar como ajudante de manutenção de algum tipo de tecido social é tóxica, tomamos as partes pelo todo e enxergamos na polícia algo a temer e crucificar porque são bestas fardados que o Estado usa para manter a ordem enquanto outros exaltam que a mesma polícia anda matando pouco e deveria mais é sentar o pau em vagabundo então, como essas pessoas devem se comportar se não está claro o que se espera delas? Sem contar que, socialmente, elas estão lutando para viver de forma digna, não tem estrutura física ou emocional para lidar com trabalho de altos níveis de estresse, tem a sociedade e lhe cobrar coisas distintas, não pode ser feliz em seu trabalho e tem de lidar com o medo da morte, que a todos nós parece algo distante, de forma muito próxima e quase certa?

Esse comportamento do PM da matéria acima não é então surpresa, é sim o normal, o esperado de uma pessoa que não tem claro seu papel na sociedade, não sabe ao certo como desempenhá-lo para contento de todos, não recebe o suficiente para isso, não tem preparo ou amparo para isso e acaba apenas reproduzindo o comportamento que essa mesma sociedade espera que ele tenha apenas para, em seguida, ser condenado por ter apenas correspondido ao que se esperava dele.

Antes de condenar a PM como um tipo de mal maior, deveríamos apontar nossos dedos para nós mesmos porque, se a PM é um monstro fomos nós seus criadores, eles não surgiram do nada e se há truculência, violência, exageros e abusos não é por que eles são sádicos dementes, podem até ser alguns deles que são apenas humanos mas eles refletem apenas o nosso comportamento enquanto sociedade.

7 de dez. de 2020

tic tac tic tac

 


Não precisa ser vidente nem nada para entender que na atual situação, isto vai acontecer.

E não se trata apenas da falta de coordenação e bom senso dos governantes sejam eles municipais, estaduais ou federais sendo esta última esfera a pior vide seu negacionismo e insistência em considerar a pandemia como algo menor e que não precisa de tanto alarde já que admitir o oposto seria ir contra sua base de apoiadores digitais e o capitão jamais vai desdizer algo que disse e passar por covarde ou mentiroso pouco importando quantos cadáveres terá de usar para isso.

Há um descaso generalizado, tanto das autoridades como da sociedade, o medo saiu e entrou a sandice, as festas clandestinas pululam com preços de variam de $500 a mais de $1500 ou seja, apenas os abastados podem ir e podem se dar a luxo de pegar o COVID pois, caso infectados, terão o melhor atendimento e morte que o dinheiro pode comprar mas, não são apenas as festas ricas que proliferam, as festas de rua e para quem não pode pagar pulseirinha de ouro também acontecem sem medo ou freio e quem frequenta essas, não poderá chegar de SUV no Einstein para ficar no apartamento ou UTI de última geração.

Sexta passada, passando pelo centro na volta do trabalho, parecia uma sexta como outra qualquer, sem vírus, sem morte, sem pandemia que não fosse alcoólica. Bares abertos, música alta, e muita, mas muita gente dançando, fumando, bebendo e achando que máscara é coisa só para o carnaval. Geral perdeu o medo, cagou para o vírus e o aumento de casos que está batendo na porta, o comércio e empresariado combalidos não querem nem ouvir falar de lockdown de olho no fim de ano que promete algum tipo de alívio para os prejuízos que já amargam esse ano e a população quer algum tipo de consolo pelo menos no período de festas mesmo que em Janeiro todos tenham de chorar seus mortos e entupir os cemitérios.

A falta de pulso e organização dos governos casada com a falta de bom senso social estão preparando um cenário sombrio para o início de 2021, esse que a gente está torcendo para ser melhor mas, ainda que alguma vacina vença os obstáculos ideológicos de um governo que não pensa, até algum tipo de estrutura ser montada para vacinação em massa, muita gente vai estar a sete palmos pagando pelo desrespeito e despreparo que temos agora.

A pandemia não matou apenas pessoas, matou nosso bom senso, empatia e sentimento de sociedade, rimos da cara dela como quem ri de uma lenda urbana, penas que essa lenda urbana não tem nada de lenda e não gosta de quem ri de sua cara, mata  mesmo, sem dó nem piedade.

Feliz vírus novo!

