18 de mar. de 2021

atrasado







Estava atrasado, sabia, que ninguém desse pelo seu atraso. Possível que todos já estivessem por lá, seria ele o único a chegar depois? Não poderia ser, muito azar se fosse, com certeza algum dos outros também estaria atrasado, poderiam chegar juntos e isso diminuiria seu nervosismo e vergonha de ser, talvez, o único atrasado.

Dobrou uma rua, depois outra, mais outra e viu que estava perdido, em seu nervosismo errara o caminho. Voltou por onde veio e refez o trajeto, notou onde se equivocara e dessa vez, dobrou a rua certa. Andou por mais alguns metros, a noite já ia caindo morna, quase com preguiça em render o dia.

Qual era a casa mesmo? Deveria ter anotado, não podia ter confiado em sua memória, essa mania de segredo lhe deixava confuso e um tanto enraivecido, estava na rua certa, seria a quarta casa? Não, a sexta, ou seria a oitava? Não queria bater de porta em porta, era a sexta com certeza, bateu na porta, não houve resposta, bateu novamente, não houve resposta, ou estavam lá dentro rindo de sua situação ou estava na casa errada. Empurrou a porta mas ela não cedeu, sentiu a mão no ombro e cubos de gelo se formando em suas veias, num salto, virou-se.

Está perdido? Perguntou um homem de aparência suspeita ou talvez essa aparência fosse a dele não do homem, quem seria suspeito?

Um pouco... disse ele, o suor lhe escorria pela face como um rio.

É ali, disse o outro apontando para algum lugar mais à frente. Ele, em seu nervosismo, não atinava para onde o outro apontava e fez forçar a vista.

Ali, apontou o outro, naquela casa com a porta meio torta, está vendo? É ali!

Desculpe! Disse ele. Ali onde? O que? Como sabe onde vou? Perguntou assustado, estava atrasado, sabia, mas não era possível que aquela pessoa soubesse disso ou para onde ele ia.

Antes de você, disse o outro, tinha mais gente aqui meio perdida, todos entraram naquela casa ali e todos estavam vestidos igual a você. Aqui todas as casas se parecem, é fácil de se perder se não conhecer bem.

Suas mãos suavam, seus pés tremiam e suas pernas já falhavam em sustentar o corpo, outros? Então ele era o único atrasado? Não! Pode ser que ainda falte alguém chegar, talvez seu interlocutor soubesse quantas pessoas haviam entrado na casa mas, qual propósito de ficar ali apontando a casa para outras pessoas?

Outros? Perguntou.

Sim, outros. Eu estava aqui cuidando das minhas coisas e os vi aqui plantados feito moscas, não sabiam onde estavam, apontei a casa e todos foram para lá. Disse e apontou de novo para a casa.

E como sabe que iam para lá? Como sabe que eu vou para lá? Não lhe disse nada, posso estar indo a outro lugar, porque não? Perguntou agressivo, o medo já lhe tomava os músculos e nervos.

Ora, disse o outro, foi um entra e sai o dia todo ali naquela casa, comida e bebida e sabe, a gente mora aqui, a gente vê, não sou de ficar me metendo mas, se posso ajudar alguém, eu ajudo. Vi essas pessoas e certamente não eram daqui, estavam perdidas e naquela casa, faz tempo que não vive ninguém, só podiam estar indo lá. Concluiu.

Estava atrasado, sabia, será que os outros leriam em sua face o medo e o nervosismo? Será que os outros haviam perguntado por ele para aquele homem? De certo que lhe teriam dito seu nome, já saberiam que seu atraso não fora por acaso, poderia voltar, encerrar aquela conversa ali mas e depois? Como faria para dar conta da sua parte do acordo que havia fechado? Seria preciso sumir e para ele, isso não seria fácil, não depois de ter andado com todos os outros para cima e para baixo naquela missão descabida.

Sabe quantas pessoas? Perguntou, na verdade sua boca o fez, sua mente não teve tempo de ponderar sobre a validade ou aplicação daquela questão.

Isso eu não sei, respondeu o outro, eu mesmo só indiquei a casa para umas quatro pessoas, eu acho mas, e levantou os olhos como a fazer um cálculo, vi aí passar mais umas gentes indo para lá.

Mais umas gentes! Bem, se ele havia indicado a casa a quatro, então ainda restavam oito com ele não contando, claro, o rabino que ou já estaria lá ou estava a caminho. Contemos então que já há quatro pessoas na casa ao menos, cinco se o rabino já está lá então, contando com ele ainda faltariam mesmo oito.

Estava atrasado, sabia disso, se quatro já estavam lá e ele chegasse naquele momento, os que viessem depois seriam os atrasados, não? A que horas haviam marcado? Não lembrava bem, ao cair da noite? Mas a noite tardava tanto a cair naquele dia e, além disso, o que significa cair da noite, pode ser quando já não há mais evidência de luz do dia? Ou quando ainda restam alguns vestígios do dia feito pequenas velas acesas no horizonte?

Se ele talvez esperasse um pouco, quem sabe? Poderia dar mais uma volta, retornar àquele ponto e perguntar a seu interlocutor, contando que ele ainda estivesse ali prestativo para ajudar almas perdidas como a sua, se outros haviam passado por ali e entrado na casa.

Bem, disse o outro, o amigo me dê licença que preciso entrar, já cai a noite e, por essas bandas, ficar aqui fora sem necessidade não é lá muito bom. Fez uma mesura com a cabeça tão rápido como aparecera, sumiu.

Estava atrasado, e sozinho. E se aquele estranho fosse um enviado para garantir que ele iria cumprir com o acordo? E ele havia se retirado dizendo que a noite já ia caindo então, era hora? Iria aguardar ali mais alguns minutos, quem sabe um dos outros passasse e ele poderia então chegar junto com ele, juntos não seria tão ruim, atrasado e sozinho era muito pior.

Sim, iria esperar, ficaria ali pelo menos mais alguns minutos, certamente um dos outros logo passaria, tão afobado quanto ele, tão nervoso, não, ele estava mais, o que o atrasava não era o tempo mas a angústia de saber o feito que tinha pela frente.

Os outros, saberiam? Suspeitavam? O rabino de certo, esse ninguém enganava, o homem era esperto mas os outros, talvez aquele metido que só acreditava nas coisas que podia ver ou pegar. E o outro que não saia das barbas do rabino? Aquele sim devia saber de algo mas, talvez não, talvez não soubessem e ele precisava apenas não estar atrasado, chegar, entrar, fazer sua parte e depois cumprir com o acordo.

Seus dedos tremiam e tamborilavam em suas coxas, ninguém mais passara e agora, a noite já não mais caía, já havia se derramado por completo. Estava atrasado, sabia, desistiu de esperar e resolveu ir.

A passos lentos foi se aproximando da casa que o outro lhe havia indicado, a porta era realmente meio torta, de certo que para abrir teria de haver uso de força, como ela, ela estava fora dos caixilhos.

Parou na frente da casa, ergueu a mão e, antes que a pusesse a bater na porta, relutou, a mão planando no ar a poucos milímetros da porta, pensou em desistir, em voltar, em mentir, em inventar algo. Pensou em correr, em perder-se no mundo, mudar seu nome e sua aparência, talvez casar e ter filho em outro país ou cidade, poderia ser apenas mais um e não um naquele grupo aliás, nem sabia porque estava com eles, até soubera um dia mas depois, isso se perdeu entre dúvidas e dilemas que sermões não conseguiram dissipar.

Já estava recolhendo a mão, decidido a ir-se quando, de súbito, a porta rangeu alto e abriu, sua mão no alto fechada ficou estática, seus olhos abertos como janelas estavam gelados e sua boca, num esgar, lhe traiu com um silêncio inoportuno.

Do outro lado veio apenas uma frase.

Judas! Você está atrasado, todos já estão aqui e o rabino perguntava de você, entre!


17 de mar. de 2021

pálio ponto azul

Acho graça você que faz muxoxo e posta linhas e mais linhas (pobremente escritas, diga-se de passagem) carentes de argumentação e lotadas de um ódio figadal sem direcionamento certo ou razão de existir. Eu não tenho ódio, apenas um leve descontentamento e acho que bem embasado e argumentado o qual você pode discordar, lhe é direito mas sei que você vai simplesmente atacar com seus argumentos frouxos.

Você pode achar que os direitos para os homossexuais são uma balela, que tem coisa mais importante do que tornar homofobia um crime (hediondo deveria ser junto com todos os demais preconceitos e inafiançável) e que enquanto um ou mais gays por dia morrem, falta água na cidade, policiais são mortos no cumprimento do dever, trabalhadores são vítimas de badernas e protestos (fato, tem uns lá apenas querendo ver a coisa pegar fogo o que não seria má ideia), a família vai pra casa do caralho, a política é só ladroagem, as ciclofaixas são uma aberração, os corredores de ônibus são uma afronta a quem tem carro e por aí vai.