4 de dez. de 2020

vazio da frente

 


O apartamento da frente fora desocupado há poucos dias, podia ver as paredes de um branco cansado, nuas, os buracos de pregos feito estigmas relembrando quadros mortos ali antes pendurados, a janela agora sem cortinas, selada, revelando o que antes era apenas vislumbrado.

A porta do quarto escancarada mostrando um espelho deixado para trás, provável que não pertencesse aos últimos moradores e nem mesmo aos que antes deles vieram, espelho é coisa que se leva consigo, carrega parte da alma e da soberba humana, coisas que costumeiramente não se abandonam em qualquer lugar. De certo refletia outros tempos e pessoas que impediam os vindos depois de criar algum vínculo com a imagem que tentavam refletir e assim, o deixavam ali como guardião emérito.

A janela do quarto, vista parcialmente, despida de qualquer roupa deixava ver o outro lado do prédio, como se aquele metro quadrado fosse algum tipo de universo paralelo onde se podia existir em algum tipo de vazio. Esta também residia fechada, as do banheiro, pequenas, também e se as da área diminuta de serviço assim fossem, teriam ali dentro ficado trancados um sem fim de frases, risos, choros, suspiros, amores, dissabores, alegrias e tristezas vagando pelos cômodos a esmo, esbarrando uns nos outros esperando obter algum sentido ou resposta que talvez jamais viesse.

Quem sabe futuros moradores poderiam sentir no ar esses resto mortais de conversas e sentimentos passados, atribuir ao mofo e assentar residência ali sem saber de tudo que ali já fora proferido e feito. As paredes poderiam ganhar um branco mais alvo, os buracos de pregos novos moradores e aquele bando de frases soltas enclausuradas novas bocas por onde pudessem entrar e aguardar bem quietinhos o momento de voltarem ao mundo fosse para agradar ou causar estrago.

Pensou mesmo que houvesse algum tipo de má-fé embutida na moradia já que lhe parecia que os que ali tentavam fixar residência tinham uma permanência extremamente efêmera mas, se há esse tipo de coisa, cria mais que fosse fruto da ação humana pura e estúpida que devido a poderes sobrenaturais, os espíritos deveriam ter coisas mais importantes e agradáveis a fazer que perturbar os vivos já que deles prescindiam, haviam livrado-se deste incômodo, podiam vagar pelo universo, não careciam amaldiçoar os vivos que o faziam muito bem por si mesmos.

Suspirou, profundamente. Pensou se um dia ali onde residia seria uma réplica do apartamento vazio em frente, sabia que esse dia chegaria e o aceitaria calma e docemente ainda que apegado a um certo sentimento de posse mas, sabia que o corpo que usava, assim como o imóvel, eram apenas arrendamentos com ilusão de posse, chegada a hora, passariam a outros que necessitavam mais deles, era assim a coisa toda.

Desejou intimamente sorte a quem quer que fosse o novo morador do apartamento vazio, fosse o dele ou aquele à sua frente e foi lá cuidar de sua vida emprestada.

Era o que podia fazer.

3 de dez. de 2020

sete dias

 



SEGUNDA-FEIRA


É saudade então, algo que já vi e não vejo mais ou um desejo inerte que desperta ao toque ou sussurro de alguma palavra mágica, ánima que faltou quando da concepção, talvez seja isso a busca pelo amor. Quando fecundados, algo se perde na fusão dos gametas e, saídos do ventre, passamos o resto de nossos dias a buscar esse complemento que nos falta.


Acho que você buscava o mesmo ou os olhares não haveriam de cair em traição e posto a nós em situação de desconforto agradável. Depois de cruzados, o caminho já ia sem volta e do olhar passamos a palavra e pequenos gestos que denotavam um sentimento mútuo embrionário.


A criação demanda tempo mas desse bem, os que gostam parecem dispor com bem lhes parece ainda que, incoscientemente, saibam seguir seu ritmo e direção únicos.


TERÇA-FEIRA


O que demanda o sentimento, o desejo prescinde. A carne deve ser provada até os ossos, como se apenas neles residisse a essência, o gosto. O afã do início rouba de nós o prazer da degustação, quando finalmente resolvemos deixar o paladar banquetear-se, o sumo do gosto já foi sorvido e ainda que a carne seja saborosa, seu suco primordial já se foi e passamos apenas a mastigar o mesmo naco até dele sorver a última gota de suco.