Talvez você concorde com um 'religioso' (aspas amplas, bem amplas) que sugeriu a sério ou na pilhéria para ter seus quinze minutinhos de direito, mandar todos os gays para uma ilha no melhor estilo nazi ou, sendo mais generoso 'Fuga de Nova Iorque'. Sim porque banir as bichas do convicio social vai certamente fazer chover cântaros no Sistema Cantareira, vai fazer a polícia morrer menos e trabalhar melhor, vai encerrar todos os protestos, o trânsito vai melhorar, a família vai se fortalecer e ficar a salvo dessas aberrações, a política vai virar coisa séria, os donos de autos vão poder circular livremente pela cidade sem engarrafamentos e o transporte público será tratado como tal e não como privado.

Melhor, vamos incluir nessa lista também os afrodescendentes afinal, eu sei que você sussurra 'negro...' ao cruzar com um deles, não precisa se envergonhar, eu sei! E que tal se incluíssemos os nordestinos e afins pois eles também colaboram para tudo isso aí que você reclama, não? E porque não as putas, melhor não ou quem vai desafogar as mágoas da família brasileira? E as travestis, vamos mandá-las também ou seria melhor também deixá-las por aqui já que boa parte delas também ajuda quando a terapia que você precisa e não faz o leva a procurá-las para resolver suas taras mais recônditas? E vamos por aí também na conta pessoas trans que são verdadeiras aberrações corroendo a moral e os costumes e convenções sociais, enfim vamos mandar para uma ilha bem grande toda essa escória que mancha o nome da sociedade nacional! Isso feito, tudo irá certamente melhorar!

Não, meu tosco amigo(a), sinto dizer que não irá e pelo simples fato de que dar esses famigerados direitos a todas essas pessoas que você chama de minoria não é nada mais e nada menos do que um princípio básico de humanidade e, acima de tudo, respeito e educação e se você entende de fato que isso é uma besteira e que deveria ser deixado de lado então, para elucidar o mistério de quem é o culpado por estarmos na situação em que estamos, sugiro dirigir-se ao espelho mais próximo e dar uma longa e boa olhada nele pois é lá que encontrará o responsável pela miséria do presente e, tristemente, do futuro.

Cheguei a conclusão de que o mundo seria um local imensamente melhor se ao invés de religião e outras banalidades se ensinasse na escola como parte do currículo a série 'Cosmos' de Carl Sagan (tanto a original como a nova). Certamente teríamos uma geração de pessoas mais esclarecidas, menos preocupadas com a vida alheia e cegas por convicções obscuras e nefastas.

Se não for lhe doer muito o que lhe resta de cérebro, abaixo um breve quitute, quem sabe ele não abra alguma parte de sua mente ainda não comprometida e corroída pelas ideias erradas que lá se plantaram e, no futuro não muito distante, não possamos argumentar sobre as coisas de uma forma mais humana e menos bestializada.




16 de mar. de 2021

enfia a máscara

 



Tenho feito o possível e impossível para seguir as regras de distanciamento social, nem sempre é fácil, estamos nessa há um ano já e não vejo perspectiva de melhora a médio prazo ainda mais com um governo que faz de tudo para jogar contra, aposta no caos e morte e torce para o pior.

O que mais me espanta é a falta de consciência de muitos, basta sair na rua para ver que esse novo lockdown foi muito mais down do que lock vide a quantidade de pessoas e carros nas ruas e, pasmem, de gente sem máscara caminhando como a pandemia fossem algo de outro mundo e totalmente distante de sua realidade.

Não é cansaço, eu até entenderia se fosse ainda mais pessoas que mesmo com mais dois mil mortos por dia, precisam seguir trabalhando diariamente, pegando transporte público lotado e colocando não apenas suas vidas mas de todos em risco simplesmente por não terem opção. Se tem algo que a pandemia escancarou ainda mais foi a desigualdade social, clichê eu sei, mas foi, as camadas que todo dia estão pegando conduções cheias são as que estão mantendo o home office das outras eu incluso, pouco importa se para que possa ter minha internet e almoço alguém tenha de trabalhar virado ou pegar quatro ou cinco conduções desde que as coisas sigam funcionando ou seja, a pandemia mata todos mas achamos que não, que ela trata as pessoas conforme sua classe social e privilégios.