Todavia, é um processo prazeroso esse e nos entregamos a ele com afinco afinal nossas carnes eram tenras e novas, havia muito que saborear e pouco que refugar. Durante as refeições eu, você ou nós deixamos escapar algo que não estava no cardápio ou deveria ser a sobremesa o que adoçou ainda mais as bocas e nos fez pensar nos dias que viriam trazendo apenas mais sabores.


QUARTA-FEIRA


A metade é um lugar inóspito, inspira cuidado pois é invariavelmente o ponto de onde se decide ir adiante ou retornar de forma segura. Tal decisão deveria ser tomada de forma cuidadosa e pensada mas, costumamos fazê-lo de julgamento impreciso, infestado de emoções inebriantes e promessas de que tudo sempre será melhor no dia seguinte, na próxima esquina, ao virar a página.


Ainda que os presságios sejam animadores, deveria haver algum tipo de regra que forçasse a todos, chegando em tal estágio, pesar bem o que fazer em seguida e tomar uma decisão proveitosa a ambos mesmo às custas da desgraça de uma das partes.


Infelizmente, isso não ocorre, sentir é tomar decisões assim, se fosse o oposto o mundo viveria em paz e os casais estariam juntos para sempre ou cada um vivendo tranquilamente uma existência única, pacífica e plena de si mesmo.


Tomamos as mãos um do outro e mandando às favas qualquer sinal ou sugestão de bom senso, seguimos em frente deixando para trás qualquer possibilidade de fazer a volta. Isso é amor, se fosse o contrário não o seria ou estamos todos cegos e carentes ante a hipótese de seguir sozinhos um caminho tão longo.


QUINTA-FEIRA


Depois de um tempo, até o inominável ganha nome, é do humano nomear as coisas e isso feito, passa-se a criar um laço afetivo com o nomeado e a partir desse momento, ele começa a fenecer.


Talvez deixar as coisas sem nome fosse uma alternativa mais honesta e que nos permitiria uma vida menos atribulada mas, não somos assim e seguimos dando nomes a tudo que vemos pela frente. Demos os nomes ao que sentíamos e isso nos encheu de orgulho, talvez isso seja a causa da morte de muitos ou seja apenas o cansaço.


Registramos em cartório, reconhecemos firma e voltamos para casa satisfeitos.


SEXTA-FEIRA


A antecipação é uma antessala cheia de gente onde ninguém é chamado pela ordem de chegada, senha ou nome. Ficamos todos ali esperando, os pés tremendo nervosamente, as pernas abrindo e fechando e os dedos tamborilando sobre as coxas.


A questão é que antecipamos algo que já sabemos, conhecemos e sabemos certo mas fingimos não saber, feito uma surpresa ao contrário. A felicidade tem um valor, é certo, problema é estipular o preço, essa conta fecha pouquíssimas vezes pois a matemática que usamos nunca é mesma.


Se eu quero multiplicar, você divide, se quero somar, você quer subtrair, se quero chegar a raiz quadrada, você faz cara de pi e assim vamos.


SÁBADO


No sétimo dia descansamos, exaustos um do outro.


DOMINGO


Fui a missa bem cedo, você estava lá também mas sentado do lado oposto ao meu.


A homilia seguia seu curso, cada um ali fermentando seus pecados e arrependimentos, olhando para as imagens de ar sofredor buscando algum alento, as palavras proferidas eram apenas mais uma chibatada em lombos já em carne viva, deveriam servir redenção mas só havia mesmo penitência.


Estava ali para prestar meus tributos ao falecido, não esperava que voltasse dos mortos feito o Nazareno mas, achei de bom tom ao menos encomendar uma missa em seu nome já que me fora tão importante durante tanto tempo.


De soslaio olhava para você, quem sabe não viera fazer o mesmo, vi o tempo que marcar bem cada minuto nosso em suas faces e não apenas nas minhas, suspirei fundo olhando para as pinturas nas paredes e cruzei olhos com aquele santo das causas perdidas ou impossíveis, não lhe pedi nada porque já havia passado e muito o tempo de lhe fazer pedidos, era momento de aceitar e purgar e deixar ao altíssimo qualquer possibilidade de julgamento.


No momento em que os falecidos eram citados em solene homenagem, abaixei a cabeça, arrisquei um olhar em sua direção e acho que vi algo úmido em seu rosto mas não sei ao certo, me contive em relembrar os mortos e desejar que estivessem em lugar melhor, cabe aos vivos apenas isso e tocar a vida até o momento de ir com eles ter e saber se lhes fizemos justiça ou vergonha.