Voltando, entenderia se fosse uma questão de puro cansaço pois eu estou exausto, todos estamos mas, não é o caso, as pessoas estão simplesmente se lixando umas com as outras e principalmente os jovens que, dentro de seu complexo de meta-humanos, se acham intocáveis e são, agora, a refeição principal do vírus. Não posso atestar sobre outros países mas aqui, a noção de bem estar comum se existia, deu adeus no final do ano passado e hoje, estão todos cagando para as normas de isolamento e máscara virou artigo ridículo.

Sei que é fácil falar de isolamento e medidas duras quando minha geladeira está cheia, estou empregado e posso me dar ao luxo de trabalhar de casa, assim fica fácil e eu sei disso mas, não resolve adotar o discurso negacionista e mandar tudo as favas em nome do capital porque o preço a pagar é alto demais. Se há um culpado em tudo isso é o governo que deveria garantir, em tempos como estes, um mínimo de estabilidade e garantias não apenas para o cidadão mas para que vive do seu negócio e precisa dele para sobreviver, de certo modo, Bolsonaro tem razão quando fala que não dá para deixar a economia de lado mas também não faz nada para resguardar quem move a economia e quem depende dela fazendo um jogo de gato e rato político com seus desafetos numa aposta macabra para ver quem vai ganhar no final.

Se tivéssemos governantes sérios, teríamos medidas efetivas de combate a pandemia e de amparo e fomento da economia até que tudo isso passe afinal, é para isso que pagamos todos os impostos e votamos, não para termos crianças mandando a gente enfiar coisas no rabo enquanto o pai acha graça.

O mais triste é constatar que as pessoas começam a adotar cada vez mais o discurso presidencial como verdade fazendo pouco caso das mortes e leitos hospitalares cheios e colapsados, adotaram o discurso de guerra esquecendo que nessa guerra não há como ter vencedor, estamos todos lutando uns contra os outros enquanto o vírus vai ganhando de todos nós fácil.

O COVID vai passar, tenho certeza, o vírus que foi eleito, já não tenho tanta certeza...

15 de mar. de 2021

no país do mito quem tem vacina é quem?

 


Há uma regra explicita de morte e vida se vira nos trinta Brasil que o governo atual do Messias segue trabalhando para implementar, terra arrasada, parece que o Mito quer governar para defuntos pois defuntos não reclamam, não questionam, não reclamam, não fazem nada senão estarem mortos.

Messias não vai ressuscitar esses, não veio dessa vez para isso mas para matar geral munido de um vírus e grupos de whatsapp telegram e twitter raivoso babando todo dia seu desamor pela condição humana afinal, é o que ele mais detesta, humano para ele só seus filhos e eleitos, o resto precisa perecer para formar a base, o húmus que germinará o novo país.

Na terra perdida de verde e amarelo luto, seguimos reféns do gêniocida que morde e assopra para mostrar que é paipatrão e que está aqui para por ordem na casa e que para isso, bem, é preciso quebrar alguns mortos, não dá para fazer uma nova ordem sem matar alguns milhares, basta olhar para trás que temos exemplos claros disso.

Então pouco importa se vai ter vacina para todos porque o ideal é que não tenha mesmo assim vai sobrar só o povo eleito de arminha na mão, berrando que ele tema razão e que a democracia é a cracia do demo e não de deus acima de todos e da pátria amarga brazil, olha ali o governador loquidaun calça apertada e o STF que joga contra o povo!

Pega fogo o cabaré fascista mas não por dentro, por fora que lá dentro segue frio e com mansões de milhões isoladas do vírus e dos pobres e quem não tem crachá não entra porque não basta fazer araminha, tem de fazer alminha com todos os mortos que a pandemia de mentira criada pelos chineses safados exportou para o mundo com o intuito de dominação mundial, aqui não que aqui capitão atleta gripezinha não vai dar esse mole, aqui é máscara no rabo irmão e aqui tem vacina de macho não de fraco que não quer enfrentar o mundo porque gente, todos morrem e se pra uns viverem bem é preciso morrer mais da metade, que seja!

Messias que se preza salva seu rebanho.

lembranças aleatórias não relacionadas com a infância

Lembrança #10 Lembro de uma festa ou rave ou balada que eu ajudei um amigo a organizar num tipo de sítio eu acho. Estava separado do meu nam...