Acabada a missa, saí de fininho, queria deixar aquele lugar o quanto antes e antes de você mas, acho que as entidades superiores fazem graça conosco e a aglomeração à saída me deteve o suficiente para que logo no umbral nos deparássemos um ante o outro.


Acho que vi as imagens virarem seus rostos nesse momento em tensão, não sei, Trocamos olhares velhos, cansados e sentidos, velávamos o mesmo corpo e agora era tempo de deixá-lo cumprir seu ritual de passagem.


Esprememos cada um nossos lábios num esgar de sorriso de compreensão mútua ou resignação e saímos dali para a vida que seguia seu curso normalmente do lado de fora.




2 de dez. de 2020

as coisas embaixo da mesa

 



Dia desses lembrei de algo da infância, nem sei porque, apenas veio do nada, assalto de lembrança aleatória que acomete qualquer um de nós de tempos em tempos, a vida vai se embrenhando na gente de um jeito engraçado, vai cravando lembranças e memórias que nem parecem nossas mas de outras pessoas, quando acessamos, soam como algo distante, quase irreal e sem sentido mas então, aqui e ali disparam mecanismos que fazem uma associação súbita e sabemos que são lembranças nossas ou algo muito próximo disso.

Na casa dos meus pais havia uma sala de jantar, nem sei porque já que seu uso era algo mais raro do que passagem de cometa, sei que a sala que era de jantar depois virou de estar, acho que eles entenderam que ali não haveriam grandes jantares ou almoços, talvez fosse um desejo de ambos, ou apenas de um deles, aquele tipo de coisa que precisa uma casa precisa ter para ser chamada de casa, um símbolo de status, algo como 'chegamos lá', eram móveis de madeira, maciços, entalhados, rococó, a mesa de seis lugares, um guarda-louças logo atrás de madeira preta e portas vazadas guardados por cortinas de tecido azul imperscrutáveis guardando heranças que nem sei onde foram parar, um aparador ou seja lá que nome leva onde eu passei a guardar meus discos de vinil e onde, ao centro, duas portas de vidro zelavam por bibelôs e pequenos animais de vidro.

Debaixo dessa mesa que raramente era usada, eu costumava brincar, fechava todas as cadeiras o mais próximo da mesa quanto possível e fazia dali comando de naves, submarinos e aviões, também colocava carrinhos, de metal que se chamavam Matchbox e vinham em caixas de papelão, pré-hot wheels, em pequenas reentrâncias que haviam por debaixo da mesa e gostava de 'esquecê-los' por lá para, tempos depois, quando voltava a me trancar naquele espaço, reencontrá-los como se fossem relíquias sagradas há muito perdidas. 

Lembro que algumas vezes eu apenas ficava ali, embaixo da mesa, as cadeiras como algum tipo de portão ou muralha e eu quieto, apenas ouvindo os sons que vinham da casa, os passos pelo carpete, os ruídos que vinham da rua e uma sensação estranha e engraçada de me perder e me achar como se eu fosse um outro de mim dentro outro de mim em mim mesmo, um certo formigamento pelo corpo e no rosto enquanto meus olhos semifechados deixavam apenas o essencial de luz entrar para criar uma noção de espaço e tempo que não era ali nem outro lugar.

Depois de crescido, nunca mais entrei debaixo da mesa até o dia que ela foi embora, não sei direito para onde ou para quem, ela apenas foi assim como o armário impávido com suas cortinas azuis de tecido e seu conteúdo de tesouros inacessíveis e o aparador cheio de badulaques de vidro e pequenos animais que mais pareciam cansaços feitos pelo tempo.

Não sei porque lembrei disso, apenas lembrei e esse post é apenas sobre isso, sobre essa lembrança, nada mais.   

1 de dez. de 2020

atestado

 


Antes de tudo, quero deixar claro que distúrbios emocionais, psicológicos, psiquiátricos ou afins são assunto sério e precisam de tratamento profissional qualificado, acompanhamento e medicação. Se você suspeita que sofre de algum desses distúrbios, procure ajuda profissional e tratamento, não se acanhe!

Bem, acho que todos viram o caso desta moça na padaria, não? Triste, horrendo mas nada que não seja normal e comum no Brasil Bolsonarista. Logo após o ataque, a 'advogada' (aspas amplas porque a OAB desconhece a rábula, deve ter comprado o diploma ou, em seus delírios, é formada e pode advogar) veio pedir desculpas, meter atestado, sofre de bipolaridade, transtornos emocionais e que a vítima foi ela e não as pessoas que ela xingou, humilhou, ofendeu e agrediu na padaria.

Vamos por partes.

Se ela realmente sofre de algum tipo de distúrbio psiquiátrico ou psicológico a primeira questão é se ela está ou não em tratamento, se faz ou não uso de medicação e se, na ocasião, havia feito uso de álcool ou outras substâncias que poderiam ter atuado com a medicação e causado o comportamento agressivo. Se ela realmente sofre de algum tipo de transtorno, jamais poderia sair desacompanhada ou talvez nem mesmo sair de casa quanto mais consumir qualquer tipo de substância que pudesse causar um surto. Pelo que se pode ver no vídeo, ela não parece ter vindo de casa ou do trabalho mas indo ou voltando de alguma festa ou balada e, volto a dizer, como uma pessoa assim pode andar ou sair sem supervisão e consumir substâncias que podem potencializar efeitos de remédios pesados que devem ser tomados por pessoas que sofrem desse tipo de distúrbio? Se ela realmente sofre dessas doenças há um atenuante mas não se pode relevar o fato ocorrido e deveríamos ouvir as pessoas que são responsáveis por ela já que ela não pode ser responsável por si.

Isso posto, ainda eu sua condição possa ser algum tipo de atenuante não a exime de culpa pois seu comportamento, atitude e falas registradas em vídeo deixam claro que ela, ainda que em surtada, estava totalmente coerente e apenas livre das travas morais e sociais que a impediriam de fazer tal coisa em condições normais ainda que, nos dias de hoje com um governo que passa carta branca para esse tipo de horror, as pessoas sentem-se muito à vontade para proferir ofensas raciais, sociais, de orientação sexual ou gênero sem qualquer constrangimento ou seja, ela pode até ser doente mas não é louca e, em surto, deixou clara sua personalidade e modo de pensar.

Os cidadão do bem surtados tem esse tipo de comportamento comum, podem notar, sempre fazem das duas e depois metem o atestado de distúrbios e doenças emocionais e mentais e tentam virar o jogo para saírem como vítimas da situação e não como criminosos pelo simples fato de que dentro de sua lógica distorcida por toneladas de medicamentos e voto 17 eles realmente estão sendo perseguidos por não poderem ofender as bixas, as pessoas trans, pretas e toda e qualquer pessoa que não se encaixe no mundo binário e centrado que enxergam.

Eles desejam a liberdade de dizer o que quiserem sem o ônus de arcar com as consequências e aí, pagam de doidos, veja só! Em suas mentes, o que fazem não é ofensa e quando retrucamos e revidamos estamos tolhendo sua liberdade de expressão que na verdade não está sendo posta em cheque, apenas recebendo a reação contrária na proporção de seu ato horrendo, hão de entender de que para toda ação há uma reação na mesma força e medida e estavam acostumados a não serem questionados.

Não adianta vir de atestado, vocês podem até serem doentes e usaram medicamentos, hoje em dia quem não usa mas, não venham usar disso como muleta para seu comportamento escroto e lixo, isso não cabe mais no mundo e vocês não conseguirão mais virar o jogo e sair impunes, esse tempo acabou! Vocês podem se esconder atrás de seus atestados e laudos, de suas doenças e desculpas mas nunca mais conseguirão se safar da culpa por seus atos, vocês acham que podem usar de subterfúgios para isso mas não, não vão conseguir mais porque a gente deste lado aqui já sacou seu jogo e ninguém aqui vai mais baixar a cabeça e passar pano para vocês.

Podem se entupir de remédios e jogar todos seus atestados, nada vai colar quando a gente sabe o jogo de vocês e não vai mais engolir essas mentiras que vocês adoram contar porque não tem estrutura nem coragem para assumir que são sim racistas, machistas, homofóbicos e querem nos ver mortos.

Pode vir de atestado que a gente vem de perícia.

lembranças aleatórias não relacionadas com a infância

Lembrança #10 Lembro de uma festa ou rave ou balada que eu ajudei um amigo a organizar num tipo de sítio eu acho. Estava separado do meu nam...